domingo, 9 de setembro de 2018

OS BAILARICOS DA MINHA JUVENTUDE (2)


FORA DE PORTAS 



António Rainha, António “Sebastião”, João “da Calistra”, José “Calado”, Diamantino “Carloto”, Fernando Carvalho, Manuel João “da Ester”, João “Toucinho”, Joaquim Lopes - e que me perdoem os que possivelmente ficaram esquecidos nesta fraca memória! -  eis os nomes da rapaziada, meus companheiros de juventude, alguns dos quais na foto do grupo da Inspecção Militar que junto (em que não surjo, sem  que me recorde do porquê) que bastas vezes me acompanharam nas idas a bailaricos diurnos e nocturnos, fora de portas, em que nos deslocavamos de bicicleta (hoje chamadas de “pasteleiras) por tudo quanto era sítio, nos diversos lugarejos que envolviam geograficamente o nosso Chouto natal.


A eles, uns vivos, felizmente, e outros que são já uma eterna saudade, fica o meu apreço, a minha estima e gratidão nesta recordação algo nostálgica de um belo passado e de uns bons momentos vividos na nossa juventude livre, despreocupada e alegre! Bem-hajam!

Íamos sempre acompanhados – não era aconselhável fazê-lo sozinhos por via de um eventual desentendimento resultante de alguma ciumeira de qualquer rapaz do local de que resultasse possível zaragata… - e visitavamos tudo em redor do Chouto, dançando nos mais incríveis locais dos lugares onde ocorria o baile. 

Lembro-me de dançar nas Balsas e Paires (em barracões), Ulme (Sociedade Recreativa), Parreira (na rua, inclinada, de terra batida e pedras soltas, entre a taberna de Manuel “do Junco” e o campo da bola, campo que tinha 1 ou 2 sobreiros no meio (!)), no Salvador (no quintal de Rafael Vitória), no Pego da Curva (na rua), nos Foros do Arrão e Água Travessa (na rua), no Gaviãozinho (na rua, frente à Taberda da Emília), etc, etc.

Sempre de bicicleta, dia ou noite, ao sol, ao calor, à chuva ou ao frio, a malta percorria kms em busca das miúdas.!… À ida, as conversas no trajecto eram sobre as expectativas relativamente ao que íamos encontrar; no regresso, os comentários abordavam as sensações vividas: as mais giras, as de saia mais curta (imaginando a perna “boa”...), as que se encostavam mais, as mais ariscas e antipáticas, etc., etc. Coisa linda! Coisa linda que hoje aqui recordo e revivo de memória, com saudade. Muita saudade!…

Tenho, naturalmente, várias estórias vividas nestas andanças dos bailaricos fora de portas de volta das saias das raparigas da minha idade nos inícios da década de sessenta do século passado e, ao correr do teclado, deixo aqui algumas de que agora me recordo.

A 1ª aconteceu por ocasião do Carnaval de 1962 e foi resultante – imagine-se!?… - da invasão da Índia (Goa, Damão e Diu, territórios que Portugal administrava havia mais de 4 séculos) em Dezembro de 1961. Salazar, que ainda vivia sobre os efeitos do início das guerras independentistas de Angola, Guiné e Moçambique, reagiu com firmeza e tristeza à invasão e ordenou mesmo ao comandante das nossas forças no território que ele e suas tropas resistissem como heróis até à morte, coisa que o comandante compreensivelmente não quis e que lhe valeu a expulsão da vida militar, facto que só foi rectificado e reparado pós 25 de Abril de 1974.

Pois aconteceu então que, como resultado dessa perda de territórios, Salazar decretou luto nacional por um largo tempo e que assim atingiu o Carnaval de Fevereiro seguinte. E aconteceu que, no Carnaval de 62, não haveria festejos para ninguém. Salazar proibia!

Mas – há sempre um “mas”… - houve quem desobedecesse, ainda que só um pouquinho…

Eu andava a querer namoriscar uma bonita moça que morava num Casal (Monte), propriedade de seus pais, a 6,7 kms do Chouto e chegou-me a informação muito sigilosa – vinda dela ou de outrem, coisa de que já não me lembro… - de que no seu lagar haveria um baile, feito muito à socapa. 


Não me recordo de quem me acompanhou mas, provavelmente fui com o falecido António Sebastião que muito viajava comigo nestas andanças e que por vezes me expiava os comportamentos das namoradinhas nos bailes em que eu não ia e escrevia para a Chamusca onde eu durante a semana pernoitava porque estudava em Torres Novas ou, melhor: passeava os livros… (deixo aí um trecho de uma dessas cartas com as identificações dos personagens obviamente ocultas e que já outro dia aqui publiquei a propósito de outro assunto). 

Acertamos a partida, fizemos a viagem no maior silêncio mas, chegados lá, ficamos desiludidos até mais não..: o baile tinha terminado. Na realidade mal tinha começado. Tinham dançado duas ou três modas e… o baile acabou.

Preocupados com alguma denúncia à GNR - “à guarda”, como então se dizia - no que resultaria que seriamos todos presos, os organizadores decidiram acabar com o baile no lagar. Quando chegamos nem conseguimos ver o final do bailarico… Eu acho que nem vi as moças...

Desiludidos e tristes regressamos a casa e, se a coisa já ficara má com as vãs expectativas sonhadas e não concretizadas, ainda ficou pior com a viagem de regresso porque largou-se a chover e molhamo-nos todinhos que nem uns pintainhos e, chegados ao Chouto, corpos e roupas mais parecia ter mergulhado num… lago… Eh! Eh!

Vicissitudes, desenlaces e contrariedades de rapazinhos em buscas das cachopas que na altura eram apenas contratempos e que hoje nos fazem sorrir.

Mas tenho outras narrativas mais ou menos hilariantes…

Vamos a outra: Era hábito, por altura no Verão na Ribeira de Ulme, os grandes proprietários rurais que cultivavam nomeadamente o arroz, por falta de pessoal local suficiente naquelas sazonais épocas, contratarem ranchos de raparigas e mesmo mulheres de mais idade para procederem à plantação, à monda e mesmo à ceifa do arroz. Vinham em número considerável da região da Beira Baixa, das zonas de Abrantes e Castelo Branco, faziam a deslocação em camionetas de caixa aberta e, no seu trabalho, duro e provavelmente mal pago, permaneciam por ali algumas semanas. Conhecidas e tratadas entre nós na época por “barroas”, talvez deformação da palavra beirãs, pernoitavam e faziam comida em grande barracões, alguns de piso de terra batida, outros já cimentados mas com condições de higiene muito pouco recomendáveis. Era o que havia, eram os hábitos da época, eram as condições do nosso país rural de então.

