sexta-feira, 16 de março de 2018

GUERRA COLONIAL - OS PORCOS BASTIDORES


Na regular visita que costumo fazer à papelaria/tabacaria aqui do bairro – um estabelecimento sempre muito bem abastecido e actualizado, diga-se de passagem… - comprei ontem o número de Fevereiro da revista Visão/História. O assunto anunciado na capa – As Guerras Secretas de Portugal em África – chamou-me a atenção porque, sendo parte activa, ainda que forçada, na Guerra de Angola, tudo que leio, vejo e ouço na comunicação social provoca-me curiosidade e interesse. Mas estava longe de imaginar que o interesse por este número da revista fosse tanto quanto o sentido…

Na verdade e integrado nesse âmbito das “guerras secretas” é ali abordado o caso do Catanga, do ex-Congo Belga, que lutou pela sua independência do resto do território congolês e que Portugal apoiou. Que Portugal apoiou e onde eu, então integrado nas forças armadas em campanha no leste angolano, também colaborei sem querer…

Era no Congo que os guerrilheiros que lutavam pela independência de Angola tinham a maioria das suas bases e era daquele território que faziam as suas infiltrações a norte da então colónia portuguesa. Pela zona do Catanga alargavam a sua entrada mais para leste e Salazar, certamente com a batuta do experiente Franco Nogueira, seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, viu na altura uma boa oportunidade de negociar com Tshombé, chefe dos rebeldes catangueses, um acordo de bastidores: Portugal fornecia-lhe armamento, viaturas e até aviões e dava formação ao exército de Tshombé e, este, por sua vez, impedia a manutenção das bases do MPLA e corria com eles, evitando assim a sua entrada na fronteira com Angola. E foi assim, ainda que em muito pequeno grau, nesta “jogatana” que eu colaborei…

Na data estava com o meu pelotão sediado no Cazombo, no mapa junto, publicado pela revista, ali à direita no quadrado que sai do território angolano e em determinada altura durante o ano de 1967, recebemos a ordem de serviço para irmos à fronteira com o Catanga buscar três carradas de “sacos de carvão”. Assim mesmo: “sacos de carvão” era o que “rezava” a escrita de código, não fosse sermos capturados ou liquidados e o inimigo ficasse com provas escritas da actividade subterrânea das tropas portuguesas. Isto porque as carradas referidas eram, nem mais nem menos que algumas centenas de catangueses fiéis a Tshombé que entravam em Angola para, supostamente, receberem formação das nossas tropas.

E digo supostamente porque, em boa verdade, a sua formação acabava por ser-nos útil porque os desgraçados acabavam por ser integrados nas nossas operações e, mais grave ainda, eram colocados bem na frente das nossas forças, servindo assim como “rebenta minas”, “escudos” ou “carne para canhão”. Até me recordo que, numa dessas operações e face a um ataque violento do MPLA, um dos pobres catangueses sentiu algo nas “partes baixas”, apalpou e… ficou com os tomates nas mãos… E, certamente, era uma vez um pobre e enganado catanguês….

Mas voltemos à viagem dos “sacos de carvão”: a mesma foi feita numa noite de muita chuva, connosco nos unimog encolhidos debaixo das fracas capas supostamente impermeáveis (chegamos molhadinhos até aos ossos!) e os cataguenses na caixa de carga das camionetas, que nem gado, com um oleado por cima preso aos taipais.

Viagem horrível e arriscada, de mais de 100 kms mas que, fora a molha e o cansaço, correu bem, tendo a nossa missão terminado na Gafaria, junto ao Cazombo, numa antiga leprosaria constituída por alguns pavilhões, onde a nossa “carga” ficou depositada. 

Guardo ainda bem viva na memória a cena daqueles desgraçados de “cabos de enxada” em madeira ao ombro que nem espingardas, num marchar cadenciado por vozes em francês em paço rápido e miudinho, devidamente enquadrados. Mal sabiam eles o que os esperava…

Efectivamente eles não formariam exército algum para lutarem pelo Catanga… Como já disse, recebidos alguns ensinamentos, eram depois colocados na frente das nossas operações que nem “carne para canhão” e por lá muitos ficaram, mortos uns aqui, outros acolá. Então, quando se apercebiam disso, vendo onde tinham caído, só lhes restava um caminho: fugir.

Era o que os “nossos” catangueses faziam: fugiam! Um hoje, amanhã mais uns quantos e era nessa ocasião que a nossa famosa PIDE, a cuja guarda eles estavam confiados, actuava. Actuava e de que maneira?!... Radical! Como sempre a PIDE foi.

Uma bela tarde no quartel, no nosso grupo de furrieis, começou a circular “à boca pequena” um convite para ir assistir à liquidação de catangueses. Isso mesmo: liquidação! Era assim: os cantangueses tentavam fugir, eram apanhados pela PIDE que os levava para a sua prisão nas suas instalações e, de tempos a tempos, os pides faziam a “limpeza”. E, pelo menos naquela vez, com assistência formada por convites… Triste, horrível, mas verdadeiro.

Devo confessar que não fui à “sessão” dessa noite – entendi que não gostaria de ver… e foi de noite, claro, que a escuridão muito encobre, mas tive dois amigos furriéis que foram. Foram e depois contaram-me como se passou... (Não deixo aqui a identidade dos amigos por motivos óbvios…) Ambos viram, por exemplo, que os desgraçados dos condenados não saíram pelo seu pé da sede da PIDE para a viatura que os levaria à morte… Não saíram pelo seu pé, saíram a rebolar empurrados pelos violentos pontapés dos pides… 

Um dos meus amigos ficou na viatura porque não teve coragem para assistir à matança mas, durante o percurso conseguiu chegar à fala com um infeliz que lhe disse em francês: “sei que vou morrer mas gostava de saber porquê?...”. O meu amigo não soube responder-lhe, claro…

O outro furriel, também meu amigo, viu tudo, tudo. Viu tudo e isso custou-lhe várias noites sem dormir, com aquelas imagens sempre na sua frente… Viu-os serem vendados, levarem tiros de G3 na cabeça e caírem na cova. Assim mesmo: à “queima-roupa”. Sensível como era e é, não descansou durante noites a fio, este amigo. E o caso não era para menos…
Eu não fui e estou satisfeito por isso. Ver horrores daqueles não é para todos os estômagos…

E eis aqui como, forçadamente, entrei nesta dura geringonça dos meandros baixos e porcos da política e dos políticos mundiais.

