sexta-feira, 15 de novembro de 2019

DOIS ANOS DE "RECAUCHUTAGEM"!


É verdade que tenho mais um ou outro queixume de, dor aqui, maleita acolá, por via dos dois anos já decorridos sobre o corte dado à figadeira mas, na realidade, pelo que dizem os regulares exames feitos e por nada sentir que me apoquente sobre o caso, não há a mínima dúvida que valeu a pena a melindrosa intervenção sofrida, exactamente faz hoje 2 anos. 

Alertava-me dias antes o sabido e experiente cirurgião que, com mestria e muito saber “trabalhou” o ofendido fígado, que a intervenção não seria “trigo limpo, Farinha Amparo”, na conhecida expressão de que o sucesso da operação não tinha plena garantia de sucesso mas, felizmente, o êxito foi mesmo total.

Quando, pelas 10,30 horas, naquela manhã de 15/11/2017 me levaram para a cirurgia, eu ia plenamente informado do grave mal de que padecia mas, também, porque sempre confiei e confio na ciência e no saber dos homens, ia calmo, bastante calmo, convicto que o bom sucesso aconteceria e ponderando que, se isso não acontecesse, talvez não acordasse mais.

Mas correu tudo bem e, mercê dos muitos conhecimentos da medicina actual e graças às imensas horas de estudos dos homens e mulheres ao longo dos tempos foi possível, apenas com 3 furinhos na minha barriguinha, cortar e retirar o danado do tumor maligno que ameaçava enviar-me mais cedo para o triste e lúgubre “jardim das tabuletas”.

Não foi dessa e um dia será mas, enquanto por cá andar e que seja como até aqui, a coisa valerá a pena e, desta forma, arranjaram-me motivo para, anualmente, em Novembro, festejar o nascimento e… a “recauchutagem”.

Para “ornamentar” esta crónica e ainda que ponha em dúvida o gosto da sua publicação, escolhi mesmo assim uma imagem da barriguinha (?) do rapaz com os 3 furinhos fechados pelos agrafos que os ajudaram a cicatrizar. E, francamente, pouco ou mesmo nada me doeu.

E, como foi possível, apenas com esses furinhos, ver e retirar com pleno sucesso um tumor de 4 cms que teimava crescer e acabar com o seu “hospedeiro”, é coisa que admiro, que me espanta, que agradeço e louvo o saber e o conhecimento de homens e mulheres que me merecem a maior admiração e o mais elevado respeito!

domingo, 3 de novembro de 2019

3/4 DE SÉCULO!


E aí estão os  ¾ de século em cima da carcaça do rapaz! E, para falar com franqueza, quando há cerca de 3 anos começaram a aparecer-me as maleitas e, sobretudo, quando soube do grave problema na peça das iscas, cheguei a temer não atingir esta “simpática” marca… Mas, felizmente, atingi.

Hoje e recordando os anos passados e os dias e meses que voaram, lembrando-me de factos, acontecimentos, alegrias e tristezas vividas, não quero dizer como é hábito que me parece que foi ontem mas, andarei talvez por muito perto se confessar que acho o tempo entretanto decorrido foi muito, muito curto. Muito curto!…

A infância e a juventude no meu Chouto natal, a vida militar com a guerra incluída, a vida profissional muito activa, a família com esposa, filhos e neto, não foi ontem não mas, mas passou muito depressa… 

Dir-me-ão que passaram 6, 7 décadas e que isso já é um tempo considerável mas eu entendo, eu sinto, que foi tudo, tudo muito curto. Caramba, terrivelmente curto!

No festejo deste ano, como o dia 2 correspondia a um sábado e desejando fazê-lo a um almoço e vindo nesse dia da Beira Alta era coisa que não dava muito jeito, optamos por um adiamento de 24 horas e hoje celebramos em família, com um excelente rodízio de carnes num bom restaurante (Chimarrão) do Parque da Nações, em Lisboa, os meus 75 aninhos.

 Foi muito bom, como seria de esperar e, eu, para melhor festejar – sem abusar minimamente!… - saboreei 2 ou 3 cms no fundo de uma taça de um saudoso Borba alentejano. E o tintinho estava divinal!... Todavia, infelizmente, só provei... 

Num gesto que muito me sensibilizou e já perto do final da refeição, juntou-se ao meu grupo para festejar com um cafezinho e um whisky, o meu velho amigo e conterrâneo Armando Jorge de quem já tenho falado aqui no meu blogue em anteriores crónicas, rapaz que animou a nossa reunião, num convívio muito gratificante!

Deixo aí, não só as habituais imagens destes tradicionais festejos com os confraternizantes à mesa e o “obrigatório” registo com o cada vez mais crescido neto Rafael como também uma outra da família no passeio pelo Parque das Nações.

E, pronto! Para o ano quero acreditar que haverá mais…

Só peço “um” de cada vez e, se for no mínimo com a abalada saúde estabilizada como até aqui, tanto melhor!...

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A VELHINHA APOSENTA-SE...


Pelas notícias recentes ficamos a saber que vai sair do uso do exército português a velhinha espingarda G3, fiel companheira de muitos milhares de jovens compatriotas que fizeram as guerras de África entre os anos 61 e 74 do século passado.

Naturalmente, também eu, tendo andado naqueles “trabalhos”, tive por obrigatória e gratificante companhia esta “menina”- a “canhota”, como então lhe chamávamos - e, como tal, não posso deixar de experimentar alguma nostalgia quando vejo que, alguns anos depois de mim, também a fiel G3 passa à reforma.

Os dias passados e o tempo decorrido, dão azo a estas sensações a que de há muito já me habituei… É a vida das pessoas e das coisas... Inexorável.

Mas, meditando nisso, também dei comigo a pensar que, decorridos todos estes muitos anos após ter deixado a “canhota” em Luanda, possivelmente para que logo depois um outro novo mobilizado dela tomasse posse, já nem me recordo bem – quero dizer, não me lembro totalmente… - das suas diversas peças e do seu funcionamento.

Eu, que tantas vezes a montei e desmontei e que, inclusive, dei ensinamentos e instruções da amiga G3 a muitos soldados, hoje já não me recordo em pleno de todos os seus componentes. Com uma revisãozinha ia lá mas, assim a uma 1ª ou 2ª tentativa, reconheço que não conseguiria. São muitos anos de “separação” da “menina”…

Mas era uma “menina” muito fiel e fazia-nos companhia para todo o lado desde que saíssemos do arame farpado - quero dizer, do aquartelamento - e, mesmo em diversas situações lembro-me bem de a ter como dedicada companheira enquanto dormia. No Muaco, por exemplo, ficava encostadinha às paredes de madeira da barraca do destacamento e, quando passei umas noites numa pequena tenda, dando protecção a uma velha máquina de movimentação de terras, a amiga G3 “dormia” ao lado de mim e dos soldados que me acompanhavam. Também na Fazenda Lifune, de noite, cujo quarto de dormir ficava um pouco afastado da camarata dos soldados, a amiga sempre estava encostada junto à mesinha de cabeceira.  Mas nunca me foi precisa, felizmente!


