quarta-feira, 11 de setembro de 2019

JOSÉ E MARIA, O MENINO, O AGUAMENTO E A CADELA DA "CALISTRA"


José, filho de carpinteiro, aprendia o ofício com o pai quando, subitamente, vê surgirem-lhe complicações pulmonares que o forçam a internamento no hospital da sua Chamusca natal.

Porque a cura demora a chegar, a estadia hospitalar prolonga-se e José aproveita esse período para colher os primeiros e elementares ensinamentos de enfermagem (conhecimentos que viriam a ser-lhe valiosos durante a sua vida futura) e, chegada finalmente a cura, o jovem ouve do médico que o assistiu na maleita o conselho para não prosseguir na profissão de carpinteiro, se queria ter um vida futura duradoura e saudável…

Porque José tinha a 4ª classe de ensino escolar básico - coisa não muito vulgar na época - sabia ler, escrever e fazer contas com desenvoltura, surge a ideia de prosseguir a sua vida laboral como ajudante na mercearia do cunhado Antero, de porta aberta com sucesso no pequeno Chouto, aldeia a várias léguas da sua Chamusca, já na charneca ribatejana, por estrada de muitas curvas, esburacada, poeirenta no Verão e encharcada no Inverno. 

Conversado e acertado o compromisso com a irmã Henriqueta e o cunhado Antero, o nosso jovem deixa então com tristeza a sua sempre amada vila e muda-se para a pequena aldeia, ficando hospedado em casa dos agora seus novos anfitriões.

Depressa se concluiu que José, jovem, inteligente, desempoeirado e desenvolto, tinha jeito e queda para o comércio e por isso o sucesso aconteceu e o jovem comerciante sentia-se bem e feliz com a sua nova vida. Não obstante nunca esquecer a sua amada vila, que visitava sempre que podia, começou a apreciar o ambiente da pequena aldeia, a criar e a alargar amizades e, e deu mesmo inicio a uma abordagem que lhe viria a transformar a vida radicalmente, quando conheceu Maria e tentou uma aproximação...

Maria, jovem e bonita, era a 4ª filha de Gregório e Maria “Arroteadora”, como era conhecida por ter vindo com o marido e as 4 filhas do concelho de Abrantes para arrotearem as terras incultas. Maria, de feições rosadas e bonitas, alegre, ágil e vendendo vida, era analfabeta, labutava com as irmãs e os pais nas terras bravias e no cultivo das searas e hortas da propriedade e com uma beleza que dava nas vistas, era mesmo conhecida nas redondezas por “Maria bonita”.

Todavia, para alguns, ao pé do jovem José, comerciante, inteligente, letrado, astuto e sabedor, Maria não “casava”... Sem saber ler e escrever, inculta, de mãos calejadas pelos cabos das enxadas, das foices ou das forquilhas; de pele tostada pelo árduo sol da charneca, sem cremes ou pinturas das senhoras da vila, parecia a alguns nitidamente um enlace improvável de se concretizar. Parecia mas… não foi!

José aguentou não só as primeiras recusas da “Maria bonita” como também as criticas de familiares e amigos - como poderia ser um jovem e inteligente comerciante, casar com uma rapariga do campo e ainda para mais analfabeta? - mas o jovem insistiu, insistiu e o namoro primeiro e o casamento depois, aconteceram mesmo.

Montaram casa na mesma rua da residência da irmã e da mercearia e casaram em 1943 na Igreja Matriz da amada Chamusca e, algum tempo decorrido José, inteligente e ambicioso, comercialmente “ganha novas asas”: pressente um negócio a nascer, deixa a mercearia do cunhado e estabelece-se por conta própria como vendedor de máquinas de costura, peça então “obrigatória” no enxoval com que os pais gostavam de presentear as filhas casadoiras.

O negócio corria bem, o relacionamento entre José e Maria era excelente e, por via disso eram felizes e, naturalmente, meses passados do enlace, a jovem  esposa engravida. Engravida e, dentro do período normal, dá à luz o seu 1º e bonito rebento, um filho varão. Feliz, José pensa de imediato dar-lhe o nome de Leandro mas Ricardina, vinda da grande Lisboa convidada para madrinha do pequeno e que já havia sido sua madrinha no casamento, opõe-se determinando:

- Leandro nunca, Zé! Victor! Vai chamar-se Victor, que é muito mais bonito! - e o afilhado, embora contrariado, aceita. E o menino é registado como Victor.

Inicia-se então a sua criação normal, bonita e feliz durante um ano e, com o menino crescendo, já com esse aninho de vida, algo surge de triste e preocupante: o pequeno Victor deixa de comer com o apetite habitual; pede e quer tudo para ingerir mas rejeita tudo; começa a surgir pálido e a definhar; os cabelinhos começam a ficar de pé; geme e chora a toda a hora... Maria, angustiada, chora, acha mesmo que o seu adorado filhinho vai morrer...

Profundamente preocupados, Maria, José e seus familiares interrogam-se e José leva o menino ao médico seu amigo na Chamusca que o observa e receita alguns medicamentos que logo são dados ao pequenino na esperança que surja a desejada cura...

Mas a situação mantém-se dia após dia, com o menino sempre na mesma ou mesmo pior. Sem comer, pálido, cabelos em pé, enfezado e os preocupados pais cada vez mais angustiados...

É então que Maria ouve da mãe, das irmãs e das vizinhas: 

- O menino tem “augamento”! O menino está “augado”! Só melhora e fica bom com a “mesinha” para o “augamento”. Faz-lhe a “mesinha”, Maria!

Maria chega a casa e fala a José do conselho da “mesinha” e ouve do jovem marido um rotundo “não”. 

- Mesinhas? Mesinhas??? Gente ignorante! 

José, de outra cultura, nascido e criado na vila, tinha formação bem diferente de Maria, analfabeta, aldeã, mulher do campo... Que ninguém trocasse a ciência e os médicos pelas “mesinhas”e pelas “benzedoras”! Ninguém! (De seu lema e certeza de toda a vida, só uma vez, muitos anos após haveria de abdicar desta convicção quando, face a gravíssima doença da sua Maria lhe adivinhava a morte em virtude dos milhentos médicos e especialistas consultados não lhe atinarem com a doença e consequente remédio e tolerou que alguém levasse uma peça de roupa da esposa para que a “benzedora” lhe indicasse o tratamento).