E, agora, passados todos estes anos, perdidas que foram imensas vidas, feridos que ficaram muitos outros milhares, “corridos” que foram pobres e abandonados mais uns bons milhares ali radicados e perdida que foi a então dita “província ultramarina” de Angola que se tornou independente e onde novas guerras e novos horrores nasceram – em Angola e não só!… -, interrogamo-nos: tudo isto, para quê?

Para quê?

Fica a interrogação…

segunda-feira, 5 de março de 2018

NAS CURVAS DA VIDA, UM SURREAL RESSENTIMENTO


Como umas dezenas de outros acompanhantes aguardo no adro da igreja da pequena aldeia o término das cerimónias religiosas no interior do templo, antes de seguirmos em cortejo fúnebre rumo ao cemitério local levando à sua última morada um falecido e dedicado velho amigo quando, subitamente, sou abordado por um outro acompanhante do triste evento que, cumprimentando-me me diz:
- Boa tarde! O senhor não me conhece, eu já lhe vou dizer quem sou mas, antes, deixe-me que o felicite pelos seus escritos no Facebook que, porque sou ali amigo do Jorge “Pinhal”, tenho vindo a acompanhar e de que gosto bastante! Gosto da forma como escreve! E também me lembro bem que apreciava o que em tempos escrevia no “Jornal da Chamusca”! O meu nome é Joaquim “Pinhal” e sou filho do também Joaquim “Pinhal”, do táxi, da “Carregueira”.

Surpreendido e lisonjeado pelas amáveis palavras agradeci, dizendo ao amigo que não me é difícil escrever como o faço porque sou autêntico e franco. Exprimo o que sinto e me vai na alma e, por isso, o redigir as modestas crónicas, como o faço, não é tarefa difícil ou complicada. Assim faço e assim penso  continuar a fazer.

Aconteceu então que, terminado este inesperado episódio e a chamamento do meu interlocutor, vejo aproximar um homem, com uns quilinhos bem pesados, “redondinho” como eu antes de largar os mais de 20 quilitos que larguei nos últimos meses, a quem o amigo Joaquim “Pinhal” pergunta, apontando para mim:
- Conheces?
O recém-chegado olha para mim de cima a baixo e responde:
- Não!
Eu repito o seu gesto olhando para ele e dou também o meu parecer:
- Eu também não o conheço!
Não? – Interroga-se o nosso interlocutor. 
- Imaginei que se conheciam. Devem de ser mais ou menos da mesma idade… Que idade tens? – pergunta-lhe.
- Tenho 74 anos – informa.
- E eu tenho 73 – acrescento.
- Então não o conheces?  É o Victor Azevedo, do Chouto. – esclarece o curioso Joaquim.
Aí, o nosso novo interlocutor, que já antes mantinha o rosto sisudo e fechado, ainda mais o fechou e, logo de imediato, interrogando-me sem pestanejar e perder tempo, pergunta:
- Ah, pois… O Victor, do Chouto… Você, em tempos, não teve uma transacção ali no Casal “da Palha”? 
Aí eu achei que o sujeito estava a lavrar em grave confusão e discordei:
- No Casal “da Palha”? Não! Nunca tive qualquer negócio no Casal “da Palha”!
E logo ele rectificou, mantendo continuamente o semblante carregado :
- Bom, eu disse transacção mas devia ter dito namoro?... 
Bem, eu aí estava de pé porque, se estivesse sentado, caía do assento…
- Sim, na verdade, quando rapaz, em tempos que lá vão, tive um namorico com a filha do “João da Palha”. Coisa dos meus 18 anitos. – confessei  ao surpreendente companheiro.

E ele, de imediato, sempre com a situação bem presente na memória mas também, manifestamente, sem expressar grande prazer na conversa, acrescentou esclarecendo para grande surpresa minha e logicamente do outro nosso companheiro de conversa :
- Pois… eu também lá andava… Andava também a tentar conquistá-la e em dada altura achei que ia conseguir… Nessa data e depois da minha insistência, ela disse-me: “Vamos à Feira do Chouto e lá tratamos do assunto”. Aí eu fiquei convencido que ela me ia aceitar namoro na feira e, no dia, depois de me vestir, abalei para o Chouto. Mas não sei se ia muito depressa ou o que é que foi e resvalou-me a bicicleta… Caí numa poça de água e sujei-me todo! Tive de voltar para trás e ir a casa mudar de roupa e com isso perdi muito tempo. Quando cheguei ao Chouto procurei logo ver se a encontrava e, quando a vi ao longe, ela andava consigo e, pela forma como andavam, vi logo que se namoravam. Fiquei danado!

Perante este relato da sua frustrada aventura e vendo o seu rosto sisudo e fechado, imagem que ainda hoje guardo na cabeça alguns dias volvidos, não consegui deixar de sorrir e o outro nosso companheiro de reunião bem me imitou. Era irresistível. Uma cena de um frustrado namoro, que até meteu uma queda de bicicleta dentro de poça de água, quem resiste a um largo sorriso, ainda que integrado num… funeral? Ninguém.

Mesmo assim e ainda mais curioso perguntei-lhe:
- E como se chama?
- João. João “Pinhal” – respondeu-me secamente.

É então que, vendo os nossos rostos risonhos – meu e do Joaquim, o do João não… – e logicamente curioso, se aproximou o outro seu parente Jorge “Pinhal” meu conhecido e amigo e eu observei-lhe:
- Já viste o que agora aqui acabo de saber? Há muitos anos atrás, aqui ao teu parente, “passei-lhe a perna”…

E aí, de imediato, secamente, sempre de rosto fechado, fui rectificado pelo meu outrora rival:
- “Passou-me a perna”, não! Quem me “passou a perna” foi ela. Mas, também, quando mais tarde a apanhei, disse-lhe tudo o que me veio à cabeça!...

