terça-feira, 27 de outubro de 2020

GUERRA COLONIAL - O ISOLAMENTO

Na sequência das toscas crónicas que venho alinhavando neste blogue sobre as experiências e vivências observadas e sentidas na guerra colonial que vivi, resolvo abordar desta vez o tema do isolamento sofrido por muitos militares em tão distantes e inóspitas paragens e que, segundo me parece, tem sido algo secundarizado quando se fala nas consequências psicológicas resultantes da participação na guerra, nomeadamente no tão falado “stress pós-traumático” e, todavia, segundo o meu ponto de vista que é fruto da experiência vivida e sentida, o mesmo talvez seja necessário considerar em dose, se não muito elevada, pelo menos considerável.

Pessoalmente não senti, nem proximamente nem mesmo distante no tempo essas consequências que muitos dos meus antigos camaradas participantes na guerra experimentaram e mesmo hoje ainda sentem nalguns casos demasiado evidentes, mas sei de alguns que, não o sofrendo em dose elevada, mesmo assim todos os dias, ainda agora, passados tantos anos, têm de falar na guerra e nos diversos episódios vividos e sentidos. Inadvertidamente, as suas conversas sempre resvalam para uma ou outra situação vivida na sua comissão de serviço...

Não sofri, nem felizmente sofro dessas perturbações mas recordo-me de um susto que senti dias após o regresso à minha aldeia quando, sentado à lareira, que tinha em aquecimento uma panela de ferro com água, a minha mãe destapando-a e os pingos da tampa caindo nas cinzas do borralho provocando o inevitável som “puf!, puf!” eu, que estava meio absorvido em qualquer pensamento, escutando os ditos cujos como “tau!, tau!” e, “ouvindo” o som de uma arma automática a disparar, dei um salto no banco onde me sentava. À interrogação/surpresa de minha mãe: “O que foi?...”, respondi-lhe de imediato, desvalorizando: “Nada! Nada!”.

E, também bem me lembro quando, mesmo depois de regressar e durante muitos e muitos meses, todas as noites – todas a noites! - sonhava com a guerra… Anos, diariamente, a ter sonhos relacionados com aqueles maus dias vividos, até que, sem que me apercebesse, assim tivesse deixasse de sonhar. Um dia, um belo dia, lembrei-me que tinham terminado esses sonhos de guerra... Porquê, não sei mas... talvez porque, como diz o nosso povo: “o tempo tudo cura”…

Todavia, o nosso isolamento naquelas terras “no cú de Judas”, vizinhas das denominadas “Terras do Fim do Mundo”, junto à fronteira com a Zâmbia – na ida demoramos uma semana inteira a fazer a deslocação de Luanda até ao destino! -, foi mesmo mais sentido nesse primeiro ano que ali permanecemos do que no tempo restante, já que, na segunda metade da comissão, instalados a cerca de uma centena de kms da capital angolana, com estadia em várias fazendas (de cana de açúcar, de bananas, de palmares, etc) e viagens frequentes a Luanda, o isolamento foi muito menos experimentado.

Mas, no Leste, durante 14 meses, esse grande isolamento aconteceu mesmo e todos o tentamos evitar usando as mais diversas distracções como desporto, música, leituras, escrita, etc.. Nada dado a música, (de ouvido que nem calhau…) pratiquei algum desporto (futebol e voleibol) e, sobretudo, para além da leitura (familiares e amigos enviavam-me alguns jornais e revistas), a escrita para muitos saudosos correspondentes na então chamada Metrópole, ocupava-me bastante tempo. Eram tantos os correspondentes que criei uma lista (cuja imagem aí deixo, onde falta a referência ao meu pai por me escrever amiudadas vezes), prática, eficiente e fácil, com uns símbolos que colocava à frente do respectivo nome e, assim, numa rápida observação, via se lhe devia carta ou aerograma (fica também a imagem deste famoso meio de comunicação escrita) ou se aguardava resposta do respectivo amigo… (Na época tirei a foto que aí deixo com a chegada de uma pequena aeronave que regularmente nos levava os sacos do correio naquelas distantes paragens.)

Ah, ainda sobre a lista adoptada com o rol dos correspondentes, devo referir que para as namoradas – que também me ocuparam algum tempo (perdido – infelizmente!… -  nos primeiros meses mas… isso são contas de outro rosário...), como é óbvio essas anotações não eram necessárias…

Mas – há sempre um “mas”… -. se é verdade que o isolamento a que fui sujeito não me provocou perturbações de maior, outro tanto não posso dizer de uma outra faceta experimentada com esse afastamento da civilização… Refiro-me à saudade imensa que, ao longo dos meses fui sentindo, de ver, de ver uma mulher… branca... Aconteceu de facto e, sem que isso tenha minimamente que ver com qualquer espécie de racismo, xenofobia, ou algo semelhante, num sentimento que não experimento na minha maneira de encarar o mundo que me rodeia, francamente. Mas que também não sei bem explicar, também confesso. Mas, racismo, não! Francamente. 

A falta registada por estar durante tanto tempo sem olhar as feições, o físico, a beleza, o riso de uma mulher branca, mexeu com a minha “caixinha dos pirolitos”, de verdade.

Em Lumbala, só me recordo de, branca, ver uma ou duas vezes, porque poucas vezes saía de casa, a esposa, baixinha e magrinha, do Chefe de Posto local e, no Chilombo. de mulher branca, só tinha a companheira do pequeno comerciante local que, certamente existia, mas de quem nem já me recordo…

Rapaz novo, saudável, ágil, de sangue na guelra – tinha na época 23 anos! - “artista” que sempre apreciou sobremaneira o sexo oposto, admirou e alimentou o olhar e o espírito com a beleza ímpar e gostosa das beldades desse seu tempo, passar meses e meses sem ver uma “branca”, foi por demais complicado.

Tão complicado que, quando, 10 meses passados no mato, este rapaz vai de férias a Luanda e, na sua primeira paragem o voo do “Noratlas” aterra no Luso, a 1º cidade da rota e o nosso jovem percorre a pé uma das suas ruas, vislumbra pela sua ampla montra, dentro de uma livraria, uma jovem moça branca – branquinha! Linda!- que, nas suas estantes arrumava uns livros ou coisa no género, o sôfrego e “castrado” moço pousa os cotovelos no varão que no exterior protege o grande vidro da montra, fica especado de “lanternas” fixas nas curvas da jovem moça, na face bonita, nos  cuidados e bonitos cabelos loiros e, ficando assim abstrato de tudo, de tudo e de todos à sua volta, deliciando-se com a "paisagem", só alguns bons e largos momentos passados “acorda” dessa sua “hipnose”, interrogando-se meio “zonzo” do "totiço": “É pá! Que se passa contigo, Victor?”…

Eh..., aconteceu mesmo assim, numa estranha situação que ainda hoje, tantos anos passados, está bem viva na minha memória. 