Mas Maria, não obstante não querer nem poder contrariar José, não desistiu. O menino estava magrinho, definhado, ia morrer e isso desesperava-a. Conversa com a cunhada “mana” Henriqueta, senhora bondosa, extremamente educada e sua preferida confidente. E a “mana” - carinhoso tratamento que sempre usaram entre si - ainda que extremamente religiosa e de cultura igual à do irmão, ouve a confidência da cunhada e acede em ajudá-la na realização da “mesinha” porque, para além de sentir a dor da “mana”, também ela tinha um carinho enlevado e muito especial pelo pequenino sobrinho. Uma condição acertaram mutuamente: José jamais poderia saber da sua “mesinha”!

Dizia a crença que a mãe do aguado bebé deveria pedir as umas quantas vizinhas umas porções de ingredientes para serem cozinhadas e depois o pequeno ingerir. Se a criança comesse toda a papa fabricada excelente mas, se todavia não comesse tudo, nenhum ser vivo deveria ingerir o resto porque… morria.

Maria e Henriqueta fazem a papa às escondidas e dão-na ao pequeno Victor que a ingere colher a colher, até mais não querer, perante o ar embevecido e esperançado das mulheres e deixa um pequeno resto na malga, a que havia que dar o destino final…

Maria, preocupada e curiosa, pergunta a Henriqueta: 

- E agora, mana? Que fazemos ao resto que o menino não quis?

- Olhe, damos à cadela da “Calistra” que todos os dias não me desampara a porta!

E dão o resto da papa à cadela da vizinha Helena, de alcunha “Calistra”.

Maria leva o menino para casa e passadas algumas horas começa a notar no menino  melhorias  de ânimo e aspecto. Aguarda mais um dia e perante uma noite bem descansada da criança, avança lesta e sorridente para casa de Henriqueta, anunciando-lhe feliz:

- Mana, o menino está melhor! Passou bem a noite e ao acordar pediu papa que logo lhe dei, nem lhe digo como, de tão feliz!

Henriqueta, como o irmão sempre descrente e discordante de “mesinhas”, abriu a boca de espanto e, feliz, abraçou-se à cunhada!

- Que bom, mana! Que alegria! Mas tenho de lhe  dizer uma coisa…

- O quê? - pergunta a ansiosa Maria, imaginando algo de menos bom que viesse toldar aquela hora feliz.

- A cadela da “Calistra” morreu! A Ti Helena, pesarosa, veio há pouco aqui dizer-me “Dª Henriqueta, estou muito triste, a minha cadela morreu!”

Maria ia caindo para o lado de espanto mas logo se refez quando Henriqueta lhe lembrou:

- Mana, mas o segredo é só nosso, está bem? Que nem a Ti Helena nem ninguém saiba que demos à cadela a sobra da “mesinha”!

Maria acedeu de bom grado e a “mesinha” foi silenciada durante vários anos para tudo, para todos e também para o marido e, só muito mais tarde no tempo, quando em casa se falava na cura do Victor, entretanto já bem crescido, José ficou a conhecer a “travessura” das mulheres e, aí, contrapôs de imediato:

- Balelas! Crendices! Ignorâncias! O menino curou-se com os remédios do dr. Cumbre, que logo avisou que a cura seria demorada.

Maria e Henriqueta sorriam.

Remédio da farmácia na cura? “Mesinha”? A cada um sua verdade...

Como verdade foi o Victor curar-se!

E, a morte da pobre cadela? De que morreu a cadela da Ti “Calistra”?… 

A cada um sua verdade...


NOTA FINAL – Junto ao texto 4 fotos: Uma do casamento de José e Maria à saída da cerimónia na Igreja Matriz da Chamusca; outra do 2º dia do casamento, com alguns convidados, a madrinha Ricardina sentada na frente, o pai da noiva, as irmãs e alguns namorados destas; uma 3ª de José, em 1950, exibindo as máquinas de costura de que era vendedor; e uma última foto do pequeno Victor, provavelmente com 1 ano de vida, entre as tias maternas Domingas e Luísa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O MEU CHOUTO NATAL DISPENSA A "CAMPANHA"



Na minha aldeia natal, sempre limpa  e impecável, há muitos anos que há o excelente hábito de não deitar “beatas” de cigarro para o chão, pelo que se dispensa essa “campanha de sensibilização”.

Nem beatas, nem papeis pelo chão, nem cartazes de propaganda política afixados sem ser nos locais próprios, nem lixo ou sujidades nas ruas e passeios.

Recordo-me até que, tempos atrás, de visita ao Chouto, impressionado com a limpeza das ruas e num contraste evidente com as da sua aldeia natal na distante Beira Alta,  perguntava-me Tio António Rebelo, velho beirão entretanto falecido, que levei a conhecer a minha terra natal: 
- Victor, na sua terra ninguém fuma?
- Fumam sim, tio. Porquê?
- Tenho estado a reparar e não vejo uma beata no chão!…

Fiquei babado...

(Deixo imagem da capa do jornal “I” de hoje e uma foto do saudoso Tio António quando, em 2005, o levei ao Chouto.) 

sábado, 31 de agosto de 2019

E ESTA?


Há mais de 40 anos a pescar achigãs em grandes e pequenas barragens do Ribatejo e Alentejo, só hoje descobri (fiquei a saber) que algumas delas criam ameijoas.

Com as águas cada dia mais baixas, vi-as nesta represa que fica na fronteira entre as duas províncias, para aí a 3 ou 4 dezenas de kms do meu Chouto natal.

Numa massa de água proveniente apenas da chuva e de fraca nascente que logo seca, rodeada de pinheiros e sobreiros, como ali foram parar as primeiras ameijoas, é pergunta obrigatória para a qual não tenho resposta...

E, na verdade, estamos sempre a aprender.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

MISERÁVEIS...


Arrancado da cama pelas 6 da matina por quem me tocava contínua e prolongadamente à campainha da porta de patim, sou surpreendido com a visão de um agente da política acompanhado do gerente da empresa responsável pelo condomínio do prédio na grande cidade:

- Bom dia! O sr. foi à sua garagem e deixou o portão aberto? - pergunta-me o agente.
- Penso que não mas pode ter acontecido…
. Venha connosco porque certamente assaltaram-lhe a garagem!…

E fui de imediato. Mesmo em pijama peguei o elevador e dei-me com o aparato habitual num assalto a que infelizmente já estou habituado: arrombamento, tudo remexido na busca de valores e, feita um rápida análise, prejuízo zero para além da reparação do portão arrombado.

