segunda-feira, 6 de maio de 2019

HOJE 47, AMANHÃ 48, 49 E... 50!


O título, deixa-me lá ser franco, é um desejo, naturalmente legítimo mas… atrevido por excesso…

Na verdade e depois da operação à figadeira, escolhi pedir apenas um aninho de cada vez no tocante a aniversários e agora já estava a “estender-me”…

Então, vamos lá a não ser apressado e, ao 47º aniversário do meu casório, ocorrido hoje, tenho de manifestar o desejo de vir a celebrar o 48º no próximo ano de forma a aproximar-me mais de festejar o cinquentenário de casamento, grande e justificada aspiração dos noivos de hoje e de 6 de Maio de 1972.

Ainda faltam 3 anitos mas, com calma e cuidado, com sorte na saúde e a preciosa ajuda dos médicos que ao longo das suas vidas queimaram pestanas e consumiram muitas horas e dias para progressivamente saberem mais do corpo e da saúde humana no sentido de prolongar a vida dos homens, pode ser que aconteça esse festejo…

Quero acreditar, porque é um desejo mútuo lindo, de mim e da noiva Tense, que atingiremos o dia 6 de Maio de 2022 para melhor recordarmos o dia em que subimos ao Senhor do Bonfim, na Chamusca e aí unimos oficialmente as nossas vidas e os nossos destinos!

Fica aí uma foto bonita desse dia 6/5/1972, imagem que julgo publico pela 1ª vez.

domingo, 21 de abril de 2019

TIO ZÉ "PISCO" - AMIGO BEIRÃO DE RIJA TÊMPERA!


Embora já aqui tenha sido mencionado diversas vezes em anteriores crónicas, volto hoje com gosto a escrever sobre o Tio Zé “Pisco”, homem bom, honesto e de carácter que me orgulho ter como amigo, num franco sentimento que sei ser reciproco e que muito me gratifica.

Tio Zé, num gesto que desde há muitos anos já tornou hábito quase obrigatório, sempre que me sabe na aldeia procura-me, passa comigo uns longos pedaços de tempo e aqui conversamos, trocamos ideias e, sobretudo, ele faz questão de me recordar e contar longos e interessantes episódios que já vêm desde a sua infância. E quão deliciosas são as suas “istórias” e quão gratificante é vê-lo entusiasmado a narrar desde cenas vividas no seu tempo de escola primária a aventuras de jovem nos anos 30 do século passado e até situações de supostos “affaires” na mente da sua desconfiada e ciumenta Tina…

Homem de muito trabalho de toda uma vida, beirão assumido de rija têmpera, ainda hoje, à beirinha de festejar os seus 93 anos de vida, faz questão de não parar e de manter-se activo, numa vivência do dia-a-dia a todos os títulos espantosa.

Cumprindo o seu “ritual” de sempre que me faz por cá, esteve ontem aqui e, depois de talvez uma hora de desfilar de “istórias” e recordações de tempos idos, diz-me:

- Vou às “Almas” regar as couves porque amanhã não vou lá e vou para a “Vinha” regar as oliveiras.

- Eu vou consigo! Pode ser?- pergunto-lhe.

- Embora! Vamos desenferrujar as pernas!

Avançamos então e, nuns curtos 5/10 minutos, ele com a ajuda da sua agora inseparável bengalita - “É um amparo”, diz-me – eu com a chatas artroses nos joelhos, chegamos às “Almas”, sua pequena “quelha” que o meu amigo cultiva com um inexcedível zelo e carinho e um confesso e compreensível prazer.

Mas, digo, mesmo sabendo da sua invejável vitalidade não obstante a passagem dos seus 93, abri a boca de espanto quando ele, depois de usar o seu fino humor perguntando-me “Trouxe a chave? Não trouxe, pois não?”, empurrou o portão e abismei, francamente, com o que vi…

Tudo cavado, semeado, plantado, corado e tratado pelo Tio Zé, tinha à minha frente um viçosa horta ricamente composta e cultivada única e exclusivamente por este amigo de 93 anos de idade! Um espanto! Um espanto!

Ali tem desde favas a abóboras, passando por cebolas, alfaces, tomates, couves, salsa, coentros, etc. Trata tudo com o maior cuidado e desvelado carinho e tem mesmo um pequeno e tosco “barraco” “para me abrigar da chuva e do Sol e descansar quando estou cansado”, informou-me e eu aí o registei num momento de pausa depois de também o ter gravado na rega das suas couves... (Por vezes na ida de volta a casa já me tem dito: "Fui regar os meus tomates"...).

Um encanto! Um maravilhoso encanto!

Vi, admirei, fotografei e aqui estou a registar para a posteridade o bonito que é ver este homem, depois de uma longa vida de árduo e laborioso trabalho, em que verticalmente passou pela vida de chefe de família e pai de filhos, chegar agora ao outono, se não inverno dessa vida, com tão bonita e invejável vitalidade e alegria de viver!

Gratificante, muito gratificante ter o prazer de contar com o Tio Zé “Pisco” como dedicado e estimado amigo!

Que assim continue por muitos mais anos, com a mesma vitalidade e o mesmo gosto de viver!

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O "ESCORREGA" DA MINHA INFÂNCIA



Dizem os livros e eu confirmo: Quando a idade avança para números já consideráveis, encontramos um livro, um caderno ou um jornal, tropessamos numa caixa, numa árvore ou numa planta, sentimos um determinado paladar, etc.. etc. e, inevitavelmente, chegam-nos à memória cenas e situações vividas e passadas na nossa infância e juventude que não sabemos bem onde andavam, por antes não serem sentidas.

Ultimamente tenho experimentado essas gratificantes situações e, a piteira de que aí deixo foto, é o mais recente exemplo. 