Mas tive uma situação em que nossa “canhota” foi simultâneamente útil e… perigosa. Aconteceu quando tive o meu chamado baptismo de fogo em 25 de Dezembro de 67, dentro do arame farpado em Chilombo, lá no “cú de Judas”, no leste angolano. Desarmado, porque estava no aquartelamento e “maçarico…, vinha de beber umas cervejas na “venda” de um branco que ali estava  estabelecido na companhia de um fuzileiro que, ele sim, levava G3 ao ombro. Na noite escura vínhamos conversando a caminho das nossas instalações quando “elas” começaram a cantar vindas da nossa esquerda, para lá da cerca de arame farpado que ficava 50 ou 60 metros.  Porque os sujeitinhos atacantes ouviam a nossa voz no silêncio da noite escura, os tiros vinham bem dirigidos a nós e, antes de os dois nos atirarmos para o chão, o fuzo ficou apenas como gargalo da garrafa de bagaço que trazia mas, como era bem experiente naquelas andanças, de imediato destravou a G3 e começou a responder ao tiroteio e, aí, o foguetório tornou-se ainda mais intenso sobre nós. Os gajos viam os fogachos da G3 do amigo fuzileiro e tomaram-nos como alvo e, aí, o furriel “maçarico” ficou bem mais preocupado e tratou de rastejar o mais depressa possível para fugir daquela encrenca. E, felizmente, nem eu nem o meu companheiro fomos molestados. E foi assim que amiga G3 foi em simultâneo útil – muito útil! - mas também perigosa.

E pronto. Agora vai para abate depois de ter cumprido brilhantemente a sua importante missão na guerra.

Outro tanto não pode dizer-se dos homens que a fizeram usar…

NOTA FINAL – Ficam duas imagens em que a minha fiel amiga me fez companhia. Uma, quando regressamos ao quartel no dia festivo de 11 de Outubro de 1968 em que passava um ano de comissão e sabíamos da saída daquele inferno para outra zona mais calma e menos perigosa e, uma outra quando, cansados e abatidos, chegamos à segurança do aquartelamento vindos de um patrulhamento nas matas de kms que perigosamente o circundavam.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

UMA DATA SEMPRE LEMBRADA


Na verdade, sempre que anualmente atingimos o dia 11 de Outubro, inevitavelmente vem-me à memória a mesma data de calendário mas do ano de 1967, dia em que, mobilizado, me meteram num barco (Paquete Niassa) atracado no Cais de Santa Apolónia, em Lisboa, com destino a Angola para aí ir fazer a guerra.

Denominava-se então pomposamente de “mobilização” o acto forçado de irmos combater e, para o caso de não gostarmos do “convite”, só tínhamos a fuga para o estrangeiro como alternativa... E ainda houve muitos que, durante os 13 anos que duraram as guerras em Angola, Guiné e Moçambique, optaram por essa dolorosa alternativa.

A viagem até Luanda, com duração de 11 dias, correu muito bem para os graduados (oficiais e sargentos) alojados em 1ª Classe e Turística respectivamente e tomando as refeições de optima qualidade no excelente restaurante do paquete. Eu (furriel) viajei numa cabina com mais 3 meus camaradas de igual graduação. 1 beliche de 2 camas de cada lado, corredor ao meio e sanitários ao fundo. Os oficiais, porque em 1ª Classe, talvez tivessem mais um pouco de comodidade mas pouco mais seria, penso... Juntávamo-nos e comíamos por igual no mesmo restaurante.

Mas, se nós graduados, viajávamos assim bem instalados e com boa comida, outro tanto não se passava com os pobres soldados que, dormindo em beliches encavalitados uns em cima dos outros nos fundos porões do barco, só viam luz e sol e respiravam algum ar pela abertura existente no seu centro e por onde habitualmente se fariam as cargas e descargas do paquete. Positivamente e na verdadeira acepção da palavra, os nossos soldados viajavam que… nem gado.

A ementa do jantar de despedida no Niassa
A ventilação, feita exclusivamente por essa entrada dos porões era praticamente nula, o calor era insuportável e, juntando a isto o cheiro a azedo dos vómitos de alguns mais incomodados com os balanços do barco e os fraquíssimos locais para se executar a higiene pessoal e tendo também ainda em conta que uma grande percentagem desses rapazes, vindos de pobres aldeias do Minho, não teriam muitos esses hábitos, o cheiro naqueles horríveis espaços era absolutamente insuportável. Fui lá duas ou três vezes em serviço e achei incrível que se transportasse e mantivesse seres humanos naquelas circunstâncias. Verdadeiramente inadmissível!

Mas, se isto já era horrível, o cenário ainda se agravou e complicou muito mais quando os nossos pobres soldados, aí pelo meio do viagem, sofreram uma... intoxicação alimentar. Então, foi o caos absoluto! Naquelas condições higiénicas era impossível e desumano ter rapazes ali a rebolarem-se com dores, a vomitarem e a gemerem e até gritarem de aflição e então os responsáveis autorizaram que os pobres-coitados avançassem para as classe 1ª e Turística e, no chão dos corredores, se deitassem tentando aliviar a forte indisposição e os vómitos. Foi o caos completo com os corredores pejados de rapazes que, sem se poderem conter, urinavam, defecavam, vomitavam! Horrível!
O porão com os beliches dos soldados juntos com a carga.

O caso foi tão grave e alarmante que os responsáveis chegaram a ponderar alterar e desviar a rota do paquete e atracar na Guine para que em terra se debelasse a situação. Mas, acabou por não ser necessário. Após 2 ou 3 dias em que os soldados estiveram mal, ou por um ou outro comprimido tomado, ou for força da sua juventude e da sua constituição física, robusta e saudável, começaram a registar melhorias de saúde e logo se recompuseram. Felizmente! 

Mas foi aflitivo, deveras! 

Aflitivo e até revoltante porque, à boa maneira daqueles tempos, o Comando das tropas informou as mesmas que a indisposição resultou da... “travessia da linha do Equador” associada às altas temperaturas que se registavam naqueles dias... Assim mesmo. E comunicaram isso sem rirem… Lembro-me que nós, graduados, rijos e valentes sorrimos… para dentro...