Como desde sempre vivo esperando estas “visitas” nem os carros fecho e, assim, livro-me da despesa inerente ao seu arrombamento e, como também ficam sempre vazios de objectos de valor, restar-lhes-ia, não levando os dois veículos, sacar-lhes os rádios... Mas não se deram a esse trabalho os meliantes e nem a bicicleta e a trotineta do meu neto lhes interessou…

Armários abertos sem remeximentos, sacos e saquinhos despejados avulso e só os receptáculos dos carros foram abertos e “esventrados” do seu conteúdo. Procurariam os desgraçados pequenos objectos de valor, certamente…

Outros meus vizinhos sofreram iguais consequências desta invasão e o agente de autoridade disse-me que, pela área, mais “visitinhas” destas estes desgraçados têm efectuado…

Miseráveis!...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

VELHOS NACOS DO MEU CHOUTO ANTIGO (3)


A FEIRA DE 1968 


Nesta sequência de apresentações de velhos nacos do meu Chouto Antigo relativos a extractos retirados da correspondência recebida durante a minha permanência em Angola por ocasião da minha comissão na Guerra Colonial deixo hoje a 3ª pérola dessas narrações.

Conhecedor da minha paixão pela terra natal e sabedor de quanto apreciava as notícias das ocorrências locais, o meu solicito pai como já o confessei noutras situações anteriores, tudo me narrou durante esses mais de dois anos de ausência forçada nas terras africanas.

Desta vez e em aerograma datado de 1/7/1968, cujo extracto aí deixo, é descrita a passagem da Feira de S. Pedro nos dias anteriores, o seu ambiente e as suas incidências onde sobressai a evidente decadência na frequência de visitantes, a inevitável referência à falta da energia electrica e sobretudo a actividade fraudulenta dos vendedores da “banha da cobra” que então se aproveitavam da ingenuidade dos incautos locais para se apropriarem de proveitos ilícitos.

Imaginando a dificuldade na leitura da caligrafia deixo a “tradução”:

“ É hoje 2ª feira, escrevo-te para te dizer que assim se passou a feira, sem nada de especial a registar, a não ser um grande calor que andamos para morrer. Na feira, mesmo na hora de mais movimento pouca gente se via porque era impossível lá andar. Os feirantes dizem que fizeram algum negócio mas foi só rente à noite e ontem, domingo. Se tivessemos electricidade à noite alguma coisa faziam, assim paciência. No dia da feira pouca gente aqui veio para casa porque da Parreira, Marianos, Ulme e Chamusca não vieram à feira. De onde veio alguém foi do Semideiro e ainda foi o que valeu. Não veio carrossel, umas barraquitas de jogos e mais nada. Mas a feira é sempre jeitosa e ainda tinha muitos feirantes, muitas barracas de fatos feitos, etc. Mas tudo muito sossegado porque não havia qualquer música. Ontem é que estiveram os propagandistas a dar navalhas, sabonetes, etc. As pessoas iam recebendo todas contentes, eles por vezes diziam “agora é vendido”, recebiam o dinheiro e depois voltavam a restitui-lo, até que caíram com 100$00 para um xaile que pode valer 20 ou 30$00, julgavam que eles voltavam a dar os 100$00 mas enganaram-se. Eles foram entretendo a malta a dar-lhe uns sabonetes enquanto outros arrumavam a mercadoria no carro e depois piraram-se. A malta ainda lhes quis cercar o carro mas eles meteram para baixo para embalarem o carro mais rápido e depois passaram para cima em grande velocidade a dizer adeus com a mão.”  

E é assim, por vezes dando volta à velha correspondência de meu saudoso pai, saboreando estarrecido estas deliciosas narrações e “alimentando-me” de algum passado, que vivo muitos dos dias de hoje…

E gosto!

sexta-feira, 12 de julho de 2019

GUERRA COLONIAL - PAI, SOFRE...


É sabido que as guerras, sendo elas quais forem, sempre trazem, seja aos que nelas participam, seja aos seus familiares e amigos, a dor, o sofrimento, o medo e, tantas vezes, a morte. Todas são assim e a Guerra Colonial, que sofremos, não fugiu à regra.

Medo. O medo que existia das consequências mais funestas que eventualmente pudessem advir tínhamos nós, envolvidos no teatro de operações e tinham também os nossos amigos e sobretudo familiares mais chegados, nomeadamente irmãos e pais.

E é sobre esse medo que hoje me proponho escrever, passados que estão alguns instantes sobre a minha sempre retemperadora visita feita a correspondências trocadas nesses recuados tempos da obrigatória vida militar e da forçada guerra em Angola.

Se tenho poucas memórias desse medo sofrido por minha doce mãe, porque era analfabeta e não podia exprimir-se por escrito, outro tanto não posso dizer de meu saudoso pai que me escrevia todas as semanas, uma, duas e em determinada ocasião talvez mesmo por três vezes, sempre de forma detalhada e particularmente expressiva. Meu pai escrevia muito bem e reler a sua correspondência é um prazer pessoal francamente gratificante.

Falava-me de tudo o que se passava na aldeia e isso terei de abordar numa próxima crónica porque é deveras interessante a forma como abordava diversas ocorrências da terra mas, nesta, quero relembrar e documentar o muito medo sofrido pelo meu querido progenitor, medo não surgido somente durante a minha estadia na guerra mas que nasceu muito antes, logo quando fui incorporado no exército e que se agravou depois com a inevitável mobilização para a contenda.

Eu, na altura, como já narrei em anteriores crónicas, apaixonado pelas coisas da comunicação social, escrevia em vários jornais, sendo o mais saliente o “Diário de Notícias”. Tudo o que surgia digno de nota na região eu mandava para publicação e algumas crónicas e reportagens mereceram várias vezes apreço e elogio dos homens do DN e, quando esses escritos resultavam em exclusivos na imprensa nacional, recebia mesmo bons elogios pela minha actividade, deixando aí dois exemplos de missivas recebidas..






















Meu pai sabia desses louvores e, olhando para isso, que se lembra o bom do pai sofredor com o filhinho prestes a embarcar para a guerra? Sem me dizer absolutamente nada – certamente esperançado na surpresa que me faria com a feliz notícia da minha desmobilização, penso eu…. - e sabedor da muita influência da direcção do DN na política nacional de então - o “Diário de Notícias” era o jornal do regime -, resolve escrever aos homens argumentando e pedindo mais ou menos por estas palavras: “Já que vocês gostam, apreciam e elogiam tanto o meu filho pelo que escreve para o jornal, não percam esse serviço e intercedam para que ele seja desmobilizado da guerra!”.