E, se antes sorriamos dois, passamos a sorrir três… Eu, o Joaquim e o Jorge. Hilariante situação! Impossível conter o sorriso. O meu rival de juventude é que não achou graça alguma…

Nisto, as cerimónias terminaram na igreja e, integrado no cortejo fúnebre, fui andando e rebobinando o filme – filme de 6 m/m, porque na época ainda não havia cassetes vídeo… eh! eh!- filme dos meus namoricos de juventude, das minhas namoradinhas e dos meus rivais de ocasião e algo me fui lembrando… Recordei-me por exemplo que, quando não podia comparecer num ou outro bailarico, pedia a camaradas amigos dessas andanças que observassem os comportamentos das meninas na minha ausência e depois me contassem… Assim como que espiões… eh! eh! E lembrei-me que entre muitas outras velhas cartas a narrar essas andanças, tinha algumas do amigo António Sebastião, meu velho e saudoso companheiro dessas viagens de bicicleta noite e dia e que tão cedo partiu da nossa convivência. Pensei nisso e, chegado a casa, procurei nos meus velhos arquivos…

Procurei e encontrei uma de Março de 1962 desse amigo, de que aqui deixo um pequeno extracto, na qual me narra uma ida a um desses bailaricos mas onde, todavia, o rival João “Pinhal” não estava. Confirma-se assim a referência à concorrência desse ainda agora agastado rival.

O funeral terminou já o dia atingia o seu fim e regressei a casa já com faróis ligados porque a noite caia rápida.
  
E ainda bem que fiz a viagem de noite porque, assim, quem se cruzava comigo e porque não me via, não me chamava de louco por ir a conduzir rindo sozinho. Sim, porque eu fiz toda a viagem lembrando-me da cara fechada, sisuda e aborrecida do velho rival que, agastado e pelos vistos ainda ressentido, deve ter mal dito de, naquele funeral, ter tropeçado com o atrevido “Victor do Chouto”… eh! eh!

E… como é possível um ressentimento amoroso de juventude manter-se mais de 50 anos? Toda uma vida!?... Como?...

Um parágrafo final para esclarecer que, nesta crónica, optei por utilizar nomes fictícios de pessoas e locais em detrimento dos reais, assim pretendendo evitar mal-entendidos, exactamente porque no episódio se fala de uma 3ª pessoa que não estava presente na nossa conversa, pessoa que me merece consideração, respeito, e estima.

Nas curvas da vida…

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

DEPOIS DAS PÚTEGAS, OS FIGOS DA ÍNDIA


Depois de aqui falar das pútegas que colhíamos nos matos que circundavam o Chouto, acorre-me lembrar um fruto que igualmente colhíamos com muito e geral agrado, apenas com o pequeno senão de termos de usar do maior cuidado no seu manejamento...

Refiro-me aos “figos da índia”, que tão saborosos são e que procurávamos e colhíamos logo que da cor rosa se apresentavam nas piteiras dos valados.

Mas os picos – os danados dos picos!... – incomodavam a valer…

Recordei-me então que já em 2003, neste blogue, hospedado noutro espaço da net, tinha redigido algo sobre eles e, procurando e encontrado que foi, trago para aqui o então escrito.

São recordações curiosas que hoje me dão prazer rememorar e me fazem sorrir…

E… como éramos felizes sem sabermos…


Vendo esta bonita imagem, eis que recuei aos meus tempos de criança no Chouto, minha aldeia natal quando, qual pardalito ligeiro, com os meus companheiros de infância, - o António Rainha, o Fernando Carvalho, o Diamantino Carloto e tantos outros -, percorríamos os campos e as hortas da vizinhança em busca de bons e belos frutos ali criados.

Estes “Figos da Índia” eram então dos mais procurados nas piteiras que existiam nos


valados que serviam de vedações das pequenas hortas dos meus vizinhos.

Manejados logo na apanha com a maior delicadeza, eram também abertos com muito cuidado por causa dos seus finos picos que, a uma pequena distracção, se espetavam aflitivamente nos nossos deditos provocando-nos um incomodo dos diabos!... E, tirá-los, depois, era o cabo dos trabalhos!...


A imagem mais curiosa que tenho dessa operação de abertura dos figos era a forma como o fazíamos: Traziamos sempre nos bolsos uma muito práticas “lâminas” feitas de canas verdes que antes preparávamos cortando a cana em pequenas tiras e que afiávamos, cortando fininho, num dos lados, com a faca de cozinha da mãe, ficando como se fosse a lâmina de um canivete. Como os nossos pais, naturalmente, não nos davam dinheiro para adquirirmos canivetes, habilidosamente, contornávamos assim a dificuldade…



Mas, mais ainda: A parte laminada encaixava noutro pedaço de cana, então já cilíndrica na totalidade, onde fazíamos uma pequena fenda. Desta forma, encaixávamos e guardávamos ali a “lâmina” como se fosse um canivete não nos aleijando quando a colocávamos no bolso.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A FRANQUEZA DO GESTO...


Gosto particularmente desta foto que tempos atrás me foi facultada pelo amigo Manuel Vital “Barracão” no dia do seu casamento com a Deolinda na igreja paroquial do meu Chouto natal!

E gosto não só por ela recordar o casamento desses amigos mas também por nela surgir a minha falecida mãe e por a imagem expressar fielmente a franqueza, pureza de espírito e vivência daquela que teve a virtude de me conceber e criar e que passou na vida todos os seus dias com sinceridade e justeza de atitudes, trabalho, honestidade e carácter, muito carácter!

A mão francamente estendida - expressivamente bem aberta! - para um são e amigo cumprimento de felicitações, é bem o retrato fiel do quotidiano viver de toda a existência da nossa saudosa Maria do Rosário!

Que repouse em paz, na paz, na quietude e na franca harmonia com que sempre viveu neste mundo e que tão bem soube transmitir aos seus filhos que sempre a recordarão com profunda saudade!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

BELA JORNADA DE CONFRATERNIZAÇÃO FAMILIAR!



Num novo espaço que adquiriram recentemente num dos prédios mais altos de Almada de onde se desfruta uma magnífica vista sobre o Estuário do Tejo e Lisboa, os meus cunhados Alberto e Gorete proporcionaram ontem uma belíssima confraternização familiar que reuniu irmãos, filhos, cunhados, netos, sobrinhos e sobrinhos-netos num total de 23 pessoas!






Todos à mesa, saboreando uns deliciosos cabritos assados ali mesmo em forno de lenha nas excelentes instalações criadas e que fazem questão de afirmar que se destinam ao convívio com familiares e amigos e que as quadras, nascidas da veia inspiradora do Alberto e fixadas com destaque no pano da chaminé da lareira da sala isso mesmo confirmam e que, pela sua habitual lhaneza e amizade, não temos como duvidar que assim será. Fica aqui a minha gratidão e estima, 
na parte que me toca!





