domingo, 24 de junho de 2018

"JOVENS DE ONTEM" - NOVO ÊXITO!


Ontem de novo um dia excepcional no Chouto com o convívio e as muitas emoções do nosso “II Encontro de Jovens de Ontem” que, a exemplo do ano passado, voltei a organizar com imenso gosto!

Se em 2017 conseguimos juntar 50 participantes desta vez o número subiu para 80 e a jornada foi outra vez belíssima, cheia de alegria e também muitas emoções por via de muitos que há dezenas de anos não se viam. E, alguns, como é bom de imaginar e também me aconteceu a mim no ano passado, tiveram de perguntar a este ou aquele: “quem és tu”?…



Mas, a coisa, para o meu gosto, não decorreu tão na perfeição como eu desejava e organizei… Tratei atempadamente e consegui, depois de uma primeira “nega” da União de Juntas, que o nosso som passasse a ser, durante a realização do nosso convívio no recinto de Feira de S. Pedro, o som ambiente geral mas o resultado não foi o desejado… Um gajo qualquer que estava a comandar o som, mesmo depois de alertado duas vezes por mim para a deficiência do serviço, fez “orelhas moucas”, ou por outra: fez que ia rectificar a deficiência e… ficou tudo na mesma. Como por vezes é melhor virar costas e não teimar com burro teimoso, foi o que fiz. Trouxe os acordeonistas para junto das mesas onde almoçavamos e ficou apenas o som dos acordeões sem ajuda da aparelhagem. Não dava para me chatear com o teimoso porque fiquei com a impressão que estava a actuar de má fé… Coisas…

De resto e como em 2017 tudo correu lindamente e as pessoas gostaram bastante, não duvidando que repetiremos em 2019.

Tive a ideia de sugerir aos meus amigos aderentes do Encontro que se fizessem acompanhar de uma garrafinha de azeite e desta forma presentearmos o CASC e a forma tão hospitaleira como sempre nos recebem e conseguimos juntar por volta de 40 garrafas. Só não colaborou quem desconhecia a iniciativa mas, mesmo assim, sei que alguns nessa situação recompensaram entregando importâncias monetárias ao Centro de Acolhimento. Foi bonito e sei que a Direcção ficou sensibilizada com a ideia. Para o ano certamente repetiremos.

Fiquei de novo muito feliz com a nossa reunião e convívio e agora já disse ao “pessoal”: se em 2017 fomos 50 e agora 80, em 2019 teremos de ser…100. Vamos ver se tal é possível…

Deixo aí a imagem das garrafinhas de azeite oferecidas e uma outra de uma parte do já numeroso grupo de “jovens de ontem”. Os que não aparecem na foto estavam resguardados à sombra do edifício com medo dos quentes raios solares que na hora se faziam sentir… “Jovens de Ontem” que querem chegar a… velhos…

sábado, 2 de junho de 2018

DO CHOUTO E "CHARNEQUENHO" COM ORGULHO!


Eis um exemplo bem evidente e gritante da forma como muitos na Chamusca, vila e sede do concelho olham, classificam e secundarizam o Chouto, minha terra  natal e a sua gente, quando aos seus habitantes e á freguesia se reportam, chamando-os em surdina de incultos, ignorantes, e sendo não poucas vezes motivo e objecto do anedotário concelhio, para além de muitos se referirem às gentes da minha freguesia em tom depreciativo de… “charnequenhos”. Coisa e ofensa que já vem desde há muito e muito tempo…

Por isso e não só tivemos a luz electrica em último lugar e depois de esperarmos “carradas” de anos; por isso e não só durante anos e anos os melhoramentos e benefícios iam para outros e só chegavam ao Chouto tarde e más horas e só depois de muito rogados. (Situação que só se alterou, é bom que se diga, nos mandatos concelhios de Sérgio Carrinho em que o Chouto e sua gente deixaram de ser pessoas de 2ª e passaram a ser tratados por igual.)

O que aqui deixo, retirado ontem da página do meu parente Rui Martinho que, como é hábito entre muitos de nós, brinca com as pobres sogras, motivou comentários de alguns que opinam que a senhora da foto possivelmente sofre de alguma doença grave mas, inopinadamente, surge uma sapiente inteligência, que dá pelo nome de Elsa Ribeiro, que lamenta: “tatinha (?) pensa que está no Chouto”.

Não conheço de parte alguma, nem tenho vontade disso, a Exmª Dona Elsa mas quero aqui dizer-lhe que, como natural do Chouto e “charnequenho”, repudio a sua ironia, a sua gracinha reles e rejeito a sua piada bacoca!

O povo do Chouto é tão inteligente, tão sabedor e tão merecedor de risadas quanto a Exmª Dona e o povo da sua terra…

Rejeitamos as piadas, as anedotas, o “charnequenho” depreciativo!

E, como se diz na minha charnequenha terra: "Tenha maneiras, senhora dona da mula ruça"!

domingo, 27 de maio de 2018

COM ARMANDO JORGE, NUMA VIAGEM RECONFORTANTE


Ontem um dia particularmente interessante vivido na companhia do velho amigo Armando Jorge que foi apresentar o seu livro, para o concelho da Chamusca, na vizinha Ulme.

Apanhei-o na sua residência na Ramada (Odivelas), passamos pelo Parque da Nações para a tomada de um seu ex-colega de trabalho que nos quis acompanhar e rumámos ao nosso objectivo por volta das onze da matina. Paramos na Parreira para “animarmos” os estômagos e depois avançamos primeiro e por minha sugestão e insistência para o nosso Chouto onde lhe proporcionei uma pequena e rápida passagem em curta visita e que vi que de certa forma o emocionou, sobretudo quando estivemos junto da sua antiga residência e da antiga Escola Primária onde ele tirou/tiramos a antiga 4ª Classe. Ainda que bastante jovem, o meu amigo ali passou momentos difíceis de caracter familiar. Difíceis e complicados mas que, todavia, com inteligência, querer e tempo, foram felizmente ultrapassados.
 