Danada de guerra!... 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

VINTE ANOS PASSADOS, OUTRAS CATARATAS...


Pois é… depois de há 20 anos – completam-se mais exactamente no próximo domingo, 18 – ter visitado com prazer e algum espanto as Cataratas Submersas no Rio Nilo, de que deixo aí foto ao lado, eis que, ontem, sou confrontado com as consequências de umas outras, bem mais inconvenientes e chatas, porque nas minhas duas “lanternas” faciais…

Há já mais de um ano que os médicos haviam alertado para inevitabilidade da sua remoção mas, a velha “istória” do “deixa andar”, do “pode ser que não seja bem assim”, fez com que a intervenção se tornasse inevitável face à muita deterioração da visão e, ontem, a operação aconteceu mesmo no Hospital da Luz (Oeiras). 

Entre os preparativos e a cirurgia, que me parece já corriqueira e algo fácil para os especialistas – os que, como sempre digo, merecem na realidade ser considerados de “doutores”, porque nos cuidam e curam das maleitas e tantas vezes nos salvam as vidas! - e demorou coisa e uma horita.

Para além da remoção da catarata foi-me implantada um lente intraocular, idêntica à da imagem ao lado e as dores da cirurgia foram nulas, ou quase.

E a verdade é que, chegado a casa e retirado o penso que me tornava um sósia de Camões, fiquei verdadeiramente pasmado com o resultado obtido: via espantosamente bem do olho esquerdo operado! Tudo claríssimo, tudo incrivelmente branco e os objectos de formas definidas como, francamente, nunca me lembro de ter visto.

Fiquei parvo com os resultados obtidos e não imaginava que o mundo fosse assim, de formas tão definidas, coloridas e fantásticamente luminoso. Lindo! Lindo!

Mas há um senão… Um senão e nada pequeno: prevejo que vou ter séria confusão na minha “caixinha dos pirolitos” durante o período que mediará esta cirurgia e a próxima ao outro olho  daqui a um mês. Vou andar com a cabeça à roda. Vou, vou...

Verdade que a jovem médica (Mafalda Mota), por sinal bem simpática e comunicativa, já me tinha prevenido que isso aconteceria mas, uma coisa é sabermos e, outra, bem mais desagradável, é sentirmos.

Será um mês bem complicado para o meu “computador craniano”, tanto mais que a minha falta de visão já obrigava ao uso de lentes de graduação elevada e, assim, o problema certamente sentir-se-á em dose maior, mas terei de me adaptar e, tentando contornar a situação o melhor que possa, atingir a desejada data da nova operação – então ao olho direito – com os mínimos inconvenientes que me for possível.

Mas a coisa não vai ser muito fácil e agradável…

Não, não...

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

AGORA NO ALENTEJO, NOVO ENCONTRO DOS VELHOTES...


Na verdade, quando em 2013, no encontro com os velhos amigos de infância, Tó e Zé Manel, ouvi este último falar de um herdade da família no Alentejo eu logo “lancei a escada” para que ele me conseguisse uma pescaria aos achigãs nas represas que eventualmente a propriedade tivesse  e tinha natural esperança que tal fosse possível, ficando à espera que o velho amigo me abordasse para a sua concretização.

Os anos foram passando, ia-me lembrando da situação mas, por uma questão de educação, jamais questionaria o Zé Manel porque não queria que me considerasse atrevido, se não mesmo descarado. 

Não fui nem o sou de todo e, assim, foi com redobrado prazer que dias atrás recebi do meu amigo a abordagem e o contacto esperado para avançarmos para a falada pescaria a que acrescentava também o almoço nas instalações da propriedade. Esta última proposta é que me deixou algo “sem jeito” porque, quando pedi a realização da pescaria, jamais queria incomodar quem quer que fosse e muito menos com a oferta da refeição. Tentei demover o Zé dessa intenção mas não consegui, tanto mais porque já havia decidido isso com a esposa. Foi acertada a data e o nosso desejado encontro e pescaria aconteceu hoje na herdade situada ali juntinho a Vendas Novas.

Foi também, claro, o Tó, velho companheiro de aventuras infantis que se fez acompanhar da esposa Ercília e, assim, à mesa do almoço com a Drª Graça, esposa do Zé Manel, ficou o ambiente bem mais leve, agradável e, evidente, bem mais bonito.

Saí de casa pelas 6,30 horas, ainda o dia estava a nascer e, passando pelo Carregado para tomada do meu cunhado Gilberto, que fez-me companhia, avançamos estrada fora na direcção do Alentejo.

Lá chegados, junto ao portão da herdade aguardava-nos pelas 8 horas o diligente amigo Zé Manel e, feitos os naturais cumprimentos – agora ligeiros, por causa do “bicho”…  - iniciamos a pescaria em 2 das 3 represas e, aí, nos seus desejados e esperados bons resultados que ansiávamos, é que a coisa falhou… Os achigãs não marcaram presença, os danados...

A excepção deu-se comigo que consegui a ferragem de um pequeno rapazinho, coisita aí com menos de ¼ de kg mas que, confesso, me surpreendeu pelo aspecto branco/acinzentado que logo relacionei com o fundo arenoso da represa. Muito branquinho o amigo achigã. Uma represa bem bonita, ainda com bastante água, em vista parcial a imagem que aí deixo.
 
Os restantes companheiros pescadores, Gilberto e Tó – aprendizes os rapazes… ihih – carregaram a “grade” para casa. Mas um deles ainda fez questão de, atrevidamente se fazer fotografar com o troféu, coisa que o grande pescador, que nem eu, minimamente se importou... Como é bem evidente, têm de aprender muito com o craque… ihih

Seguiu-se o almocinho e o convívio, em que recordamos mais um pouco da nossa infância no Bairro do Restelo (onde não faltou a lembrança do triste episódio quando, crianças de 12/13 anos, de calções e meinhas brancas, eu e o Tó fomos detidos na esquadra de Pedrouços, tidos como malfeitores, ladrões de carros, situação que conto aí no blogue noutra crónica e, entre outras recordações, lembramos também a velha, pequena, corcunda e sempre muito irada avó deles dois, a sua incrível tosse e as guerras por demais assanhadas que mantinha a toda a hora com a filha Ricardina, minha madrinha).

O nosso anfitrião ainda teve a amabilidade de nos oferecer mais uma viagem pela herdade e ainda pescamos – ou fizemos por isso, porque nada “deu” de interesse piscatório… - numa 3ª grande e bonita represa e regressamos ao cair da tarde a nossas casas.