Enfim… coisas daqueles tempos.

E a 22, passados dez dias no mar, lá atracamos em Luanda a que, no caso do meu Batalhão, se somou mais uma semana de camioneta de carga, de novo que nem gado, comboio e novamente camioneta, até atingirmos Cazombo e depois Lumbala no leste angolano, bem juntinho à fronteira com a então Rodésia, hoje Zambia. 

E hoje por aqui me fico neste rememorar de um velho e árduo passado naquela malfadada guerra forçada.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O SR. CAPITÃO


Vindo da sua alentejana Ponte de Sor, de onde era natural, na companhia de parte da sua família mais chegada (pai, madrasta e uma irmã) o jovem de 26 anos Eduardo Alvega Capitão , o “sr. Capitão” como sempre viria a ser conhecido e tratado, chega ao Chouto em meados da década de cinquenta do século passado e fixa-se no Casal de Vale da Bezerra, propriedade que seu pai havia tomado de renda para exploração agrícola onde sobressaía o cultivo e produção de arrozais em assinalável escala.

Jovem, alto, elegante e bem parecido, de voz melodiosa, conversa pausada e fluente, a sua presença desde a primeira hora fez-se notar não só por isso mas também porque o seu contacto com todos era educado, cordial e muito cativante e, desta forma, foi-lhe fácil granjear a admiração e o apreço da população local.

Mas tinha ainda dois factores mais que, ao correr do teclado agora ocorre  lembrar e sublinhar: o nosso jovem fazia-se transportar num moderno e desportivo automóvel (Volkswagen Karmann Ghia) de cor belíssima (igual ao da imagem anexa), coisa muito rara para a época e só ao alcance de certas bolsas e, como era conhecido por “sr. Capitão”, tinha quem fizesse a analogia do seu apelido com um suposto graduado na carreira militar e era ver como a muitos e muitas (com elevado destaque para certas moças de idades casadouras...) lhes causava uma admiração muito especial…

Mas o sr. Capitão, embora assim se apresentasse no Chouto e aldeias vizinhas, não era um estouvado “play boy” como poderia imaginar-se e, antes, era um jovem sereno, ponderado e com os pés bem assentes na terra.

Com idade para procurar a mulher que deveria ser sua fiel companheira para a vida e ainda que passeando em carro desportivo, último modelo e ser para algumas um capitão (militar), factores de grande atracção, Eduardo Capitão sabia bem isso e jamais se precipitou.

Nos seus primeiros tempos na aldeia tratou de analisar as muitas e variadas amizades que se lhe apresentavam para melhor conhecer as pessoas e as coisas que o cercavam e foi fazendo  a sua selecção…

Conversava e convivia cordialmente com toda a gente sem excepção mas as visitas e conversas eram mais frequentes e, no seu reconhecimento confesso com quem firmou mais amizade foi “com os Barretos, Antero e filho Zeca”, “com os alfaiates Acácio Varela e Arlindo Texugo” e, sobretudo, com o comerciante José Azevedo.

Foi com este último que Eduardo Capitão mais se identificou “via nele uma pessoa, educada, de caracter, de cultura e muito conhecedor da vida e das coisas” confessaria e, na verdade, os dois amigos conversavam amiudadas vezes durante largos tempos naquela época, tanto mais porque José Azevedo também apreciava muito a sensatez, cortesia e educação do seu jovem amigo.

Tendo então entre 10 e 14 anos de vida nessa data este escriba, porque ouvia uma ou outra vez os diálogos travados e também por confidências posteriores do seu progenitor, ele pode hoje aqui afirmar que muitas vezes as conversas versavam sobre a intenção de Eduardo arranjar noiva e as dificuldades inerentes a encontrar jovem que se enquadrasse nos seus desejos. 


José Azevedo, então com os seus já experientes 40/45 de idade sendo mais de 20 de conhecimento dos – e das… - habitantes na região, amigo do seu amigo como ninguém, também desejava que o seu jovem e bom amigo seguisse um rumo acertado e feliz e é neste quadro que, um belo dia, aconselha o amigo (“sr. Eduardo”, como sempre o tratou):

- Sr. Eduardo, anos passados tive um grave conflito com Custódio Pinheiro e o seu filho respeitante a uma casa que esse proprietário me arrendou e que me levou a cortar relações com eles que jamais reatarei porque são pessoas com quem mais não me interessa relacionar mas isso não me impede de lhe indicar a sua filha Alice, uma boa rapariga que, estou convicto, muito provavelmente será uma excelente esposa e o poderá fazer feliz. Do pai e do irmão não gosto mas isso nada me impede de reconhecer nela uma optima pessoa! Tente uma aproximação e poderá ser feliz.

Eduardo Capitão segue o conselho do amigo, faz algumas deslocações à Ribeira de Ulme, alguns kms distante, onde a recomendada noiva vive e consegue os seus objectivos de uma primeira aceitação. Convivem, trocam ideias, namoram durante algum tempo e, passado ele, um dia chega ao Chouto junto do seu amigo e diz-lhe:

- Sr. Azevedo (como sempre o tratou) participo-lhe que eu e Alice vamos casar! Gostaria muito de o convidar para a cerimónia e para a boda mas não me atrevo a isso porque sei a sua resposta face à sua incompatibilidade com os meus futuros sogro e cunhado, mas creia que é com muita pena que não verei o sr. Azevedo naquela data única da minha vida que o amigo, com o seu caracter e saber, ajudou a concretizar.

José Azevedo reconhecido e certamente reconfortado, abraça o amigo Eduardo e deseja-lhe felicidades!

Os anos passaram, José Azevedo partiu em 1978 muito prematuramente e o sr. Capitão viu também partir a sua amada Alice em 2010, depois de uma vida em conjunto de muitos anos bons e felizes e, agora, com quase 91 anos, raciocina em pleno, ainda passeia, convive com familiares e amigos, frequenta com entusiasmo a Universidade Sénior da Chamusca, vila onde mora, navega na internet com progressiva evolução no seu conhecimento, conduz a sua viatura (que não o desportivo carro dos anos 50, claro) e continua a ser o mesmo senhor de então: educado, correcto, cordial e amigo! A pé desloca-se amparado a uma bengala, se bem que a saúde não o incomode sobremaneira “a não ser os ouvidos, porque não me conseguem acertar com os aparelhos...” confessaria a este escriba que conhece desde adolescente dos seus belos tempos no Vale da Bezerra.