De tempos a tempos, para que tivessem alguma distracção que as aliviasse da árdua labuta nos arrozais, alguém organizava um bailarico e, foi de um desses que a dada altura a rapaziada no Chouto teve conhecimento e, daí a resolvermos ir ao baile da “barroas”, foi um ápice. Também já não me recordo quem me acompanhou mas lembro-me que do Chouto avançamos, pelo Vale de Santa Maria sem luzes para evitar a pressão do dínamo sobre o pneu, subimos à cumeada e descemos para Ribeira de Ulme, indo até às Balsas, Casal onde havia o baile.

Era um grande e amplo barracão cimentado, com as modestas tarimbas onde as moças dormiam as noites no lado direito para quem entrava e, na parte esquerda, acontecia o baile que já decorria quando chegamos, com talvez uma dúzia, dúzia e meia de pares. Logo ao transpormos a porta de acesso ao seu interior veio-nos um odor bem desagradável a... suor, que nos fez engelhar o nariz e olhar desconfiados. Mesmo assim avançamos e, finda a moda que então decorria, tratamos de, olhando para o friso de “barroas” perfiladas frente às tarimbas, acertamos entre nós as que nos pareciam mais receptíveis a aceitar o nosso clássico convite de “quer dançar comigo?”.

Ouvidas as primeiras notas do acordeão que abrilhantava a reunião, fomos na direcção das moças, fizemos o tal convite e, aceite ele, partimos para a dança. Lembro-me que a “minha” era para o baixinho mas dançava muito benzinho, de pé leve e bem cadenciado acompanhando bem os meus passos. Só tinha um pequenino óbice: a pequena largava um terrível odor a... sovaco. É verdade: um cheiro insuportável a que se juntava o do suor, este talvez porque se sentir muito calor naquela noite de sábado e o barracão ser de telha vã.

Deixada a pequena no final da dança, lembro-me que me juntei ao meu companheiro e, em surdina, queixei-me: 

- Ó pá, ela cheirava muito mal! Tresandava a suor e sovaco, pá!

Ao que o meu amigo me respondeu queixando-se também e propondo:

- Também a minha! Um danado de um cheiro! Vamos embora?

- Vamos! - respondi de imediato.

E, rapidamente montamos nas bicicletas e regressamos desalentados bem cedo ao Chouto mas ainda hoje me interrogo sobre o porquê daquela falta de higiene… As moças, em condições difíceis, trabalhavam muito – e se calhar ganhavam pouco… - mas, que diabo, água era coisa que não faltava na zona… Não entendi. Confesso.

Bem, a crónica já vai longa mas ainda quero dar conta de mais uma outra historieta na altura bem desagradável mas que hoje me faz sorrir em bem sentida saudade pela época, pela idade que tinha e pelos nela envolvidos .

Nas saídas que fazia para os bailes nocturnos, sempre depois do jantar, o meu pai sempre me impunha a hora de regresso e, em boa verdade, embora eu não exagerasse no prolongar da marca estabelecida, por vezes ultrapassava-a um bom bocado e, no dia seguinte costumava ouvir sempre o mesmo aviso: “Um dia acontece-te!...” E disse-o várias vezes…

Foi dito e repetido e, eu, “orelhas moucas”… Até que uma bela noite/madrugada, regressando de mais um bailarico, não encontrei a chave da porta no vaso de flores na floreira da arcada como previamente havia acordado com a minha mãe e era costume. (Vaso, não visível, da esquerda na floreira da arcada, lá ao fundo, na foto que anexo). Apalpei, apalpei, fui ao outro vaso da direita na esperança que minha mãe tivesse feito confusão e, da chave, nada. Não tinha a chave para entrar em casa e assim só me restava usar o puxador da porta e bater com ele na dita. Bati uma, duas vezes e, depois da terceira ouvi lá de dentro uma voz grossa que me ordenava:

- Vá dormir por onde andou!

 Assim mesmo, assim mesmo e mais nada… Por estas escassas palavras o meu pai, em tom de voz, grave e grossa que nunca mais esqueci, castigava-me por não obedecer às suas  recomendações. E, quando ele dizia… estava dito.

Então, “enrascado” que estava, como fazer para passar a noite? Em que casa pernoitar ali por perto? No quarteirão tínhamos 4 casas, conforme foto da época que aí junto, e na da vizinha, de dois pisos pegada, não seria aconselhável bater à porta: morava aí uma namoradinha de romance juvenil contrariado pelos pais de ambos e, ainda por cima, eles andavam incompatíveis no relacionamento. Por isso, bater na porta ao lado? Nem pensar.

Segui para o vizinho seguinte (casa cinzenta) e bati ao ferrolho da porta do Mestre Arlindo Texugo, alfaiate e da sua doce Dona Rosa... 

- Quem é? - ouço perguntar de dentro o sr. Arlindo.

- Sou eu, sr. Arlindo, o Victor. O meu pai não me deixa entrar em casa e eu peço a sua ajuda!

Bom e atencioso como sempre foi, Mestre Arlindo abriu a porta e convidou-me

- Entra. Vais dormir com o Hercolino.

E assim dormi – ou fiz que dormi… - nessa noite com o Hercolino, seu filho, rapaz bom e educado e que infelizmente deixou este mundo tão prematuramente.

Chegado o dia seguinte voltei a casa e, francamente, não me lembro bem do que ouvi do meu pai mas não passou de gritar e ameaçar de novo. Não passou disso, não. Não ocorreram consequências mais graves. Eh! Eh!

E pronto, aqui fica a narrativa de três episódios bem patuscos das minhas saídas nocturnas no rondar das saias das miúdas.