Assim, mais palavra, menos palavra porque citado de memória, era o que José Azevedo queria para o filhinho e que constava da carta cuja cópia me mostrou posteriormente…

Se antes de a enviar me tem confessado os seus intentos tê-lo-ia demovido e acordá-lo-ia do seu sonho, mas não o fez… Era sabido e aí ele tinha razão, que os homens do jornal (administração, direcção e jornalistas) tinham muita influência na política de então mas, muito antes disso, eles eram principalmente grandes e mesmo enormes seguidores e defensores das políticas de Salazar e Caetano e por isso entendiam que os territórios africanos eram parte integrante de Portugal que havia que defender a todo o custo pelo que, desta forma, quantos mais jovens para África melhor e, desmobilizar um só que fosse, era pecado de lesa-majestade.

E, como era inevitável, foi a resposta que Zé Azevedo teve na volta do correio e foi quando da sua correspondência tive conhecimento e isto porque, vinda da direcção do jornal recebeu o meu pai uma carta contendo uma verdadeira e suposta lição de amor pátrio, que o indignou muito, missiva que me estendeu para ler quando cheguei a casa no fim-de-semana seguinte à sua recepção, dizendo-me entre indignado e mesmo ofendido:
- Lê os que estes gajos me responderam depois de eu lhes pedir para te livrarem da guerra?.

Foi então que me contou todas as suas pretensões ao escreveres-lhes, resultante confesso do muito medo que tinha do amado filho embarcar para a guerra.

Ah e o que dizia a carta dos homens? 

Pois… o esperado: Que ele deveria ter muito orgulho do filho que tinha! Que deveria ter muito orgulho e estar feliz por ele ir para a guerra defender a nossa querida pátria dos ataques traiçoeiros dos seus inimigos! Que era um dever honroso de todos os bons portugueses! Que ele haveria de lutar, defender o nosso país e regressar de saúde e feliz pelo dever cumprido!

Pois!… Só acertaram na questão da saúde… 

Então, se esta vivência agora narrada e algo patusca foi vivida antes da partida para a guerra, tenho mais duas situações ocorridas durante ela e que aqui quero registar documentando também com a correspondência enviada pelo meu saudoso amigo de sempre e que são testemunhos do enorme e compreensível medo com que viveu todos aqueles anos.

A primeira é, em simultâneo, um misto do falado medo que sentia e também da forma como o clero religioso sempre esteve comprometido e colaborante com a política de então dos regimes de António Salazar e Marcelo Caetano, numa colaboração e cooperação sempre bem visível por tudo e todos. Mas,com factos reais, a consciência disso é bem maior...

No pequeno trecho do seu aerograma, escreve o assustado pai: 


“Há dias, tinha o padre Zé abalado daqui há poucas horas, ouvi parar à porta um carro, era ele com um papel na mão e diz-me: “venho numa missão muito ingrata morreu um rapaz das Folgas e telefonaram-me para mim, vou dizer à família.” Podes calcular, antes dele dizer “um rapaz das Folgas”, o meu coração parece que saiu do seu lugar. Não sei o que isto quer dizer, volta e meia pregam-me cada susto que me deixam por momentos arrasado. Não lhe disse nada e fui com ele dar a triste notícia aquela gente que andavam em cima de uma oliveira a apanhar azeitona. Fui eu que os mandei descer porque o padre não sabia o que fazer. O rapaz morreu em Moçambique mas de doença no hospital.”.

E, se este episódio é bem triste e não justifica o mínimo sorriso, atestando o enorme medo sentido pelo meu tão saudoso pai (admirando-me todavia como o desatento padre Zé abordasse o assunto daquela forma, esquecendo que o fazia a um pai que também tinha o filho na guerra...), outro tanto não aconteceu na outra situação que até deu para rir, embora também nos fale de uma morte porque, para nós, rapazes novos embrenhados na guerra mas conhecedores da realidade que nos cercava, foi na altura um bom bocado hilariante… Malta nova… 

Passo a contar:

Desde a formação do Batalhão e depois durante toda a guerra tive como companheiro diário, como já escrevi em anteriores crónicas, o Joel Costa, hoje escritor e conferencista mas naquela data cantor de ópera no Coro do Teatro Nacional de S. Carlos, coisa que o meu pai sabia por, certamente, uma ou outra vez lhe ter contado dado que o Joel era um dos nossos mais cultos, esclarecidos e personalizados camaradas. Porque convivíamos e sofríamos as mesmas agruras e sempre tivemos um excelente relacionamento, era natural que por vezes escrevesse sobre o amigo Joel e por isso o meu pai sabia da sua existência.

Aconteceu então que num determinado dia no leste angolano recebi como correspondência do meu pai não os habituais aerogramas mas, dessa vez, um carta. Abri e logo me caiu aos pés um recorte de jornal com o anúncio da morte em combate de um furriel. O nome do infortunado era Joel, com um determinado apelido que não me acorre e possivelmente não voltarei a saber porque, vá lá saber-se porquê, a carta não me surge junto da correspondência de então… Eu, que faço questão de tudo guardar, não sei onde estará a dita carta mas lembro-me bem que o recorte do jornal dava conta da morte do dito Joel, informando que o falecido era filho de determinada pessoa cujo nome me passou, pessoa que era na altura, informava o anúncio, director da Orquestra da então Emissora Nacional, sendo este porventura o detalhe, penso, que levou o meu pai a confundir com o Coro do S. Carlos...

E então, que escrevia o meu doloroso Zé Azevedo na carta? Mais ou menos estas palavras, que cito de memória: “Meu querido filho, tu dizes sempre que estás numa zona calma, que não tens sofrido ataques dos turras mas o meu coração sempre me disse que não é assim e a prova aqui está neste recorte do “Diário de Notícias” que te envio com a notícia da morte em combate do teu amigo Joel. Fiquei muito triste e aflito porque imagino o que passaste e como estarás e já falei com o padre Zé para celebrar uma missa por alma do teu amigo. Além disso vou escrever aos pais, dizendo quem sou, informando-os da missa e apresentando-lhe as minhas condolências.”