É verdade que a pescaria foi fraquíssima, se não mesmo quase nula, mas ficou a bonita e gostosa jornada de convívio e confraternização de amigos, velhos e sinceros, num ambiente saudável e gratificante.

E, sobre os achigãs, paciência… Ficarão a crescer para premiar quem os ferre numa próxima…

NOTA – Para memória futura ficam as imagens dos 3 velhotes; de uma das represas e ainda do craque mais velho, concentrado na sua pesquinha.

domingo, 20 de setembro de 2020

AINDA A CARRINHA DA GULBENKIAN

Nas minhas já habituais e regulares incursões nas velharias de outros tempos que ao longo da vida fui preservando e que, agora, vou revisitando e finalmente agrupando e arquivando convenientemente e com algum método, coisa que nos tempos passados não fiz, estando ainda uma boa parte “a monte” e guardada sem qualquer critério ou organização, a que as sucessivas mudanças de casa mais baralharam e prejudicaram, encontrei agora uma interessante carta, de 1965, que aqui incluo com  gosto num seu pequeno trecho e que, revendo-a, deveras mereceu o meu apreço por a ter guardado.


É redigida pelo velho e saudoso amigo Zé do Areal (Custódio Marques Montargil, de seu nome de baptismo) que adoptou esse pseudónimo nas muitas crónicas que ao longo dos anos escreveu sobre a sua Chamusca em particular e o Ribatejo em geral para diversos jornais e, sobretudo, para a então “Vida Ribatejana”, de Vila Franca de Xira, amigo com quem, para além de contactos pessoais em Lisboa onde residia, também troquei vária correspondência ao longo dos anos, sendo que nesta carta aborda aquele saudoso amigo o caso da Biblioteca Itinerante, da Fundação Calouste Gulbenkian, que noutros tempos consegui que servisse o meu Chouto natal. 

Titulada “A carrinha da Gulbenkian”, já aqui escrevi uma crónica sobre o assunto, tendo-lhe anexado apenas o recorte do jornal da época onde inicialmente sugeria a visita da Biblioteca Itinerante ao Chouto e também o meu cartão de leitor mas onde faltava algo escrito que testemunhasse a minha diligência na deslocação da carrinha há minha terra, documento ou documentos que, face à “barafunda” que ainda tenho nas minhas velharias não consegui encontrar na ocasião da redacção da crónica, o que me fez confusão porque, recordo-me, naquela recuada data troquei sobre o caso alguma correspondência com a Gulbenkian no intuito de reforçar directamente o meu pedido uma vez que, provavelmente, o jornal não teria chegado à Fundação…

Nesta correspondência de Zé do Areal agora encontrada ele felicita-me pelo êxito da minha iniciativa, acrescentando mais umas palavras sobre o interesse da leitura e da instrução nas pessoas e do proveito que daí poderia advir para o povo choutense.

Escreve então Zé do Areal: 

"Meu amigo. Recebi a sua carta que li com atenção. É evidente que, quanto à sua acção em prol da ida da B.I. (Biblioteca Itinerante) ao Chouto só me regozijo com o seu triunfo e faço sinceros votos para que os choutenses se apercebam que a maior fortuna que se pode possuir é a Instrução e através dela a educação. Isto sim valoriza e impõe o homem que se esforce e se disponha a ir tão longe quanto possível. Todo aquele que só disponha de fortuna monetária está sujeito, perdida ela, a sofrimentos insuportáveis. Portanto parabéns pelo êxito obtido."

Sábias palavras que agora releio com agrado e que aqui deixo como pequeno mas gratificante testemunho de uma face do laborioso trabalho que ao longo da vida venho executando sem o mínimo interesse material e com o único objectivo de ajudar o meu semelhante e assim também servir as gentes e a terra que me foi berço.

Um sermão que, conforme costumo dizer ninguém me encomendou mas que me dá satisfação e prazer e, porque nasci assim, assim continuo e… provavelmente assim desaparecerei.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

PROVEITO DE FÉRIAS

Inevitável e desde sempre, quando parto para férias faço-me acompanhar de alguns livros para leitura nos momentos de ócio e, assim, televisão e notícias de tragédias, escândalos e tricas políticas ficam para preocupação muito secundária e, antes, prefiro ocupar o tempo com a leitura de um artigo ou outro de jornal ou revista e, sobretudo, o embrenhar-me no conteúdo de um bom livro, seja de romance, história ou análises sociais do mundo que nos rodeia.

Foi o que também fiz este ano e li num total para aí umas 1700 páginas dos livros que


escolhi.

Assim, reli mais uma vez Miguel Torga que incluiu um volume com os seus 8 primeiros Diários e ainda os 13º e 14º e li também a obra “Cinco homens que abalaram a Europa” da autoria do politólogo Jaime Nogueira Pinto, livro que tinha adquirido meses atrás e aguardava ocasião calma e despreocupada para o ler.

De Torga já aqui tenho confessado a minha preferência se não paixão pela sua leitura porque, para além de a sentir autêntica e genuína e embora reconheça que é bastante lúgubre e algo tristonha, o nosso transmontano escreve muitíssimo bem e muito se ganha com a sua leitura. Eu sou inveterado apreciador e admirador de Miguel Torga e adoro lê-lo.

Quanto a Jaime Nogueira Pinto foi a 1ª vez que o li e gostei. Esta obra, que nos fala de Estaline, Mussoline, Hitler, Salazar e Franco desde os seus nascimentos até às suas mortes, dá-nos conta das suas origens e das suas sanguinárias, se não loucas, vidas políticas.

O autor é um assumido homem de direita (evita por exemplo chamar de fascista ao regime de Salazar) e, isso, para além de já o sabermos de seus habituais debates políticos e artigos em jornais e revistas, é evidente nesta obra mas é sem dúvida um homem de vastíssimos conhecimentos da história política nacional e mundial de que este livro é um excelente testemunho com detalhadas narrações de encontros, reuniões e decisões políticas dos actores políticos naqueles agitados anos da nossa Europa, onde o autor nos fornece muitos e impressionantes detalhes, sinónimo de que se serviu dos seus vastos conhecimentos e muita documentação consultada para assim se expressar.

Foi portanto este o meu proveito literário destas férias, que duraram dois meses e dou o tempo por bem empregue. 

Descansei a cabeça e distraí-me. Foi bom!


domingo, 13 de setembro de 2020

NUMA FESTA ADIADA, O "DITO" DE UM AMIGO



Em tempos que já lá vão tive amizade e amiudado contacto com um conterrâneo do meu Chouto natal, amigo que, embora sofrendo de um pequeno desarranjo mental, era pessoa extremamente correcta, afável e amiga de todos os que com ele lidavam e conviviam.