Feita a rápida passagem pela nossa aldeia seguimos para Ulme e ali, como boa presença de amigos e público em geral, decorreu então a anunciada apresentação do livro do meu amigo.

Declinei reconhecido e grato os convites tanto dele com insistência, como do Presidente da Junta de Freguesia local para que ocupasse um lugar na mesa e dissesse algo sobre o Armando e sua obra porque entendia que tínhamos ali pessoas bem mais avalisadas e capazes de o fazer e sentei-me gostosamente na “plateia”, tendo o gratificante prazer de ter por companheiros os velhos amigos Joaquim Garrido, Presidente da Assembleia Municipal da Chamusca, Sérgio Carrinho, ex- Presidente da Câmara Municipal da Chamusca e o Dr. Jaime Marques, igualmente meu amigo de longa data.


A sessão decorreu lindamente – deixo duas imagens do momento -, as pessoas presentes gostaram e manifestaram largo interesse em possuir a obra. E até uma nuvem bem negra e pesada de uma trovoada que ia anunciando a sua chegada e consequente descarga, foi atrasando a sua presença deixando que a cerimónia terminasse…

No meu caso pessoal gostei sobretudo do contacto/convívio com várias pessoas que não via há muitos anos, desde os tempos em que frequentava Ulme diariamente e que agora tive alguma dificuldade em reconhecer mas que se me dirigiram de forma super-agradável e até mesmo muito amiga e carinhosa.

Em suma: um dia belo, de excelentes companhias, com momentos/horas de belo e gratificante convívio em que nem faltou a surpreendente cena de receber o bem particular cumprimento de um naquele instante desconhecido amigo, que a mim se dirigiu desta forma: “Olá, padrinho!”. E, perante a minha lógica surpresa, tive a resposta:”Foi meu padrinho do Crisma! E tenho mesmo uma foto consigo que lhe vou oferecer.”

Foi coisa que aconteceu, imagine-se… pelo meio da década de 60 do século passado…

Pois é: estou velho!

E… não há volta a dar…

terça-feira, 1 de maio de 2018

A CARRINHA DA GULBENKIAN


Foi a 1 de Maio de 1964 que publiquei no semanário “Correio do Ribatejo”, integrado na habitual correspondência do Chouto, a sugestão/pedido à Fundação Calouste Gulbenkian para que a sua Biblioteca Itinerante, que já visitava a vizinha localidade de Ulme, o passasse também a fazer à minha terra e, depois disso e porque a resposta à solicitação não chegou, houve insistência com correspondência trocada e, como resultado dessas diligências, aconteceu finalmente a aceitação por parte da Fundação que acabou por acolher o pedido. 

Era um serviço muito valioso de apoio literário às populações dos mais recônditos lugares de Portugal e, através dele, muitos e muitos jovens portugueses ganharam hábitos de leitura que lhe foram muito agradáveis e úteis pela vida fora.


Assim foi, ou no mínimo poderia e deveria ter sido no meu Chouto natal, não fora a inteligência da senhora professora à época leccionando na Escola Primária da aldeia…

A carrinha/biblioteca nº 134, que estacionava mensalmente durante uma hora frente à sede da Junta de Freguesia, visitou a povoação durante vários anos – deixo aí a imagem do meu cartão de leitor nº 164, de 1968 – sempre com boa frequência para um meio que não tinha propriamente hábitos de leitura mas, a dada altura, a mestre-escola, com o argumento que os alunos tinham interesse e liam “outros livros” que não os escolares, proibiu os seus alunos de frequentarem e requisitarem livros na Biblioteca Itinerante. E aconteceu o inevitável: a frequência à carrinha diminuiu drasticamente e a requisição de livros, como seria de calcular, ressentiu-se. Então, aí talvez por volta de 1974, os seus responsáveis entenderam que, dada a fraca adesão de pessoas à Biblioteca, não se justificava a sua deslocação à minha aldeia e… terminou o bonito e útil serviço de apoio cultural à população choutense.

E foi assim...

Com muita pena de vários frequentadores – meu pai, por exemplo, tinha sempre em casa e lia imensos livros requisitados na carrinha – e grande desalento de minha parte, que havia lançado e acarinhado o bonito projecto.

Coisas…

(EM TEMPO - Foto de Biblioteca Itinerante retirada da internet.)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

HISTÓRICO


Com a idade que tenho e se excluir a queda do Muro de Berlim, não encontro durante toda a minha existência de consciente rapaz, um facto histórico de tamanha relevância como o hoje registado entre os presidentes das duas Coreias!

Ainda há poucos dias – há poucos dias, senhores! – assistíamos a nuclear e mais nuclear; liquidação de um país; ameaças de guerras e liquidação total; etc. etc.

Hoje, ao vermos este encontro de Kin Jong-un, da Coreia do Norte, com Moon Jae-in, da Coreia do Sul, na fronteira entre os seus dois países, aos acordos firmados de desnuclearização, aos abraços, aos banquetes realizados e às promessas de paz duradoira ficamos admirados, incrédulos e, vá lá, esperançados. Esperançados que tudo assim decorra. Para bem dos seus povos e do mundo. Eu, como muitos e como S. Tomé, também quero ver para crer

E, devo também aqui confessar: estou surpreendido com este belíssimo trabalho de Trump, presidente dos EUA. Sim, tenho a plena convicção que Trump está por detrás de todo este espantoso sucesso. Tenho a convicção e acredito que breve saberemos tudo isso. Breve saberemos.

O que muitos presidentes americanos, apesar das mais diversas tentativas não conseguiram, Trump conseguiu! Espantoso, quanto a mim!...

Ainda bem!

sábado, 14 de abril de 2018

ARMANDO JORGE LANÇOU AUTO-BIOGRAFIA!


Conforme aqui já tinha referido em Janeiro passado, o Armando, meu amigo e companheiro de infância e juventude no Chouto e em Lisboa em tempos que já vão, lançou hoje num restaurante do Chiado lisboeta o seu livro auto-biográfico.