O cabrito, acompanhado das inevitáveis batatinhas assadas e do arrozinho estava magnífico, o vinho tinto “Grão Vasco” – que provei em meio copinho… - era divinal e as diversas sobremesas estavam super-gostosas e, por via das inevitáveis repetições - no cabrito servi-me 3 vezes! - , terão sido responsáveis por mais uns quantos gramas (?) no peso aqui do rapazinho de velha carcaça!...




Terminou tudo com o cafézinho, o digestivo e o inevitável jogo de snooker (aí, convenhamos, parece que o dono da casa não terá gostado tanto do resultado final…rsrs).




Tudo resultou numa excelente confraternização e num extraordinário convívio familiar que fica para a história das nossas vidas! Muito bom, mesmo!




Ficam aqui algumas imagens do lindo convívio e ficam também as felicitações e um bem-haja ao Alberto e à Gorete, num particular agradecimento, franco, pessoal e amigo!




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

NO CARNAVAL, LEMBRANDO "MESTRE ARLINDO"


Nesta época do ano em que se festeja o Carnaval, é incontornável lembrar-me sempre do nosso saudoso amigo “Mestre Arlindo”, de seu nome completo Arlindo Alves Texugo, amigo de sempre, que me viu nascer e crescer na nossa aldeia.

Era pessoa extremamente simpática, educada, muito amiga de todos e muito prestável e, de tão sofrida e madrasta que lhe foi a vida, ainda mais admirava a bonomia e a alegria com que dia a dia encarava as difíceis horas da sua existência. (O sr. Arlindo esteve internado muitas e sofridas vezes e teve, que me recorde, pelo menos seis intervenções cirúrgicas em Lisboa. Cheguei a visitá-lo amiúde no Hospital do Rego.)

Alfaiate de profissão, esteve estabelecido em frente à extinta Sociedade Recreativa e, depois de construída a sua casa de habitação (a segunda da esquerda na foto que aqui deixo, num bonito registo da época) foi para ali que se mudou de fazenda, tesoura e agulhas. Mas, é do local da anterior oficina, frente à Sociedade, que me recordo da mais antiga brincadeira de Carnaval praticada pelo nosso amigo “Mestre Arlindo"...


Na época não tínhamos água canalizada na aldeia e era usual o sr. Arlindo ver passar pela frente da sua oficina na Rua da Fonte as senhoras de cântaro à cabeça e com elas “meter palheta”. Para todas ele tinha uma conversa, uma graça ou uma simples saudação amiga e cavalheira. Muitas vezes com algum picante, com alguma bicadazinha marota, sobretudo quando se tratava de moças solteiras mas, mesmo para as casadas, a sua brincadeira maliciosa mas nunca ordinária ou ofensiva, era frequente. “Mestre Arlindo” era assim, alegre, bem-disposto e mesmo folgazão.

Ficou famosa na época a “partida” que pregou à “Ti Barbara”, uma senhora idosa, alta e magra, que todos os dias por ali passava a caminho da fonte e que era casada com o “Ti Bartolomeu”, quando o nosso maroto sr. Arlindo comprou uma “onça” de tabaco “Duque” (ele sabia que o velho pastor fumava daquela marca os cigarrinhos que fazia à mão), a esvaziou e substituiu o precioso tabaquinho por uma seca e esfarelada bosta de boi que, com frequência também passavam pela rua e por ali deixavam “presentes”. “Mestre Arlindo” deixou secar a dita cuja, esfarelou-a para que ficasse parecida com tabaco e encheu a embalagem da “onça” com o “precioso” recheio. Quando viu no Largo da Igreja que se aproximava a “Ti Barbara” a caminho da fonte atirou a “onça” para a calçada e ficou de espreita a ver o resultado da malandrice… (E ele contava isso tanta vez e com tanta graça…) “Ti Barbara” viu a bonita “onça” abandonada na calçada e disse: “Olha que bela “onça” pró meu Bartolomeu!”. Agachou-se e guardou-a, feliz da vida, no bolso do avental. À noite, quando o marido chegou, contou-lhe do valioso achado: “Ó Bartolomeu, olha o que achei na rua ao pé da oficina do Arlindo?!”

Pois, mas o pior foi quando o “Ti Bartolomeu” resolveu fazer um cigarrinho e começou a chupar o “fuminho” que dali vinha… Era amargo para caramba e, analisado e sobretudo cheirado bem aquele estranho “tabaco”, foi-lhe fácil detectar a “partida” em que a pobre mulher tinha caído e, daí, associá-la de imediato ao maroto do Arlindo, foi um rápido. Arlindo que, claro, sempre lhe negou a autoria da malandrice.

São várias as marotagens e brincadeiras deste saudoso amigo que, tempos atrás, numa ida ao cemitério velho do Chouto visitei na sua última morada e, em momentos de recolhimento bem dele ali me recordei com tristeza e saudade mas, por hoje fico-me por aqui, que a conversa já vai longa.

Que “Mestre Arlindo” descanse para sempre em paz e harmonia, na bonita paz e na harmonia que sempre nos transmitiu em vida e que tão bem nos fez!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

OUTROS TEMPOS, OUTRAS PRÁTICAS...


Viviamos os anos 50 do século passado…

Pequenas bicicletas para crianças não existiam no mercado e, mesmo que as houvesse, onde estavam as posses para os nossos pais as comprarem? O dinheirinho era pouco, escasso, muito escasso e o pouquinho que se conseguia era para a fraca alimentação e para fazer face a mais importantes necessidades como doenças, médicos, medicamentos, etc.

Sendo assim, como fazer para andar de bicicleta, nessas velhas pasteleiras, como se chamavam na altura, que os nossos pais com esforço adquiriam para mais facilmente deslocarem-se nos seus afazeres diários usando os fracos caminhos de cabras de que se serviam na época, montes e vales adiante?

Como fazer? Ora, como diz o ditado, “quem não tem cão, caça com gato” e, assim, vá de aprendermos a enfiar as frágeis pernitas no quadro da dita e, caindo aqui, levantando acolá, no inicio de um equilíbrio instável, ganharmos prática e avançarmos destemidamente.

Como muitos de nós naquela idade fiz assim quilómetros e quilómetros nas centenas de vezes que percorri o caminho Chouto - Anafe do Avô Gregório e volta. Um ano? Dois anos? Três anos? Não sei… Não me lembro… Foi o tempo necessário até as pernitas crescerem e poder então chegar aos pedais galgando a perna por cima do quadro da bicicleta.