Falo de situação vivida na minha juventude, adolescente e rapaz, coisa dos anos 50 a 70 do


século passado e que inclusive envolveu troca de vária correspondência quando me encontrava na Guerra Colonial, sendo o saudoso amigo sempre pronto a escrever-me para Angola, fazendo detalhadas descrições das envolvências da sua vida pessoal, laboral e igualmente das ocorrências na nossa aldeia, coisa que eu, lá bem distante, na solidão e isolamento do mato, apreciava.
 

A deficiência desse amigo, não sendo profunda, também não era tão leve quanto o mínimo aceitável mas, não obstante, o seu convívio era agradável e amigo e esse saudoso homem usava mesmo muitas vezes expressões que para sempre me ficaram na memória, sendo que hoje aqui deixo uma que me parece adequada ao assunto principal que nesta crónica quero abordar e que se prende com o adiamento da festinha da passagem do 3º aniversário do Grupo da minha terra (CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE), Grupo que criei na net e administro com prazer e de aqui já tenho falado. Sempre temos festejado os seus aniversários e este de hoje não fugiria à regra, não fora o danado do “bicho” que no ameaça a toda a hora e em cada canto e que nos impõe isolamento e reserva, evitando contactos propiciadores de um indesejável contágio.

Usava então muitas vezes aquele amigo a sabedora expressão – ditado popular? - quando, forçosamente, tínhamos de adiar qualquer situação das nossas vidas, “Deixe lá amigo, porque há mais marés que marinheiros!...” e recordei-me dela quando dirigia este ano uma saudação vídeo ao Grupo, lembrando a efeméride.

Na verdade, sendo que custa bastante suspender o hábito de pessoalmente festejarmos o interessante aniversário, como já era tradição, as circunstâncias a isso nos obrigam porque, cumprir o que está recomendado oficialmente em domínio público e, sobretudo, preservar e cuidar bem da nossa saúde está, tem de estar, em primeiríssimo lugar.

Pessoalmente - e sei que em vários amigos e conterrâneos igual sentimento é vivido e disso vão dando expressão em mensagens ali deixadas ao longo deste dia -, custa-me bastante não realizar este ano a comemoração mas, por outro lado, sabendo do perigo do vírus e sendo a pandemia a nível global, com as naturais preocupações mundiais que a todos acarretam, já se fala muito numa eficaz vacina a surgir em prazo mais ou menos curto e, por isso, há que ter calma, resignação e... esperança.

Calma, resignação e esperança que, mais que nunca, para todos nós são bem necessárias, até porque, como diria o meu saudoso amigo, se ainda estivesse entre nós: “Deixem lá amigos, porque há mais marés que marinheiros!..”.

(Como “ornamento” do texto deixo um “boneco”, que fiz no “photoshop”, alusivo à efeméride.)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A CALMA BEIRA ALTA


Uns dias, como é habitual nesta época do ano, na calma e sossegada Beira Alta.

O recuperar de energias da azáfama e preocupações do dia-a-dia na grande cidade, num ambiente e num espírito que dá para ler, meditar, dormir e, até mesmo sonhar. Sonhar... não obstante a idade…

Não livre de um eventual contágio, claro, mas estamos talvez um pouco mais distantes do covid porque, para além de aqui pela aldeia não usarmos máscara por casa e no largo espaço seu envolvente, temos mais ar e mais liberdade de movimentos e só a ida às compras na vila recomenda e obriga o seu uso como importante medida de prevenção. E, na verdade, não fora as noticias da comunicação social, a net, os jornais, por aqui quase que dava para esquecer o danado do “bicho”...

Para quem gosta de leitura é um paraíso e disso tenho usufruído. Uns jornais, umas revistas e os inseparáveis livrinhos, fazem-me companhia permanente.

Acabei o grande volume que integra os oito primeiros Diários de Miguel Torga. Já os li, nem sei bem quantas vezes mas nunca me canso de saborear a sua rica escrita. Não obstante reconhecer que é algo lúgubre e triste – Torga fala da morte e da tristeza do existir vezes sem conta nas suas obras – acho-o de conteúdo muito rico na escrita e na discrição das vivências dos dias; de um português rico e exemplar e entendo mesmo que o mundo ficou a dever-lhe um Nobel, tão intensa, genuína e valiosa é a sua obra de prosa e poesia. Um senhor a escrever e a sentir, de uma expressão genuína e apaixonante, de que gosto particularmente.

Faria hoje anos se fosse vivo e não esqueço que tive a preocupação de propositadamente estar em Coimbra após a sua morte aquando da ida do seu corpo para S. Martinho de Anta, sua terra natal onde jaz.

Esta estadia por terras beirãs foi todavia um pouco agitada nos primeiros dias quando, depois de recebermos por umas quantas vezes na sala a visita de umas “simpáticas” vespas, que logo imaginamos “asiáticas” pelo seu porte e pela suas cores, descobrimos que tinham ninho, exactamente por cima das nossas cabeças, na chaminé da lareira.

Foi um bom bocado alarmante dada a envergadura das "meninas" - cerca de 4 cms (!) - e a robustez dessas sujeitas – só morriam depois de bem calcadas (!) - e também pelo natural receio de alguma picada…

Os serviços camarários foram prontos em socorrer-nos e, no cair de um dia, munidos de um comprido maçarico introduzido na chaminé em sentido descendente e depois no inverso (imagem junta), fizeram “churrasco” das indesejáveis visitas. Seriamos então esclarecidos que não eram “asiáticas” mas Vespa Crabro, de que aí fica uma imagem retirada da net.

De resto, aqui, nesta calma Beira Alta, os dias tranquilos e sossegados prosseguem, sendo quebrados a pedaços por uma ou outra visita de familiares e amigos que, embora sempre agradáveis, retiram um pouco o ambiente necessário para sentar e escrever uma linha, uma frase, uma crónica, coisa que sempre dá redobrado prazer a este pobre escriba.

sábado, 18 de julho de 2020

HISTÓRIA DE VIDA BONITA DE UM TEMPO FELIZ


Vivíamos pacatamente na nossa pequena aldeia na década de 60 do século passado quando, subitamente, surgiu na terra um grupo de forasteiros na sua totalidade composto por vários e diversos elementos de uma família de  artistas de circo de rua.

De imediato designados pelos moradores de “comediantes”, fizeram as suas primeiros exibições logo de seguida na nossa aldeia e percorreram mesmo várias terras vizinhas dando os seus espectáculos de rua e, de certo agradados com a hospitalidade das nossas gentes, resolveram mesmo fixar residência no Chouto, daí partindo para várias exibições pelos lugares em redor.