Para além de tudo isto, o sr. Capitão faz questão de estar presente no Chouto nos diversos eventos organizados pelo Grupo na net CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE, como atesta a imagem junta registada por ocasião da festa do 2º aniversário do Grupo, onde contou a este seu amigo alguns detalhes da sua muita amizade com José Azevedo onde sobressai o seu aconselhamento da noiva, facto que desconhecia, consentindo que o divulgasse e onde teria a oportunidade de confessar: 

- Seu pai teve influência no meu casamento! A sua amizade e caracter permitiu-me arranjar uma excelente, amada e saudosa esposa!

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

CHOUTO - FESTEJAMOS O 2º ANO DO GRUPO!


Um conjunto de situações conjugadas impediram-me de dispor de tempo e condições para aqui registar a bonita festinha realizada no meu Chouto natal no passado dia 14 na comemoração do 2º aniversário do nosso Grupo CHOUTO -  NOSSA TERRA, NOSSA GENTE ocorrido no dia anterior mas, finalmente, venho fazê-lo aqui hoje com alegria e prazer.

(Primeiro foram uns quantos dias a tratar e editar imagens de fotos e vídeos da bonita jornada para publicação na página do Grupo, depois foi uma viagem ao Norte e outra até aos achigãs e, pelo meio, ainda suportei 2, 3 dias de forte indisposição (náuseas) por via do reforço da medicação, a mando do médico, numa tentativa de minorar ou travar a “simpática” Parkinson, última “aquisição” desta já usada carcaça…)

Decorreu lindamente a festinha, como a do 1º ano celebrada com um almoço no Restaurante Pimenta no Chouto claro, mas a que desta vez se adicionou uma animada sessão de música e canções interpretadas por amigos integrantes do Grupo, de entre os quais sobressaiu a colaboração do amigo Adriano Cruz, o velho “Ervilha” companheiro de brincadeira de criança nas ruas da aldeia que, agora, com a sua muita experiência adquirida com dezenas de anos e centenas de actuações em palcos integrando conjuntos musicais, animou sobre-maneira de arte e saber a nossa festa, dando-lhe um saudado e aplaudido cunho de alegria e até mesmo familiaridade! A amabilidade e saber do nosso Ervilha, para além de ter sido diversificada e alegre, foi mesmo ao valioso detalhe de criar com sabedoria e bairrismo o que chamou de Ode ou Hino do Grupo. Gostei e gostamos muito, seguramente! 

Houve palavrinhas amigas relativas ao Grupo e à comemoração e até mesmo a criação de aplaudidas quadras alusivas, declamadas pela autora Ana Maria Matos, amiga  que, logo de seguida, também teve a amabilidade de oferecer-me um bem sortido conjunto de doces, compotas e licores, rica produção e criação da nossa freguesia, numa gentileza que muito me sensibilizou!  

Nas palavras que proferi salientei o prazer que me dá a manutenção do nosso Grupo e o saudável e amigo ambiente ali criado e mantido, destaquei a transposição que progressivamente vamos fazendo passando da amizade virtual para a real, palpável e pessoal com estes nossos regulares encontros e convívios; disse da minha vontade de prosseguir com o mesmo querer do 1º dia e anunciei um próximo evento a 14 de Dezembro, data em que ali no Chouto voltaremos a encontrar-nos para, no mesmo restaurante, saborearmos um bom e rico Cozido à Portuguesa – as “Couves com Carne” da nossa infância e juventude mas agora mais “compostas e ricas”, como lembrei… - e, como remate desse convívio, visitarmos o magnífico Centro de Acolhimento da nossa terra – chamei-lhe mesmo “hotel de 5 estrelas”! -, desejando Bom Natal aos seus utentes e colaboradores e ofertando-lhes individualmente uma “Cestinha de Natal” contendo algum recheio para a confecção dos fritos e doces da quadra. Com agrado verifiquei que todos os 30 convivas presentes saudaram com entusiasmo esta iniciativa e por todos foi garantida a sua participação. Francamente, fiquei agradecido e… emocionado.

O Grupo, agora já com mais de 6 centenas de aderentes, continua muito participado e até interveniente na causa choutense e, para além das muitas e interessantes publicações de muita e diversa ordem de vários dos seus integrantes, vai provocando a curiosidade e interesse de vários sectores que solicitam a sua colaboração para eventos e enviam mesmo convites para a nossa presença nessas realizações. É interessante e, para mim, que gosto do administrar, tem sido agradável e gratificante.

É verdade que por vezes já me provoca algum trabalho pelas muitas publicações que regularmente são feitas e acarreta algumas preocupações, não tanto como resultado de quezílias ou desencontro de ideias e processos que uma ou outra vez ocorrem mas, sobretudo, porque gosto de manter um bom ambiente, uma boa colaboração e, como o faço com gosto e prazer, não me queixo do trabalho despendido e aqui estou já no 3º ano com o mesma dedicação e vontade do 1º dia, prosseguido a pequena obra que penso ser útil à minha terra natal e às suas gentes amigas.

Faço-o sempre com o mesmo e único espírito: servir!

Ninguém me encomendou o “sermão” - e desde os meus 15 anos de idade que assim é… - mas, nasci assim, apaixonado pela minha terra, pela minha região e pela sua gente e assim terminarei certamente o fim dos meus dias!…

Manias…

NOTA FINAL – Junto aí fotos alusivas à comemoração, com uma imagem do instante do soprar na velinha deste 2º ano, como no 1º por parte dos amigos menos jovens presentes Eduardo Capitão e António da Rosa na companhia do seu neto João Pedro, o mais jovem dos convivas presentes; um instantâneo de Ana Maria Matos na declamação das suas quadras; também uma foto do amigo Adriano durante a sua aplaudida e diversificada actuação; e, finalmente, este rapazinho ostentando a gostosa oferta dos doces choutenses com que foi presenteado.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

JOSÉ E MARIA, O MENINO, O AGUAMENTO E A CADELA DA "CALISTRA"


José, filho de carpinteiro, aprendia o ofício com o pai quando, subitamente, vê surgirem-lhe complicações pulmonares que o forçam a internamento no hospital da sua Chamusca natal.