Velhos tempos… Tempos passados…

Tempos passados, não mais esquecidos e que, agora, estas imagens circulando pela net mais nos trazem à memória…

Meninos livres, descomprometidos e despreocupados.

Meninos de mil sonhos e mil anseios.

E como éramos felizes sem sabermos!...

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

AS PÚTEGAS DE MINHA MEMÓRIA...


Éramos miúdos, passávamos pelos anos 40 e 50 do século passado e brincávamos na aldeia, sobretudo no largo fronteiro à minha residência, largo então de piso de terra batida e mesmo de alguma areia que, trazida pela chuva na rua de pequeno desnível, ficava depositada junto à sede da Junta de Freguesia.

Aí jogávamos à bola, com balizas formadas por duas pedras e bolas feitas de meias e trapos; aí brincávamos, com pequenos e modestos carrinhos construídos de madeira ou mesmo de canas das vedações da hortas vizinhas da aldeia; aí jogávamos à bugalha, sendo que os ricos “berlindes” dos meninos das distantes vilas e cidades, eram ali substituídos por pequenas bugalhas que arrancávamos das rastejantes “carvalheiras” que então abundavam nos matos circundantes do povoado.

Íamos à sua procura e, achadas, arrancávamo-las pelo pequeno pezinho cujo borboto era cortado e, alisado para que ficasse sem qualquer relevo e assim fossem lidadas e jogadas pelos nossos pequenos deditos polegar e maior, lisas, eficientes e bonitas.


Ora, era nessas deambulações pelos matos circundantes do meu Chouto natal que chegávamos às hoje para mim saudosas pútegas, umas pequenas plantas que nasciam, se a memória não me falha, debaixo do mato e sobretudo dessas “carvalheiras” baixinhas. Nasciam e eram colhidas por alturas das primeiras chuvas e no Inverno e brotavam, no terreno húmido, debaixo dos arbustos rasteiros.

Arrancada a pútega com cuidado, era depois sugado o pequeno e tenro pé e recordo-me que era particularmente saboroso e bem agradável ao paladar. E… como bem me recordo desse belo sabor!...

Chegaram-me hoje imagens dessas saudosas pútegas e, aí, foi um desfilar de recordações que me passaram pela memória relativas aos felizes dias vividos na minha meninice na aldeia, na companhia de outros vizinhos e amigos ainda hoje felizmente na nossa convivência.

O António Rainha, o Fernando e o Manuel Carvalho, o Diamantino e o Álvaro Carloto, o João “da Calistra”, o Artur e o Alfredo “Paneiro”, o José Augusto “Montefato”, o Adriano Cruz “Ervilha”, o Armando Jorge, o José “Torres”, o Manuel João (já falecido) e o Tomé Dinis, o Manuel Espadinha  e… eu sei lá quantos mais, numa relação de gente bonita e amiga em que temo esquecer alguém…

Corríamos e saltávamos ligeiros que nem pardalitos, despreocupados, livres e felizes pelos montes e vales circundantes do Chouto e não precisávamos de ginásios e horas de ginástica, comíamos e bebíamos tudo o que nos surgia nos matos, nas hortas, nas ruas, sem preocupações de infecções ou males-estar, sem medo de drogas ou assaltos, sem saber o que eram sequestros ou raptos. 

E… como éramos felizes sem sabermos!...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A BANDEIRA NÃO É RODILHA!


A bandeira, seja de uma pequena colectividade de bairro ou aldeia, de uma grande associação ou clube, ou ainda de um qualquer país, pequeno ou grande no contexto das nações, não é um vulgar pano que se transporta aqui ou ali mas, antes e principalmente, é o símbolo máximo representativo dessas associações de pessoas em vivência colectiva e civilizada.

Exibidas em grandes ou pequenos, ricos ou pobres estandartes, as bandeiras são tratadas e exibidas com a dignidade e civilidade que a sua apresentação representa nas sociedades organizadas e civilizadas da nossa vivência em comunidade. Isto, felizmente, é o que encontramos e vemos por todo o canto do mundo, numa constância e num hábito que se torna exigível e obrigatório mas… há excepções… Lamentavelmente, por vezes, isso não acontece…


É o caso destes exemplos que apresento nestas duas fotos que circulam pela internet e que resolvi aqui juntar.

Se na da esquerda, numa ocorrência passada na varanda da Câmara Municipal de Lisboa anos atrás, a possamos tolerar, interpretando-a como resultante de uma grande distracção e desleixo, ainda que imperdoável, que dizer do apresentado na foto da direita no inadmissível processo como a Bandeira Nacional é manuseada?

Desconheço a identidade do personagem na esquerda na foto (clique para a ampliar) que será eventualmente um autarca e talvez um político local qualquer, mas parece-me reconhecer na direita a figura da Drª Assunção Cristas, presidente do CDS/PP, desconhecendo que papel ali desempenhava. O personagem portador da Bandeira Nacional naquelas incríveis condições mereceria ali mesmo uma forte reprimenda que eventualmente não terá acontecido por parte de Assunção Cristas a avaliar pelo seu sorridente rosto…. Isto para não falar e não ir tão longe no que alguns entenderão como merecedor de castigo porque, como sabemos, o mau trato e falta de respeito tido com o símbolo nacional é passível de pena no nosso Código Penal… 


E, vendo estas fotos e falando do respeito a que à nossa Bandeira Nacional é devido, veio-me à memória o por mim assistido várias vezes e, pelo menos nesta vez registado, num pequeno e distante povoado (Cavungo) bem no interior do muito distante leste angolano, durante a guerra colonial: quando a Bandeira Nacional de Portugal era içada ou arreada no aquartelamento, ouvindo-se o som do clarim alusivo à cerimónia, os nativos, passantes na via pública, numa manifestação de respeito cessavam a marcha e, em sentido, faziam honras ao símbolo nacional português. Isto, que não foi  minimamente encenado porque autêntico, vindo de gente inculta e impreparada, a sofrer as consequências de uma guerra de soberania, bem poderia servir de lição ao personagem político na foto da direita que ali trata indecentemente, que nem rodilha,  a nossa Bandeira Nacional.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ARMANDO JORGE - REACÇÕES


Até hoje e na totalidade de algumas dezenas, tem sido muito interessante comprovar as reacções dos amigos comuns à minha anterior narração sobre o encontro realizado com o velho amigo Armando.