Vi-a num terreno adjacente à Casa de Saúde onde minha irmã recupera de grave maleita e ela fez-me recuar às brincadeiras de infância na minha aldeia natal e aqui estou a rememorar aquele que era, nem mais nem menos, o meu “escorrega” de criança no “barreiro” então existente num terreno de ervas e sobreiros e que é hoje local de boas e bonitas vivendas dos meus conterrâneos e que assinalo na outra foto aérea da aldeia com um rectângulo amarelo


Os coloridos, bonitos e seguros “escorregas” de crianças que, felizmente, tanto divertem e entusiasmam os nossos miúdos de hoje, estavam ainda a léguas de chegar e, nos finais de 40 e princípios de 50 do século passado, as folhas da piteira e o local de onde se retirava saibro para a construção, que chamavamos de “barreiro” era um preferido local de divertimento. O nosso “escorrega” teria um desnível de talvez 3/4 metros e um decline de 5 ou 6 de extensão, sendo o “estrado” de saibro com uma ou outra “assassina” pedra misturada.

Havia por ali meia dúzia de piteiras da espécie da fotografada, mas de maiores dimensões (talvez muito perto do dobro dessa) e cortavamos as folhas bem junto ao solo porque assim o “escorrega” ficava mais comprido e o “assento”, por as folhas mais abaixo serem mais grossas e “carnudas”, ficava assim mais confortável e mais sólido.Tínhamos naturalmente o cuidado de lhe cortar os agressivos picos das pontas e laterais das folhas e, posto isto, estava preparada a brincadeira.

Colocada a folha da piteira entre as pernas, com a parte mais grossa como assento do rabo, e passada que estava entre as pernas, segurava-mo-la firme pela ponta da folha junto ao peito com as duas mãos e… aí íamos nós, declive abaixo.

Segura que não estivesse bem a piteira, desarmava-se o “engenho” e, aí ia o rapaz desgovernado rampa abaixo às cambalhotas…

Quando isso ocorria - e acontecia vezes de mais! -, era garantida a esfoladela de joelhos, pernas ou cotovelos e a corrida para casa, ali bem perto, em choro convulsivo, para o pai, depois de inevitável e irado “ralhanço”, usar o então milagroso “mercurocromo” que deixava tudo mais vermelho e ainda mais assustador para o aflito petiz acidentado.

Chorávamos hoje mas, amanhã, lá estávamos de novo!… Ora, pois!..

Eram meus colegas nestas aventuras, que me lembre, os irmãos Fernando e Manuel Carvalho, o António Rainha, o João “da Calistra”, os irmãos Manuel e Tomé Dinis, entre outros a que a minha memória agora não chega…

E deve ter sido por aí, mais metro, menos metro, que o Fernando Carvalho – muito reguila era o gajo quando criança!…- me partiu a cabeça com o fundo podre de uma panela…

O gajo pegou no fundo ferrugento da panela que por ali estava abandonado, atirou-o ao ar e o danado, como os modernos “boomerangues” voltou para nós e não encontrou melhor local para aterrar que não fosse a minha pequena cabecita garantindo assim forte “lenho” na minha tola. E, sorte, sorte do Victor, que o fundo a descer deverá ter planado porque, se tivesse caído na vertical, talvez o rapaz não estivesse aqui para contar…

E, como resultado final, aí estão os pais das duas partes a discutir em tremenda convulsão e, quando António Carvalho e Zé Azevedo mutuamente discordavam, a faísca era garantida…

E o choroso Victor a sangrar, de cabeça partida...

terça-feira, 2 de abril de 2019

O MEU AMIGO ALENTEJANO PARTIU...


(...)
E, para último guardei o meu amigo José Jacinto Gonçalves, alentejano puro, de uma aldeia junto a Aljustrel, que veio para a cama onde estava o alfacinha.  Fala bem, bem, com o sotaque dos alentejanos, tanto ele como a esposa que diariamente, com estadia em casa de irmã na Bobadela o visita e, com ambos,  tanto eu quanto a Tense temos conversado bastante e constituímos já uma boa amizade. Ele, por ainda não ter sido operado (pâncreas) ajudou-me quando cheguei abalado dos “Cuidados” e, nestes últimos dias, sou eu, já bem melhor que o procuro auxiliar em qualquer dificuldade da sua grande cirurgia. O amigo Zé levou um considerável golpe de vários centímetros em feitio de “L” invertido no peito e abdómen. Nos primeiros dias do pós-operatório esteve algo malzinho mas, agora já vai estando muito melhor, embora ainda não esteja a ingerir comida sólida.

E foi assim que eu e a Tense ganhamos mais dois amigos! Modestos, cativantes, bons conversadores, muito educados e super-simpáticos! Gostamos muito de os conhecer!

E é uma amizade e uma simpatia que já nos fez aprazar na Aldeia Nova, onde moram, confeccionada pela esposa Madalena - que ele já me confidenciou que cozinha muito bem! -, uma bem alentejana e certamente deliciosa “Caldeirada de Achigãs”!

- Com “hortelã da ribeira"? – perguntei.

Ao que a senhora me retorquiu:

- Claro! E que temos lá no nosso quintal.

E eu que adoro “caldeirada de achigãs”, prato tipicamente alentejano!...

E, já que falo em comida,  deixo como “ornamento” uma imagem da “lareira” montada na sala de refeitório e, uma outra do jantar de hoje, que estava bom mas que, em nada por nada, poderia rivalizar com uma bem alentejana “caldeirada de achigãs”…

Uuuunh!!!