Porque a cura demora a chegar, a estadia hospitalar prolonga-se e José aproveita esse período para colher os primeiros e elementares ensinamentos de enfermagem (conhecimentos que viriam a ser-lhe valiosos durante a sua vida futura) e, chegada finalmente a cura, o jovem ouve do médico que o assistiu na maleita o conselho para não prosseguir na profissão de carpinteiro, se queria ter um vida futura duradoura e saudável…

Porque José tinha a 4ª classe de ensino escolar básico - coisa não muito vulgar na época - sabia ler, escrever e fazer contas com desenvoltura, surge a ideia de prosseguir a sua vida laboral como ajudante na mercearia do cunhado Antero, de porta aberta com sucesso no pequeno Chouto, aldeia a várias léguas da sua Chamusca, já na charneca ribatejana, por estrada de muitas curvas, esburacada, poeirenta no Verão e encharcada no Inverno. 

Conversado e acertado o compromisso com a irmã Henriqueta e o cunhado Antero, o nosso jovem deixa então com tristeza a sua sempre amada vila e muda-se para a pequena aldeia, ficando hospedado em casa dos agora seus novos anfitriões.

Depressa se concluiu que José, jovem, inteligente, desempoeirado e desenvolto, tinha jeito e queda para o comércio e por isso o sucesso aconteceu e o jovem comerciante sentia-se bem e feliz com a sua nova vida. Não obstante nunca esquecer a sua amada vila, que visitava sempre que podia, começou a apreciar o ambiente da pequena aldeia, a criar e a alargar amizades e, e deu mesmo inicio a uma abordagem que lhe viria a transformar a vida radicalmente, quando conheceu Maria e tentou uma aproximação...

Maria, jovem e bonita, era a 4ª filha de Gregório e Maria “Arroteadora”, como era conhecida por ter vindo com o marido e as 4 filhas do concelho de Abrantes para arrotearem as terras incultas. Maria, de feições rosadas e bonitas, alegre, ágil e vendendo vida, era analfabeta, labutava com as irmãs e os pais nas terras bravias e no cultivo das searas e hortas da propriedade e com uma beleza que dava nas vistas, era mesmo conhecida nas redondezas por “Maria bonita”.

Todavia, para alguns, ao pé do jovem José, comerciante, inteligente, letrado, astuto e sabedor, Maria não “casava”... Sem saber ler e escrever, inculta, de mãos calejadas pelos cabos das enxadas, das foices ou das forquilhas; de pele tostada pelo árduo sol da charneca, sem cremes ou pinturas das senhoras da vila, parecia a alguns nitidamente um enlace improvável de se concretizar. Parecia mas… não foi!

José aguentou não só as primeiras recusas da “Maria bonita” como também as criticas de familiares e amigos - como poderia ser um jovem e inteligente comerciante, casar com uma rapariga do campo e ainda para mais analfabeta? - mas o jovem insistiu, insistiu e o namoro primeiro e o casamento depois, aconteceram mesmo.

Montaram casa na mesma rua da residência da irmã e da mercearia e casaram em 1943 na Igreja Matriz da amada Chamusca e, algum tempo decorrido José, inteligente e ambicioso, comercialmente “ganha novas asas”: pressente um negócio a nascer, deixa a mercearia do cunhado e estabelece-se por conta própria como vendedor de máquinas de costura, peça então “obrigatória” no enxoval com que os pais gostavam de presentear as filhas casadoiras.

O negócio corria bem, o relacionamento entre José e Maria era excelente e, por via disso eram felizes e, naturalmente, meses passados do enlace, a jovem  esposa engravida. Engravida e, dentro do período normal, dá à luz o seu 1º e bonito rebento, um filho varão. Feliz, José pensa de imediato dar-lhe o nome de Leandro mas Ricardina, vinda da grande Lisboa convidada para madrinha do pequeno e que já havia sido sua madrinha no casamento, opõe-se determinando:

- Leandro nunca, Zé! Victor! Vai chamar-se Victor, que é muito mais bonito! - e o afilhado, embora contrariado, aceita. E o menino é registado como Victor.

Inicia-se então a sua criação normal, bonita e feliz durante um ano e, com o menino crescendo, já com esse aninho de vida, algo surge de triste e preocupante: o pequeno Victor deixa de comer com o apetite habitual; pede e quer tudo para ingerir mas rejeita tudo; começa a surgir pálido e a definhar; os cabelinhos começam a ficar de pé; geme e chora a toda a hora... Maria, angustiada, chora, acha mesmo que o seu adorado filhinho vai morrer...

Profundamente preocupados, Maria, José e seus familiares interrogam-se e José leva o menino ao médico seu amigo na Chamusca que o observa e receita alguns medicamentos que logo são dados ao pequenino na esperança que surja a desejada cura...

Mas a situação mantém-se dia após dia, com o menino sempre na mesma ou mesmo pior. Sem comer, pálido, cabelos em pé, enfezado e os preocupados pais cada vez mais angustiados...

É então que Maria ouve da mãe, das irmãs e das vizinhas: 

- O menino tem “augamento”! O menino está “augado”! Só melhora e fica bom com a “mesinha” para o “augamento”. Faz-lhe a “mesinha”, Maria!

Maria chega a casa e fala a José do conselho da “mesinha” e ouve do jovem marido um rotundo “não”. 

- Mesinhas? Mesinhas??? Gente ignorante! 

José, de outra cultura, nascido e criado na vila, tinha formação bem diferente de Maria, analfabeta, aldeã, mulher do campo... Que ninguém trocasse a ciência e os médicos pelas “mesinhas”e pelas “benzedoras”! Ninguém! (De seu lema e certeza de toda a vida, só uma vez, muitos anos após haveria de abdicar desta convicção quando, face a gravíssima doença da sua Maria lhe adivinhava a morte em virtude dos milhentos médicos e especialistas consultados não lhe atinarem com a doença e consequente remédio e tolerou que alguém levasse uma peça de roupa da esposa para que a “benzedora” lhe indicasse o tratamento).

Mas Maria, não obstante não querer nem poder contrariar José, não desistiu. O menino estava magrinho, definhado, ia morrer e isso desesperava-a. Conversa com a cunhada “mana” Henriqueta, senhora bondosa, extremamente educada e sua preferida confidente. E a “mana” - carinhoso tratamento que sempre usaram entre si - ainda que extremamente religiosa e de cultura igual à do irmão, ouve a confidência da cunhada e acede em ajudá-la na realização da “mesinha” porque, para além de sentir a dor da “mana”, também ela tinha um carinho enlevado e muito especial pelo pequenino sobrinho. Uma condição acertaram mutuamente: José jamais poderia saber da sua “mesinha”!

Dizia a crença que a mãe do aguado bebé deveria pedir as umas quantas vizinhas umas porções de ingredientes para serem cozinhadas e depois o pequeno ingerir. Se a criança comesse toda a papa fabricada excelente mas, se todavia não comesse tudo, nenhum ser vivo deveria ingerir o resto porque… morria.

