quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A VELHINHA ESCOLA PRIMÁRIA


Recordação cada vez mais acentuada de dias e situações vividas aquando da infância e juventude, numa experiência e sensação quiçá bem gostosa e agradável quanto nostálgica e que, em boa verdade, também não surpreendente porque já prevista há muito por este pobre escriba que desde sempre gostou de ouvir dos mais velhos as suas experiências e vivências passadas, sabendo assim que isso aconteceria, é o que vou sentido há já uns anos a esta parte e de forma cada vez mais acentuada nos dias que correm.

Acontece então que, chegada a convencionada dita 3ª idade, a caixinha dos pirolitos do pobre cidadão como que vai resgatando do seu lastro, do seu fundo, as cenas, os episódios, os objectos e as coisas vividas em tempos bem recuados e, num misto de surpresa e prazer, passa largos períodos a recordar e reviver tempos idos, lá muito, muito distantes nos dias.

Um objecto, uma imagem, uma simples conversa, fazem-no recuar no tempo e, agora, com a moderna internet que repesca por todo o lado os elementos do passado, as cenas de outros tempos, muito mais isso se acentua e se sente.

Pensava exactamente nisto mesmo quando, num site de velharias “tropecei” na velha fotografia que aqui junto de uma sala de aula de pequenas crianças e que de imediato me transportou aos meus tempos de criança, aluno na então chamada Escola Primária do meu Chouto natal (aí também numa outra foto dos nossos dias já com o edifício devidamente recuperado e bonito) onde aprendi as primeiras letras e ali permaneci até perfazer a na época denominada 4ª classe.

Para meu especial prazer e dado que, ao que julgo, não existirão quaisquer fotos da minha sala de aulas desse tempo – as máquinas fotográficas eram escassas e só ao alcance de algumas poucas bolsas... - esta interessante foto e salvo algumas poucas diferenças, é uma cópia quase fiel da que tínhamos naquela altura nesse recanto onde a professora dava a aula. Vendo-a é possível imaginar e ver ali a mestra, os alunos (todos, como então, de bata branca), as carteiras (com os velhinhos tinteiros de loiça branca onde molhávamos o aparo da caneta) e a disposição dos diversos móveis, sendo por isso o que aí está uma cópia quase exacta da escola que frequentávamos nos idos tempos.

A professora (Maria Angelina) era um pouquinho mais cheiinha que a que aí vemos (um pouquinho, mas era mesmo mais para o “grosso”…); ao canto, junto à mestra, ”descansava” sempre, quando “descansava”, a grande e rija cana-da-Índia; em cima da secretária (de tampo talvez um nadinha maior…) sempre “repousava” a régua (palmatória), quando “repousava”, nos intervalos em que não era usada para sovar o alunos; o quadro era em ardósia preta e um pouco mais pequeno; os vasos e jarra de flores estão aí a mais (Maria Angelina era pouco de flores…); a janela à esquerda, de sistema guilhotina e embora alta como a da foto, era um pouco menos larga; não tinha calendário na parede e muito menos com imagem de santos ou santas (Maria Angelina não era muito dessas coisas…); por cima do quadro preto tinha um crucifixo em bronze ladeado por duas grandes fotos em molduras de madeira com os rostos do Marechal Carmona (Presidente da República) e do Dr. Salazar (Presidente do Concelho), conjunto obrigatório nas escolas da época e, por fim, nem o pequeno estrado, onde a professora se movimentava e de onde aplicava as reguadas aos alunos no plano inferior, aí falta.

Pelo exposto e em imagem quase fiel, eis como ali vejo esse recanto da minha sala de aulas da já então velhinha Escola Primária na primeira metade dos anos 50 do século passado, época em que também fazia as cópias que aí deixo, cópias certamente redigidas em casa e que depois levava para escola como os hoje chamados TPC. 

Já na época realizávamos os chatos “trabalhos de casa”... Sempre contrariados; sempre com medo da professora; sempre forçados pelos pais; sempre aborrecidos quando não a choramingar porque nos aguardavam nas ruas e largos de terra batida da aldeia, o Rainha, o Carvalho, o Diamantino, o Rui, o “Ervilha”, o Zé da “Calistra”, o Manuel “Barracão”, os irmãos Tomé e Manuel João, o Manuel João Garcias, o João e o Manuel Espadinha, o Zé Augusto "Montefato", o..., o…, os muitos outros amigos e companheiros com quem jogávamos ao pião, à bugalha, à bola (com uma meia cheia de trapos a fazer de esférico) e com as oliveiras ou umas simples pedras a servirem de balizas; calçados uns mas, de pés descalços outros, já que as posses dos pobres pais não lhes chegavam a tais luxos de botas ou sapatos… Esfolados de joelhos e braços mas felizes.

Alegres e felizes sem o sabermos.

Danado de tempo que se foi.

... E que se foi tão rápido...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A III "RECAUCHUTAGEM" VAI ACONTECER


Chegada hoje por telefonema do competente cirurgião que desde a operação em 2017 me acompanha na evolução deste chato estado da minha figadeira e menos de um ano decorrido sobre o tratamento por quimioembolização sofrido, a notícia chegou: Novo internamento, novo exame, nova quimioembolização.