Já estou a sentir-lhe o cheirinho



                                                      ******************

Face à dificuldade de contacto com ele ou com a esposa, de quem tinha igualmente o número de telefone e não conseguindo estabelecer ligação, confesso, confesso francamente que andava com receio que algo de mal tivesse acontecido ao amigo Zé Gonçalves, alentejano com quem criei laços de amizade aquando do meu internamento hospitalar em Novembro de 2017 e de que deixo aí, como introdução trecho do texto alusivo publicado aqui no meu blogue naquela ocasião…

Os dois números de telefone não aceitavam as chamadas e, hoje, depois de várias insistências sem resultado,  procurei chegar à fala com alguém da Junta de Freguesia da sua residência, numa aldeia junta a Aljustrel, na tentativa de conseguir alguma notícia sobre o meu amigo alentejano …

Atendeu-me uma senhora funcionária, presumo, que, muito simpática e depois de ouvir o que pretendia saber, respondeu-me:

- Pois, mas tenho pena e não tenho boas notícias para lhe dar: o sr. Zé Gonçalves infelizmente já não está entre nós!…

Ficando chocado com a triste notícia mas, ainda assim não surpreendido quanto isso porque, deste sempre achei que o meu recém-amigo talvez não tivesse muito tempo de vida, quis ficar mais certo de que estavamos a falar da mesma pessoa e perguntei-lhe:

- Mas será que falamos da mesma pessoa? A senhora conhecia-o?

- Sim, muito bem! A ele e à esposa dª Madalena e até fui colega de escola do seu filho.

Confirmavam-se assim os meus receios e estou muito triste com a partida de um bom amigo, amigo feito em horas particularmente difíceis para ambos mas onde também fomos mutuamente solidários em ajudas para minorarmos o mal estar que sentíamos naquelas horas bem desagradáveis das nossas vidas.

Homem muito atencioso, educado e amigo, partiu muito cedo porque, na verdade, tinha o pâncreas muito mal e a cirurgia nada lhe fez de melhor. E, por só agora ter sabido da sua morte, não o acompanhei à sua última morada, de certo no seu amado Alentejo…

Falavamos com regularidade pelo telefone e, na última vez que conversamos, coisa de há seis meses talvez, dizia-me na sua voz arrastada e cansada:

- Estou muito magrinho! Como muito “poucachinho”. Peso 45 quilos!

Atencioso, educado, de sotaque bem alentejano arrastado e bonacheiro, já não voltará a ouvir mais, como naquele dia ao meu lado na cama do hospital as chatas “madames” de uma qualquer seita, daquelas “patas chocas” que a toda a hora nos batem à porta impingindo-nos as virtudes milagrosas das suas “religiões” e não lhes responderá mais, despachando-as com a minha ajuda, quando lhes perguntei se nem cama dum hospital nos largavam a cabeça:

- As senhoras sabem? - perguntou e respondeu-lhes o amigo Zé - “A gente, lá no mê Alentejo,  né costume os homens irem à missa ou terem essas religiões”...

Que descanse em paz, amigo Zé!


EM TEMPO – Deixo uma foto da enfermaria do Hospital Curry Cabral onde nos tornamos amigos, tendo a cama do amigo Zé à esquerda e a minha ao seu lado, junto à janela.

sexta-feira, 29 de março de 2019

QUEIJO, A GRANDE PERDIÇÃO DO RAPAZ!


Vindo expressamente da zona de Castelo Branco onde, numa aldeia próxima, um seu familiar proprietário de uma excelente queijaria fabrica uns queijos de ovelha absolutamente divinais, recebi ontem mais um delicioso queijinho corado de ovelha, verdadeira maravilha, numa gentil oferta, a juntar a muitas outras anteriores, trazido e oferecido por compadre Lenine. 

Compadre Lenine, Lenine de nome próprio, assim mesmo, verdadeiro e real, nascido e registado com esse nome num tempo em que certamente deviam estar muito distraídos os funcionários de Salazar… Eh! Eh!

Pois compadre Lenine ofereceu-me ontem a maravilha e, não obstante ainda ter para terminar o consumo de uns quantos de outra origem e marca, hoje não descansei enquanto não degustei duas ou três fatias da nova delícia recebida! Podia lá esperar mais uns dias para me deliciar com tal mimo? Nem pensar! Nem pensar!...

É, na verdade, a minha grande perdição essa "belezura" dos quejinhos e, quando bebia a "pinguinha", eram eles e os tintinhos à sobremesa, os grandes responsáveis pelas dezenas de quilos que então tinha a mais no corpinho! Costumava então dizer que “esta coisa” estava mal feita porque, se estivesse bem feita e o queijo, o pão e o tintinho emagrecessem, eu seria um palito… Eh! Eh!

Acho que a perdição pelo queijo está no meu ADN. Está, está! O meu avô Gregório Alves era igualmente um perdido por queijinho a findar as refeições e, eu, saí a ele. Verdade!

A minha avó Maria, sua mulher, fazia uns deliciosos queijos de ovelha do seu grande rebanho, que me ajudaram a criar e crescer e que ainda hoje bem me recordo deles! Belíssimos secos mas absolutamente divinais em fresco! E tantos, tantos este menino comeu, cortados em grossas fatias metidas em pequenos e deliciosos pães caseiros que, tanto ela como minha mãe coziam no forno de lenha que existia junto a sua casa no "seu" Anafe, do meu Chouto!…

E, a propósito, o interessante aconteceu, facto que também aqui recordo, que não mais tendo degustado os queijos da avó Maria após a sua morte, como é lógico, uns anos depois, numa visita que fiz a sua filha, minha tia Luísa e tendo-me esta ofertado uns 2 ou 3 queijos frescos eu, entre espantado e deliciado, encontrei neles exactamente o mesmo sabor que tinha nos da minha avó e sua mãe. Fiquei pasmado, deliciado e não mais esqueci tão agradável surpresa. A tia Luísa fazia precisamente os mesmos queijos da avó Maria. Exactamente o mesmo formato, a mesma frescura e, sobretudo, o mesmo delicioso sabor!

E, pronto, a conversa já vá longa e vou terminar deixando aí uma foto do queijo maravilha, oferta de compadre Lenine, lamentando não ter imagens dos queijinhos frescos da minha saudosa avó mas, naquele tempo, fotografias só para ricos! 

Sim, porque estes queijos de ovelha, corados do primo do compadre Lenine bem como os frescos da minha avó Maria, estão indiscutivelmente no pódio dos melhores e especiais queijos que tenho degustado na minha vida!