Dá para imaginar o que senti a ler tamanha dor e simultaneamente tão grande confusão do meu querido pai, né? De imediato contei a situação ao Joel e acho que também a outros camaradas e rimos, claro. Rimos bem. Malta nova e despreocupada dá para imaginar as divertidas risadas...

Apressei-me a esclarecer devidamente o meu pai e não deixei de lhe confessar que rimos com a sua confusão, coisa que depois me arrependi porque talvez não gostasse de saber que rimos com a sua aflição. Mas o mal estava feito, vê-se pela resposta que deu que aí incluo que talvez não tivesse apreciado muito o nosso riso e logo lhe respondi que rimos porque estavamos todos muito bem, tudo calmo e só esperando que o tempo passasse. Enfim, mentindo um bocadinho, tentei sossegá-lo e animá-lo.

Passados mais uns dias recebi num aerograma a informação que os pais do inditoso furriel lhe responderam agradecendo a atenção e a missa mandada celebrar e descrevendo como ocorreu a morte do filho. Fica também aí um recorte da correspondência.

Histórias reais, vividas e bem sentidas na hora e que, hoje, francamente, provocam-me  e eventualmente poderão provocar a quem as lê um misto de hilaridade e tristeza porque “tudo corre bem quando acaba bem” e porque foram vivências com muitos queridos familiares e amigos que infelizmente há muito não nos dão a alegria e o prazer da sua presença…

A vida, tal como ela se nos apresenta; a morte tal como inevitavelmente a temos de viver...

terça-feira, 25 de junho de 2019

QUANDO EU ERA "REGUILA"...


É mesmo verdade e, digamos que é da natureza humana: Com o avançar dos anos, com o somar dos aniversários e atingida que é uma determinada idade, começam a nascer na mente do “jovem de ontem” as recordações do caminho percorrido, as memórias das vivências sentidas, o rememorar dos dias e das situações passadas.

Está a passar-se comigo isso mesmo e vou aproveitando para registar por escrito o que a memória me trás sobre os dias passados e as alegrias, tristezas e vivências sentidas nos dias e anos vencidos. Penso depois passá-las a papel e a livro e pode ser que alguém um dia, quando este pobre escriba já for pó as leia,  eventualmente se divirta, ou então ache que fui muito atrevido, corajoso  talvez (sendo que outros me achariam então provocador…) e de certeza bastante “reguila” e serei nesta hora que corre meio sonhador, meio lunático...

Sim, porque só um “maluco” atrevido, ia “clandestino” a uma bruxa que andava a endoidecer na aldeia quem nela acreditava, provocando com a sua divulgação no jornal um enorme escândalo; escrevia que na sua freguesia tinha gente que vivia sem conhecer a então Previdência, hoje Segurança Social e no tempo feudal (Cantaro); e outra era escravizada a carregar por dezenas de kms os seus mortos para o Chouto por falta de cemitério na sua terra (Parreira/Salvador).Tudo isto em difíceis tempos passados, no dito chamado “da outra senhora”, em 1ªs páginas e com letras garrafais, sem receio da censura e de ser visto como do “contra”, do “reviralho”. E bem se sabia o que acontecia aos do “reviralho”...

As maluquices e os atrevimentos que tive, escrevi e publiquei, hoje admiram-me pela coragem de então e não sei se hoje as repetiria…

Coisas dos "vintes" anos... Coisas de juventude que queria mudar o mundo... Coisas de lunático...

Pensava em tudo isso quando me recordei que passam hoje 47 anos sobre a data (25/6/1972) da chegada ao meu Chouto natal da energia electrica, coisa porque tanto me bati em jornais, entrevistas, correspondências, etc. Pessoalmente não tinha força absolutamente nenhuma, era um verdadeiro “zero à esquerda”, mas não me calava...

Porque a minha freguesia era a única - e foi-o durante muitos anos! - que não tinha energia electrica, em detrimento de outros povoados que, sem serem sede de freguesia a tinham, fazia barulho e procurava lembrar e pressionar as pessoas e os organismos e, nem no dia da inauguração da luz, em pleno almoço festivo comemorativo, servido com pompa no salão do edifício da Junta de Freguesia e na presença de diversas autoridades civis, militares e religiosas, com destaque para os presidentes de várias Juntas de Freguesia, do Presidente da Câmara da Chamusca e sobretudo do Eng.º Carlos Amaral Neto que era só (!) a 2ª figura do Estado, porque era o Presidente da então Assembleia Nacional, este rapaz se calou, tendo atrevidamente destoado de todos os discursos alegres e festivos da hora que se vivia.

Na verdade, botei palavra de improviso durante uns extensos minutos e, embora manifestando o meu regozijo pela chegada da luz electrica, embora muito tardia, lembrei detalhadamente o muito que ainda era preciso realizar na minha terra. E recordei um ribeiro que era urgente tapar, a água que era necessária chegar, etc.

Fui muito contra a corrente da hora mas eu não podia perder a ocasião de me fazer ouvir pelas entidades oficiais e elas estavam ali à minha frente, em carne e osso e tinha que lhes dizer cara-a-cara como a minha terra estava esquecida, abandonada e… ofendida.

Ninguém me encomendou o sermão, certamente fui um bocado inconveniente mas, fiquei aliviado. Muito aliviado. Fiquei mesmo satisfeito.

Em resposta o Presidente da Câmara (o Presidente da Junta, por incrível que pareça, não usou da palavra em hora tão festiva para a freguesia…) manifestou regozijo pela inauguração e sobre as minhas pretensões disse que elas estavam inseridas no conjunto das aspirações do restante concelho (coisa que todos eles falavam bem mas não cumpriam, porque o Chouto estava sempre em último, dos últimos lugares…) e prometeu a água em breve (situação em que falhou redondamente porque ela só chegou muitos anos depois…).tendo afirmado mesmo “Portanto, amigo Victor Azevedo, vamos a pensar noutra coisa porque essa está arrumada.” Pois… até parecia que era verdade...

No final registei com gosto e algum prazer, devo confessar, que vi o eng Amaral Neto levantar-se do seu lugar para me vir cumprimentar na outra ponta da mesa, ao mesmo tempo que me dizia ao ouvido:
- Chore, amigo Victor Azevedo, chore porque… quem não chora não mama!…

Está tudo narrado de forma detalhada nas páginas do então “Jornal da Chamusca” (à excepção do conteúdo deste ultimo conselho porque me foi dito ao ouvido) e dela deixo aí uns pequenos recortes, deixando também uma foto da entrada das entidades oficiais para o almoço comemorativo da inauguração da energia electrica na bonita terra que me viu nascer.