Das saias, digo bem porque, elas, na época usarem calças ou calções, como agora é corriqueiro, nem pensar!…

Nem pensar? Nem sonhar com isso, minimamente que fosse...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

OS BAILARICOS DA MINHA JUVENTUDE (1)

 

ENTRE PORTAS 


Deolinda, Deonilde, Ermelinda, Estrela, Fernanda, Helena, Judite, Manuela, Maria, Odete, Perpétua, Piedade, Ramilde, Suzete - e que me desculpem as que eventualmente ficaram esquecidas!… - eis os nomes próprios que de momento me recordo, ao correr do teclado, das “miúdas” com quem muito dancei nos bailaricos da minha aldeia natal e locais vizinhos durante a minha adolescência e juventude, a quem presto a minha modesta homenagem e cujo convívio de então, naquela época, foi particularmente gostoso e gratificante e que hoje recordo com alguma nostalgia e saudade.

Para elas, umas casadas, outras solteiras e outras infelizmente já viúvas - para além das saudosas amigas que já não estão entre nós… -, fica o meu apreço, a certeza da minha amizade e o reconhecimento do sempre saudável e reconfortante convívio em que vivemos naquelas bonitas idades!

Foi desta forma “cavalheira” e reconhecida que resolvi abrir esta crónica, de duas que me proponho escrever sobre os bailaricos da minha juventude, no Chouto minha terra e terras vizinhas, sendo que titulo esta de “Entre Portas” e a próxima de “Fora de Portas”.

Para além do jogo de “Comadres e Compadres”, que fazíamos anualmente nos “meios-dias santos” e em que propositadamente suportávamos levar com o cinto do(a) “padre” para termos a hipótese de agarrar e ter a moça nos nossos braços, dançar era a única ocasião em que tocávamos, agarrávamos e sentíamos o odor e a tenra e aveludada pele de uma jovem nos nossos braços. Fora disso era totalmente impossível no dia a dia um rapaz tocar, sentir, experimentar o contacto físico com uma jovem. Totalmente. E, se eventualmente isso, por remota hipótese acontecesse, a moça era logo titulada pela populaça de estouvada e oferecida… Doida, mesmo.

Eram assim naquele tempo os nossos hábitos, os nossos costumes, a nossa cultura e, quando hoje observamos rapazes e raparigas pegarem-se ao colo, rebolarem-se e apertarem-se na areia da praia ou na relva do jardim, agarrarem-se e beijarem-se franca e despreocupadamente, quem passou por estes “sacrifícios” e “castrações” de então, não pode deixar de sorrir e... lamentar ter nascido tão cedo… Eh! Eh!

Sem festejos públicos ou privados, no Chouto praticamente só se dançava na Sociedade Recreativa que tinha uma sala pequena (70/80 m2?) mas, ainda assim, a maior existente na aldeia. A freguesia tinha na época uma população em número do mais elevado de sempre (2.000 pessoas), havia muita rapaziada e muitas “miúdas” jovens e, em bailes mais concorridos só ficava uma pequenina porção de área da sala para dançarmos. As mães, sempre vigilantes e de olhar bem fixo nas filhas - e bem observador e critico nas filhas das outras… Eh! Eh! - sentadas em cadeiras instaladas nas filas traseiras, junto às paredes, em redor do pequeno palanque do acordeonista que abrilhantava o baile, eram como que câmaras de vigilância da actualidade, vigiando todas e tudo… Restava aos parezinhos mais apaixonados “esconder-se” no lado oposto ao assento das mães ocultados pelos restantes pares dançantes, embora aí também tivessem que aguentar o olhar, igualmente critico de uma tia ou de uma vizinha que nesse lado estivesse… Um drama! Um drama!


As filhas, bem as filhas sentavam-se nas filas da frente, junto às mães e um dos seus principais cuidados prendia-se com as saias que, dando obrigatoriamente pelos joelhos – nem mais um cm acima!… - com o movimento de sentar, o rabo puxava a saia para trás e havia que tapar o joelhinho à frente, não fosse os olhares apurados e atrevidos dos rapazes em frente, vislumbrarem um pequeno centímetro da coxa da moça….  E, como o evitavam? Fácil: usavam umas um simples casaquinho de malha ou algodão que preventivamente levavam para se proteger do fresco da noite ao sair da sala no final do baile e, outras, sendo o mais usual – muito mais usual! -, serviam-se de um tradicional, habitual e pequeno lencinho de seda que sempre as acompanhava e que colocavam pudicamente encima e à frente dos joelhinhos. Assim, eventualmente vislumbrando um niquinho da jovem coxa, restava ao atrevido rapaz imaginar o que o pudico lencinho obstruía… O que os rapazes sofriam, meu Deus! O que os pobres rapazes sofriam!…

E, como se portavam no baile os cerceados rapazinhos?

Assim como que uns atletas de atletismo em cima da linha de partida para a corrida, aguardavam ansiosos pelo primeiro acorde, pela primeira nota musical do acordeonista e, ouvido ele, era correr – e, se não era a correr, pouco faltava… - para avançarem direito à rapariga com que pretendiam dançar. Chegado lá, o jovem dirigia-se à moça e questionava-a: “Maria, queres dançar comigo?” Ela assentia que “sim” com a cabeça e levantava-se de imediato para iniciarem a dança da moda – era “moda” que se usava para designar o número musical… -  e, a partir daí, o olhar da mãezinha nunca mais se desligava do par. Era observar, ao pormenor, o comportamento da filhinha… Se ria muito; se ria pouco: se dançava muito encostada ao rapaz e até onde colocava o bracinho esquerdo… É, isso também contava… Tinha o seu significado assentar a mãozinha no peito do rapaz, no ombro, na cintura ou no… pescoço. Se ela pousasse a mão no pescoço do rapazinho, ai, ai!… Eh! Eh! As coisas que sofremos!…

Mas, para a malta nova, raparigas e rapazes daquela época, muito melhor que os bailes nocturnos, em que as mães tudo e todas vigiavam, eram as matinés que o pessoal jovem organizava nas tardes de muitos domingos de Primavera e Verão, na mesma sala da colectividade e onde, porque as mãezinhas estavam ausentes, o "pessoal" se divertia, namorava e "flyrtava" bem mais à vontade, com boa alegria, com franco interesse e bem mais "in love"! Oh, como todos ansiávamos e gostávamos bem mais - bem mais! - das matinés de domingo!... Para alguns - e algumas!... -, não pouco(a)s, um verdadeiro... mel. Eh! Eh!