Aaaah e repito: que pena o queijinho, o pão e o tintinho não emagrecerem!…

Que pena!...

Eu seria… um palito!...

quarta-feira, 27 de março de 2019

ZÉ AZEVEDO E O "RESPONSO"


«No creo en brujas, pero que las hay, las hay» e, esta frase, tida como saída da Galiza e generalizada a todos os nossos vizinhos espanhóis e sobejamente conhecida e também usada em português por todos nós aquém fronteiras, penso que pode bem aplicar-se ao facto de saber rezar o chamado “responso”, mas não o assumir publicamente, por parte do meu saudoso pai.

Na realidade, embora ele nem em casa jamais o tivesse assumido, ali entendíamos que ele sabia rezar o “responso” e na aldeia e até mesmo na região envolvente, era do conhecimento público esse seu predicado.

Talvez por ser pessoa que gostasse muito de ler – recordo-me, por exemplo, de o ver ler “Os Miseráveis”, de Victor Hugo nos 5 volumes que lhe levei, sendo ainda sem dúvida o adulto que mais frequentava a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que visitava a aldeia, lendo muitos dos seus livros que sempre requisitava em cada visita – embora não podendo dizer-se que era pessoa muito letrada, porque as suas muitas ocupações do dia a dia não lhe permitiam tempo disponível para  mais leitura, era todavia pessoa que escrevia muito bem tendo em conta a sua escolaridade quando criança e igualmente muito civilizada, sabedora da vida e do harmonioso e respeitoso convívio em sociedade e, porque repudiava e combatia as crenças nas chamadas “benzedouras” que então abundavam na região e também porque em determinada altura da sua vida frequentou um chamado “Curso de Cristandade” era bastante crente e religioso, custar-lhe-ia assumir publicamente que acreditava nas virtudes da reza do “responso”. 

Custar-lhe-ia, custar-lhe ia mas…. pelo sim pelo não rezaria e…. mal não faria. Entendia ele. Ou, pelo menos, entendo eu assim... Eh! Eh!

Na ocasião, quando surgia a solicitação de alguém a quem tinha desaparecido determinado objecto ou coisa, Zé Azevedo ouvia, sorria e ausentava-se para outra dependência da casa, certamente, penso eu, para fazer a reza e regressando pouco tempo depois, dizia: “Bem, vá descansado que talvez apareça...”

Se aparecia ou não, se resultava ou não, confesso que não sei dizer mas que algumas vezes presenciei a cena, lá isso presenciei, o que era prova que a sua “sabedoria” era pública e… reconhecida. Eh! Eh! 

E lembrei exactamente de tudo isto quando, dando uma volta pela imensa correspondência que me enviava para Angola no tempo da guerra e que é um verdadeiro acervo de histórias naquele período do dia a dia do Chouto, minha aldeia natal, narrando-me as ocorrências da terra (trovoadas, cheias, nascimentos, casamentos, baptizados e até a de um seu amigo que “pulou a cerca” antes do casamento – mas com a recomendação de nada eu falar sobre isso na minha correspondência porque minha mãe e minha irmã não sabiam ( !) e só ele conhecia por confissão desse amigo, amigo que por isso ia casar “à pressa”… - mas, portanto, dando uma volta por esses muitas cartas e aerogramas encontrei um, de 4/11/1969, de que aí deixo um seu pedaço onde, a terminar a sua missiva, me fala: “Agora mesmo sem vontade estou a rir (falava assim por eu estar na guerra…). Veio agora um rapaz bater-me à porta ás 10 da noite para eu lhe rezar o responso a uma bicicleta que lhe acaba de desaparecer da porta do Polidoro. Isto dá graça.”

Pois é, meu saudoso amigo, “ No creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A PROMESSA DA AVÓ MARIA


A avó Maria (Maria do Rosário, de seu nome completo) ou “Ti Maria Arroteadora” (como vulgarmente era conhecida e referenciada), de figura algo robusta, larga, sendo um pouquinho para o gordo, quiçá obesa - exactamente como se apresenta na foto que junto -, de vida sempre ligada ao campo e à agricultura mas que, desde que me lembro, sempre me habituei a ver como dona de casa, a chamada doméstica que tratava da confecção das refeições, das roupas e da limpeza da própria habitação enquanto o marido, meu avô Gregório, trabalhava no arroteamento e cultivo das terras arrendadas ao oficial de marinha, morador na capital, que visitava a propriedade muito escassamente, limitando-se a receber pelo S. Miguel (29/30 de Setembro) a contratada renda composta de dinheiro e géneros, era uma pessoa muito franca e expressiva (todas as 4 filhas que criou o eram igualmente, muito francas e abertas), fazendo um evidente contraste com o marido, algo introspectivo, de poucas falas mas sempre simpático em igualdade de circunstância com a esposa. Completavam-se magnificamente!

Toda a sua vida de carrapito na cabeça – cabeleireira era luxo inacessível e por isso inviável, até porque o corte do cabelo não era hábito na época para as “mulheres do campo”… -  era analfabeta como o marido mas ambos sabiam fazer contas de cabeça como poucos os que sabiam ler e escrever, guardando ainda de avó Maria a imagem de mulher muito séria e honesta, muito trabalhadora e reservo também para sempre na minha memória a sua figura arredondada, sempre de lenço na cabeça, num pequeno banco de assento de palha, cortando em estreitas tiras, alguidares e alguidares de couves que, depois, misturadas com farelo e água, serviam de alimento aos muitos bandos de perus que criava continuamente para vender aos compradores vindos da capital. Sentada em frente da porta da casa, à sombra de uma frondosa acácia, de pernas arqueadas e abertas, de saia comprida e larga e de alguidar na sua frente, muitos braçados de folhas de couve cortou a minha avó! Muitos!

