O e-mail chegado ontem, já noite, da Celeste, sobrinha dilecta e muito dedicada do Tio João, não nos surpreendeu aqui em casa porque, com as suas últimas notícias de dias atrás e, sobretudo, depois de recebermos o anterior e-mail do Flávio, seu marido, que nos dizia que só um milagre reverteria o difícil estado do nosso amigo e familiar, outro desfecho não seria espectável… Na realidade, o nosso bom amigo e tio, tinha visto chegar o fim da sua existência… E,assim, depois de 86 anos de vida, o Tio João, como muito bem dizia a sobrinha Celeste, “já não está mais entre nós!...”. Na hora em que escrevo o seu corpo entra na sepultura...
É então mais um estimado e dedicado amigo que parte, levado pela inexorável “lei da vida” e que assim nos deixa mais sós, mais pobres e mais tristes!
Tio João era daquelas a que posso chamar últimas pessoas boas na superfície da terra de tal forma que, posso garantir, nunca - nunca! – lhe ouvi uma única palavra em desabono fosse de quem fosse! Nunca, por nunca ser! Nem mesmo quando me narrava a forma como ele e Tia Nair foram assaltados num transporte público na cidade do Rio de Janeiro, anos atrás, em que o sujeitinho lhes levou alianças de casamento, fios , relógios, etc… “Um cara educado! Um cara simpático!…”, nas suas palavras que nunca mais esqueci... Parece mentira, mas é verdadeiro! Tio João, na presença da Tia Nair, referia-se assim ao meliante que os roubou…
Emigrado no Brasil (Rio de Janeiro) há seis dezenas de anos, Tio João criou ali um pequeno bar donde tirava o sustento para ele e Tia Nair, com quem casou passado uns tempos de ali viver e, amealhando e conservando as suas economias, foi visitando a aldeia natal e Portugal dando-nos sempre o muito agradável prazer do seu único e inesquecível convívio!
Por afinidade entrei na sua família no início da década de 70 e logo me habituei a ver e sentir ali um prezado amigo, sempre pronto a uma conversa, um “chopp”, um “papo”, um convívio ameno e absolutamente desinteressado e saudável! E, se esse convívio e essa amizade já era bonita e importante aquando das suas visitas à família na Beira Alta, muito mais foi assinalável e justificativo de muito realce quando teve a bondade de me receber – ele e Tia Nair (aquém não posso deixar de associar Celeste, seu marido Flávio e restante família Almerinda, Adélia, etc.) – aquando da minha visita de 10 dias ao Rio de Janeiro anos atrás!
Foi absolutamente impecável a forma como ali me receberam e nunca esquecerei esse magnífico ambiente que me criaram e que incluiu refeições, “chopps”, viagens e onde até nem faltou um excelente passeio de barco na belíssima Baía de Guanabara!
Tio João foi nesta ocasião e sempre, como bem sabemos, no convívio e na correcção, com outros amigos e familiares, um exemplo único e ocorre-me aqui lembrar o dia em que me levou por metro e outros transportes públicos – Tio João não tinha automóvel - a visitar o Centro do Rio de Janeiro… Lembro-me de visitar a Catedral, o Real Gabinete Português de Leitura – coisa bonita! -, jardins, ruas e praças e de almoçarmos num bom restaurante português, mesmo no centro da cidade!
Recordo-me que depois paramos num pequeno bar, já perto do final da tarde, para tomar um “chopp”. O “chopp” não é mais que uma cervejinha, cervejinha que, porque é mais suave que em Portugal e com o calor ambiente do Brasil, ali se bebe muito, muito bem! Muito agradável, mesmo! (Tio João era um grande apreciador dos "chopps", como igualmente o era do tabaco e, seguramente, fumou milhões de cigarros!)


Naquele passeio pelo Rio, estávamos então bem e despreocupados sentados ao balcão do bar e, eu, vendo um rapaz ali mais ao lado, também no balcão, igualmente “mamando” uma fresquínha, resolvi pegar na máquina fotográfica e, entregando-lha, pedi-lhe que nos tirasse um retrato…
O que eu fui fazer!?... O bom do Tio João, vendo-me despreocupadamente entregar a máquina ao brasuca, ia caindo para o lado… (Dir-me-ia depois “Victor, que descuido! Nunca se faz isso aqui! Ele podia ter fugido com a máquina! Pensa que está em Portugal? Foi uma sorte!”)
Traumatizado pelos assaltos e pela violência urbana no Rio e, como emigrante, era o único trauma que eu via no Tio João… A violência é grande ali – e, infelizm
ente, agora não só já ali… - ele certamente lá teria as suas razões… Mas, naquela vez, não teve razão… O rapaz tirou a foto que, com outras do e com o nosso já saudoso Tio João acompanha este apontamento e que mostra como bom, feliz e agradável foi sempre único e inesquecível o convívio com ele!

Ficará sempre na minha memória e será sempre uma eterna saudade o bom e sentimentalão Tio João!
Coisa única!
Homem bom, puro e simples que o mundo perdeu!