Podia também falar das “cabaças” (a “nega” das raparigas à dança com os rapazes) mas fica para outra altura e, hoje, porque o texto já vai longo, resta-me mencionar uma situação que sempre me intrigou no decorrer desses bailes nocturnos: às tantas, as raparigas, em grupos de 3 ou 4 talvez, saiam e, na falta de instalações sanitárias na colectividade e até na aldeia, ausentavam-se para parte incerta para satisfazer as suas necessidades fisiológicas… Se então sabia para onde iam, já não me recordo mas, agora, retornando-me à memória a situação, restou-me esclarecer com quem sabia para onde iam…

Telefonei há dias à minha prima Fernanda Pratas e perguntei-lhe:
- Quando vocês saiam em grupo, onde iam aliviar a bexiga?
Resposta imediata da cachopa:
- Olha, atrás da forja. Não havia casas de banho... Era ao luar.

Eh! Eh! E por aqui me fico neste desfilar de recordações de jovem “castrado” e sacrificado de então…

Oooooooh como as coisas mudaram!… Para melhor!

(NOTA - Ilustro o texto com uma foto, de autor desconhecido, registada aquando de uma procissão religiosa, certamente muito antiga, captada no instante em que o cortejo passava frente à sede da então Sociedade Recreativa, sendo que os 5 vãos da fachada à direita correspondiam a portas e janelas da colectividade; anexo ainda imagem dos velhos candeeiros "petromax" que, na falta da energia electrica, que ainda não havia chegado à aldeia, nos iluminavam nos bailes e outros eventos; e ainda a frente e verso de um convite para um baile em 1962.)

domingo, 5 de agosto de 2018

LEMBRANDO PADRE MANUEL...


Padre Manuel (Manuel Frango de Sousa, de seu nome completo), falecido há poucos anos vitima de queda de um escadote quando mudava uma lâmpada em casa de sua irmã, foi o 1º pároco das freguesias de Ulme e Chouto e esteve entre nós durante boa parte da década de 50 e princípio da de 60 do século passado.

Era muito dinâmico - a ele se fica a dever a iniciativa da construção da nova igreja de Ulme - envergava batina preta até aos pés, como na época todos os padres usavam, mas isso não o impedia de fazer a viagem ida e volta Ulme/Chouto de bicicleta (nos primeiros anos... até a viúva de Vaz Monteiro lhe oferecer um automóvel) e, sobretudo, jogar muitas vezes à bola com a miudagem e até a rapaziada mais crescida.

Jovem, vivo e muito dinâmico, organizava acampamentos de vários dias com os rapazes pré-adolescentes - lembro-me de um, ocorrido em Tamazim, na propriedade Vaz Monteiro, junto à capela...(dormida em tendas, na eira da propriedade) - e contribuiu muito para que esses jovens se aproximassem e assim iniciassem a sua vivência e o seu culto religioso.

Era natural da freguesia de Fungalvás (Torres Novas) e deixou as nossas duas paróquias no início da década de 60 mal de saúde, vitima do muito esforço e sofrimento psico/mental/financeiro exigido pelas obras da igreja de Ulme, sendo substituído então pelo jovem Padre Luís Fialho de Almeida, recém formado sacerdote e pessoa de cultura e hábitos religiosos muito diferentes e... o "pessoal" sentiu a mudança...

Padre Manuel estava ultimamente colocado em Azeitão e, sendo um padre algo desalinhado das linhas tradicionais da hierarquia católica, embora cumprindo o básico e obrigatório estabelecido, realizava as diversas cerimónias muito "à sua maneira" e, na derradeira ocasião que com ele estive em Azeitão, no casamento de um meu familiar foi uma muito agradável surpresa a cerimónia a que presidiu o então já idoso padre Manuel. Um festival! Um verdadeiro show de criatividade, originalidade e afectividade! Muito bom! Segundo o meu ponto de vista...

(Um dia destes conto aqui tão bonita experiência e hoje deixo uma foto desse saudoso amigo, tirada na mencionada cerimónia do casamento e um recorte de uma notícia sobre ele que publiquei em 5/8/1961, no semanário "Vida Ribatejana", tinha eu os meus tenros e verdinhos 16 anos(!).)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

"ELE", RECAUCHUTADO, PORTA-SE BEM!


Depois da TAC, com as horríveis "picadelas" de que aqui dê conta na minha última publicação e, recebido que foi o resultado da mesma no meu processo, estive hoje de novo com a médica que, fazendo parte da equipa que me operou em Novembro passado, vem-me acompanhando e vigiando de 3 em 3 meses e o resultado foi satisfatório em pleno.

Notícia belíssima, como é bom de ver e que me deixa particularmente aliviado porque, como me parece legítimo, embora esperançado em que tudo fosse rodando sobre carris, andava sempre com a legitima apreensão que pudesse surgir qualquer contratempo - leia-se: nascimento de novo nódulo... - no tempo decorrido desde a última TAC... 

Mas, não. Tudo está no bom caminho. Felizmente!

Como a senhora sempre me tem alertado, o facto de na cirurgia terem retirado o tumor da figadeira e mais um pouco em seu redor, não quer dizer que não possa voltar a nascer mais qualquer encrenca... É preciso ir vigiando de trimestre em trimestre para termos a certeza que a "peça das iscas", embora com as dificuldades próprias da doença, vai funcionando com o mínimo de eficiência. 

E... vai! E haja esperança que tudo assim vai continuar por mais uns bons tempos!...

A recauchutada "pecinha", intervencionada parece que a tempo por meio do famosos furinhos da laparoscopia, tudo indica estar a funcionar benzinho, desde o que é possível observar por agora.

E pronto: hoje estou bem mais aliviado da apreensão com que andava e vou já festejar com um bom copo de... água!

quinta-feira, 19 de julho de 2018

CALHOU-ME UMA "PICA-CHOURIÇOS"...


Hoje, num hospital público, foi sofrer para ver injectado o Contraste para uma TAC...

PQP a gaja que me calhou!.., Só à 4ª acertou! Uma verdadeira "pica-chouriços"!...

E, loira e de mais de meia idade, já não vai conseguir aprender mais...