Tanto a minha avó e avô como as suas 4 filhas tinham desde bebé um especial carinho e afecto pelo neto e sobrinho Victor. Era o 1º menino na família e... o 1º é o 1º!… E bem me recordo dos carinhos que me dispensavam, chegando ao ponto de, em certas noites que por ali dormia, elas, as minhas tias, me disputarem para que dormisse com cada qual. Era muito criança mas lembro-me de com uma dormir, chovia e trovejava muito e, como o modesto quartito era de telha vã, uns borrifos de água da chuva intensa caiam-me por vezes na carita o que muito me impressionava…

Ora, foi certamente fruto de todo este carinho e afecto que sempre me dedicaram que levou a avó Maria a viver preocupada e triste quando o neto Victor, já crescido e homem, foi mandado para a guerra. Na época era o destino certo de todos os rapazes chegada a idade do serviço militar obrigatório e, por isso, não havia que estranhar… Todos sabiam isso mas, chegada a hora e batendo à porta dos mais queridos, o sentimento batia bem mais forte…

Mas o netinho foi e voltou são e salvo e, chegado de novo à terrinha e recebido entusiasticamente por familiares e amigos, subitamente ouviu da avó Maria esta surpreendente confissão:
- Victor, enquanto por lá andaste prometi a Nossa Senhora que, se voltasses bem, devias assistir a 3 missas com uma vela acesa na mão.

Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido e, espantado, abri bem a boca:
- Huuuum?! O quê? A avó fez uma promessa para ser eu a cumprir?
- Pois! Foi assim que eu prometi a Nossa Senhora!

Fiquei deveras atrapalhado… 
Não podia, por um lado, dizer que não há minha dedicada e querida avó mas, por outro, também não tinha o mínimo desejo de lhe executar aquela patusca promessa… 

- Onde já se viu uma pessoa fazer uma promessa religiosa para… outro cumprir, avó?- questionei-a.

- Não sei! Foi assim que eu prometi e tu vieste bem. Agora é de cumprir.

Estavamos neste impasse de decisão, com eu mais que atrapalhado com a questão, quando o meu pai, astuto e sabedor como era, veio em meu auxílio, sugerindo:

- Olhem uma coisa: e se perguntarmos ao sr. prior se ele tem alguma ideia sobre isso, de forma a que se possa cumprir a promessa da avó?

A avó Maria, entre compreensiva e ingénua:
- Está bem! Domingo perguntamos ao sr. prior.

Eu, conhecendo a ratice e inteligência do meu pai, “vi o filme” e aprovei, logicamente, a brilhante ideia.
- Boa ideia! Não é avó? Falamos com o sr. prior!

E falamos. Falamos no domingo seguinte, quando os dois fomos à sacristia, antes da missa, apresentar a promessa e ouvir do prior a forma de solucionar a questão…

Ele ouviu da avó Maria a promessa feita e de mim a minha atrapalhação e sugeriu de pronto:

- Então, para evitar esse esforço ao Victor, eu digo à Dª Maria que ponha nessas 3 missas a vela acesa num castiçal especial, que será colocado junto ao altar e a promessa ficará assim cumprida na mesma. Está bem, Dª Maria?

A doce avó Maria concordou e assim se fez e ela ficou de consciência tranquila para todo o sempre.

Só não soube, nem desconfiou minimamente que, durante a semana, eu e meu pai tínhamos dado conta da situação ao amigo padre Zé, tendo da conversa resultado essa airosa solução para a patusca promessa da querida e muito saudosa avó Maria… 

Uma querida!.

Que descanse em paz, que bem merece!

E que Zé Azevedo e filho não acabem penalizados pela pequenina habilidade!...

domingo, 17 de março de 2019

PADRE ZÉ - PARTIU UM ESPECIAL AMIGO!


Subitamente a triste notícia chegou-me ontem à noite, publicada no meu grupo do Chouto no Facebook e marcou-me muito. Muitíssimo.

Na tão agradável visita que lhe fiz em Julho passado e que aqui descrevi com tanto entusiasmo no meu blogue e da qual aqui volto a deixar foto alusiva, havíamos aprazado uma visita ao Chouto e, no passado sábado – já ele tinha partido e eu não sabia… -, pensei telefonar-lhe nos primeiros dias da semana que entra para marcarmos a viajem. E, agora, já não temos essa possibilidade... E, agora, Padre Zé (José Francisco Faria, de seu nome completo) é já uma saudade. Uma grande saudade!

Fico para todo o sempre para com esse amigo com uma dívida de gratidão muito grande e que, por incrível que pareça, ele desconhecia que eu sabia… Mas eu era sabedor disso e só nunca lhe agradeci porque o meu pai, mais de uma vez, devido ao melindre da questão, pediu-me para nunca falar no seu nome e eu isso cumpri. 

Numa  ocasião em que ainda não me conhecia pessoalmente mas, pela grande estima que tinha pelo meu pai, foi-nos extremamente dedicado, amigo e fiel, ajudando muito a contornar um caso particularmente grave na minha vida. E esses são favores que nunca se pagam. E esses são favores que nunca esqueço.

Por razões pessoais e muito particulares não posso e não devo falar publicamente do assunto mas a verdade é que o caso aconteceu e eu nunca mais esqueci a amizade e estima do dedicado padre Zé.

Faleceu antes de anteontem, dia 14 e, hoje, só posso curvar-me respeitosamente em memória e homenagem muito sentida e grata pela sua dedicação, pela sua estima e pela sua muita amizade!

Quando em Julho passado nos reconhecemos na minha visita e eu lhe lembrei o Chouto, a primeira pessoa que dali de imediato se lembrou foi do “sr José Azevedo” e logo, grato, acrescentou “deu-me tantos frangos!” e agora seria tão gratificante poder acreditar que, a esta hora, onde estiverem, ele e José Azevedo já se encontraram e abraçaram vezes sem conta celebrando e festejando tanta amizade que aqui, na vida terrena sentiram e viveram!... 

Obrigado, Padre Zé!

