Por incrível que pareça e não
obstante terem já passado mais de 50 anos, continuo nos dias de hoje
periodicamente sonhando com tão difíceis dias vividos na Guerra Colonial entre
1967 e 1969, para além das lembranças que continuamente me afloram o espírito
e foi assim que recentemente dei comigo a recordar os excessos de violência –
bastas vezes gratuita e desnecessária, diga-se… - em casos de que tive
conhecimento na hora, como o de uma “matança” gratuita (tenho mesmo um
magnífico texto cedido por um amigo e camarada que a acompanhou dando-me a
oportunidade de o publicar, coisa a que me recuso por o achar demasiado
violento e mesmo sangrento…) e, noutros – ou mais correctamente, noutro – em
que participei obrigado pelo meu superior. Na verdade, também eu fiz parte do
grupo dos que estupidamente exerceram violência excessiva e desnecessária, se
bem que, neste meu caso, bem fizesse ver ao alferes comandante das nossas
forças que estava a lavrar num tremendo e desnecessário erro…
Aconteceu no distante e
inóspito leste angolano. Coisa aí por volta de Abril de 1968.

Com meu pelotão, num total de
aproximado de vinte e poucos homens, estávamos adidos (“hospedados”) nas
instalações de uma Companhia do nosso Batalhão que não a nossa (localizada a
mais 100 kms da nossa zona de acção) comandada por um Capitão, velho e
experimentado cabo de guerra a cumprir a sua 2ª Comissão e que, não obstante a
maquinaria que protegíamos no arranjo da picada operasse perto das suas
instalações, sabedor e astuto como era, tratou de junto do Comando do Batalhão
preservar o seu pessoal e “empurrar” eu e outros infelizes que, comandados por
um militarmente ignorante e inexperiente capitão miliciano, mobilizado e
arrancado das suas aulas de professor de Matemática, era como que um “pau
mandado”, se não mesmo capacho, dos astutos militarões que comandavam as
restantes companhias. Qualquer trabalho mais esforçado e complicado, lá
avançavam os pobres coitados da 3ª Companhia, para além de, claro, o haverem
instalado e aos seus subordinados, na zona mais complicada da área coberta pelo
Batalhão…
No leste angolano, junto à
fronteira com o Congo dávamos protecção militar ao pessoal civil e a duas
máquinas niveladores que, munidas de grandes pás, aplanavam uma picada das suas
irregularidades provocadas pelo uso e pelas grandes chuvadas muito habituais na
zona quando, num determinado dia o alferes que nos comandava resolve chamar-me:
- Azevedo, tenho estado a
observar e lá ao fundo da reta por vezes vejo alguns vultos a atravessar a
picada nos dois sentidos: Congo – Angola e Angola – Congo. O Capitão pediu-me
que uma vez que andamos cá por fora e na sua zona de acção lhe arranje um gajo
ou outro, vivo ou morto e lhe leve porque fará um relatório como tendo sido
trabalho dos seus homens e, sem sair do arame farpado, saca mais uns cobres
para a sua Companhia.
Eu, francamente, fiquei meio
aparvalhado com aquela conversa e contrapus:
- Mas, meu alferes, penso que
não são turras a atravessar a picada. Os turras não serão tão estúpidos que,
ouvindo as máquinas e em pleno dia, à nossa vista, resolvam passar ali. Penso
que será gente que com suas famílias moram nos dois lados (Angola e Congo) e
para eles não haverá fronteira. É o seu território e, de um ou outro lado tanto
se lhes faz. Para eles, dois países é coisa que desconhecem e aí vivem com seus
familiares e, naturalmente visitam-se, fazem a vida dos dois lados.
- Pode ser, mas não sei... -
contrapôs-me firme e acrescentou: - O Capitão é um gajo porreiro, a nós nada
nos custa e levamos-lhe um ou dois gajos e ele fará um relatório à sua maneira.
Vamos embora fazer uma emboscada a quem vier.
Fiquei admirado com a
ligeireza da aventura perigosa e desnecessária mas não tinha alternativa… Havia
que obedecer.
Avançamos mesmo. Uma secção,
comandada pelo outro furriel ficou de serviço à protecção das máquinas e do
pessoal em trabalho e, com a minha e a dele, partimos para aquela coisa sem
jeito e estúpida.