EM TEMPO: Deixo uma imagem de parte do "lindo" trabalho feito pela "pica-chouriços" que hoje me calhou  na rifa...

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O ROL DO ZECA


Um dia destes, logo que a sua saúde o permita e a ocasião assim o proporcione, quero falar com o meu primo Zeca sobre essa importante “ferramenta de trabalho” na sua mercearia de sempre no Chouto.

Dias atrás já abordamos essa ideia e ele confessou-me que ainda guarda religiosamente o seu rol onde, lamentou, ainda hoje são destacados alguns “calotes” que lhe deixaram – “Ficaram a dever-me, pá!... E alguns já não me pagam… Já morreram….” – lamentou-se.

Um dia destes falaremos melhor e registaremos para arquivo imagens do “seu” rol. Logo que a ocasião o proporcione. Um dia destes acontece…

O rol, nos velhos tempos das antigas mercearias, era algo absolutamente imprescindível e totalmente indispensável ao cabal e eficiente desempenho do negócio daquele comércio… Os habitantes das aldeias no interior do país, gentes de parcos recursos financeiros, viviam com muitas dificuldades económicas e sociais e, comer e beber a crédito era a única hipótese que tinham de viver e subsistir. E o Chouto, o meu Chouto natal que conheci no antanho, não fugia a isso. Ainda para mais porque alguns dos seus habitantes faziam – aventuravam-se a fazer!… - searas sazonais e, assim, falando com o merceeiro, prometiam pagar-lhe quando da colheita… Mas acontecia – e infelizmente demasiadas vezes ocorria… - que, se o “tempo” pregasse partida e a seara não produzisse o previsto, nova conversa com o homem do rol era inevitável…


Pois, no Chouto e no país, valia sempre a muitos e muitos o amigo merceeiro que, vendo a necessidade e conhecendo a seriedade e honradez dos seus pobres clientes – e certamente também algumas vezes, quando não muitas, usando o seu próprio crédito juntos dos seus fornecedores - assim ajudava, acudia e até matava a fome a clientes e famílias para que o pãozito, a massa, o arroz e o azeite não faltassem muito na mesa… 

Quantas histórias, dramas e mesmos choros e lamentos, confidenciados em surdina ao balcão não guardarão esses róis? 

Quantos pedidos de compreensão e paciência, feitos ao amigo merceeiro, não ouviram?

Quanta confidência, quanto rogo, quanto pedido de ajuda?...

O “rol do Zeca” - que já vinha do pai Antero -, encerra-as e guarda-as, certamente.

Inevitavelmente…

NOTA - Imagens anexas retiradas da net.

terça-feira, 3 de julho de 2018

RECUANDO NO TEMPO...

Imaginando-o a viver numa localidade do Oeste português fiquei surpreendido quando uma recente informação dava conta que o velho amigo vivia e residia desde há uns tempos a esta parte em Lisboa e, sendo assim, não descansei enquanto não concretizei o encontro.

Encontro com alguém que, seguramente já não via há bem mais de 50 anos…

Vive então, actualmente, este velho amigo com hospedagem num bom prédio de uma grande e concorrida avenida do centro de Lisboa e, informado disso, foi aí que o procurei pelas 10,30 horas da manhã de hoje.

Tocada a campainha e aberta a porta do moderno edifício sou recebido por uma jovem senhora que, muito cortês e com um sorriso nos lábios me saúda e pergunta ao que venho. Dou-lhe conta do meu desejo e, ela, informando-me que o vai buscar a um piso bem superior, pergunta-me quem deve anunciar. Dou-lhe conta da minha identidade e, confessando-lhe a minha curiosidade na reacção do amigo perante o nosso encontro, peço-lhe que mantenha sigilo sobre ela para testemunharmos a sua reacção.

A senhora pede que me sente numa bem decorada e acolhedora sala de espera, sobe no elevador e, poucos instantes passados, surge-me acompanhada de um homem já de alguma idade, vestido de escuro, de roupa de Inverno neste Verão que teima em não chegar, cabelos brancos, óculos de aros leves e de físico entroncado.

Atiro-lhe de imediato:
- Se não soubesse, não o reconheceria fora daqui….


O velho amigo responde-me igualmente;
- Nem eu o reconheço, também. Estamos empatados.

Sorriu e, curioso, tenta adivinhar quem sou mas… confessa a sua incapacidade:
- Não consigo. Confesso que as feições não me são totalmente estranhas mas… não vou lá…

Abro-lhe então o jogo e digo a palavra mágica:
- Chouto! Diz-lhe alguma coisa?

Abre-se-lhe um sorriso:
- Chouto? Ooooh… tinha José Azevedo!...

- Não está longe… - esclareço-o

- Não? Tinha Polidoro!...

Aí, volto a ajudá-lo:
- Já se afastou. Já esteve mais perto… Falou em José Azevedo, nem deveria ter saído de casa…

- Não? Então o Victor! És o Victor? E também havia a Adília…

Foi o abrir imediato, espontâneo e franco dos braços e, emocionados, apertamo-nos fortemente e… vi-lhe, debaixo das lentes, os olhos bem brilhantes e… humedecidos…

A emoção, porque inesperada e gostosa, era franca e sincera.

Ao fim de mais de meio século sem se verem, estavam nos braços um do outro, o Padre Zé (José Francisco de Faria) que, saído “verdinho” do seminário “caiu”, perto dos finais da década de sessenta do século passado, em Ulme e Chouto como suas primeiras paróquias e o seu então jovem “sacristão”, que lhe fazia as leituras e ajudava nas missas e restantes cerimónias religiosas tanto na igreja da aldeia como em lagares, barracões e escolas primárias dos lugares vizinhos, porque o acompanhava em viagens feitas de “vespa”, primeiro e automóvel depois.

Pode imaginar-se como foram deliciosos e muito gratificantes os momentos deste reencontro com o recordar destas velhas vivências e, sobretudo, para meu espanto o comprovar como ainda se lembra, para além dos já referidos José Azevedo e Polidoro, de Antero Barreto, Zeca, Acácio, de Antero Pratas e sua mulher Laura e - imagine-se!... – do “guarda-rios” e “do seu filho João, que morreu subitamente”; também de Ulme me recordou o João Augusto, o João Neto, o António da “Carroça” e o Manuel “Charrete”, o “homem do talho” Zé Alves e o filho prof. Fernando, do "Franklim que casou com a Fátima" e… a Dona Chica!