Descanse em paz, meu amigo! 

quarta-feira, 13 de março de 2019

NOS 104 ANOS DO MAIOR AMIGO...


Se fosse vivo meu pai faria hoje 104 anos.

Se isso fosse viável seria uma longa vida na verdade mas a triste realidade é que nos deixou muito cedo, antes de completar os 63 e, para além da grande dor pela sua brusca partida do nosso convívio, ficou o desalento por ver desaparecer tão súbita e inesperadamente quem ainda tinha muitos e merecidos anos para viver e quem tão meu amigo era. 

Ficou assim a saudade e, se a dor alivia com o passar dos  anos, a imensa saudade permanece imorredoura de quem sempre tinha o ombro amigo para oferecer. Para oferecer a mim e a muitos outros que o rodeavam...

É a chamada “lei da vida”, sabemos, mas custa a suportar... Custa a suportar ainda mais porque, na data festiva do Natal, sempre, sempre é avivada na minha memória e na minha vivência anual daquela data.

Estavamos em Dezembro de 1978 e, dias antes do Natal, a 18, por postal dos correios que ainda hoje guardo religiosamente, tinha-me escrito desculpando-se por não ir passar  a quadra connosco a Lisboa porque “vários factores nos impedem de sairmos os dois”, como escreveu.“Vários factores” que eram mais exactamente os animais de criação (porcos, coelhos, galinhas, muitas aves de gaiola, etc.) que sempre teve em número muito elevado e que necessitavam de assistência diária. Era assim impossível a sua saída, bem como de minha mãe.

Pois, era impossível mas, afinal, tudo foi possível e inevitável face ao súbito AVC sofrido, repetido anos depois do primeiro e que fez com que fosse internado de urgência e acabasse for falecer na véspera daquele trágico Natal. 

Passamos assim a Noite de Natal a velar-lhe o corpo e, no dia de Natal de 78 fizemos-lhe, com muita dor, o seu funeral. Dia muito triste, que para sempre será lembrado e ainda mais anualmente por ocasião da bonita quadra dedicada à família, ao carinho e ao amor dos mais chegados. 

E assim partiu, brusca e dolorosamente José Azevedo, exemplar pai de família, homem muito bom, homem muito integro, extremamente honrado e, ao máximo, ao máximo amigo do seu amigo!

Devo-lhe muito, muitíssimo e jamais esquecerei as inúmeras provas de muita amizade, grande estima e grande amor que por mim nutria!

Lembro-me do muito que sofreu com a minha ida e permanência na guerra; recordo-me da paciência que sempre teve para aturar as minhas aventuras amorosas de juventude que tanto o preocupavam; sinto quanto sofreu com uma doença da minha mãe e com dois filhos para criar e quanto teve de trabalhar e lutar para que vivessemos com um mínimo de comodidade e muita dignidade para que nada de substancial nos faltasse em casa; lembro-me do incalculável bem que fez a muita e muita população da nossa aldeia e aldeias vizinhas e de que são exemplo disso as diversas situações que tenho aí descrito no meu blogue e em que mais outras se seguirão e não esqueço os inarráveis serviços que prestou a tanta e tanta gente durante toda a sua curta vida!

Senhor de uma honradez e dignidade ao mais alto nível, fazia questão de pautar a sua vida nesses valores e disso fez sempre emblema de vida e estar no mundo. Intolerante com a traição de um amigo era todavia um enorme amigo do seu amigo e sei de situações vividas, como aquela em que um amigo, pedindo-lhe avultada quantia que ele não possuía, não disse que não, se prontificou a resolver o problema tendo ido solicitar o empréstimo a um terceiro amigo, ficando a sua honradez como aval.

José Azevedo se vivesse hoje faria 104 anos…

Com 62 partiu deixando-me o seu magnífico exemplo de dignidade, honradez, educação e amizade por todos, exemplo que tento seguir.

Que descanse em paz, meu amigo!

(Deixo uma foto, infelizmente de muito fraca qualidade, foto que lhe tirei com uma velhinha Kodak que me ofereceu quando eu teria talvez 16 anos, imagem de talvez 1961, junto às imensas aves que sempre possuiu e cuidou com elevadíssimo desvelo e carinho.)

quarta-feira, 6 de março de 2019

... E SE LHE CORTASSEM O "TUBINHO"?








NOJENTO!



(Local publicada na Revista E do "Expresso", de 2 deste mês, sobre este rato de esgoto que foi durante anos a 3ª figura na hierarquia do Vaticano (Presidente-emérito do Departamento de Economia).)

segunda-feira, 4 de março de 2019

O TESTAMENTO DO SR. FERREIRA


Naquela manhã, de dia que o tempo já levou há uns bons anitos, com o Tó Zé entrei no Cartório da cidade e, sentado na frente da secretária da única funcionária em serviço, encontramo-lo bem vestido, bem penteado, bem apresentado, vendo nele o homem septuagenário, por ventura mesmo octogenário, típico sujeito de classe média e vida estável..

O Tó Zé, num aparte de boca pequena, dir-me-ia que era pessoa muito conhecida e considerada por via de durante anos ter gerido um agência bancária na cidade e, dirigindo-se-lhe, cumprimentou-o amigavelmente ao mesmo tempo que fazia a apresentação:

- Victor, o sr. Ferreira! Como está sr. Ferreira?

- Benzinho! E os srs., como estão? - retorquiu, amável.

Mais meia dúzia de palavras de cortesia e circunstância e a Notária, nossa velha conhecida e até, vamos lá, amiga de outras circunstâncias e locais, ouvindo e reconhecendo as nossas vozes saiu do gabinete e, afectuosamente, cumprimentou-nos, enquanto se regozijava com a nossa presença:

- Olá, como estão? Bem, certamente! Ainda bem que chegaram porque, se não se importarem, assinarão como testemunhas um testamento que o sr. Ferreira deseja fazer!