Na sua família algo numerosa destacava-se sobremaneira pela sua beleza, pela sua juventude, pelo loiro da sua farta cabeleira e, sobretudo, pela sua escultural figura física, a filha Graciete, de seu nome de baptismo. Era muito bonita, bastante esbelta e, como todos os restantes membros da família, extremamente educada e afável e, sempre de sorriso estampado, facilmente era figura que a todos cativava.

E cativava tanto ou tão pouco que o “João da Emília”, um dos 6 filhos do “Tio Alfredo Paneiro”, rapaz como os irmãos nascido e criado na terra, muito simples, pacato, algo “apagado” mas muito trabalhador e, como os restantes irmãos e irmãs, de reconhecida cortesia e educação e que se havia tornado motorista dos “artistas de rua”, se “embeiçou” de amores pela bonita e esbelta “Graciete comediante”, a contorcionista, a atracção maior da companhia.

Foi a bomba na aldeia e o falatório algo malicioso e de mau presságio que se calcula, com comentários jocosos q.b. que não faltavam.
- O quê? O pobrezinho e ingénuo “João  da Emília” a namorar a “batida e sabida” loiraça Graciete, filha dos comediantes??? Eh! Eh! Vai ser giro, vai! Coitado, não lhe gabo a sorte!...

E se estes nada favoráveis comentários são durante farto tempo o motivo de conversa de muitos, eles  mais se agravam quando o nosso “João da Emília” e a sua Graciete resolvem casar e avançar para o altar da igreja da aldeia para unirem oficialmente os seus destinos. Foi então um desfilar de suposições e “garantias/certezas” de todo o mundo local.

De todo ou… quase todo…


Na verdade, perante a necessidade de arranjar padrinhos para a união e observando em redor, a noiva Graciete recorre aos irmãos do noivo, Álvaro e Maria Irene e, ele, convida o amigo José Azevedo e esposa, comerciante, figura bem conhecida da região, de onde obtém o pronto sim, só com a pequena troca da “Menina Maria”, sua esposa, pela filha Adília.

E o casamento católico no templo local realizou-se e os jovens noivos assentaram casa na aldeia, perante muita incredibilidade e bastante expectativa de tudo e todos para os tempos que aí viriam…

E, volvidos 55 anos - passa hoje o 55º aniversário do casamento -, que aconteceu afinal?

Aconteceu que o “João da Emília” e a “Graciete comediante” depois de casados fizeram e criaram uma numerosa família de rapazes e raparigas, transmitiram a todos eles os valores nobres do trabalho, da educação, da cordialidade e da amizade e, pelo seu exemplo e honradez, desmentiram todos os velhos e antigos maus presságios e deixaram a exemplar lição aos que conheceram as suas origens e os seus alicerces, a certeza e a sabedoria da bonita construção das suas vidas em comum.

Vistas, testemunhadas e sentidas no conjunto dos seus concidadãos e amigos, de entre os quais me incluo com muito gosto!

Ao velho amigo João, muitos anos de vida, com saúde e bem-estar e à Graciete, que há pouco nos deixou, a paz eterna!

segunda-feira, 6 de julho de 2020

BOAS NOTÍCIAS - II "RECAUCHUTAGEM" 5 ESTRElAS!


Realizada a TAC pouco depois das 13 horas de hoje, ainda antes das 18 recebo telefonema do competente e sabedor cirurgião que me operou em 2017 e que com a sua equipa desde então acompanha a evolução do estado da minha pecinha das iscas, dando-me conta da boa notícia de que tudo está bem, dentro das limitações impostas pela doença da peça, o que quer dizer que o tratamento feito no final de Maio resultou em pleno.

Exultei de satisfação, como é fácil imaginar e esta feliz notícia aliviou-me sobremaneira da muita  ansiedade que sentia desde o dia que decidiram submeter-me à Quimioembolização até ao instante de hoje que soube que a mesma foi eficaz! 

Era uma ansiedade muito idêntica à sentida após a realização da 1ª TAC depois da cirurgia de 2017 – recordando-me bem que, o mesmo dr. que agora me telefonou, nas vésperas dessa cirurgia teve o cuidado de me prevenir que o sucesso da operação não seria propriamente “trigo limpo, Farinha Amparo”… - e ansiedade porque em ambas havia o desejo da eficácia das intervenções e, já se sabe, nessas situações sempre surge o receio do sofrido paciente de que algo não corra bem e o sucesso seja uma miragem.

Mas não foi o caso então, como o não foi desta vez  numa situação de opção de tratamento grande novidade para mim e certamente para o comum dos mortais leigos na matéria.

Atacar tumores malignos no fígado através de um cateter, talvez da espessura de um cabelo, que lhes leva a químio que os faz secar em poucas semanas, sem dor e sem que haja a habitual queda de cabelo no doente, era algo que desconhecia e de que beneficiei com justificado prazer! E o danado maior, que em Fevereiro tinha 2,8 cms agora, quando da intervenção em Maio, já se agigantara para… 4,2  cms… Mais um pouco e certamente o Victor não estaria aqui a regozijar-se…

Como sempre digo: graças à Ciência e aos homens e mulheres que estudam, que consomem dias e noites de exaustiva aprendizagem e saber e todos esses enormes conhecimentos põem posteriormente ao serviço de outros homens e de outras mulheres que padecem e dessa sabedoria beneficiam. E como mal remunerados esses senhores doutores estão!… 

E pronto!... Despachadinho – e mais levezinho de mente!… - fico a aguardar que daqui a mais 4 meses se volte a “espreitar” a pecinha das iscas, surgindo então nova ansiedade para verificar se novo “brinco” ela ganhou como adereço… 

Oxalá isso não aconteça mas há que estar precavido. Seria então uma eventual III “recauchutagem”… 

Mas, como ainda falta algum tempo, por agora vou… relaxar...

quinta-feira, 25 de junho de 2020

CHOUTO - VIVER SEM ELECTRICIDADE


Porque hoje passa o 48º aniversário da chegada da energia electrica ao meu Chouto natal, ocorre-me redigir meia dúzia de linhas recordando como foi nascer, crescer e viver até aos 27 anos de idade sem a preciosa electricidade que para outras terras e outras paragens vizinhas – ainda que não sedes de freguesia, como o pobre Chouto… - era bem de que há muito usufruíam.

E, porque o homem é animal que facilmente se adapta às circunstâncias, a coisa era sentida, se bem que com indignação, é verdade, mas também com a forçada conformidade porque havia que viver consoante as circunstâncias, tanto mais que outra solução não tínhamos…


Nas residências, nas 24 horas do dia, sentia-se a grande falta dos hoje tão normais e corriqueiros electrodomésticos - frigoríficos, televisores, rádios sobretudo - acontecendo que, com o pôr-do sol e o cair da noite, o problema se agravava sendo então necessário recorrer ao uso dos velhinhos candeeiros a petróleo que nos forneciam a pouca mas imprescindível luminosidade.