Maria e Henriqueta fazem a papa às escondidas e dão-na ao pequeno Victor que a ingere colher a colher, até mais não querer, perante o ar embevecido e esperançado das mulheres e deixa um pequeno resto na malga, a que havia que dar o destino final…

Maria, preocupada e curiosa, pergunta a Henriqueta: 

- E agora, mana? Que fazemos ao resto que o menino não quis?

- Olhe, damos à cadela da “Calistra” que todos os dias não me desampara a porta!

E dão o resto da papa à cadela da vizinha Helena, de alcunha “Calistra”.

Maria leva o menino para casa e passadas algumas horas começa a notar no menino  melhorias  de ânimo e aspecto. Aguarda mais um dia e perante uma noite bem descansada da criança, avança lesta e sorridente para casa de Henriqueta, anunciando-lhe feliz:

- Mana, o menino está melhor! Passou bem a noite e ao acordar pediu papa que logo lhe dei, nem lhe digo como, de tão feliz!

Henriqueta, como o irmão sempre descrente e discordante de “mesinhas”, abriu a boca de espanto e, feliz, abraçou-se à cunhada!

- Que bom, mana! Que alegria! Mas tenho de lhe  dizer uma coisa…

- O quê? - pergunta a ansiosa Maria, imaginando algo de menos bom que viesse toldar aquela hora feliz.

- A cadela da “Calistra” morreu! A Ti Helena, pesarosa, veio há pouco aqui dizer-me “Dª Henriqueta, estou muito triste, a minha cadela morreu!”

Maria ia caindo para o lado de espanto mas logo se refez quando Henriqueta lhe lembrou:

- Mana, mas o segredo é só nosso, está bem? Que nem a Ti Helena nem ninguém saiba que demos à cadela a sobra da “mesinha”!

Maria acedeu de bom grado e a “mesinha” foi silenciada durante vários anos para tudo, para todos e também para o marido e, só muito mais tarde no tempo, quando em casa se falava na cura do Victor, entretanto já bem crescido, José ficou a conhecer a “travessura” das mulheres e, aí, contrapôs de imediato:

- Balelas! Crendices! Ignorâncias! O menino curou-se com os remédios do dr. Cumbre, que logo avisou que a cura seria demorada.

Maria e Henriqueta sorriam.

Remédio da farmácia na cura? “Mesinha”? A cada um sua verdade...

Como verdade foi o Victor curar-se!

E, a morte da pobre cadela? De que morreu a cadela da Ti “Calistra”?… 

A cada um sua verdade...


NOTA FINAL – Junto ao texto 4 fotos: Uma do casamento de José e Maria à saída da cerimónia na Igreja Matriz da Chamusca; outra do 2º dia do casamento, com alguns convidados, a madrinha Ricardina sentada na frente, o pai da noiva, as irmãs e alguns namorados destas; uma 3ª de José, em 1950, exibindo as máquinas de costura de que era vendedor; e uma última foto do pequeno Victor, provavelmente com 1 ano de vida, entre as tias maternas Domingas e Luísa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O MEU CHOUTO NATAL DISPENSA A "CAMPANHA"



Na minha aldeia natal, sempre limpa  e impecável, há muitos anos que há o excelente hábito de não deitar “beatas” de cigarro para o chão, pelo que se dispensa essa “campanha de sensibilização”.

Nem beatas, nem papeis pelo chão, nem cartazes de propaganda política afixados sem ser nos locais próprios, nem lixo ou sujidades nas ruas e passeios.

Recordo-me até que, tempos atrás, de visita ao Chouto, impressionado com a limpeza das ruas e num contraste evidente com as da sua aldeia natal na distante Beira Alta,  perguntava-me Tio António Rebelo, velho beirão entretanto falecido, que levei a conhecer a minha terra natal: 
- Victor, na sua terra ninguém fuma?
- Fumam sim, tio. Porquê?
- Tenho estado a reparar e não vejo uma beata no chão!…

Fiquei babado...

(Deixo imagem da capa do jornal “I” de hoje e uma foto do saudoso Tio António quando, em 2005, o levei ao Chouto.) 

sábado, 31 de agosto de 2019

E ESTA?


Há mais de 40 anos a pescar achigãs em grandes e pequenas barragens do Ribatejo e Alentejo, só hoje descobri (fiquei a saber) que algumas delas criam ameijoas.

Com as águas cada dia mais baixas, vi-as nesta represa que fica na fronteira entre as duas províncias, para aí a 3 ou 4 dezenas de kms do meu Chouto natal.

Numa massa de água proveniente apenas da chuva e de fraca nascente que logo seca, rodeada de pinheiros e sobreiros, como ali foram parar as primeiras ameijoas, é pergunta obrigatória para a qual não tenho resposta...

E, na verdade, estamos sempre a aprender.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

MISERÁVEIS...


Arrancado da cama pelas 6 da matina por quem me tocava contínua e prolongadamente à campainha da porta de patim, sou surpreendido com a visão de um agente da política acompanhado do gerente da empresa responsável pelo condomínio do prédio na grande cidade:

- Bom dia! O sr. foi à sua garagem e deixou o portão aberto? - pergunta-me o agente.
- Penso que não mas pode ter acontecido…
. Venha connosco porque certamente assaltaram-lhe a garagem!…

E fui de imediato. Mesmo em pijama peguei o elevador e dei-me com o aparato habitual num assalto a que infelizmente já estou habituado: arrombamento, tudo remexido na busca de valores e, feita um rápida análise, prejuízo zero para além da reparação do portão arrombado.

Como desde sempre vivo esperando estas “visitas” nem os carros fecho e, assim, livro-me da despesa inerente ao seu arrombamento e, como também ficam sempre vazios de objectos de valor, restar-lhes-ia, não levando os dois veículos, sacar-lhes os rádios... Mas não se deram a esse trabalho os meliantes e nem a bicicleta e a trotineta do meu neto lhes interessou…

Armários abertos sem remeximentos, sacos e saquinhos despejados avulso e só os receptáculos dos carros foram abertos e “esventrados” do seu conteúdo. Procurariam os desgraçados pequenos objectos de valor, certamente…

Outros meus vizinhos sofreram iguais consequências desta invasão e o agente de autoridade disse-me que, pela área, mais “visitinhas” destas estes desgraçados têm efectuado…

Miseráveis!...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

VELHOS NACOS DO MEU CHOUTO ANTIGO (3)


A FEIRA DE 1968 


Nesta sequência de apresentações de velhos nacos do meu Chouto Antigo relativos a extractos retirados da correspondência recebida durante a minha permanência em Angola por ocasião da minha comissão na Guerra Colonial deixo hoje a 3ª pérola dessas narrações.