Como era de prever e porque todos nós há anos nos interrogávamos sobre o paradeiro dele e ansiávamos por notícias suas, o acolhimento do pessoal à divulgação do nosso encontro foi unanimemente bem acolhido e as reacções não se fizeram esperar.

Aqui pelo meu blogue passaram dezenas de amigos mas, foi no Facebook que optaram por deixar os seus muitos comentários. São todas elas manifestações de muita amizade e carinho para o nosso amigo e, porque achei algumas particularmente interessantes – a que no dá conta da troca dos “santinhos”, narrada e mostrada pela Antónia, filha da Perpetua Espadinha, nossa antiga companheira da Primária no Chouto, acho uma ternura… - resolvi trazê-las para aqui, para que fiquem registadas para a posteridade neste meu espaço e também porque pretendo passá-las a papel e enviá-las pelo correio ao Armando Jorge, avesso que é o rapaz a computadores e internet. 

Porquê essa aversão, não sei…

Acredito que ele vai apreciar estas reacções e comprovar como ainda hoje é estimado e acarinhado pelos seus muitos amigos de outrora!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ARMANDO JORGE - UM AMIGO DE SEMPRE!


Ontem um muito agradável e reconfortante encontro/almoço com o meu velho e particular amigo Armando Jorge, amigo grande de infância e adolescência que já não via e de quem pouco sabia para aí há mais de 40 anos!

Guardo do Armando grandes e bonitas recordações que ontem não ficaram totalmente rememoradas porque o almoço incluía mais 3 amigos dele e outras conversas decorreram mas ficaram aprazados mais encontros e mais almoços e assim será.

Iniciamos o nosso convívio e amizade por volta de meados da década de 50 do século passado quando éramos ainda crianças no Chouto, minha aldeia natal. O Armando chegou à aldeia nessa data, vindo com os pais e a irmã Maria José, quando o pai ali se estabeleceu com comércio de mercearia. Brincamos então muito nas ruas da aldeia e frequentamos ali a primária sob a batuta da professora Maria Angelina, mulher de maus fígados cujo fel derramava diariamente sobre os seus pobres e indefesos alunos. Mas, isso são outras histórias de que um dia hei-de aqui falar…

No Chouto brincamos e crescemos uns anitos quando, subitamente e por força da separação conflituosa dos seus progenitores, o seu pai, que ficou com os dois filhos, se mudou para Ulme, aldeia vizinha e aí, então com um comércio de taberna se instalou e, o Armando seguiu os seus estudos secundários na Chamusca. Eu, pela minha parte, para idênticos estudos, rumei a Lisboa onde estive 3 anos. De seguida voltei ao Chouto e “passeei os livros” em Torres Novas. Encontravamo-nos  por isso umas ou outras vezes e íamos falando sobre notas escolares, namoradinhas estudantes, etc.

Findo os estudos - no meu caso, os falsos estudos… - entramos no mercado do trabalho tendo eu ficado por Ulme, no escritório da Fábrica de Papel, enquanto o amigo Armando arranjou emprego numa seguradora em Lisboa. Seguiram-se depois para mim mais quase 4 anos de vida forçada de militar, com a inevitável guerra de África e o Armando levou esse período de avanço sobre mim porque, por via de uma deficiência na estrutura óssea das mãos, que todavia nunca o impediu até hoje de fazer a sua vida normal, se livrou da tropa, numa época maldita em que nenhum rapaz daquela idade dela se safava.

Terminada a guerra e vida militar, rumei também para Lisboa e foi então que os nossos destinos voltaram a cruzar-se.

Através de anúncio no “Diário de Notícias” encontrei e aluguei um quartito junto ao Martim Moniz e, como trabalhava no Rossio, por cima da Pastelaria Suíça, a coisa era pertinho. Mas o quartito era mesmo quartito… Não tinha grande jeito. Pequeno e com uma casa de banho onde não podia tomar o dito... Tinha de vir tomar banho a um balneário público no Poço do Borratem e lamentei-me ao Armando e ele fez-me um primeiro favor quando se lembrou que, na casa onde tinha o seu quarto, no Bairro Alto, havia outro vago.
- Se quiseres falo com a Dª Antónia e, se ela estiver interessada em arrendá-lo, vais para lá.- disse, solícito.

Aprovado pela senhora, e visitado que foi o quarto, mudei-me para lá, feliz e contente. Na época o Bairro Alto era coisa muito diferente da actual. Então era local de tabernas, bebedeiras e casas de "gado bravo” mas, o prédio onde ficava o quarto, na Rua da Atalaia, não era nada disso. Prédio bom, limpo, bom ambiente e boas condições.

Só saí da casa de Dª Antónia e do marido sr. António, um espanhol, proprietários de um restaurante junto ao Teatro da Trindade, para casar. Fui (fomos) sempre muito bem tratados pela Dª Antónia e pelo marido mas, ela tinha um fraquinho pelo Armando e via-me mais como “patinho feio”… O Armando tinha ido primeiro para lá, era – e é! – muito comunicativo e sociável e ela gostava particularmente dele. Uma bela noite o amigo Armando “mamou” mais um copinho, chegou tarde e… abrindo a porta do patim esqueceu-se da fechar... Na manhã seguinte a Dª Antónia levantou-se cedo, viu a porta escancarada e, esperando que eu saísse do quarto para a higiene pessoal na casa de banho ao fundo do corredor, atirou-se a mim:
- Então esta noite abriu a porta, entrou e esqueceu-se da fechar. Ficou toda a noite a porta aberta! É preciso ter mais cuidado! – atirou-me, com uma furiazinha indisfarçável.
Eu sabia que o Armando tinha chegado depois de mim e que tinha sido ele o “esquecido” e disse-lhe isso mesmo. O Armando saiu depois do quarto e pediu desculpa e, lembro-me bem da reacção dela:
- Ah, seu maroto! Ai, ai!