E, como já disse, acho que hoje já não teria “estaleca” para tamanhas “reguilices”...

segunda-feira, 24 de junho de 2019

VENDI LIVROS DE PORTA-EM-PORTA (2)


“LIVROS A METRO”, A “GABRIELA” E OUTRAS PATUSCAS HISTÓRIAS


Nestas andanças a bater de porta em porta, a contactar e até mesmo a conviver diariamente com muita gente, vivi muitas e diversas situações que hoje, recorrendo à minha memória e ao correr do teclado, me proponho partilhar.

Todas as situações narradas são absolutamente verídicas, ainda que algumas pareçam fantasia como aquela em que uma jovem, bonita, loira e elegante senhora me abriu a porta de casa apenas envolta num alvo toalhão de banho, seguro pelos… dentes… Lembro-me que, para me saudar e cumprimentar, sem correr o risco de mostrar as suas certamente belas curvas – e não só… - usou depois a mão esquerda como suporte do toalhão enquanto me estendia a direita em respeitoso (?...) cumprimento...  Verdade! Tão verdade como agora aqui estar a carregar nestas teclas…

Na época este escriba era profissionalmente empregado de escritório, convivendo diariamente num gabinete com mais duas simpáticas e respeitáveis senhoras (Lurdes e Madalena) num excelente ambiente que ganhou raízes de amizade que ainda hoje perduram.. Como o trabalho era pouco conversavamos muito e, eu, falador e extrovertido como era, contava-lhes muitas das minhas vivências de porta em porta mas, esta da loira de toalhão, nunca contei, não… 

(Deixo aí, em foto da época, a imagem da fachada principal do nosso escritório da Sociedades Reunidas Reis, ao lado da Pastelaria Suiça, num 1º andar do Rossio lisboeta, sendo que o nosso gabinete dava para a Praça da Figueira, na fachada traseira).

Mas as colegas Lurdes e Madalena acompanhavam com interesse e mesmo algum carinho a minha trabalheira e, a propósito da minha admissão no escritório até acho interessante aqui recordar, coisa que só soube muito depois de abandonar a profissão e deixar o contacto diário com as duas senhoras, desvendado por uma delas muito posteriormente que, quando entrei ao serviço, para ali levado por um dos dois patrões da firma, que fazia o favor de ser meu amigo, que então fui olhado pelo pessoal com uma boa dose de desconfiança… Admitido e de confiança do patrão? “Cuidado com o gajo!”. “Vamos ficar de pé atrás com o bicho! Talvez seja um bufo”...


E, afinal, o que aconteceu durante os vários anos que fui seu colega? Fui eleito e reeleito por eles como Delegado Sindical – antes do 25 de Abril, note-se… - e membro da Comissão de Trabalhadores, após Abril. Defendi sempre os interesses de todos – que também eram os meus… - e convivi sempre perfeitamente com a Administração da empresa. Não foi fácil, sobretudo depois de 1974, fazer essa “ponte” mas cumpri as minhas missões de forma que me orgulho. Sem vaidade, porque natural.

Mas voltemos às minhas colegas de gabinete e ao Circulo de Leitores…

Vivíamos no tempo em que a televisão nos dava a “Gabriela”, a 1ª telenovela que se exibiu em TV e que trazia mais de meio país se não mesmo todo, pregado aos ecrãs naqueles 20 minutos de exibição. Era uma paixão e um vício ver as peripécias da Gabriela, do Nacib, do Coronel, do dr. Mundinho, da Gerusa, etc. Eu gostava particularmente do personagem dr. Ezequiel, que era o homem do jornal da cidade. Todo o mundo via a “Gabriela” e… eu também.

É então que um belo dia a colega Lurdes, curiosa, me pergunta:

- Mas, como consegue ver a “Gabriela” se anda fora a vender os livros?

Respondi-lhe logo:

- Fácil! Vejo em casa dos sócios. Quando nos corredores dos prédios ouço a música (genérico) da “Gabriela” vejo nas fichas que me acompanham em que apartamento tenho sócios do Circulo e bato à porta pedindo para me deixarem ver. Perco assim todas as noites 20 minutos e, acabado o episódio, saio e continuo o meu trabalho.

A colega, surpreendida:

- E tem lata para pedir isso? É à hora do jantar, não me diga que já tem jantado com alguns?…

- Não. Jantar nunca jantei porque tenho recusado as ofertas mas já comi várias vezes as sobremesas e, muitas vezes, tenho bebido uns cálicezinhos de Vinho do Porto.

A colega Lurdes abria a boca de espanto mas, não sei porquê…

Numa outra vez foi a colega Madalena, uma senhora apaixonada pela leitura e que, lembrando que o Circulo de Leitores na época fazia questão de produzir excelentes encadernações das suas obras com capas rígidas, robustas e usando muitas cores e sobretudo muitos dourados (de que deixo aí uma imagem de exemplo) caiam muito bem aos olhos de compradores - não leitores… -, que gostavam de ver as prateleiras dos móveis da sala com... livros bonitos.

- Mas o Azevedo tem consciência que poucos lêem os livros e só os compram porque ficam bem no móvel, não tem? - pergunta-me.

- Oh, se tenho! Sem dúvida! E ainda lhe conto mais: já vendi livros a metro!

- A metro??? - Interroga-me Madalena, de boca aberta de espanto – Como foi isso?

Esclarecia-a:

- Tratou-se de um casal em que ele é, por acaso, o Chefe da Esquadra da polícia. Compraram um móvel novo para a sala e acharam que determinada prateleira ficava bonita com uns livros, desejando que eles fossem de fora a fora na estante. Eu fui à revista, mostrei-lhes as imagens das obras que mais me interessava vender-lhes, eles escolheram e, como a revista indica as dimensões de cada exemplar, foi só somar os centímetros das lombadas dos livros e ver os que cabiam na prateleira. A senhora foi à caixa da costura buscar a fita métrica e foi só medir o espaço e fazer as contas. Fácil. Muito fácil!