Na presença de talvez mais de uma centena de colegas de trabalho e amigos - entre os quais me incluí com muito gosto! – ouviram-se palavras de grande apreço e até alguma emoção pelo meu velho amigo, vindas  de seus colegas de trabalho após o que, num derradeiro improviso que durou alguns minutos, o Armando, historiando a sua vida desde as origens na nossa aldeia e no nosso concelho, até aos muitos anos da sua vida profissional numa seguradora e no seu Grupo desportivo, do qual foi presidente durante 25 anos, agradeceu reconhecido a presença de todos na apresentação desta sua obra auto-biográfica. 

Deixo aqui a imagem da bonita capa do livro, a dedicatória que fez o favor de me redigir, a foto desse instante e, ainda, uma outra foto da página onde teve a bondade de referir-se a este seu velho amigo relativamente à nossa convivência em Lisboa, já numa casa na  Rua da Atalaia, no Bairro Alto de então.

No seu livro e no que toca à nossa terra, Armando Jorge lembra ainda o tempo que frequentou a Escola Primária com a professora Maria Angelina, antipática e má, como já aqui tenho referido. Mas acho que ele gostava dela ou, pelo menos, o pai dele simpatizava com ela. Em boa verdade, como bem sabemos, nem todos agradam a todos…

Em suma: “livro giro”, como eu lhe classifiquei pessoalmente esta sua auto-biografia, profusamente ilustrado com muitas fotografias da sua vida pessoal e profissional, de leitura fácil e bem agradável, sem pretensões literárias de maior, num relato da sua vida, bem recheada de viagens, acontecimentos e vivências!

Gosto muito!

Francamente!

quinta-feira, 5 de abril de 2018

OS GRILOS DO NOSSO ENCANTO


Gri-gri! Gri-gri!

Correndo e saltando que nem pardalitos nos terrenos envolventes da aldeia, ao cair das quentes tardes de Verão, era o som que ouviamos mais aqui, mais ali.

Gri-gri! Gri-gri!

Assim “cantavam” os grilos do nosso encanto, roçando as asas, debaixo das ervas rasteiras, protegidos dos quentes raios solares, nas pequenas clareiras que criavam junto ao buraquinho, construído habilidosamente e que lhes servia de casa.

Caça-los não era difícil de todo mas era tarefa que ainda exigia alguma técnica e jeito. Coisa que puto de aldeia fazia facilmente por experiência e vivência sentida vinda dos mais velhos e que os diazitos de vida passados na rua e no campo, em contacto continuo com a natureza tornava coisa fácil mas que, a menino de cidade pareceria algo difícil, se não mesmo impossível.

Primeiro havia que localizar pelo ouvido a zona de onde vinha o “cantar” do grilo e, depois, pé ante pé, era o aproximar ao local onde o bichinho, a roçar as asas, juntinho à entrada do buraco - nós chamávamos de “buraca”, não sei porquê?... – fazia-se ouvir.

Os derradeiros passitos, já bem junto ao local e quase com o grilo à vista na pequena clareira que sempre fazia à entrada do “lar”, tinham mesmo de ser feitos em “pés de lã” no caso de ainda não o termos localizado. Isto porque, quando o grilo nos sentia, calava-se de imediato e enfiava-se bem ligeiro no buraquinho.

Depois, bem, depois era a 2ª parte da técnica necessária para o fazer sair do buraco e que a bonita imagem junta, de que gosto particularmente e que saquei da net, bem nos mostra (o detalhe das calças da criança, rotas no rabo, é uma delícia!): pegávamos numa pequena palha de erva, de preferência seca para não vergar e era enfiá-la no orifício e, em movimentos de vai vem, a fazer “cócegas” ou incomodar o grilinho que logo saía em grande velocidade e, nós, bem ágeis com as mãozitas, agarrávamo-lo.

De seguida tirávamos do bolso a caixa de fósforos, grandes, da cozinha, que a mãe previamente nos tinha arranjado e onde fizeramos 2 ou 3 pequenos orifícios para o grilo respirar e fechávamos o bichito lá dentro. Chegados a casa, era outra cuidada operação exigida: com jeito, para não o deixar fugir, tirávamo-lo da caixa e colocávamo-lo na gaiola. Se fugisse, como por vezes acontecia, era ouvi-lo depois, de noite, a "cantar" debaixo dos móveis… (E se o meu pai por vezes já se sentia incomodado quando à tarde queria descansar no quarto e ele “cantava” na gaiola pendurada na marquise contigua do quintal, pior era quando de noite se fazia ouvir pela casa fora, debaixo dos móveis… eheh)

Fechado o grilinho na gaiola, vinha depois o cuidado de nunca lhe faltar com a diária folhinha de alface, entalada nas grades, coisa que, passados os primeiros dias sempre nos esquecia e, não fora o cuidado da sempre atenta nossa mãe, e o bichinho morreria de fome…

E, se desejássemos novo grilo a "cantar" em casa, teria o pai de trazer nova gaiola da loja do sr. José de Matos - um então grande estabelecimento de paredes exteriores forradas de berrantes mas bonitos azulejos verdes vidrados -, ali na Rua Direita da Chamusca porque, colocar na mesma gaiola dois grilos, não era aconselhável, não… Brigavam até um liquidar o outro…

Mas, não termino sem antes descrever uma pequena maldade que a malta miúda muitas vezes fazia aos simpáticos bichinhos nas nossas andanças pelos campos: mesmo não desejando mais grilos mas localizado que fosse algum enfiado na “buraca”, não nos dávamos ao trabalho de meter a palhinha para o extrair, não… Mauzinhos, tirávamos a pilinha de fora, apontávamo-la para o buraquinho do grilo e… zás, mijávamos-lhe para dentro. Inundada a casinha, o desgraçado grilo, aflito, saía em grande velocidade, fugindo da inundação... Mas, aí, acho que já não o agarrávamos… Estava sujo e mal cheiroso…

Enfim, maldades de crianças em tempos que ainda não tínhamos os agora auto-denominados e bem activos “amigos dos animais”…


quinta-feira, 29 de março de 2018

CRISE MUNDIAL - PARA ONDE VAMOS?