Conhecedor da minha paixão pela terra natal e sabedor de quanto apreciava as notícias das ocorrências locais, o meu solicito pai como já o confessei noutras situações anteriores, tudo me narrou durante esses mais de dois anos de ausência forçada nas terras africanas.

Desta vez e em aerograma datado de 1/7/1968, cujo extracto aí deixo, é descrita a passagem da Feira de S. Pedro nos dias anteriores, o seu ambiente e as suas incidências onde sobressai a evidente decadência na frequência de visitantes, a inevitável referência à falta da energia electrica e sobretudo a actividade fraudulenta dos vendedores da “banha da cobra” que então se aproveitavam da ingenuidade dos incautos locais para se apropriarem de proveitos ilícitos.

Imaginando a dificuldade na leitura da caligrafia deixo a “tradução”:

“ É hoje 2ª feira, escrevo-te para te dizer que assim se passou a feira, sem nada de especial a registar, a não ser um grande calor que andamos para morrer. Na feira, mesmo na hora de mais movimento pouca gente se via porque era impossível lá andar. Os feirantes dizem que fizeram algum negócio mas foi só rente à noite e ontem, domingo. Se tivessemos electricidade à noite alguma coisa faziam, assim paciência. No dia da feira pouca gente aqui veio para casa porque da Parreira, Marianos, Ulme e Chamusca não vieram à feira. De onde veio alguém foi do Semideiro e ainda foi o que valeu. Não veio carrossel, umas barraquitas de jogos e mais nada. Mas a feira é sempre jeitosa e ainda tinha muitos feirantes, muitas barracas de fatos feitos, etc. Mas tudo muito sossegado porque não havia qualquer música. Ontem é que estiveram os propagandistas a dar navalhas, sabonetes, etc. As pessoas iam recebendo todas contentes, eles por vezes diziam “agora é vendido”, recebiam o dinheiro e depois voltavam a restitui-lo, até que caíram com 100$00 para um xaile que pode valer 20 ou 30$00, julgavam que eles voltavam a dar os 100$00 mas enganaram-se. Eles foram entretendo a malta a dar-lhe uns sabonetes enquanto outros arrumavam a mercadoria no carro e depois piraram-se. A malta ainda lhes quis cercar o carro mas eles meteram para baixo para embalarem o carro mais rápido e depois passaram para cima em grande velocidade a dizer adeus com a mão.”  

E é assim, por vezes dando volta à velha correspondência de meu saudoso pai, saboreando estarrecido estas deliciosas narrações e “alimentando-me” de algum passado, que vivo muitos dos dias de hoje…

E gosto!

sexta-feira, 12 de julho de 2019

GUERRA COLONIAL - PAI, SOFRE...


É sabido que as guerras, sendo elas quais forem, sempre trazem, seja aos que nelas participam, seja aos seus familiares e amigos, a dor, o sofrimento, o medo e, tantas vezes, a morte. Todas são assim e a Guerra Colonial, que sofremos, não fugiu à regra.

Medo. O medo que existia das consequências mais funestas que eventualmente pudessem advir tínhamos nós, envolvidos no teatro de operações e tinham também os nossos amigos e sobretudo familiares mais chegados, nomeadamente irmãos e pais.

E é sobre esse medo que hoje me proponho escrever, passados que estão alguns instantes sobre a minha sempre retemperadora visita feita a correspondências trocadas nesses recuados tempos da obrigatória vida militar e da forçada guerra em Angola.

Se tenho poucas memórias desse medo sofrido por minha doce mãe, porque era analfabeta e não podia exprimir-se por escrito, outro tanto não posso dizer de meu saudoso pai que me escrevia todas as semanas, uma, duas e em determinada ocasião talvez mesmo por três vezes, sempre de forma detalhada e particularmente expressiva. Meu pai escrevia muito bem e reler a sua correspondência é um prazer pessoal francamente gratificante.

Falava-me de tudo o que se passava na aldeia e isso terei de abordar numa próxima crónica porque é deveras interessante a forma como abordava diversas ocorrências da terra mas, nesta, quero relembrar e documentar o muito medo sofrido pelo meu querido progenitor, medo não surgido somente durante a minha estadia na guerra mas que nasceu muito antes, logo quando fui incorporado no exército e que se agravou depois com a inevitável mobilização para a contenda.

Eu, na altura, como já narrei em anteriores crónicas, apaixonado pelas coisas da comunicação social, escrevia em vários jornais, sendo o mais saliente o “Diário de Notícias”. Tudo o que surgia digno de nota na região eu mandava para publicação e algumas crónicas e reportagens mereceram várias vezes apreço e elogio dos homens do DN e, quando esses escritos resultavam em exclusivos na imprensa nacional, recebia mesmo bons elogios pela minha actividade, deixando aí dois exemplos de missivas recebidas..






















Meu pai sabia desses louvores e, olhando para isso, que se lembra o bom do pai sofredor com o filhinho prestes a embarcar para a guerra? Sem me dizer absolutamente nada – certamente esperançado na surpresa que me faria com a feliz notícia da minha desmobilização, penso eu…. - e sabedor da muita influência da direcção do DN na política nacional de então - o “Diário de Notícias” era o jornal do regime -, resolve escrever aos homens argumentando e pedindo mais ou menos por estas palavras: “Já que vocês gostam, apreciam e elogiam tanto o meu filho pelo que escreve para o jornal, não percam esse serviço e intercedam para que ele seja desmobilizado da guerra!”.

Assim, mais palavra, menos palavra porque citado de memória, era o que José Azevedo queria para o filhinho e que constava da carta cuja cópia me mostrou posteriormente…

Se antes de a enviar me tem confessado os seus intentos tê-lo-ia demovido e acordá-lo-ia do seu sonho, mas não o fez… Era sabido e aí ele tinha razão, que os homens do jornal (administração, direcção e jornalistas) tinham muita influência na política de então mas, muito antes disso, eles eram principalmente grandes e mesmo enormes seguidores e defensores das políticas de Salazar e Caetano e por isso entendiam que os territórios africanos eram parte integrante de Portugal que havia que defender a todo o custo pelo que, desta forma, quantos mais jovens para África melhor e, desmobilizar um só que fosse, era pecado de lesa-majestade.