Um espanto, a memória do Padre Zé!

Bom, resta acrescentar que a horinha que conversamos passou num saltinho, foi super-gostosa – o amigo Padre Zé ficou encantado com a minha visita! – e que já aprazamos uma ida ao nosso Chouto onde almoçaremos. Será no final do Verão que irá comigo matar saudades e recordar anos antigos.

Mas, agora, já foi lindo, lindo o nosso encontro! Não mais o esquecerei.

Assim, recuando no tempo…

domingo, 24 de junho de 2018

"JOVENS DE ONTEM" - NOVO ÊXITO!


Ontem de novo um dia excepcional no Chouto com o convívio e as muitas emoções do nosso “II Encontro de Jovens de Ontem” que, a exemplo do ano passado, voltei a organizar com imenso gosto!

Se em 2017 conseguimos juntar 50 participantes desta vez o número subiu para 80 e a jornada foi outra vez belíssima, cheia de alegria e também muitas emoções por via de muitos que há dezenas de anos não se viam. E, alguns, como é bom de imaginar e também me aconteceu a mim no ano passado, tiveram de perguntar a este ou aquele: “quem és tu”?…



Mas, a coisa, para o meu gosto, não decorreu tão na perfeição como eu desejava e organizei… Tratei atempadamente e consegui, depois de uma primeira “nega” da União de Juntas, que o nosso som passasse a ser, durante a realização do nosso convívio no recinto de Feira de S. Pedro, o som ambiente geral mas o resultado não foi o desejado… Um gajo qualquer que estava a comandar o som, mesmo depois de alertado duas vezes por mim para a deficiência do serviço, fez “orelhas moucas”, ou por outra: fez que ia rectificar a deficiência e… ficou tudo na mesma. Como por vezes é melhor virar costas e não teimar com burro teimoso, foi o que fiz. Trouxe os acordeonistas para junto das mesas onde almoçavamos e ficou apenas o som dos acordeões sem ajuda da aparelhagem. Não dava para me chatear com o teimoso porque fiquei com a impressão que estava a actuar de má fé… Coisas…

De resto e como em 2017 tudo correu lindamente e as pessoas gostaram bastante, não duvidando que repetiremos em 2019.

Tive a ideia de sugerir aos meus amigos aderentes do Encontro que se fizessem acompanhar de uma garrafinha de azeite e desta forma presentearmos o CASC e a forma tão hospitaleira como sempre nos recebem e conseguimos juntar por volta de 40 garrafas. Só não colaborou quem desconhecia a iniciativa mas, mesmo assim, sei que alguns nessa situação recompensaram entregando importâncias monetárias ao Centro de Acolhimento. Foi bonito e sei que a Direcção ficou sensibilizada com a ideia. Para o ano certamente repetiremos.

Fiquei de novo muito feliz com a nossa reunião e convívio e agora já disse ao “pessoal”: se em 2017 fomos 50 e agora 80, em 2019 teremos de ser…100. Vamos ver se tal é possível…

Deixo aí a imagem das garrafinhas de azeite oferecidas e uma outra de uma parte do já numeroso grupo de “jovens de ontem”. Os que não aparecem na foto estavam resguardados à sombra do edifício com medo dos quentes raios solares que na hora se faziam sentir… “Jovens de Ontem” que querem chegar a… velhos…

sábado, 2 de junho de 2018

DO CHOUTO E "CHARNEQUENHO" COM ORGULHO!


Eis um exemplo bem evidente e gritante da forma como muitos na Chamusca, vila e sede do concelho olham, classificam e secundarizam o Chouto, minha terra  natal e a sua gente, quando aos seus habitantes e á freguesia se reportam, chamando-os em surdina de incultos, ignorantes, e sendo não poucas vezes motivo e objecto do anedotário concelhio, para além de muitos se referirem às gentes da minha freguesia em tom depreciativo de… “charnequenhos”. Coisa e ofensa que já vem desde há muito e muito tempo…

Por isso e não só tivemos a luz electrica em último lugar e depois de esperarmos “carradas” de anos; por isso e não só durante anos e anos os melhoramentos e benefícios iam para outros e só chegavam ao Chouto tarde e más horas e só depois de muito rogados. (Situação que só se alterou, é bom que se diga, nos mandatos concelhios de Sérgio Carrinho em que o Chouto e sua gente deixaram de ser pessoas de 2ª e passaram a ser tratados por igual.)

O que aqui deixo, retirado ontem da página do meu parente Rui Martinho que, como é hábito entre muitos de nós, brinca com as pobres sogras, motivou comentários de alguns que opinam que a senhora da foto possivelmente sofre de alguma doença grave mas, inopinadamente, surge uma sapiente inteligência, que dá pelo nome de Elsa Ribeiro, que lamenta: “tatinha (?) pensa que está no Chouto”.

Não conheço de parte alguma, nem tenho vontade disso, a Exmª Dona Elsa mas quero aqui dizer-lhe que, como natural do Chouto e “charnequenho”, repudio a sua ironia, a sua gracinha reles e rejeito a sua piada bacoca!

O povo do Chouto é tão inteligente, tão sabedor e tão merecedor de risadas quanto a Exmª Dona e o povo da sua terra…

Rejeitamos as piadas, as anedotas, o “charnequenho” depreciativo!

E, como se diz na minha charnequenha terra: "Tenha maneiras, senhora dona da mula ruça"!

domingo, 27 de maio de 2018

COM ARMANDO JORGE, NUMA VIAGEM RECONFORTANTE


Ontem um dia particularmente interessante vivido na companhia do velho amigo Armando Jorge que foi apresentar o seu livro, para o concelho da Chamusca, na vizinha Ulme.