Preocupado com a situação política mundial resultante desta surpreendente expulsão de embaixadores russos de dezenas de países, interrogo-me: Para onde vamos?

Como retaliação será inevitável a resposta russa com a expulsão de outras dezenas de embaixadores dos países ocidentais, ficando a expectativa de vermos, depois das mútuas expulsões o que se seguirá?...

Sabemos como tudo começou mas não sabemos como terminará. E a coisa pode ser grave. Muito grave!

Tenho opinião sobre o assunto que naturalmente não vale nada e por isso não a exponho mas confesso que ando preocupado. Muito preocupado! 

Acho que, podendo ou não ser certo que foram os russos que envenenaram o ex-espião e a filha, não há provas disso e, não havendo essas provas, independentemente de acreditarmos ou não que foi a mando de Putin que o crime aconteceu, parece desajustado e incompreensível toda esta escalada de expulsões feitas pelo Ocidente. A não ser que os países que tomaram essas decisões estejam na posse de dados que não são do conhecimento público… Mas, se os possuem, também não se entende porque não os expõem…

A velha história das suspeições sobre a existência das armas químicas no Iraque ainda nos está bem na memória...

A verdade é que esta escalada não me cheira bem. Não cheira não.

Acho mesmo que é muito perigosa. Perigosa e preocupante…

Para onde vamos?

segunda-feira, 26 de março de 2018

NOS 47 ANOS DA MORTE DE MARIA ANGELINA


Completam-se brevemente 47 anos sobre a data (27/4/1971) em que faleceu em Lisboa a velha professora primária de muitos de nós no Chouto, Maria Angelina Saraiva Junqueiro, sendo que a notícia só foi conhecida na nossa aldeia alguns dias depois, mais exactamente a 1/5 seguinte.
 
Mestre-escola na nossa terra durante 26 anos ficou conhecida e recordada por todos nós e para todo o sempre pela muita agressividade que usava na sua forma de ensinar, agressividade que não se rogava de exercer sobre muitos e muitos alunos, chegando ao ponto de lhes bater na própria via pública, quando os alunos assustados lhe fugiam das mãos na sala de aula...

Réguadas nas duas mãos em simultâneo, pancadas na cabeça com “canas da índia”, chapadas e fortes puxões de orelhas, eram o método de ensino preferido da senhora (conta-me um velho amigo hoje morador na Vala do Carregado: “A mim arrancou-me as orelhas!”). Ensino e aprendizagem exercidos pelo medo e pelo pavor, sem dúvida.

A professora Maria Angelina residia com a criada Maria numa parte da então velha Escola Primária local e, porque de semelhanças físicas muito idênticas (pequenas e volumosas)  e sendo quase sempre inseparáveis quando saiam à rua, faziam uma parelha deveras patusca que muitos de certo ainda guardarão na memória.

Na falta de melhor registo fotográfico da velha senhora, deixo uma foto em que Maria Angelina surge sem cabeça – vá lá saber-se porquê?... - mas onde se vislumbra bem o seu avantajado porte físico e ainda uma outra que há anos tirei da casa de sua família em Freixo de Espada à Cinta, onde Maria Angelina nasceu e foi criada até à idade adulta e onde não mais voltou, expulsa que foi pelo pai (um velho e austero sargento reformado da antiga Legião Portuguesa do regime de Salazar), depois da jovem e recém-formada professora primária, de férias na casa paterna, ter posto fim ao casamento de sua irmã…

E por aqui me fico…

sexta-feira, 16 de março de 2018

GUERRA COLONIAL - OS PORCOS BASTIDORES


Na regular visita que costumo fazer à papelaria/tabacaria aqui do bairro – um estabelecimento sempre muito bem abastecido e actualizado, diga-se de passagem… - comprei ontem o número de Fevereiro da revista Visão/História. O assunto anunciado na capa – As Guerras Secretas de Portugal em África – chamou-me a atenção porque, sendo parte activa, ainda que forçada, na Guerra de Angola, tudo que leio, vejo e ouço na comunicação social provoca-me curiosidade e interesse. Mas estava longe de imaginar que o interesse por este número da revista fosse tanto quanto o sentido…

Na verdade e integrado nesse âmbito das “guerras secretas” é ali abordado o caso do Catanga, do ex-Congo Belga, que lutou pela sua independência do resto do território congolês e que Portugal apoiou. Que Portugal apoiou e onde eu, então integrado nas forças armadas em campanha no leste angolano, também colaborei sem querer…

Era no Congo que os guerrilheiros que lutavam pela independência de Angola tinham a maioria das suas bases e era daquele território que faziam as suas infiltrações a norte da então colónia portuguesa. Pela zona do Catanga alargavam a sua entrada mais para leste e Salazar, certamente com a batuta do experiente Franco Nogueira, seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, viu na altura uma boa oportunidade de negociar com Tshombé, chefe dos rebeldes catangueses, um acordo de bastidores: Portugal fornecia-lhe armamento, viaturas e até aviões e dava formação ao exército de Tshombé e, este, por sua vez, impedia a manutenção das bases do MPLA e corria com eles, evitando assim a sua entrada na fronteira com Angola. E foi assim, ainda que em muito pequeno grau, nesta “jogatana” que eu colaborei…

Na data estava com o meu pelotão sediado no Cazombo, no mapa junto, publicado pela revista, ali à direita no quadrado que sai do território angolano e em determinada altura durante o ano de 1967, recebemos a ordem de serviço para irmos à fronteira com o Catanga buscar três carradas de “sacos de carvão”. Assim mesmo: “sacos de carvão” era o que “rezava” a escrita de código, não fosse sermos capturados ou liquidados e o inimigo ficasse com provas escritas da actividade subterrânea das tropas portuguesas. Isto porque as carradas referidas eram, nem mais nem menos que algumas centenas de catangueses fiéis a Tshombé que entravam em Angola para, supostamente, receberem formação das nossas tropas.