Nas ruas existiam uns quantos candeeiros públicos (meia dúzia, ou pouco mais que isso...) fixados nas paredes exteriores de algumas casas, alguns em gavetos de ruas, mas que nem todas as noites eram acesos. A Junta de Freguesia na época vivia com muita escassez de meios financeiros e o dinheiro para o petróleo faltava… Quando o havia lá ia então o zelador, o saudoso Raul dos Santos, de escada às costas tratar de abastecer e acender os candeeiros que tão úteis eram nas noites mais escuras. Não iluminavam muito, como é lógico, mas ainda assim eram úteis porque serviam de referência na escuridão. Nas noites de luar, sobretudo no Verão, a sua falta não era assim tão sentida, tanto mais que conhecíamos bem as ruas da aldeia.

(Mas, aqui para nós que ninguém nos ouve, as noites escuras e a falta de candeeiros acesos, também tinha certa utilidade para alguns personagens, sendo que estou a lembrar-me de alguém, “amigo do alheio”, que por sinal até estava bem referenciado mas que, ainda assim, uma vez ou outra actuava pela calada da noite escura… Mas, não era só esse cidadão que beneficiava da negra noite porque ela era também útil para uma ou outra paixoneta (eu soube de duas que disso “lucraram”...) que permitia que os “atrevidos” cavalheiros saltassem as “cancelas”… E havia disso na aldeia, sim… E, a propósito, alguém escrevia a este pobre escriba, que na época na guerra andava: “À noite, enquanto os pais dormem, ela abre-lhe a janela e ele salta para dentro”. É... a falta da luz electrica também trazia algumas vantagens…) 

Mas, fechado o parêntesis, retornemos à narrativa dos dias sem electricidade na aldeia…
Nos estabelecimentos públicos e sobretudo nos que funcionavam também de noite, caso de tabernas, barbearias, alfaiatarias, etc e até da Sociedade Recreativa então com muita actividade, era usado o chamado “petromax” que, embora consumisse mais que o tradicional candeeiro de torcida que usávamos nas casas de habitação, dava uma luz bem mais clara e intensa. Fazia um ligeiro ruído mas iluminava muito bem.

Nas nossas residências utilizávamos então os velhinhos candeeiros de torcida, sendo que havia os de pé alto, os mais utilizados, mas também existiam uns outros mais baixos em que a base de suporte era o próprio depósito do combustível. Esses, para melhor facilitar o seu transporte, tinham como que uma pega acoplada, assim como que fosse a asa de uma caneca ou chávena. Mas os mais utilizados eram sem dúvida os de pé alto, com alguns deles bem bonitos, por sinal. Deixo aí imagens de candeeiros que usávamos, inclusive uma de outro tipo menos usual mas que me lembro bem dos meus avós utilizarem não tanto em casa mas na rua e sobretudo nos palheiros, quando queriam visitar o gado. Tinham um arco amovível que servia de pega e eram mais práticos para transportar na mão e, na escuridão intensa, até produziam uma luz bem aceitável e facilitavam os eventuais movimentos manuais.

Mas não termino sem aqui deixar uma pequena lembrança que sempre me ocorre quando vejo os candeeiros a petróleo de pé alto que tão úteis tínhamos nas nossas casas.

Esses candeeiros eram os que usávamos em casa de meus pais, utilizando dois ou três, consoante as divisões que precisávamos de iluminar, sendo colocados habitualmente em cima de um móvel ou até mesmo na mesa da refeição para melhor vermos os alimentos. Em algumas casas usavam também colocá-los num pequeno suporto fixado numa parede da cozinha, evitando assim um ou outro toque e queda, com consequente quebra no solo.

Na época e porque na zona cultivava-se muito o arroz, abundavam as melgas que nos incomodavam por demais logo que a noite caía, acontecendo que, como não tinham luz nas ruas, elas infiltravam-se nas casas ainda que tivéssemos  a contínua preocupação de sempre manter portas e janelas fechadas.

Mas, as danadas, por aqui ou por ali, conseguiam sempre entrar e fortemente nos brindar com as suas horríveis picadas. Dizíamos então, vá lá saber-se porquê, que nos… mordiam.

Eu que tinha o hábito vindo de anos de sempre ler umas páginas de livro ou revista todas as noites antes de dormir, para as "fintar" usava um velho truque antes de adormecer, de forma que não me picassem durante a noite... E se só uma danada incomodava que se fartava, imagine-se um “enxame” delas como as que todas as noites me brindavam enquanto lia na cama… Zum, zum, zum!!! Ás centenas, as desgraçadas sobre a minha cabeça!…

E que fazia eu para as enganar, de forma a que me deixassem em paz durante o sono?

Os meus pais ensinaram-me desde miúdo e eu isso sempre fazia: Antes de adormecer levantava-me, pegava no candeeiro e colocava-o no corredor à saída da porta do quarto e encostava a porta de forma a ficar com uma pequenina fresta, de 2,3 cms. ficando portanto o quarto em semi-escuridão. Esperava uns curtos 2,3 minutos e as desgraçadas passavam todinhas para o corredor iluminado. Ficava então à  escuta e, não ouvindo uma única dentro do quarto, punha a cabecinha de fora da porta e… zás, soprava pela chaminé e apagava o candeeirinho, fechando de imediato a porta.

Era truque que nunca falhava e eu dormia sem a indesejável presença daquelas danadas.

E pronto. Aqui ficam umas pequenas historietas da infância e juventude do ”je” no pobre e enjeitado Chouto sem luz electrica e durante muitos anos abandonado pelas entidades competentes.

Mas eu, depois dos meus 15 anos, continuamente na imprensa não deixava que esquecessem a falta da luz no meu Chouto e martelava, martelava e martelava no assunto, até que em 1972 me calaram… 

A voz era fraquinha e o seu efeito seria mínimo mas o “charnequenho” abandonado ficava ciente que cumpria a sua missão...

domingo, 31 de maio de 2020

E... SEM DOR, II "RECAUCHUTAGEM" ULTRAPASSADA!


É verdade, a segunda “recauchutagem” foi ultrapassada e felizmente sem dor ou qualquer contrariedade física digna de nota. Uns hematomas surgidos e que ao longo dos dias irão passando e… dores zero. Felizmente e por enquanto…

Desde ontem, logo às primeiras horas da tarde estou em casa depois de exactamente 45 horas passadas em que aconteceu a entrada (dia 28), o tratamento (29) e a alta (30). Convenhamos que foi bem pouco tempo para realizar a “recauchutagem”…

Fica agora a expectativa da eficiência da intervenção, sendo que levará 3 a 4 semanas a saber-se.