Madalena, apaixonada por livros e sua assídua leitura, teve dificuldade em entender…

E termino com mais duas hilariantes e patuscas situações

Falava à porta de sua casa com uma senhora na data em que nasceu a minha filha, já lá vão uns aninhos e confessei-lhe que estava com alguma pressa porque teria de ir ver uma bebé que me havia nascido. A senhora ouviu sem nada dizer e, já depois de tratarmos da sua encomenda e nos despedirmos e quando eu já ia de costas voltadas, ela chama-me:

- O sr. Azevedo desculpe-me, disse-me que ia visitar uma bebé que lhe havia nascido, é sua filha ou sua neta?

Eu caí de riso com gargalhadas que, de tão estridentes, obrigaram os vizinhos do corredor a vir ver o que se passava… 

Coitada da senhora! Desfez-se em desculpas, sendo que eu na verdade desde muito novo fui deixando “nevar” na cabeça mas, daí aos 30 e qualquer coisa parecer avô?…

Uma outra patusca cena aconteceu quando entrei num determinado apartamento a convite dos seus moradores e encontrei uma idosa senhora toda de preto vestida, lenço na cabeça, tez morena eventualmente tostada pelo sol da horta, da charneca, do trabalho agrícola ou algo semelhante, quando mulher activa na sua aldeia natal.

Cabisbaixa, parecia-me triste, sentada em banco baixo, de pernas abertas, saia preta e comprida que fez com que recordasse pela posição de sentada da minha saudosa avó Maria. Saberia depois que era avó de um dos membros do jovem casal.

Entrei e depois de saudar os donos da casa, dirigi-me à triste avozinha:

- Boa noite! Como está a senhora?

- Eu estou mal, meu senhor! Obro mal! O senhor obra bem?

E, eu, entre pasmado e incrédulo, contendo-me em redobrado esforço para não sorrir enquanto ouvia em surdina uma reprimenda do casal à pobre avó pela inconveniência da pergunta, respondi-lhe suavemente:

- Eu obro!…

Pronto! E fico-me por aqui...

(Fotos retiradas da net.)

domingo, 23 de junho de 2019

VENDI LIVROS DE PORTA-EM-PORTA (1)


A ENTRADA, O PROVEITO, A SAÍDA


Vivíamos a 2ª metade da década de 70 do século passado… Casado poucos anos antes; um filho para criar; ordenado pequeno e mal pago – entregas a prestações, feitas sempre nos meses seguintes em empresa prestes a fechar portas -; renda da casa, água, luz, gás, etc,etc e a coisa não era muito promissora, não…

Decidi então, para fazer mais uns “cobres”, inscrever-me como Assistente do “Circulo de Leitores”, designação simpática dada pela editora aos seus vendedores de livros de porta em porta. Bem, em boa verdade, devíamos apenas contactar os sócios inscritos no Circulo mas, francamente, eu mandava isso “ás urtigas” e, como ganhava à comissão e importante era vender muito para ver mais“algum” remanescente, vendia livros, discos (LPs de vinil) e depois até serviços de pique-nique em plástico inquebrável, a todos os clientes com que tropeçava nos meus trajectos diários, sempre entre as 19 e 21,30 horas, ocasião em que encontrava em casa os sócios vindos dos empregos.


É desse trajecto e de várias e patuscas histórias então vividas que resolvo fazer umas narrações, sendo que, dada a sua extensão, vou redigir duas crónicas, deixando já nesta imagens dos troféus recebidos, narrando também o que foi o bom êxito da minha missão e sendo que, na próxima crónica, divulgarei umas quantas patuscas cenas então ocorridas.

Tinha um pouco mais de 400 sócios a visitar cada trimestre, em cujo término prestava contas e, para desempenhar com eficácia  o trabalho, havia que, nesses 3 meses, visitar várias vezes as mesmas pessoas. Primeiro, entregar a revista em mão para que o sócio escolhesse o que pretendia – podendo deixar as revistas nas caixas do correio eu fazia questão de as entregar em mão, não só porque assim era serviço mais personalizado e cortês como porque logo na ocasião tentava influenciar o “cliente” no sentido de requisitar esta ou aquela obra mais carota para que a minha comissão subisse… - depois, passados uns dias, ia levantar o pedido escrito num postalinho que vinha anexo à revista e depois, mais à frente, procedia à entrega das obras. 


Muitos, pagavam logo no todo mas, outros, faziam-no em prestações e outros marcavam os pagamentos para quando mais lhes convinha. Neste últimos casos, forçavam-me a voltar às portas quantas vezes as necessárias…

Como é bom de ver tudo isto implicava uma boa organização de ficheiros e agenda e, sobretudo, num assinalável esforço físico de subidas e descidas de escadas de prédios porque muitos não tinham elevador e, em determinada altura, por via do “verão quente” de 75 e do período agitado vivido que se seguiu e da muita doideira reinante, não havia condomínios nos prédios e, os que tinham ascensores, logo que avariavam tarde e más horas eram reparados. E tinha muitos sócios bem acima dos 4ºs andares…


Foram 4 anos assim e, mercê do esforço e dedicação, quando o Circulo resolveu começar a fazer classificação dos melhores Assistentes aqui o “je” sacou em 1979 o 34º lugar e, logo depois, no ano seguinte, um excelente 11º! Isto, num universo de várias centenas de Assistentes em todo o país! Um êxito bem interessante, acho!


Em cerimónias bonitas, com jantares a condizer (numa delas, sem que saiba porquê, convidaram-me para a mesa da direcção e fiquei ao lado do administrador da empresa!), foram entregues os respectivos troféus tendo este vaidoso rapaz recebido os de que aí deixa imagens.

No meu 4º e último ano de Assistente já não me esforcei tanto e não obstante os lamentos de muitos sócios, já habituados aos nossos sempre cordiais contactos, abandonei a “pasta”.  Já andava algo cansado e, como também já tinha iniciado a minha actividade na construção civil, deixei o cargo.

Surgiu então um familiar de uns meus vizinhos (por razões óbvias designo-o aqui por um suposto Rui Vitória) que pretendia ganhar algum dinheiro e apresentei-o ao Circulo passando-lhe o cargo.


Dada a afectividade existente entre mim e os sócios (chegava a petiscar, tomar “Portos” e até ver a novela “Gabriela” em casa de muitos) foi-me aconselhado pela empresa e pedido pelo próprio, que fizesse a transição e as apresentações aos sócios, ensinando-lhe as minhas tecnicas de venda e aconselhando o novel Assistente na melhor forma de desempenhar eficazmente as suas naturais pretensões de boas vendas.