E digo supostamente porque, em boa verdade, a sua formação acabava por ser-nos útil porque os desgraçados acabavam por ser integrados nas nossas operações e, mais grave ainda, eram colocados bem na frente das nossas forças, servindo assim como “rebenta minas”, “escudos” ou “carne para canhão”. Até me recordo que, numa dessas operações e face a um ataque violento do MPLA, um dos pobres catangueses sentiu algo nas “partes baixas”, apalpou e… ficou com os tomates nas mãos… E, certamente, era uma vez um pobre e enganado catanguês….

Mas voltemos à viagem dos “sacos de carvão”: a mesma foi feita numa noite de muita chuva, connosco nos unimog encolhidos debaixo das fracas capas supostamente impermeáveis (chegamos molhadinhos até aos ossos!) e os cataguenses na caixa de carga das camionetas, que nem gado, com um oleado por cima preso aos taipais.

Viagem horrível e arriscada, de mais de 100 kms mas que, fora a molha e o cansaço, correu bem, tendo a nossa missão terminado na Gafaria, junto ao Cazombo, numa antiga leprosaria constituída por alguns pavilhões, onde a nossa “carga” ficou depositada. 

Guardo ainda bem viva na memória a cena daqueles desgraçados de “cabos de enxada” em madeira ao ombro que nem espingardas, num marchar cadenciado por vozes em francês em paço rápido e miudinho, devidamente enquadrados. Mal sabiam eles o que os esperava…

Efectivamente eles não formariam exército algum para lutarem pelo Catanga… Como já disse, recebidos alguns ensinamentos, eram depois colocados na frente das nossas operações que nem “carne para canhão” e por lá muitos ficaram, mortos uns aqui, outros acolá. Então, quando se apercebiam disso, vendo onde tinham caído, só lhes restava um caminho: fugir.

Era o que os “nossos” catangueses faziam: fugiam! Um hoje, amanhã mais uns quantos e era nessa ocasião que a nossa famosa PIDE, a cuja guarda eles estavam confiados, actuava. Actuava e de que maneira?!... Radical! Como sempre a PIDE foi.

Uma bela tarde no quartel, no nosso grupo de furrieis, começou a circular “à boca pequena” um convite para ir assistir à liquidação de catangueses. Isso mesmo: liquidação! Era assim: os cantangueses tentavam fugir, eram apanhados pela PIDE que os levava para a sua prisão nas suas instalações e, de tempos a tempos, os pides faziam a “limpeza”. E, pelo menos naquela vez, com assistência formada por convites… Triste, horrível, mas verdadeiro.

Devo confessar que não fui à “sessão” dessa noite – entendi que não gostaria de ver… e foi de noite, claro, que a escuridão muito encobre, mas tive dois amigos furriéis que foram. Foram e depois contaram-me como se passou... (Não deixo aqui a identidade dos amigos por motivos óbvios…) Ambos viram, por exemplo, que os desgraçados dos condenados não saíram pelo seu pé da sede da PIDE para a viatura que os levaria à morte… Não saíram pelo seu pé, saíram a rebolar empurrados pelos violentos pontapés dos pides… 

Um dos meus amigos ficou na viatura porque não teve coragem para assistir à matança mas, durante o percurso conseguiu chegar à fala com um infeliz que lhe disse em francês: “sei que vou morrer mas gostava de saber porquê?...”. O meu amigo não soube responder-lhe, claro…

O outro furriel, também meu amigo, viu tudo, tudo. Viu tudo e isso custou-lhe várias noites sem dormir, com aquelas imagens sempre na sua frente… Viu-os serem vendados, levarem tiros de G3 na cabeça e caírem na cova. Assim mesmo: à “queima-roupa”. Sensível como era e é, não descansou durante noites a fio, este amigo. E o caso não era para menos…
Eu não fui e estou satisfeito por isso. Ver horrores daqueles não é para todos os estômagos…

E eis aqui como, forçadamente, entrei nesta dura geringonça dos meandros baixos e porcos da política e dos políticos mundiais.

E, agora, passados todos estes anos, perdidas que foram imensas vidas, feridos que ficaram muitos outros milhares, “corridos” que foram pobres e abandonados mais uns bons milhares ali radicados e perdida que foi a então dita “província ultramarina” de Angola que se tornou independente e onde novas guerras e novos horrores nasceram – em Angola e não só!… -, interrogamo-nos: tudo isto, para quê?

Para quê?

Fica a interrogação…

segunda-feira, 5 de março de 2018

NAS CURVAS DA VIDA, UM SURREAL RESSENTIMENTO


Como umas dezenas de outros acompanhantes aguardo no adro da igreja da pequena aldeia o término das cerimónias religiosas no interior do templo, antes de seguirmos em cortejo fúnebre rumo ao cemitério local levando à sua última morada um falecido e dedicado velho amigo quando, subitamente, sou abordado por um outro acompanhante do triste evento que, cumprimentando-me me diz:
- Boa tarde! O senhor não me conhece, eu já lhe vou dizer quem sou mas, antes, deixe-me que o felicite pelos seus escritos no Facebook que, porque sou ali amigo do Jorge “Pinhal”, tenho vindo a acompanhar e de que gosto bastante! Gosto da forma como escreve! E também me lembro bem que apreciava o que em tempos escrevia no “Jornal da Chamusca”! O meu nome é Joaquim “Pinhal” e sou filho do também Joaquim “Pinhal”, do táxi, da “Carregueira”.

Surpreendido e lisonjeado pelas amáveis palavras agradeci, dizendo ao amigo que não me é difícil escrever como o faço porque sou autêntico e franco. Exprimo o que sinto e me vai na alma e, por isso, o redigir as modestas crónicas, como o faço, não é tarefa difícil ou complicada. Assim faço e assim penso  continuar a fazer.