Emboscados dentro do capim bem
alto no local, em linha com o trilho de passagem das pessoas, eu e o alferes
ficamos nos extremos da formação, sendo que a dele ficou mais junto à picada,
por onde alguém entraria vindo do Congo. Deu-me ordens para que o “premiado”
com a vinda de um ou mais turras do seu lado desencadeasse o ataque, a que de
imediato todos os restantes atacariam em força. Eu tive o cuidado de dar ordem
aos meus soldados que só abririam fogo depois de eu o fazer e nunca antes e
fiquei a rezar a todos os santinhos que o premiado com a chegada de vítimas
fosse mesmo do lado do alferes…
Não esperamos mais de ¼ de
hora e, por sinais, fico a saber que alguém se aproximava no outro lado.
Levantei um pouco a cabeça e vi 3 pessoas (uma mulher na frente seguida de uma
criança dos seus 9/10 anos e um homem com uma bicicleta pela mão) que, vindas
do Congo e depois de atravessarem a picada, passiva e calmamente se aprestavam
para entrar no trilho e… passados breves instantes a metralha forte, intensa e
mortífera, fez-se ouvir: Tau! Tau! Tau!
Gritei para os meus rapazes
que ninguém fazia fogo e eles obedeceram e, terminado o tiroteio, de imediato
parti (partimos) para ver o “estrago”…
E que vi eu? Vi a mulher aos
gritos a fugir em grande velocidade trilho fora no sentido que levava e, a meia
dúzia de metros acocorada e chorando em gritos aflitivos de pânico, a pobre
criança, implorava pela mãe. Aproximando-me peguei-a. Levantei-a, acariciei-lhe
a cabeça e a face e pedi-lhe que não tivesse receio que não lhe faria mal. Dei
mais 2 ou 3 passos e adiante encontrei a bicicleta caída, com uma cesta no
suporte feita de cascas de árvores com duas galinhas a cacarejarem assustadas
e, logo após, deitado por terra, gemendo muito, um homem de carapinha muito
branca com a coxa da perna direita em mísero estado. Tão mísero e horrível
estado que aqui me abstenho de o descrever... Assustador, dramático, muito
grave, por demais horrível e dramático.
Quando cheguei perto já o
alferes ali se encontrava de cara muito carrancuda. Olhou para mim, levou a mão
ao quico que levantou coçando a cabeça, confessando-me:
- Azevedo, acho que já estou
arrependido de me ter metido nisto…
O Azevedo não abriu a boca. O
Azevedo não respondeu. Tem situações em que a boca fechada diz mais do que se
se abrir…
A mulher que fugira regressou
ainda muito assustada e receosa mas, não obstante, aproximou-se ficando
horrorizada com o espectáculo. Virou de imediato o olhar e, pegando na criança,
levou-a pela mão. E não mais as vi…
Então o alferes perguntou-me
sobre o que achava de levarmos o homem ao destacamento militar mais próximo para
ser tratado.
O aquartelamento ficava a
cerca de 20 kms e as suas tropas não pertenciam ao nosso Batalhão e antes a um
outro instalado numa vila perto (mais 20 ou 30 kms) na mesma picada.
Concordo, mas ponho em dúvida
que o velho indígena, face ao muito sangue que perdia, não obstante o precário
garrote que um soldado logo lhe fez com uma peça de roupa, se aguentasse vivo… O pobre tinha o destino traçado...
Meia hora depois, chegados ao
destacamento, o alferes que o comandava aproximou-se de imediato e ouviu a
explicação/justificação do meu alferes e acedeu a levar o pobre coitado à vila
para tratamento, se bem que duvidasse que se aguentasse e rematou dirigindo ao
meu alferes, comigo presente:
- Ó pá, mas gente desta, se eu
quisesse enchia todos os dias várias camionetas. São pessoas que vivem e têm
família dos dois lados e para eles não há fronteira…
O alferes olhou para mim. Eu
olhei para ele e nada lhe disse.
E foi assim…
Gratuitamente!
Estupidamente!...
EM TEMPO – Na foto junta,
tirada no local e no tempo, mais dia menos dia, onde ocorreu o episódio narrado na
crónica, enquanto a água do cantil me mata a sede a indumentária dos soldados diz bem do calor que se fazia sentir. na época. Março, Abril e Maio são sufocantes, naquelas áridas paragens do leste angolano.