Apanhei-o na sua residência na Ramada (Odivelas), passamos pelo Parque da Nações para a tomada de um seu ex-colega de trabalho que nos quis acompanhar e rumámos ao nosso objectivo por volta das onze da matina. Paramos na Parreira para “animarmos” os estômagos e depois avançamos primeiro e por minha sugestão e insistência para o nosso Chouto onde lhe proporcionei uma pequena e rápida passagem em curta visita e que vi que de certa forma o emocionou, sobretudo quando estivemos junto da sua antiga residência e da antiga Escola Primária onde ele tirou/tiramos a antiga 4ª Classe. Ainda que bastante jovem, o meu amigo ali passou momentos difíceis de caracter familiar. Difíceis e complicados mas que, todavia, com inteligência, querer e tempo, foram felizmente ultrapassados.
 
Feita a rápida passagem pela nossa aldeia seguimos para Ulme e ali, como boa presença de amigos e público em geral, decorreu então a anunciada apresentação do livro do meu amigo.

Declinei reconhecido e grato os convites tanto dele com insistência, como do Presidente da Junta de Freguesia local para que ocupasse um lugar na mesa e dissesse algo sobre o Armando e sua obra porque entendia que tínhamos ali pessoas bem mais avalisadas e capazes de o fazer e sentei-me gostosamente na “plateia”, tendo o gratificante prazer de ter por companheiros os velhos amigos Joaquim Garrido, Presidente da Assembleia Municipal da Chamusca, Sérgio Carrinho, ex- Presidente da Câmara Municipal da Chamusca e o Dr. Jaime Marques, igualmente meu amigo de longa data.


A sessão decorreu lindamente – deixo duas imagens do momento -, as pessoas presentes gostaram e manifestaram largo interesse em possuir a obra. E até uma nuvem bem negra e pesada de uma trovoada que ia anunciando a sua chegada e consequente descarga, foi atrasando a sua presença deixando que a cerimónia terminasse…

No meu caso pessoal gostei sobretudo do contacto/convívio com várias pessoas que não via há muitos anos, desde os tempos em que frequentava Ulme diariamente e que agora tive alguma dificuldade em reconhecer mas que se me dirigiram de forma super-agradável e até mesmo muito amiga e carinhosa.

Em suma: um dia belo, de excelentes companhias, com momentos/horas de belo e gratificante convívio em que nem faltou a surpreendente cena de receber o bem particular cumprimento de um naquele instante desconhecido amigo, que a mim se dirigiu desta forma: “Olá, padrinho!”. E, perante a minha lógica surpresa, tive a resposta:”Foi meu padrinho do Crisma! E tenho mesmo uma foto consigo que lhe vou oferecer.”

Foi coisa que aconteceu, imagine-se… pelo meio da década de 60 do século passado…

Pois é: estou velho!

E… não há volta a dar…

terça-feira, 1 de maio de 2018

A CARRINHA DA GULBENKIAN


Foi a 1 de Maio de 1964 que publiquei no semanário “Correio do Ribatejo”, integrado na habitual correspondência do Chouto, a sugestão/pedido à Fundação Calouste Gulbenkian para que a sua Biblioteca Itinerante, que já visitava a vizinha localidade de Ulme, o passasse também a fazer à minha terra e, depois disso e porque a resposta à solicitação não chegou, houve insistência com correspondência trocada e, como resultado dessas diligências, aconteceu finalmente a aceitação por parte da Fundação que acabou por acolher o pedido. 

Era um serviço muito valioso de apoio literário às populações dos mais recônditos lugares de Portugal e, através dele, muitos e muitos jovens portugueses ganharam hábitos de leitura que lhe foram muito agradáveis e úteis pela vida fora.


Assim foi, ou no mínimo poderia e deveria ter sido no meu Chouto natal, não fora a inteligência da senhora professora à época leccionando na Escola Primária da aldeia…

A carrinha/biblioteca nº 134, que estacionava mensalmente durante uma hora frente à sede da Junta de Freguesia, visitou a povoação durante vários anos – deixo aí a imagem do meu cartão de leitor nº 164, de 1968 – sempre com boa frequência para um meio que não tinha propriamente hábitos de leitura mas, a dada altura, a mestre-escola, com o argumento que os alunos tinham interesse e liam “outros livros” que não os escolares, proibiu os seus alunos de frequentarem e requisitarem livros na Biblioteca Itinerante. E aconteceu o inevitável: a frequência à carrinha diminuiu drasticamente e a requisição de livros, como seria de calcular, ressentiu-se. Então, aí talvez por volta de 1974, os seus responsáveis entenderam que, dada a fraca adesão de pessoas à Biblioteca, não se justificava a sua deslocação à minha aldeia e… terminou o bonito e útil serviço de apoio cultural à população choutense.

E foi assim...

Com muita pena de vários frequentadores – meu pai, por exemplo, tinha sempre em casa e lia imensos livros requisitados na carrinha – e grande desalento de minha parte, que havia lançado e acarinhado o bonito projecto.

Coisas…

(EM TEMPO - Foto de Biblioteca Itinerante retirada da internet.)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

HISTÓRICO


Com a idade que tenho e se excluir a queda do Muro de Berlim, não encontro durante toda a minha existência de consciente rapaz, um facto histórico de tamanha relevância como o hoje registado entre os presidentes das duas Coreias!

Ainda há poucos dias – há poucos dias, senhores! – assistíamos a nuclear e mais nuclear; liquidação de um país; ameaças de guerras e liquidação total; etc. etc.

Hoje, ao vermos este encontro de Kin Jong-un, da Coreia do Norte, com Moon Jae-in, da Coreia do Sul, na fronteira entre os seus dois países, aos acordos firmados de desnuclearização, aos abraços, aos banquetes realizados e às promessas de paz duradoira ficamos admirados, incrédulos e, vá lá, esperançados. Esperançados que tudo assim decorra. Para bem dos seus povos e do mundo. Eu, como muitos e como S. Tomé, também quero ver para crer

E, devo também aqui confessar: estou surpreendido com este belíssimo trabalho de Trump, presidente dos EUA. Sim, tenho a plena convicção que Trump está por detrás de todo este espantoso sucesso. Tenho a convicção e acredito que breve saberemos tudo isso. Breve saberemos.

O que muitos presidentes americanos, apesar das mais diversas tentativas não conseguiram, Trump conseguiu! Espantoso, quanto a mim!...

Ainda bem!

sábado, 14 de abril de 2018

ARMANDO JORGE LANÇOU AUTO-BIOGRAFIA!