Aconteceu então que, terminado este inesperado episódio e a chamamento do meu interlocutor, vejo aproximar um homem, com uns quilinhos bem pesados, “redondinho” como eu antes de largar os mais de 20 quilitos que larguei nos últimos meses, a quem o amigo Joaquim “Pinhal” pergunta, apontando para mim:
- Conheces?
O recém-chegado olha para mim de cima a baixo e responde:
- Não!
Eu repito o seu gesto olhando para ele e dou também o meu parecer:
- Eu também não o conheço!
Não? – Interroga-se o nosso interlocutor. 
- Imaginei que se conheciam. Devem de ser mais ou menos da mesma idade… Que idade tens? – pergunta-lhe.
- Tenho 74 anos – informa.
- E eu tenho 73 – acrescento.
- Então não o conheces?  É o Victor Azevedo, do Chouto. – esclarece o curioso Joaquim.
Aí, o nosso novo interlocutor, que já antes mantinha o rosto sisudo e fechado, ainda mais o fechou e, logo de imediato, interrogando-me sem pestanejar e perder tempo, pergunta:
- Ah, pois… O Victor, do Chouto… Você, em tempos, não teve uma transacção ali no Casal “da Palha”? 
Aí eu achei que o sujeito estava a lavrar em grave confusão e discordei:
- No Casal “da Palha”? Não! Nunca tive qualquer negócio no Casal “da Palha”!
E logo ele rectificou, mantendo continuamente o semblante carregado :
- Bom, eu disse transacção mas devia ter dito namoro?... 
Bem, eu aí estava de pé porque, se estivesse sentado, caía do assento…
- Sim, na verdade, quando rapaz, em tempos que lá vão, tive um namorico com a filha do “João da Palha”. Coisa dos meus 18 anitos. – confessei  ao surpreendente companheiro.

E ele, de imediato, sempre com a situação bem presente na memória mas também, manifestamente, sem expressar grande prazer na conversa, acrescentou esclarecendo para grande surpresa minha e logicamente do outro nosso companheiro de conversa :
- Pois… eu também lá andava… Andava também a tentar conquistá-la e em dada altura achei que ia conseguir… Nessa data e depois da minha insistência, ela disse-me: “Vamos à Feira do Chouto e lá tratamos do assunto”. Aí eu fiquei convencido que ela me ia aceitar namoro na feira e, no dia, depois de me vestir, abalei para o Chouto. Mas não sei se ia muito depressa ou o que é que foi e resvalou-me a bicicleta… Caí numa poça de água e sujei-me todo! Tive de voltar para trás e ir a casa mudar de roupa e com isso perdi muito tempo. Quando cheguei ao Chouto procurei logo ver se a encontrava e, quando a vi ao longe, ela andava consigo e, pela forma como andavam, vi logo que se namoravam. Fiquei danado!

Perante este relato da sua frustrada aventura e vendo o seu rosto sisudo e fechado, imagem que ainda hoje guardo na cabeça alguns dias volvidos, não consegui deixar de sorrir e o outro nosso companheiro de reunião bem me imitou. Era irresistível. Uma cena de um frustrado namoro, que até meteu uma queda de bicicleta dentro de poça de água, quem resiste a um largo sorriso, ainda que integrado num… funeral? Ninguém.

Mesmo assim e ainda mais curioso perguntei-lhe:
- E como se chama?
- João. João “Pinhal” – respondeu-me secamente.

É então que, vendo os nossos rostos risonhos – meu e do Joaquim, o do João não… – e logicamente curioso, se aproximou o outro seu parente Jorge “Pinhal” meu conhecido e amigo e eu observei-lhe:
- Já viste o que agora aqui acabo de saber? Há muitos anos atrás, aqui ao teu parente, “passei-lhe a perna”…

E aí, de imediato, secamente, sempre de rosto fechado, fui rectificado pelo meu outrora rival:
- “Passou-me a perna”, não! Quem me “passou a perna” foi ela. Mas, também, quando mais tarde a apanhei, disse-lhe tudo o que me veio à cabeça!...

E, se antes sorriamos dois, passamos a sorrir três… Eu, o Joaquim e o Jorge. Hilariante situação! Impossível conter o sorriso. O meu rival de juventude é que não achou graça alguma…

Nisto, as cerimónias terminaram na igreja e, integrado no cortejo fúnebre, fui andando e rebobinando o filme – filme de 6 m/m, porque na época ainda não havia cassetes vídeo… eh! eh!- filme dos meus namoricos de juventude, das minhas namoradinhas e dos meus rivais de ocasião e algo me fui lembrando… Recordei-me por exemplo que, quando não podia comparecer num ou outro bailarico, pedia a camaradas amigos dessas andanças que observassem os comportamentos das meninas na minha ausência e depois me contassem… Assim como que espiões… eh! eh! E lembrei-me que entre muitas outras velhas cartas a narrar essas andanças, tinha algumas do amigo António Sebastião, meu velho e saudoso companheiro dessas viagens de bicicleta noite e dia e que tão cedo partiu da nossa convivência. Pensei nisso e, chegado a casa, procurei nos meus velhos arquivos…

Procurei e encontrei uma de Março de 1962 desse amigo, de que aqui deixo um pequeno extracto, na qual me narra uma ida a um desses bailaricos mas onde, todavia, o rival João “Pinhal” não estava. Confirma-se assim a referência à concorrência desse ainda agora agastado rival.

O funeral terminou já o dia atingia o seu fim e regressei a casa já com faróis ligados porque a noite caia rápida.
  
E ainda bem que fiz a viagem de noite porque, assim, quem se cruzava comigo e porque não me via, não me chamava de louco por ir a conduzir rindo sozinho. Sim, porque eu fiz toda a viagem lembrando-me da cara fechada, sisuda e aborrecida do velho rival que, agastado e pelos vistos ainda ressentido, deve ter mal dito de, naquele funeral, ter tropeçado com o atrevido “Victor do Chouto”… eh! eh!