Porque na vida nunca tinha sido testemunha de tal situação – há sempre uma 1ª vez para tudo!… - achei interessante e curioso e logo assenti e o amigo Tó Zé secundou-me igualmente e, então, a senhora informou-nos do assunto versado no testamento:

- O sr. Ferreira, que está lúcido e em pleno uso das suas faculdades, como os srs. vêem, deseja que fique em testamento que, após a sua morte, quer ser sepultado na sua terra natal, Moimenta da Beira.

E o sr. Ferreira, virando-se para nós, acrescentou:

- Depois da minha mulher morrer casei com outra senhora e agora, embora ela diga que me levará para Moimenta da Beira, eu desconfio que ela para não gastar tanto dinheiro - e eu deixo cá esse e muito mais!… -, mas para não gastar tanto, acho que ela não vai levar-me para a minha terra e eu quero ser sepultado em Moimenta da Beira.

Ouvindo, confesso que me contive um bocadinho para não abrir a boca de espanto!… 

Na verdade, se testemunhar e assinar este tipo de vontade de um cidadão, achava a cena para mim além de inédita algo patusca, ainda mais a achei quando soube a razão do desejo do senhor…

Refeito do espanto fui e fomos para o gabinete e a Notária ali redigiu o testamento e, feito isso, assinamos todos: o sr. Ferreira, como testador, o Tó Zé e eu como testemunhas da sua vontade e, por fim, a Notária a oficializar o acto.

Levantamo-nos mas, eu como ainda não estava completamente convicto do acerto da situação, questionei o sr. Ferreira:

- Mas, sr. Ferreira, se o sr. agora vai entregar à senhora o testamento ela, na sua morte, pode decidir não o usar e resolver sepultá-lo no cemitério aqui da cidade?

Ao que o sr. me respondeu de imediato:

- Mas eu não vou dizer-lhe que o fiz nem entregar-lhe o testamento! Vai ficar na posse da minha irmã e já acertei isso com ela!

Boa! O sr. Ferreira pensou em tudo.

O sr. Ferreira pensou em tudo e eu penso que não mais vou esquecer-me dele e do seu testamento sempre que ouça falar em… Moimenta da Beira.

Moimenta da Beira onde, provavelmente, dado o tempo decorrido, nos dias de hoje já repousa o cadáver do sr. Ferreira por sua própria vontade e à qual, talvez, a minha assinatura tenha ajudado…

Ele há coisas!...

domingo, 3 de março de 2019

A MINHA PESQUINHA


Ontem na minha pesquinha e porque as águas ainda estão muito frias, os amigos achigãs continuam fundos e mais confortáveis e não os vi mas, há falta de melhor, fotografei a bonita paisagem e também captei o flagrante de uma das minhas concorrentes, a Garça Branca, na sua também pesquinha de margem.



Mas, se essa não incomoda muito o vício do pescador, porque só captura pequenos exemplares, já outro tanto não pode dizer-se dos danados dos Corvos Marinhos (imagem pequena no fundo à direita) porque esses ladrões mergulham aos bandos e pescam maiores exemplares. Dizimam tudo!


Uma praga que há anos nos chegou vinda de... Espanha.

E, daquelas bandas, como sabemos: "Nem bom vento..."

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

MANUEL ESPADINHA E OS SAUDOSOS "SANGUE DE BOI"


Hoje, pertinho da Lamarosa (Coruche) na sua residência e nos seus bonitos e bem cuidados e floridos pomares que rodeiam e envolvem a vivenda e que nesta prematura Primavera a enchem de um gostoso aroma bem sentido no doce ar que se respira por todo o canto da quinta, uma muito agradável visita e confraternização com o velho amigo e conterrâneo Manuel Espadinha na presença da sua esposa e do seu sogro António que, com os seus sabedores pareceres, resultantes dos seus lúcidos e ainda ágeis 89, tornam a convivência ainda mais gostosa e gratificante.

Tudo nasceu de uma despreocupada conversa tida meses atrás quando lhe manifestei o meu desalento por não encontrar em lado algum no mercado uns saudosos pêssegos conhecidos por “sangue de boi” e, em duas tentativas de julgar estar a comprar em árvore essa variedade… levar o “barrete enfiado”.

Vem a saudade e o desejo desde os tempos de criança em que meus avós maternos tinham um pessegueiro dessa variedade numa hortinha que cultivavam pertinho da sua modesta casinha, então no Anafe do Meio, no meu Chouto natal.

Pêssegos “sangue de boi” nunca mais os comi, numa mais os vi e, naturalmente, tão pouco os consegui produzir. Comprei por duas vezes pequenas árvores com essa garantia mas… fui enganado. "Enfiei o barrete", como já disse.

Então, perante esse meu lamento, o velho amigo Manuel logo me prometeu. “Eu arranjo-te! Tenho lá e vou-te oferecer! Na época indicada acertamos isso e levas os pessegueiros que desejares!”

E os pesseguerinhos, enxertados de borbulha, lá vieram hoje. Vão agora ser plantados e, no próximo ano, já poderei deliciar-me com os saudosos e desejados “sangue de boi”. Eu penso isso.

Bem, delicio-me se… cá estiver… Na minha situação e nos dias que vão correndo, nunca se sabe…

Depois do pedacinho – maligno! - retirado da peça das iscas, fiquei prevenido e… preparado…

O abanão foi grande e tenho consciência disso mesmo. 

Mas a esperança também aqui reina...

Por isso, vamos ver se me aguento pelo menos mais um aninho para... saborear os “sangue de boi”?!...

sábado, 23 de fevereiro de 2019

LEI SECA - DOIS ANOS SEM ÁLCOOL!



E já lá vão 2 (dois!) aninhos sem ingerir álcool, meus senhores!

Dois anos em que não agredi a figadeira e, embora sabendo que o mal criado e construído durante meio século já não tem remédio que faça recuperar esta velha pecinha das iscas, tento que o ofendido órgão se esqueça do mal que o dono lhe provocou durante esse longo tempo e procure desculpar-lhe, retire a ofensa e permita que o rapazinho por cá ande mais um tempinho. 