O processo adoptado foi a “quimioembolização”, de que deixo aí uma imagem que retirei da net, que consistiu na introdução de um cateter numa artéria de uma virilha que levou ao tumor a químio que lhe vedará o fornecimento de sangue e oxigénio fazendo com que definhe e morra. 

Mais uma demonstração de como a ciência e o saber dos homens é cada  vez maior, para nossa comodidade e bem-estar.

Resta esperar que resulte em pleno e não seja necessária nova intervenção para melhorar esta ou por surgirem novos apêndices e, isso é que nada nos diz que não aconteça, restando-me estar preparado para tal desiderato… 

É a vida...

quarta-feira, 27 de maio de 2020

... E, A NOVA "RECAUCHUTAGEM" AÍ VEM!...


Bem me pareceu logo em Fevereiro que seria inevitável ter de voltar  a recorrer à ciência e à sabedoria dos senhores doutores – eles, sim, com o apropriado e justo título de doutores! - para de novo sofrer intervenção na minha muito doente "pecinha das iscas" e, infelizmente, as minhas suspeitas estavam certas.

Foi em Fevereiro que fiz e tive o relatório e as imagens da Ressonância Magnética feita mas, a pandemia e o condicionamento forçou uma demora de 3 meses e, agora, aliviadas as restrições de movimentos, amanhã lá vou para mais umas dores e, sobretudo, preocupações…

Desta vez, ao que a médica que me acompanha me informou e uma vez que, segundo disse, não é aconselhável voltar a fazer cirurgia ao fígado, a eliminação dos tumores far-se-á através da pele, com uma agulha, segundo me indicou. Se as minhas buscas aqui na net estiverem correctas, deduzo que se chama “rádioablação” a intervenção e que consiste numa agulha que vai ao núcleo do tumor e, através de uma fonte de calor, o queima. Ao que li é um método recente, que é feito com anestesia geral do doente, sendo muito menos doloroso e de melhor e mais rápido período de recuperação no pós-tratamento. Mas, amanhã, certamente, conhecerei mais detalhes.

Seja como for, embora com a preocupação de um sempre aborrecido internamento e tratamento hospitalar, parto despreocupado q.b. e confiante porque sei ficar entregue ao que de melhor na especialidade existe em Portugal no tratamento de doenças hepáticas. Fiquei muito bem impressionado há dois anos e meio quando sofri a cirurgia e tenho a convicção que, agora, tudo decorrerá por igual. Pessoal médico, enfermagem e serviços foram impecáveis e, certamente agora voltarão a sê-lo, naquele Curry Cabral que tanta gente cura e salva. 

Procurei na net e deixo aí uma imagem ali encontrada sobre o tratamento de que vou beneficiar, isto se não estiver errado na minha interpretação da intervenção.

Durante, ou depois da forçada estadia hospitalar, aqui darei conta.

Até lá!...

domingo, 24 de maio de 2020

A FISGA - COMO EU, QUEM A USOU E MATOU PASSARINHOS?


Um galho em “V” de uma árvore era cortado em medida que nos coubesse na mão e no bolso e, depois de aparado, eram-lhe atadas nas extremidades do “V” duas tiras de borracha previamente retiradas de uma velha “câmara de ar” de bicicleta ou de automóvel ou camioneta, sendo que, para estes últimos “elásticos”, era necessário usar mais força para os esticar, embora imprimissem mais velocidade à pedrinha projectada.


Nas duas outras pontas das tiras de borracha aplicava-se um pequeno pedaço de cabedal onde seria colocado o “projectil” (leia-se: pedrinha) a arremessar em direcção ao pássaro.

Depois, bem, depois era partir para a “caça” de fisga no bolso mais ou menos dissimulada para que pais e vizinhança não vissem que íamos aos pássaros. A operação era feita maioritariamente debaixo das copas das árvores ou perto delas ou até nas proximidades de vedações de hortas, por exemplo, em cujas varas ou canas os pássaros pousavam e depois de nos aproximarmos pé-ante-pé para não sermos notados…

Colocada no cabedal a pedrinha/projectil, fixa com boa pressão pelo “punho” a fisga, esticadas as borrachas, feita a pontaria com um olho fechado e outro aberto no centro do "V" da forquilha, seleccionado que estava o alvo/passarinho a atingir, era só largar a pedrinha e, em grande velocidade, aí ia o “projectil”.  

Se o “caçador” tinha boa pontaria, a pobre avezinha caía de imediato moribunda no solo mas, se não tinha – como era o meu caso… -, a pedrinha passava ao lado e... a pobre ave continuava vivinha e feliz, cantando e procriando.

Eu e muitos dos meus amigos de infância - se não quase todos… - usávamos muito a rudimentar “arma” por montes e vales da minha aldeia natal na busca dos pássaros mas, no meu caso pessoal, devo confessar que a tinha escondida porque o meu pai me proibia de fazer tal barbaridade aos passarinhos. Pois… ele proibia mas, eu, várias vezes a usei às escondidas na companhia da rapaziada amiga.  

Mas – lembro-me bem… -, um ou outro passarinho que matei – fui e sou péssimo em pontaria… -, não levei para casa, não… Isso seria tareia, pela certa...

(Imagem retirada da net)


domingo, 10 de maio de 2020

... EM "BRAILLE", DA POETISA EMÍLIA MONTALVO



Lisboa, 8 de Junho de 1984
Meu prezado amigo,
Eu não pudia deixar-lhe de manifestar o que me vai na alma sensível pela surpresa que Deus lhe inspirou por mim…
Agradeço-lhe muito grata, Victor.
É realmente bondoso, porque pensa nos semelhantes.
Tenho amor à minha terra, onde tive até aos 8 anos a minha primeira infância. Depois fui para onde me deram uma educação que me permitiu dar a bastantes crianças tudo o que ensinar-lhes na cultura, na moral e na religião.
Naquele que o Victor fez ouvir na Renascença está a minha crença a Jesus que me ilumina e me concede a coragem e a resignação.
Felicito-o no valor, na boa esposa e nos filhinhos que tanto achei encantadores.
Beijinhos para eles e para a Hortense de quem sou amiga.
Um grande abraço da sincera amiga que pede a Jesus a bênção do vosso lar.
Emília de Jesus Montalvo
                                                

Fruto de tudo guardar mas também, o que parece lógico, como um natural sentimento de gratidão pelo conteúdo, satisfação pela inusitada forma e apreço pela autora desta belíssima missiva em “braille”, fez com que chegasse até hoje este valioso documento – valioso pelo menos para mim que, pela 1ª e única vez, recebi una carta assim redigida – e, desta forma dar motivo à criação desta minha crónica de hoje, iniciada pela “tradução” da carta em “braille” que à direita aqui também se deixa.