E… como é possível um ressentimento amoroso de juventude manter-se mais de 50 anos? Toda uma vida!?... Como?...

Um parágrafo final para esclarecer que, nesta crónica, optei por utilizar nomes fictícios de pessoas e locais em detrimento dos reais, assim pretendendo evitar mal-entendidos, exactamente porque no episódio se fala de uma 3ª pessoa que não estava presente na nossa conversa, pessoa que me merece consideração, respeito, e estima.

Nas curvas da vida…

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

DEPOIS DAS PÚTEGAS, OS FIGOS DA ÍNDIA


Depois de aqui falar das pútegas que colhíamos nos matos que circundavam o Chouto, acorre-me lembrar um fruto que igualmente colhíamos com muito e geral agrado, apenas com o pequeno senão de termos de usar do maior cuidado no seu manejamento...

Refiro-me aos “figos da índia”, que tão saborosos são e que procurávamos e colhíamos logo que da cor rosa se apresentavam nas piteiras dos valados.

Mas os picos – os danados dos picos!... – incomodavam a valer…

Recordei-me então que já em 2003, neste blogue, hospedado noutro espaço da net, tinha redigido algo sobre eles e, procurando e encontrado que foi, trago para aqui o então escrito.

São recordações curiosas que hoje me dão prazer rememorar e me fazem sorrir…

E… como éramos felizes sem sabermos…


Vendo esta bonita imagem, eis que recuei aos meus tempos de criança no Chouto, minha aldeia natal quando, qual pardalito ligeiro, com os meus companheiros de infância, - o António Rainha, o Fernando Carvalho, o Diamantino Carloto e tantos outros -, percorríamos os campos e as hortas da vizinhança em busca de bons e belos frutos ali criados.

Estes “Figos da Índia” eram então dos mais procurados nas piteiras que existiam nos


valados que serviam de vedações das pequenas hortas dos meus vizinhos.

Manejados logo na apanha com a maior delicadeza, eram também abertos com muito cuidado por causa dos seus finos picos que, a uma pequena distracção, se espetavam aflitivamente nos nossos deditos provocando-nos um incomodo dos diabos!... E, tirá-los, depois, era o cabo dos trabalhos!...


A imagem mais curiosa que tenho dessa operação de abertura dos figos era a forma como o fazíamos: Traziamos sempre nos bolsos uma muito práticas “lâminas” feitas de canas verdes que antes preparávamos cortando a cana em pequenas tiras e que afiávamos, cortando fininho, num dos lados, com a faca de cozinha da mãe, ficando como se fosse a lâmina de um canivete. Como os nossos pais, naturalmente, não nos davam dinheiro para adquirirmos canivetes, habilidosamente, contornávamos assim a dificuldade…



Mas, mais ainda: A parte laminada encaixava noutro pedaço de cana, então já cilíndrica na totalidade, onde fazíamos uma pequena fenda. Desta forma, encaixávamos e guardávamos ali a “lâmina” como se fosse um canivete não nos aleijando quando a colocávamos no bolso.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A FRANQUEZA DO GESTO...


Gosto particularmente desta foto que tempos atrás me foi facultada pelo amigo Manuel Vital “Barracão” no dia do seu casamento com a Deolinda na igreja paroquial do meu Chouto natal!

E gosto não só por ela recordar o casamento desses amigos mas também por nela surgir a minha falecida mãe e por a imagem expressar fielmente a franqueza, pureza de espírito e vivência daquela que teve a virtude de me conceber e criar e que passou na vida todos os seus dias com sinceridade e justeza de atitudes, trabalho, honestidade e carácter, muito carácter!

A mão francamente estendida - expressivamente bem aberta! - para um são e amigo cumprimento de felicitações, é bem o retrato fiel do quotidiano viver de toda a existência da nossa saudosa Maria do Rosário!

Que repouse em paz, na paz, na quietude e na franca harmonia com que sempre viveu neste mundo e que tão bem soube transmitir aos seus filhos que sempre a recordarão com profunda saudade!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

BELA JORNADA DE CONFRATERNIZAÇÃO FAMILIAR!



Num novo espaço que adquiriram recentemente num dos prédios mais altos de Almada de onde se desfruta uma magnífica vista sobre o Estuário do Tejo e Lisboa, os meus cunhados Alberto e Gorete proporcionaram ontem uma belíssima confraternização familiar que reuniu irmãos, filhos, cunhados, netos, sobrinhos e sobrinhos-netos num total de 23 pessoas!






Todos à mesa, saboreando uns deliciosos cabritos assados ali mesmo em forno de lenha nas excelentes instalações criadas e que fazem questão de afirmar que se destinam ao convívio com familiares e amigos e que as quadras, nascidas da veia inspiradora do Alberto e fixadas com destaque no pano da chaminé da lareira da sala isso mesmo confirmam e que, pela sua habitual lhaneza e amizade, não temos como duvidar que assim será. Fica aqui a minha gratidão e estima, 
na parte que me toca!





O cabrito, acompanhado das inevitáveis batatinhas assadas e do arrozinho estava magnífico, o vinho tinto “Grão Vasco” – que provei em meio copinho… - era divinal e as diversas sobremesas estavam super-gostosas e, por via das inevitáveis repetições - no cabrito servi-me 3 vezes! - , terão sido responsáveis por mais uns quantos gramas (?) no peso aqui do rapazinho de velha carcaça!...




Terminou tudo com o cafézinho, o digestivo e o inevitável jogo de snooker (aí, convenhamos, parece que o dono da casa não terá gostado tanto do resultado final…rsrs).




Tudo resultou numa excelente confraternização e num extraordinário convívio familiar que fica para a história das nossas vidas! Muito bom, mesmo!




Ficam aqui algumas imagens do lindo convívio e ficam também as felicitações e um bem-haja ao Alberto e à Gorete, num particular agradecimento, franco, pessoal e amigo!




