quinta-feira, 8 de setembro de 2016

NOVAS TECNOLOGIAS


Da minha varanda, numa das muitas noites quentes que vamos sentindo, vi-o aproximar-se ao fundo da rua…

De passo curtinho mas sempre apressado, aquela figura meã mas aparentemente rija, certamente bem calejada pelas agruras da vida é, pelo menos à vista muito ágil e já me é familiar de há muito por bastas vezes por aqui o ver passar. Carrega sempre uns sacos de plástico nas mãos e/ou às costas e também sempre se faz acompanhar de uma pequena vara que muito o ajuda na sua difícil missão de remexer o lixo.

Se não diariamente, pelo menos com muita regularidade, ele aqui é visto a remexer e tirar dos contentores os restos, as migalhas – porventura algo talvez pré-podres e azedas… - que os outros não quiseram e deitaram fora mas que, pelos vistos, lhe servem e ajudam a sobreviver, a si e aos seus…

Tempos atrás tinha a sua missão mais facilidade (se é que há facilidade no remexer do lixo e daí tirar o sustento…) porque os contentores, então constituídos por grandes caixas com rodas eram móveis, caixas que ele movia um pouco para debaixo do candeeiro de iluminação pública e, levantando a enorme tampa, ficava com fácil e bem visível acesso a todo o seu interior mas, ultimamente, a autarquia fê-los substituir por outros bem maiores, escuros e de tampa mais pequena, tornando-lhe mais difícil a operação. Estão meio enterrados no solo e, de orifício pequeno e forrados no seu interior com um enorme saco de plástico preto, de noite nada se vislumbra no seu interior.

Vi-o então aproximar-se apressado e ágil de um dos grandes contentores e rapidamente levantar a pequena tampa e olhar para o interior onde, estou em crer, estava um escuro de breu…

De imediato meteu a mão ao bolso e, quando eu esperava ver surgir a clássica e velha lanterna de grandes e dispendiosas pilhas, eis que o nosso homem empunha um telemóvel de onde logo faz brotar um bem útil e gratificante foco de luz.


Precipita-se então de cabeça no interior do depósito e, ficando apenas com as pernas de fora, penduradas, é assim, naquela difícil posição que remexe o lixo e escolhe o que eventualmente lhe interessa. Logo sai para guardar o parco haver e, ainda empunhando na mão esquerda o precioso telemóvel, parte para outra busca, outra recolha de algo que outros deitaram fora e que a ele lhe serve.

Uma vida certamente muito difícil e desagradável mas que ao nosso amigo se torna obrigatória por opção ou por absoluta necessidade mas que, todavia, porventura, agora já se lhe apresenta menos pesada e dispendiosa porque deixou de gastar dinheiro em pilhas electricas para a lanterna de bolso… Usando o telemóvel fala para a família quando necessita e usufrui da sua luz nesta sua difícil labuta.

Nova tecnologia: menos dispendiosa, mais leve e mais prática.

Coisas dos nossos tempos…


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