Foi o que fiz de muito boa vontade… O amigo Rui Vitória (suposto nome, repito) acompanhou-me durante uns bons pares de serões em visitas a todos os sócios e instruí-o das melhores formas de lidar com a,b,c, etc, dando-lhe conta dos gostos e preferências de muitos deles  Mas a recomendação e conselho muito especial era principalmente uma: Ser: cortês, educado e diligente com todos porque isso seria meio caminho para ter bons resultados. Nunca criar atritos e usando o velho lema “o cliente tem sempre razão” contornar com inteligência e cortesia as complicações surgidas.


Ouvido e entendido tudo bem pelo amigo Rui, partimos para as visitas/apresentações mas, para meu desalento, muito cedo tive que o chamar a atenção e aconselhar a alterar a maneira como estava a processar-se a sua estreia…


Em boa verdade ainda esperei mais de uma ou duas vezes mas, depois da 3ª ou 4ª tive de intervir…

Acontecia que, feitas as apresentações e no final da inevitável conversinha, eu despedia-me com afectividade dos sócios amigos e, o nosso amigo Rui, apertando gentilmente a mão às senhoras, despedia-se desta forma:

- Rui Vitória para a servir!

Ouvida umas quantas vezes a “oferta”, tive de lhe dizer:


- Amigo Rui, que seja cortês, está bem mas… não exagere, tá?.

Para a servir???...

Eh! Eh!

sábado, 15 de junho de 2019

AVÔ E NETO, DE NOVO NA PESCA...


Hoje aconteceu de novo e, desta vez por imposição do Rafael, fomos só nós, ele e eu. Neto e avô, sem o pai, por exigência do ansioso novo pescador.

Começou a “aventura” logo ao sair da cama: 

- Deixa ver as horas: 6,50! O meu novo record em levantar da cama! - fez questão de registar, perante o riso dos avós.

Tomado o pequeno-almoço rumamos para Sul e, passado pouco mais de hora e meia estavamos junto à pequena represa na fronteira do Ribatejo com o Alentejo, numa herdade a que o Encarregado faz o favor de me facultar o acesso. Antes foi o abrir porteiras fechadas, o susto do rapazinho da cidade com os cães de guarda que, embora meigos e bonacheirões o assustam e o observar atento da vegetação que o cerca.


Antes, em tempos que já lá vão, teria observado na poeirenta estrada de terra ou à beira dela, um coelho ou talvez mesmo muitos coelhos bravos, uns casais de perdizes, uma ou outra fugidia lebre e, eventualmente até, um saca-rabos ou um texugo... Agora? Agora tudo são lembranças e saudades de avô bem vivido e recordado dessas cenas bonitas de outrora e agora não imagináveis para os jovens de hoje…

Mas voltemos à pesquinha do netinho e do avô.

De manhã o craque entreteve-se mas, por falta de prática e porque a linha ou se “encabelava” ou ficava presa num ou outro arbusto ou  até na ramagem de algum sobreiro, teve o avô que resolver as situações e, nalgumas vezes mesmo, substituir tudo por nova “aparelhagem” e retomada era a tarefa de tentar sacar as pequeninas percas que, malucas, se atiravam ao asticot que servia de isco.

O nosso Rafa sacou várias, ou mesmo muitas, mas foram quase todas devolvidas à água. Fritas, até são saborosas mas têm de ter um tamanho razoável…


Pela hora do almoço recorremos ao Fernando, velho conhecido das minhas andanças por aquelas paragens, no seu restaurante “Paraíso da Mata” ali juntinho a Lavre, já no Alentejo e, degustados por ele, um Bifinho com Ovo a Cavalo, arroz e batata frita e, por mim  um sempre excelente Ensopado de Borrego, partimos para a 2ª etapa do dia.

Um velho açude meu conhecido tinha a porteira aberta e, porque sei de ali “reinarem” uns bons achigãs, pensei em variar o local e proporcionar ao Rafael uma pesca diferente porque os pequenos achigãs têm por hábito atirar-se ao asticot em disputa com as percas… E foi isso mesmo que aconteceu e nosso pescador ferrou com asticot mais pequeninos achigãs que percas (tudo devolvido à água, claro!) e ainda tivemos a sorte de encontrar o açude bem limpo em boa parte das suas margens e, desta forma, o netinho tinha menos probabilidades de se ver atrapalhado com os lançamentos, a linha e a vegetação. Mas, mesmo assim, ainda lá estava a danada da ramagem de um chato sobreiro… eheh.

Mas deu para divertir, tanto mais que, a meio da tarde também peguei na minha cana e, com um “amostra” de 7 cms, procurei ferrar achigãs o que consegui por diversas vezes. Então, ferrado o peixe passava-lhe a cana para ele sentir o peso e o vibrar do achigã na ponta da linha. Sucedeu várias vezes e, quando se ferrou um de ¼ kg, o rapaz experimentou uma sensação bem diferente do habitual.

O pior, o pior é depois agarrar e tirar o peixe do anzol!… Nem pensar! Não só esse, como todos os outros, pequenos que fossem… 

- Ele mexe-se!… - queixava-se, perante os meus ralhos e risos disfarçados...

Tem receio dos peixinhos e ainda não entendi bem se é por medo de ser picado ou de ser mordido…

Mas já teve uma boa evolução no seu comportamento desde a última vez que foi à pesca: Antes, nem pegava no ariscos bichinhos de asticot mas, agora, isso já não aconteceu e até os sabe fixar no anzol.

A coisa vai evoluindo e a seu tempo as diversas etapas serão ultrapassadas!

A verdade é que o Rafael tem um excelente predicado para que se faça pescador: tem paciência!

Tem muita paciência para procurar e aguardar as ferragens dos peixes!

- Rafael é preciso pôr mais asticot no anzol!

- Deixa estar mais um pouco a insistir, avô!... 

O Rafa tem paciência e tem entusiasmo, exigências muito precisas num bom pescador!

Vamos ver…

E pode ser que um dia, quando o avô já for uma saudade, tropece nestas desalinhadas linhas e se lembre de quando ia à pesca com ele e… tinha receio dos peixinhos...

sábado, 8 de junho de 2019

SILVADO (ESPINHOSO) FLORIDO!


O sempre agressivo e espinhoso silvado que, em Agosto, graciosamente nos oferece as doces e saudáveis amoras, está hoje florido, bonito, cheiroso e é o paraíso das simpáticas e sempre úteis abelhas!