Há 2 anos que a abstinência tem decorrido quase, quase na plena totalidade, só tendo sido “esquecida” num ou outro dia festivo e, mesmo aí, nem com meio copo ingerido. 2,3 cms no fundo do copo, para provar a pomada e...mais nada. Nadinha!

Devo confessar, por ser absolutamente verdade, que não tem sido muito difícil. No dia a dia a coisa leva-se bem e só sinto falta e acho que a refeição poderia ser bem mais gostosa quando me delicio com uma boa Feijoada, uma gostosa Mão de Vaca com Grão, uma apetitosa Caldeirada ou um saboroso e único Cozido à Portuguesa. De resto, nas refeições normais e mais habituais, não sinto a falta do tintinho. Não sinto, não.

Ah, tem outra grande contrariedade esta forçada “lei seca” que já me passava esquecida: quando em convívio com amigos, em redor da mesa ou encostados ao balcão, custa-me um bom bocado não os poder acompanhar, como o fazia com tanta frequência e tanto gosto noutros tempos em que me deliciava com uns bons tintinhos e a frescas cervejas. As cervejas, agora bebo sem álcool que, embora não sejam iguais às “verdadeiras” acabam por remediar mas, vê-los deliciar-se com os tintinhos e eu não os acompanhar, não é coisa fácil, não. 

Enfim, coisas de quem possivelmente abusou – embora julgue que não o fiz… - mas agora não há remédio e disso estou ciente e conformado.

E a verdade, nua e crua, é que se não fosse a cirurgia feita há quase ano e meio e o corte no álcool, este gajo já não andava por cá... Ai não andava, não. 

Disso estou ciente e mais convencido ainda fiquei quando há 4 meses atrás coloquei essa minha opinião à médica que me acompanha e que fez parte da sabedora e eficiente equipa de cirurgiões que fez a intervenção aqui na pecinha e a senhora me respondeu de imediato:

- É provável.

E... ela é que sabe.

Por isso... AGUENTA-TE VICTOR!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

GUERRA COLONIAL - AS LAVADEIRAS


Nos muitos e diversificados textos que têm sido publicados sobre a Guerra Colonial e que tenho lido, noto que apenas em muito poucos deles é feita referência ao papel das chamadas “lavadeiras” no contexto da guerra e dos seus envolventes prestadores de serviços e, todavia, o desempenho destas personagens no teatro da guerra não foi assim tão irrelevante quanto se possa imaginar. Não foi, não.

Falando de “lavadeiras” devemos considerar as duas espécies que ali tinhamos em serviço: aquelas – como as que tive nos diversos locais por onde andei destacado da sede da Companhia no Leste e no Norte de Angola – que apenas nos cuidavam da roupa (lavar e passar) e… as “outras”… As “outras”, em boa verdade, são exactamente as que viram o seu nome oficializado como… “lavadeiras”. Estas então conhecidas “lavadeiras” não cuidavam apenas da roupa do militar mas também do… corpo… Prestavam-lhe, isso mesmo: favores sexuais. 

Eram então “lavadeiras para todo o serviço” e realmente muitos militares as contratavam com essa dupla missão e havia até uns quantos que tinham com as mesmas um relacionamento particular e por isso personalizado. O militar “sustentava” a senhora com uma acertada “avença”, ela cuidava-lhe da roupa e ele tinha a garantia – não tão certa quanto isso mas… já lá vamos mais à frente – que os seus favores sexuais eram exclusivos do “marido”. (“Marido” e “esposa” era como mutuamente se relacionavam com evidente ironia, eheh). 

Uns quantos soldados e cabos e, sobretudo, vários furrieis e escassos oficias, porque estavam quase sempre permanentes no quartel junto ao aldeamento, tinham estas “esposas” e optavam por isso para terem a sua actividade sexual com algumas garantias de não serem atingidos por uma eventual doença venérea já que mantinham as “companheiras” sempre devidamente limpas e cuidadas, coisa que as experiências fortuitas não garantiam. (Num aparte refiro que as “esposas” dos enfermeiros, por estarem sempre mais “cuidadas” eram as mais pretendidas às travessuras “extra-conjugais”… eheh)

Todavia, para quem andava destacado por aqui e por ali como eu e meu pessoal, esse relacionamento privado não era viável porque, com diz o ditado; quem não aparece...eheh E assim seria impossível controlar os “passos” da parceira...

E havia que controlar porque os que as tinham reservadas não estavam tão certos disso não. Na verdade, não era tão invulgar quanto se possa imaginar, o “esposo” chegar à porta do “quimbo” (denominação de tabanca, no Leste de Angola) e encontrar a porta fechada porque a senhora estava cravando-lhe os… chifres… eheh. Em algumas ocasiões chegava mesmo a ouvir-se alguns… tirinhos… Atirados pelo "chifrado" para o ar, para assustar o intruso… eheh. (Mas que raio de coisa eu agora haveria de lembrar-me!…)

Mas, eu penso e não deverei estar muito errado, que as “lavadeiras”, ao mesmo tempo que prestaram um importante papel no teatro da guerra, foram também umas grandes vitimas desse mesmo conflito…. Porquê? 

Como bem sabemos as “lavadeiras”, sobretudo as que prestavam favores sexuais, ficavam muitas vezes grávidas dos militares e, com a partida destes para locais desconhecidos e sem a mais pequena referência aos pais das crianças elas - sabe-se lá de que maneira… -, tiveram de criar os filhos “café com leite” e, pior, muito pior, com o fim da guerra e a tomada do poder pelos homens da guerrilha, certamente foram referenciadas como tendo colaborado com os portugueses e foi-lhes apontado o dedo e… a mira e o gatilho da metralhadora.

É isso... Acho que não deverão ter vivido muito tempo após as independências...

Talvez tão certo como eu estar a carregar nestas teclas do computador...

(Foto anexa retirada da net)