E, como era inevitável, foi a resposta que Zé Azevedo teve na volta do correio e foi quando da sua correspondência tive conhecimento e isto porque, vinda da direcção do jornal recebeu o meu pai uma carta contendo uma verdadeira e suposta lição de amor pátrio, que o indignou muito, missiva que me estendeu para ler quando cheguei a casa no fim-de-semana seguinte à sua recepção, dizendo-me entre indignado e mesmo ofendido:
- Lê os que estes gajos me responderam depois de eu lhes pedir para te livrarem da guerra?.

Foi então que me contou todas as suas pretensões ao escreveres-lhes, resultante confesso do muito medo que tinha do amado filho embarcar para a guerra.

Ah e o que dizia a carta dos homens? 

Pois… o esperado: Que ele deveria ter muito orgulho do filho que tinha! Que deveria ter muito orgulho e estar feliz por ele ir para a guerra defender a nossa querida pátria dos ataques traiçoeiros dos seus inimigos! Que era um dever honroso de todos os bons portugueses! Que ele haveria de lutar, defender o nosso país e regressar de saúde e feliz pelo dever cumprido!

Pois!… Só acertaram na questão da saúde… 

Então, se esta vivência agora narrada e algo patusca foi vivida antes da partida para a guerra, tenho mais duas situações ocorridas durante ela e que aqui quero registar documentando também com a correspondência enviada pelo meu saudoso amigo de sempre e que são testemunhos do enorme e compreensível medo com que viveu todos aqueles anos.

A primeira é, em simultâneo, um misto do falado medo que sentia e também da forma como o clero religioso sempre esteve comprometido e colaborante com a política de então dos regimes de António Salazar e Marcelo Caetano, numa colaboração e cooperação sempre bem visível por tudo e todos. Mas,com factos reais, a consciência disso é bem maior...

No pequeno trecho do seu aerograma, escreve o assustado pai: 


“Há dias, tinha o padre Zé abalado daqui há poucas horas, ouvi parar à porta um carro, era ele com um papel na mão e diz-me: “venho numa missão muito ingrata morreu um rapaz das Folgas e telefonaram-me para mim, vou dizer à família.” Podes calcular, antes dele dizer “um rapaz das Folgas”, o meu coração parece que saiu do seu lugar. Não sei o que isto quer dizer, volta e meia pregam-me cada susto que me deixam por momentos arrasado. Não lhe disse nada e fui com ele dar a triste notícia aquela gente que andavam em cima de uma oliveira a apanhar azeitona. Fui eu que os mandei descer porque o padre não sabia o que fazer. O rapaz morreu em Moçambique mas de doença no hospital.”.

E, se este episódio é bem triste e não justifica o mínimo sorriso, atestando o enorme medo sentido pelo meu tão saudoso pai (admirando-me todavia como o desatento padre Zé abordasse o assunto daquela forma, esquecendo que o fazia a um pai que também tinha o filho na guerra...), outro tanto não aconteceu na outra situação que até deu para rir, embora também nos fale de uma morte porque, para nós, rapazes novos embrenhados na guerra mas conhecedores da realidade que nos cercava, foi na altura um bom bocado hilariante… Malta nova… 

Passo a contar:

Desde a formação do Batalhão e depois durante toda a guerra tive como companheiro diário, como já escrevi em anteriores crónicas, o Joel Costa, hoje escritor e conferencista mas naquela data cantor de ópera no Coro do Teatro Nacional de S. Carlos, coisa que o meu pai sabia por, certamente, uma ou outra vez lhe ter contado dado que o Joel era um dos nossos mais cultos, esclarecidos e personalizados camaradas. Porque convivíamos e sofríamos as mesmas agruras e sempre tivemos um excelente relacionamento, era natural que por vezes escrevesse sobre o amigo Joel e por isso o meu pai sabia da sua existência.

Aconteceu então que num determinado dia no leste angolano recebi como correspondência do meu pai não os habituais aerogramas mas, dessa vez, um carta. Abri e logo me caiu aos pés um recorte de jornal com o anúncio da morte em combate de um furriel. O nome do infortunado era Joel, com um determinado apelido que não me acorre e possivelmente não voltarei a saber porque, vá lá saber-se porquê, a carta não me surge junto da correspondência de então… Eu, que faço questão de tudo guardar, não sei onde estará a dita carta mas lembro-me bem que o recorte do jornal dava conta da morte do dito Joel, informando que o falecido era filho de determinada pessoa cujo nome me passou, pessoa que era na altura, informava o anúncio, director da Orquestra da então Emissora Nacional, sendo este porventura o detalhe, penso, que levou o meu pai a confundir com o Coro do S. Carlos...

E então, que escrevia o meu doloroso Zé Azevedo na carta? Mais ou menos estas palavras, que cito de memória: “Meu querido filho, tu dizes sempre que estás numa zona calma, que não tens sofrido ataques dos turras mas o meu coração sempre me disse que não é assim e a prova aqui está neste recorte do “Diário de Notícias” que te envio com a notícia da morte em combate do teu amigo Joel. Fiquei muito triste e aflito porque imagino o que passaste e como estarás e já falei com o padre Zé para celebrar uma missa por alma do teu amigo. Além disso vou escrever aos pais, dizendo quem sou, informando-os da missa e apresentando-lhe as minhas condolências.”

Dá para imaginar o que senti a ler tamanha dor e simultaneamente tão grande confusão do meu querido pai, né? De imediato contei a situação ao Joel e acho que também a outros camaradas e rimos, claro. Rimos bem. Malta nova e despreocupada dá para imaginar as divertidas risadas...

Apressei-me a esclarecer devidamente o meu pai e não deixei de lhe confessar que rimos com a sua confusão, coisa que depois me arrependi porque talvez não gostasse de saber que rimos com a sua aflição. Mas o mal estava feito, vê-se pela resposta que deu que aí incluo que talvez não tivesse apreciado muito o nosso riso e logo lhe respondi que rimos porque estavamos todos muito bem, tudo calmo e só esperando que o tempo passasse. Enfim, mentindo um bocadinho, tentei sossegá-lo e animá-lo.

Passados mais uns dias recebi num aerograma a informação que os pais do inditoso furriel lhe responderam agradecendo a atenção e a missa mandada celebrar e descrevendo como ocorreu a morte do filho. Fica também aí um recorte da correspondência.

Histórias reais, vividas e bem sentidas na hora e que, hoje, francamente, provocam-me  e eventualmente poderão provocar a quem as lê um misto de hilaridade e tristeza porque “tudo corre bem quando acaba bem” e porque foram vivências com muitos queridos familiares e amigos que infelizmente há muito não nos dão a alegria e o prazer da sua presença…

A vida, tal como ela se nos apresenta; a morte tal como inevitavelmente a temos de viver...