A conversa já vai longa mas ainda quero aqui lembrar mais duas ou três situações em que o meu velho amigo foi-me especialmente prestável: Uma vê-se na foto que junto, tirada no meu casamento em 1972. Não tinha coro para a cerimónia nem dinheiro para a orquestra que nos tocasse a Marcha Nupcial e, então, lembrei-me de gravar numa cassete a Marcha encarregando o Armando de a pôr a reproduzir na cerimónia através do gravador que ele segura. Gravador que tinha comprado antes da guerra, que fez toda a guerra pelo Leste e Norte de Angola e que ainda serviu para este especial momento. O Armando saiu-se a contento e lá tivemos a Marcha Nupcial no casamento. E, convenhamos, foi algo original, né?

E, duas outras vezes, particularmente significativas, prendem-se envolvendo um carro que comprei a prestações, ainda solteiro. Era um Fiat 124, creme, muito bonito, novinho a estrear e que me custou 70 contos (350 euros, na moeda de hoje).

Como morava no Bairro Alto em que os estacionamentos eram nulos eu, atrevido – ou ignorante? - deixei tempo infinitos o carro encima do passeio, meio encima, meio na faixa de rodagem. Na época a polícia não deixava aviso de multa no pára-brisas e… eu feliz e descansadinho da vida dia e noite... Eis senão quando, dentro de envelopes, começam a surgir-me carradas de multas. Primeiro eram multas aos pares e, depois, era já ás 4 e 5 juntas de cada vez! E eu estava em vésperas de me casar e todo o dinheirinho era pouco…
Falei com o Armando e dei-lhe conta da minha preocupação:
- Estou tramado, pá! Não sei quando pára esta merda e como me vou ver livre dela?...
Aí, solícito mais uma vez, ele acudiu-me:
- Não pagues ainda. Dá-me os talões que nós na Companhia temos uma colaboração estreita com a polícia e eu vou falar com o Comissário Virgílio (nome aqui fictício, por razões óbvias) e talvez ele arrume isso…
E foi mesmo o que aconteceu… Não paguei nenhuma, ou talvez tenha pago as primeiras chegadas... Eu dava ao Armando os talões de multa que me chegavam e o tal simpático Comissário “abafava” a coisa. Eficiente!

E ainda tivemos mais uma outra situação em que, oficialmente, o Comissário não entrou mas que, na realidade, talvez não tenha sido bem assim…

Eu casei e fui morar para a Reboleira, num apartamento da então famosa empresa J. Pimenta. Como trabalhava no Rossio, fazia um curto trajecto de carro e usava o comboio da linha de Sintra que apanhava na estação da Damaia. O Fiat ficava, como outros automóveis junto à estação e, quando retornava do trabalho, fazia o percurso inverso. Só que uma vez, saído do comboio na Damaia, vou à procura do carro e… estava lá o sítio… Fiquei aflitíssimo, como é bom de imaginar.
Procurei durante essa noite e no dia seguinte por todo o lado na zona da Amadora mas, do carrinho, nada… Foi então que me lembrei do nosso conhecido Comissário e telefonei ao Armando na perspectiva dele lhe pedir para movimentar a polícia procurando também… 
Mas o amigo Armando ainda foi mais longe: 
- A polícia conhece muitos gatunos de carros e vamos ver se eles detectam o gajo que levou o Fiat? Aguarda…
Algum tempo decorrido telefona-me o Armando:
- Olha pá, falei com o Comissário e nada feito. Os gajos que eles controlam não trabalham na zona da Amadora. Só por Lisboa.
Fiquei desapontado, como é bom de ver mas, não tardou muito esse desapontamento porque, na manhã seguinte, logo pelas sete da matina, a polícia bate-me à porta do apartamento informando-me que o carro tinha sido encontrado abandonado e devia ir levantá-lo na esquadra de Oeiras.
E foi assim, com influência ou não do Armando e seu amigo Comissário – nunca soube a realidade... - a verdade é que só estive pouco mais de 48 horas sem carro e… com poucos prejuízos: o bólide só tinha o tampão do depósito de combustível rebentado.

E, eis como, pelos episódios relatados, se constata que o amigo Armando tem sido mesmo amigo de verdade!

Mas tudo isto são histórias do passado, vividas por ele e por mim. Hoje, o meu amigo Armando Jorge, que teve a amabilidade de receber-me e mostrar-me a sua residência nos arredores de Lisboa, vive rodeado de recordações que se vêem por toda a casa, desde fotos nas paredes, em estantes e em álbuns, a caixas, vídeos e filmes das muitas viagens que fez pelo mundo e prepara-se para editar um livro de memórias que faço questão de ler. O amigo Armando, numa “herança” que veio de seu pai, igualmente prestativo e voluntarioso com tudo e todos, viveu muito o associativismo e foi mesmo dirigente destacado de várias associações e colectividades e foi certamente muito ao serviço delas e para elas que tanto viajou.
  
Mas, vive em dor e muito condicionado de movimentos este velho amigo desde há 3 anos a esta parte prestando assistência diária e contínua a sua esposa vítima de doença grave e irrecuperável. Desde essa data o meu amigo vive, vigilante e prestável para a sua amada, ainda que saiba que os dias dela a mais não irão que isso… Por vezes a vida torna-se madrasta e o Armando Jorge e sua esposa estão disso sentindo a dura experiência… Infelizmente.

Neste nosso encontro de ontem nem falamos dos casos que relatei acima e de outros mas já aprazamos nova oportunidade para nos reunirmos e rememorarmos velhos tempos, velhas vivências e velhas lembranças.

Assim acontecerá e assim possivelmente viveremos com os dias menos pesados e difíceis.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

EFEMÉRIDE


No dia em que se completam 23 anos sobre a sua morte – data em que fui propositadamente a Coimbra para estar no velório dos seus restos mortais antes de partirem para S. Martinho de Anta (Trás-os-Montes) onde, em campa rasa, o seu corpo ficou sepultado – , melhor que as minhas pobres palavras, a rica sabedoria de Miguel Torga, grande poeta, escritor, médico e homem sério e integro, a quem a Academia Sueca e o Mundo estão a dever um Nobel de Literatura. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

OS DOIS "JOÃO SEMANA" DO MEU TEMPO!


Fruto do meu hábito de tudo preservar, que já vem desde o tempo de criança de tenra idade quando guardava numa caixinha de camisas os poucos e pequeninos chocolates que me ofereciam – e que, depois, a “raposa” da minha irmã, embora mais nova que eu 5 anos, vinha sorrateiramente “limpar-me” e papar… - guardei e encontrei agora um pequenino bilhete nas velharias de meu falecido pai onde, para além de me recordar a doença de muitos anos de minha mãe (“tuberculose óssea”) e as muitas dores, preocupações e vicissitudes várias que ela e muitos de nós sofremos, encontro a referência a dois velhos e saudosos amigos que passaram pela Chamusca e seu vasto concelho, tratando e curando males sem limite.