Foi sua autora Dª Emília Montalvo, senhora e amiga que, não sendo exactamente minha familiar directa, também não estava muito distante disso dado que era irmã de minha tia Ilídia, casada com meu tio Joaquim Azevedo, irmão de meu pai, sendo por isso amiga muito próxima o que deu azo a contactos mais ou menos frequentes. Na verdade, visitei várias vezes Dª Emília na Escola António Feliciano Castilho, em Lisboa, onde vivia e professava e também em diversas ocasiões convivemos na casa de meus tios, onde igualmente vivia a sua já idosa mãe, acontecendo isso quando a senhora passava férias na Chamusca.

Nascida na Chamusca, Emília de Jesus Montalvo, de seu nome completo, veio ao mundo com a visão como qualquer criança sem deficiência, mas uma terrível doença retirou-lhe a vista e a menina ficou totalmente cega. Desconheço mais detalhes dessa doença porque, por incrível que pareça, nos muitos contactos tidos com Dª Emília, com minha tia e até com a mãe de ambas, nunca tive coragem de tal assunto abordar... Achava que, para tanta angústia, já bastava a vivida pelas próprias nas suas vidas, no seu dia a dia...

Cega a menina e sentidas as dificuldades económicas dos progenitores foi conseguido o seu internamento no Asilo Escola António Feliciano Castilho onde a criança cresceu, estudou, educou e desenvolveu a sua personalidade bem vincada e apreciada. Com efeito, Emilia, inteligente e interessada, depressa se evidenciou e em pouco tempo atingiu mesmo o professorado, de forma que aos 18 anos já dava aulas na própria escola.

Surgiu então a poesia na sua vida e, dai a ver publicadas suas obras em diversos jornais e revistas, de entre os quais se destaca o “Diário de Notícias”, foi um pulo. Colaborou também, tanto  quanto julgo saber, com o Teatro Amador da sua Chamusca natal, da qual falava sempre com uma grande paixão. Para além de se expressar em diversas línguas de onde sobressaia o francês, o inglês e até o esperanto, com o curso de conservatório tornou-se também professora de piano e canto, numa belíssima e muito interessante vida onde sobressaia sempre a sua exemplar educação, o seu belíssimo trato e a sua impressionante serenidade física, psicológica e até poética. Também o timbre de voz e a forma como se expressava, dividindo de maneira bem característica as sílabas, completando as palavras de forma verdadeiramente límpida e impecável, admirava os interlocutores menos habituados. Também o seu porte físico e a calma e serenidade com que estava e se movia, deixavam impressionados tudo e todos. Um ser humano “sui generis”, sem dúvida.

Nesta carta que hoje trago a público Dª Emília manifesta reconhecimento por algo que sobre ela escrevi e foi lido aos microfones da Rádio Renascença algo que, francamente, já não me recordo… Lembro-me que na época, num programa de António Sala, por vezes foram lidas 2 ou 3 coisinhas que escrevi mas… já não me lembro o quê… Por via desta carta deduzo que uma delas foi sobre D. Emilia Montalvo, possivelmente alguma ou algumas poesias de sua autoria, a exemplo desta que também aí deixo…

Resta acrescentar que Dª Emília Montalvo nasceu na Chamusca, a 7 de Maio de 1904 e veio a falecer em Lisboa, no Lar de Nossa Senhora da Saúde, onde nos últimos anos esteve internada, no dia 16 de Maio de 1989.

EM TEMPO - Dias depois de redigir esta crónica surgiu na net uma bonita e interessante foto mostrando-nos Dª Emília Montalvo a escrever algo em braille e que, com a devida vénia,resolvi trazer para aqui, integrando-a no corpo do texto.

sábado, 2 de maio de 2020

OUTROS TEMPOS, OUTRAS VIDAS...


Eram outros tempos, eram outras vidas, eram outras vivências...
Era o tempo pós-guerra, era o tempo de outras muito duras realidades…
Era o dia-a-dia de privações, de dificuldades, de até fome para muitos…
Era o dia-a-dia da incerteza do dia seguinte, se o trabalho à jorna surgia…
Era o tempo do suor, da dor, do esforço braçal, do sol-a-sol…

Medito em tudo isto ao ver esta foto com “talheres” de outrora e que, hoje, felizmente, já poderão ser peças de museu.

Havia-os em casa de meus avós maternos, no Anafe do Meio, do meu Chouto natal. 

Eu criança e eles adultos, de corpos bem moídos pela árdua labuta agrícola no arroteamento e amanho das terras do senhor marinheiro que em Lisboa recebia pelo S. Miguel a renda dificilmente amealhada e suada durante o ano, sentados em pequenos bancos de assento de palha, idênticos ao da foto junta e ao redor de grande travessa em cima de uma baixinha e curta mesa, com a altura dos banquinhos, todos tirávamos as colheradas ou garfadas do nosso lado na grande malga, usando relíquias iguais a estas da foto que encontrei na net. 

No final, rapada a travessa, o avô Gregório levantava-se, subia os dois degraus de cimento atrás de si, corria a cortina de pano de ramagens que dava acesso ao seu quarto e da avó Maria e, de baixo da cama para estarem mais fresquinhas do calor abrasador do Verão, porque toda a casa era de telha vã, retirava uma grande melancia de que ele era mestre no cultivo. Voltava a sentar-se, punha a melancia no colo entre as pernas e traçava-a em compridas fatias (talhadas, como lhes chamava) que distribuía uma a cada um, deixando o coração (castelo) por ser mais doce, para a rodada final.

Depois, bem, depois todos se levantavam e, homens e mulheres, filhas, genros, boieiros e demais contratados iam para a danada da labuta agrícola e a avó Maria, de pernas arqueadas e saia larga e comprida, pegava na grande malga vazia e nos talheres e procedia à sua lavagem num grande alguidar de barro. A loiça com água e sabão azul e branco e os garfos, iguaizinhos aos da foto, eram demoradamente esfregados com o mesmo sabão azul e branco num esfregão de pano bem forte. Se havia palha de aço, não me recordo mas talvez houvesse. Ou talvez isso fosse uma modernice…

E, no dia seguinte repetia-se a cena…

O mesmo esforço, a mesma labuta, o mesmo sentar em redor da grande malga, os mesmos garfos cinzento escuros e ásperos…

A vida de outros tempos…

A vivência árdua e muito difícil de quem, com tanta dedicação e carinho, nos criou e amou...