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

NO CARNAVAL, LEMBRANDO "MESTRE ARLINDO"


Nesta época do ano em que se festeja o Carnaval, é incontornável lembrar-me sempre do nosso saudoso amigo “Mestre Arlindo”, de seu nome completo Arlindo Alves Texugo, amigo de sempre, que me viu nascer e crescer na nossa aldeia.

Era pessoa extremamente simpática, educada, muito amiga de todos e muito prestável e, de tão sofrida e madrasta que lhe foi a vida, ainda mais admirava a bonomia e a alegria com que dia a dia encarava as difíceis horas da sua existência. (O sr. Arlindo esteve internado muitas e sofridas vezes e teve, que me recorde, pelo menos seis intervenções cirúrgicas em Lisboa. Cheguei a visitá-lo amiúde no Hospital do Rego.)

Alfaiate de profissão, esteve estabelecido em frente à extinta Sociedade Recreativa e, depois de construída a sua casa de habitação (a segunda da esquerda na foto que aqui deixo, num bonito registo da época) foi para ali que se mudou de fazenda, tesoura e agulhas. Mas, é do local da anterior oficina, frente à Sociedade, que me recordo da mais antiga brincadeira de Carnaval praticada pelo nosso amigo “Mestre Arlindo"...


Na época não tínhamos água canalizada na aldeia e era usual o sr. Arlindo ver passar pela frente da sua oficina na Rua da Fonte as senhoras de cântaro à cabeça e com elas “meter palheta”. Para todas ele tinha uma conversa, uma graça ou uma simples saudação amiga e cavalheira. Muitas vezes com algum picante, com alguma bicadazinha marota, sobretudo quando se tratava de moças solteiras mas, mesmo para as casadas, a sua brincadeira maliciosa mas nunca ordinária ou ofensiva, era frequente. “Mestre Arlindo” era assim, alegre, bem-disposto e mesmo folgazão.

Ficou famosa na época a “partida” que pregou à “Ti Barbara”, uma senhora idosa, alta e magra, que todos os dias por ali passava a caminho da fonte e que era casada com o “Ti Bartolomeu”, quando o nosso maroto sr. Arlindo comprou uma “onça” de tabaco “Duque” (ele sabia que o velho pastor fumava daquela marca os cigarrinhos que fazia à mão), a esvaziou e substituiu o precioso tabaquinho por uma seca e esfarelada bosta de boi que, com frequência também passavam pela rua e por ali deixavam “presentes”. “Mestre Arlindo” deixou secar a dita cuja, esfarelou-a para que ficasse parecida com tabaco e encheu a embalagem da “onça” com o “precioso” recheio. Quando viu no Largo da Igreja que se aproximava a “Ti Barbara” a caminho da fonte atirou a “onça” para a calçada e ficou de espreita a ver o resultado da malandrice… (E ele contava isso tanta vez e com tanta graça…) “Ti Barbara” viu a bonita “onça” abandonada na calçada e disse: “Olha que bela “onça” pró meu Bartolomeu!”. Agachou-se e guardou-a, feliz da vida, no bolso do avental. À noite, quando o marido chegou, contou-lhe do valioso achado: “Ó Bartolomeu, olha o que achei na rua ao pé da oficina do Arlindo?!”

Pois, mas o pior foi quando o “Ti Bartolomeu” resolveu fazer um cigarrinho e começou a chupar o “fuminho” que dali vinha… Era amargo para caramba e, analisado e sobretudo cheirado bem aquele estranho “tabaco”, foi-lhe fácil detectar a “partida” em que a pobre mulher tinha caído e, daí, associá-la de imediato ao maroto do Arlindo, foi um rápido. Arlindo que, claro, sempre lhe negou a autoria da malandrice.

São várias as marotagens e brincadeiras deste saudoso amigo que, tempos atrás, numa ida ao cemitério velho do Chouto visitei na sua última morada e, em momentos de recolhimento bem dele ali me recordei com tristeza e saudade mas, por hoje fico-me por aqui, que a conversa já vai longa.

Que “Mestre Arlindo” descanse para sempre em paz e harmonia, na bonita paz e na harmonia que sempre nos transmitiu em vida e que tão bem nos fez!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

OUTROS TEMPOS, OUTRAS PRÁTICAS...


Viviamos os anos 50 do século passado…

Pequenas bicicletas para crianças não existiam no mercado e, mesmo que as houvesse, onde estavam as posses para os nossos pais as comprarem? O dinheirinho era pouco, escasso, muito escasso e o pouquinho que se conseguia era para a fraca alimentação e para fazer face a mais importantes necessidades como doenças, médicos, medicamentos, etc.

Sendo assim, como fazer para andar de bicicleta, nessas velhas pasteleiras, como se chamavam na altura, que os nossos pais com esforço adquiriam para mais facilmente deslocarem-se nos seus afazeres diários usando os fracos caminhos de cabras de que se serviam na época, montes e vales adiante?

Como fazer? Ora, como diz o ditado, “quem não tem cão, caça com gato” e, assim, vá de aprendermos a enfiar as frágeis pernitas no quadro da dita e, caindo aqui, levantando acolá, no inicio de um equilíbrio instável, ganharmos prática e avançarmos destemidamente.

Como muitos de nós naquela idade fiz assim quilómetros e quilómetros nas centenas de vezes que percorri o caminho Chouto - Anafe do Avô Gregório e volta. Um ano? Dois anos? Três anos? Não sei… Não me lembro… Foi o tempo necessário até as pernitas crescerem e poder então chegar aos pedais galgando a perna por cima do quadro da bicicleta.

Velhos tempos… Tempos passados…

Tempos passados, não mais esquecidos e que, agora, estas imagens circulando pela net mais nos trazem à memória…

Meninos livres, descomprometidos e despreocupados.

Meninos de mil sonhos e mil anseios.

E como éramos felizes sem sabermos!...