Refiro-me a dois homens de saber e dedicação sem fim à causa pública e ao seu semelhante, com quem tive o imenso prazer de privar e, porque eram muito amigos de meu pai, por eles também era considerado estimado e acarinhado.

Falo de Armando Cumbre (médico) (à esquerda) e Joaquim Cabeça (farmacêutico) (à direita) que aqui titulo como dois verdadeiros e reais “João Semana” da Chamusca e suas muitas gentes, da vila e freguesias envolventes, porque aqui passaram e viveram curando mil e uma maleitas em condições muito difíceis e bem mais complicadas que as actuais.

Estes homens tudo e todos conheciam e a todos tratavam por igual, num esforço e numa dedicação só imaginável para quem as viu e viveu!

 O Dr. Cumbre a todos atendia e tratava no seu consultório, na rua hoje com o seu nome atribuído muito justamente – muitas vezes usando a sua tão para nós já bem familiar expressão “Ah cão!” – e, muitas vezes, por estradas e caminhos bem difíceis e quase impróprios, deslocava-se mesmo a casa dos seus doentes que tratava com desvelo e sabedoria. Recordo-me bem de o ver ir ao Chouto ou passar por ali e, parando para cumprimentar o meu pai, lhe dava conta da razão que ali o levara. Outras vezes, era mesmo o meu pai que lhe dava notícia de situação mais preocupante e lhe pedia a sua ajuda e saber. E sempre acorria solicito e voluntário o bom do Dr. Cumbre! 

E Joaquim Cabeça, o farmacêutico e tantas e tantas vezes médico de tudo e todos? Um encanto de homem e amigo! Pessoa de muita experiência e saber, atendia como ninguém os seus doentes e a todos acudia e tratava. Toda uma vida naquela farmácia do Largo do Coreto, hoje com o seu nome, numa decisão a todos os títulos louvável! Toda uma vida a ajudar e cuidar de tantas e tantas dores e de tantos e tantos males! E quantas vezes a entrega de remédios sem o correspondente pagamento por dificuldade económica do doente? Joaquim Cabeça a todos acudia e ajudava. Sem dúvida um homem de bem! Sem dúvida um homem bom! 

Pelo exposto e não só, porque muito e muito mais haveria a dizer sobre estes dois grandes homens, os considerei verdadeiros e reais “João Semana” da minha existência!

Se não e para reforçar a minha opinião, leia-se o “bilhetinho” de Joaquim Cabeça para meu pai de que falo no início e que foi a razão deste meu apontamento…

Passo a transcrever: “Caro José. Aqui te envio estas 6 injecções que mandou o nosso Exmº Amigo Dr. Cumbre. Telefonou-me para eu te as mandar e dizer-te que é para dares a tua mulher (a quem desejo as melhoras) uma numa nádega e outra na outra, isto é, continuas a dar com o cálcio que estás a dar. Na próxima quinta ou sexta-feira vens cá para ele te dizer algo sobre o assunto, pois já cá deve ter o relatório e radiografia. Dispõe sempre do Amigo sincero. Chamusca, 13/2/62.”  (De notar o detalhe de escrever por duas vezes "amigo" com "A" maiúsculo.)

Este foi o conteúdo do bilhete de Joaquim Cabeça para meu pai, levado certamente por algum portador que, tendo ido à farmácia, retornaria ao Chouto e Joaquim Cabeça pediu-lhe o favor. O amigo Cabeça mais não foi que intermediário entre Dr. Cumbre e meu pai. Por saber que meu pai sempre que ia à Chamusca não passava sem ir cumprimentar o amigo na farmácia, tratou de lhe pedir que intermediasse.

E eis como de um simples, velho e amarrotado bilhete de 1962 parti para rememorar e homenagear a memória de dois bons amigos e expressar o privilégio de em vida privar e beneficiar do trato e da estima destes verdadeiros senhores! 

Os, por mim considerados, “João Semana” do meu tempo!

Honra a eles, que para sempre serão lembrados!

Bem hajam e que descansem em paz!

(Fotos retiradas da extinta revista "Chamusca Ilustrada")



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

OS ARROZAIS E AS AGRURAS DA VIDA



Eis um dos trabalhos mais difíceis e árduos que, tempos atrás – e não foram tão atrás quanto isso... –, eram executados pelas muitas mulheres da minha aldeia natal e não só ali, como é natural – muitas delas felizmente ainda vivas! – nos campos de arrozais da freguesia, num esforço muito grande e suportado muitas vezes de Sol a Sol.

Aqui, nestas imagens, vemos o plantar do arroz e o tratar da terra dos canteiros mas, depois, tínhamos ainda, num trabalho não menos difícil e árduo, a chamada “monda”, onde igual sacrifício era pedido às muitas mulheres que, cravadas no terreno lamacento e doentio dos canteiros e, vergadas toda a hora, retiravam as ervas daninhas para que a planta pudesse crescer livre e eficazmente e, finalmente, tínhamos a ceifa que, nos tempos actuais já se faz com as modernas ceifeiras debulhadoras mas que, no antanho, era executada pelo esforçado trabalho braçal de mulheres e homens.


Nos falados canteiros e arrozais elas, como também os muitos homens que cavavam horas infindáveis, com grandes enxadas a terra lamacenta e pesada, muitas vezes enterrados até quase aos joelhos, ganharam a vida, criaram os filhos e, comendo a fraca merenda, chegados a casa, já com a noite a cair, molhados, suados e de roupas e corpos mais que sujos, a bem precisarem de um retemperador banho que, como bem sabemos, muitas vezes era bastante difícil de usufruir nas suas humildes habitações sem água canalizada e sem instalações sanitárias, viveram assim anos e anos a fio, gerações de amigos meus conterrâneos, num ritual e num sacrifício que se repetia sazonalmente, sem um queixume, sem um lamento, sem uma revolta.

Gente trabalhadora, gente honrada e gente sofrida, bem merecedora de uma homenagem pequena que fosse mas que, todavia e lamentavelmente, nunca vi ser-lhe prestada…

Aqui lhes deixo o meu apreço, a minha grande admiração e a minha forte estima!

(Fotos retiradas da net.)