Conforme aqui já tinha referido em Janeiro passado, o Armando, meu amigo e companheiro de infância e juventude no Chouto e em Lisboa em tempos que já vão, lançou hoje num restaurante do Chiado lisboeta o seu livro auto-biográfico.

Na presença de talvez mais de uma centena de colegas de trabalho e amigos - entre os quais me incluí com muito gosto! – ouviram-se palavras de grande apreço e até alguma emoção pelo meu velho amigo, vindas  de seus colegas de trabalho após o que, num derradeiro improviso que durou alguns minutos, o Armando, historiando a sua vida desde as origens na nossa aldeia e no nosso concelho, até aos muitos anos da sua vida profissional numa seguradora e no seu Grupo desportivo, do qual foi presidente durante 25 anos, agradeceu reconhecido a presença de todos na apresentação desta sua obra auto-biográfica. 

Deixo aqui a imagem da bonita capa do livro, a dedicatória que fez o favor de me redigir, a foto desse instante e, ainda, uma outra foto da página onde teve a bondade de referir-se a este seu velho amigo relativamente à nossa convivência em Lisboa, já numa casa na  Rua da Atalaia, no Bairro Alto de então.

No seu livro e no que toca à nossa terra, Armando Jorge lembra ainda o tempo que frequentou a Escola Primária com a professora Maria Angelina, antipática e má, como já aqui tenho referido. Mas acho que ele gostava dela ou, pelo menos, o pai dele simpatizava com ela. Em boa verdade, como bem sabemos, nem todos agradam a todos…

Em suma: “livro giro”, como eu lhe classifiquei pessoalmente esta sua auto-biografia, profusamente ilustrado com muitas fotografias da sua vida pessoal e profissional, de leitura fácil e bem agradável, sem pretensões literárias de maior, num relato da sua vida, bem recheada de viagens, acontecimentos e vivências!

Gosto muito!

Francamente!

quinta-feira, 5 de abril de 2018

OS GRILOS DO NOSSO ENCANTO


Gri-gri! Gri-gri!

Correndo e saltando que nem pardalitos nos terrenos envolventes da aldeia, ao cair das quentes tardes de Verão, era o som que ouviamos mais aqui, mais ali.

Gri-gri! Gri-gri!

Assim “cantavam” os grilos do nosso encanto, roçando as asas, debaixo das ervas rasteiras, protegidos dos quentes raios solares, nas pequenas clareiras que criavam junto ao buraquinho, construído habilidosamente e que lhes servia de casa.

Caça-los não era difícil de todo mas era tarefa que ainda exigia alguma técnica e jeito. Coisa que puto de aldeia fazia facilmente por experiência e vivência sentida vinda dos mais velhos e que os diazitos de vida passados na rua e no campo, em contacto continuo com a natureza tornava coisa fácil mas que, a menino de cidade pareceria algo difícil, se não mesmo impossível.

Primeiro havia que localizar pelo ouvido a zona de onde vinha o “cantar” do grilo e, depois, pé ante pé, era o aproximar ao local onde o bichinho, a roçar as asas, juntinho à entrada do buraco - nós chamávamos de “buraca”, não sei porquê?... – fazia-se ouvir.

Os derradeiros passitos, já bem junto ao local e quase com o grilo à vista na pequena clareira que sempre fazia à entrada do “lar”, tinham mesmo de ser feitos em “pés de lã” no caso de ainda não o termos localizado. Isto porque, quando o grilo nos sentia, calava-se de imediato e enfiava-se bem ligeiro no buraquinho.

Depois, bem, depois era a 2ª parte da técnica necessária para o fazer sair do buraco e que a bonita imagem junta, de que gosto particularmente e que saquei da net, bem nos mostra (o detalhe das calças da criança, rotas no rabo, é uma delícia!): pegávamos numa pequena palha de erva, de preferência seca para não vergar e era enfiá-la no orifício e, em movimentos de vai vem, a fazer “cócegas” ou incomodar o grilinho que logo saía em grande velocidade e, nós, bem ágeis com as mãozitas, agarrávamo-lo.

De seguida tirávamos do bolso a caixa de fósforos, grandes, da cozinha, que a mãe previamente nos tinha arranjado e onde fizeramos 2 ou 3 pequenos orifícios para o grilo respirar e fechávamos o bichito lá dentro. Chegados a casa, era outra cuidada operação exigida: com jeito, para não o deixar fugir, tirávamo-lo da caixa e colocávamo-lo na gaiola. Se fugisse, como por vezes acontecia, era ouvi-lo depois, de noite, a "cantar" debaixo dos móveis… (E se o meu pai por vezes já se sentia incomodado quando à tarde queria descansar no quarto e ele “cantava” na gaiola pendurada na marquise contigua do quintal, pior era quando de noite se fazia ouvir pela casa fora, debaixo dos móveis… eheh)

Fechado o grilinho na gaiola, vinha depois o cuidado de nunca lhe faltar com a diária folhinha de alface, entalada nas grades, coisa que, passados os primeiros dias sempre nos esquecia e, não fora o cuidado da sempre atenta nossa mãe, e o bichinho morreria de fome…

E, se desejássemos novo grilo a "cantar" em casa, teria o pai de trazer nova gaiola da loja do sr. José de Matos - um então grande estabelecimento de paredes exteriores forradas de berrantes mas bonitos azulejos verdes vidrados -, ali na Rua Direita da Chamusca porque, colocar na mesma gaiola dois grilos, não era aconselhável, não… Brigavam até um liquidar o outro…

Mas, não termino sem antes descrever uma pequena maldade que a malta miúda muitas vezes fazia aos simpáticos bichinhos nas nossas andanças pelos campos: mesmo não desejando mais grilos mas localizado que fosse algum enfiado na “buraca”, não nos dávamos ao trabalho de meter a palhinha para o extrair, não… Mauzinhos, tirávamos a pilinha de fora, apontávamo-la para o buraquinho do grilo e… zás, mijávamos-lhe para dentro. Inundada a casinha, o desgraçado grilo, aflito, saía em grande velocidade, fugindo da inundação... Mas, aí, acho que já não o agarrávamos… Estava sujo e mal cheiroso…

Enfim, maldades de crianças em tempos que ainda não tínhamos os agora auto-denominados e bem activos “amigos dos animais”…