A III “recauchutagem” da minha “pecinha das iscas” vai assim realizar-se de novo e, ou muito me engano – e oxalá que sim! - mas, pelo historial, parece que estarei sentenciado a, ano a ano, ver nascer estes “brincos” danados que não incomodam com dor, é verdade – do mal o menos… - mas não deixam de muito preocupar.

Mas, ainda bem, como hoje me fez ver o amigo cirurgião, que felizmente há tratamento para o que vai surgindo porque, como disse, “se algo aparece, sendo que para isso não há remédio, é que é mais chato”, coisa que, convenhamos, é bem verdade.

Mas, uns com uns achaques, outros com outros, todos temos que nos conformar, ao mesmo tempo que, esperançados e animados em dias melhores, temos que ir tratando e combatendo as maleitas surgidas.

É o que tenho feito e que continuarei a fazer na convicção que, como o anterior exame tudo se passará sem esforço ou contrariedade de maior e, em poucas horas (em Maio passado foram exactamente 45 horas de internamento), pelo meu pé tornarei a casa mais aliviado, mais animado.

E, passados mais uns tempos, se estes “brincos” tiverem seguidores, cá estarei tentando rejeitá-los. 

Não há alternativa.

É a vida...

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

QUANTAS SAUDADES!...

Nas manhãs de dias frios, húmidos, tristonhos, lúgubres e anunciadores de chuva quanto este rapaz, sentado em pequeno banco de assento de palha, juntinho ao lume e às brasas de sobro no quentinho da lareira rasa que, em contraste com a baixa temperatura do exterior, ali mais tornava paraíso, debaixo dos enchidos, dependurados no fumeiro por cima de nossas cabeças, saídos da recente matança do bácoro, alimentado e criado a hortaliças da horta e milho da seara, quantas Morcelas de Assar, assadinhas no borralho da fogueira foram degustadas? Quantas?


Entaladas no bom e alvo naco de pão caseiro, que depressa ficava ensopado na quente gordura que do bom pedaço de morcela saía – quando não da totalidade da dita cuja… - quantas e quantas Morcelas de Assar este saudoso rapaz não degustou, acompanhadas do inesquecível café que, na cafeteira em permanência sempre esquentava juntinho ao borralho e que, vertido para a generosa chávena, sempre prontinha a receber e saciar o contínuo apetite da criança e do rapaz, tornavam o pequeno-almoço num delicioso manjar para sempre recordado? Quantas?

Saudosos tempos, saudosos tempos que se foram!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

COVID - 19 - DIAS DRAMÁTICOS!

Numa hora tão grave e dramática para Portugal, devastado pelo terrível e mortífero Covid -19 que mata e faz sofrer, melhor que as minhas fracas e pobres palavras de preocupação e mesmo medo, está o testemunho do médico Ricardo Baptista Leite publicado hoje em muitos meios de comunicação social e diversas redes sociais e de aqui me faço eco por entender que todos não somos de mais para consciencializar os distraídos e/ou inconscientes que teimam em não se resguardar e, irresponsavelmente, vivem assobiando para o lado, convencidos que o mal só acontece aos outros...



"Ontem ao sair do Hospital de Cascais sentia uma enorme frustração e angústia. Para garantir a racionalidade das minhas palavras, decidi esperar por hoje para fazer esta partilha. 

Estive este sábado mais uma vez como médico voluntário no serviço de urgência do hospital de cascais – mais especificamente no chamado ‘Covidário’ que dá resposta aos doentes e suspeitos COVID-19. Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indiscritíveis. A sensação de impotência por não podermos fazer mais. Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes. Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão. O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras. Tantos doentes a descompensar com quadros de insuficiência respiratória grave. Sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria, ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência. Alguns doentes com ventilações invasivas… Um cenário de guerra. Os doentes menos graves que aguardam pelo teste covid assistem em direto a muito disto… o espaço é demasiado pequeno para tantas dezenas de doentes. E a cada hora chegam mais doentes. É preciso estabelecer prioridades. O cenário é de catástrofe e exige comando e controlo. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades. Não se conseguem acompanhar todos os doentes a todo o tempo. Um doente de cada vez. Fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários. Estamos em pleno campo de batalha no qual as emoções têm de ficar de lado… mas na realidade ficam apenas recalcadas. Chora-se quando se chega finalmente ao carro no final do turno, ou a casa. Ali no covidário o foco é necessário e absoluto. Assisti a uma colega médica que esteve durante mais de uma hora a ligar para familiares de doentes que estavam sob a sua responsabilidade e que acabaram por falecer num espaço tão curto de tempo, apesar de todos os esforços. Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos. Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes. Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia. 

O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta.

Perante a gravidade da situação da covid-19 em Portugal, continuaremos nos próximos dias com uma tendência crescente do número de novas infeções diárias, de internamentos e de doentes em cuidados intensivos. E assim vai continuar até ao final do mês. Um em cada 5 testes realizados no nosso país é positivo. E a tentativa de manter as pessoas em casa para tentar diminuir a dimensão da epidemia simplesmente falhou.

O custo humano de falharmos como país é demasiadamente elevado. Será insuportável e ficará como uma cicatriz de vergonha para futuras gerações de portugueses. Estamos a viver um momento histórico e depende de nós definir como termina.

Por isso, não há tempo a perder. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para prevenir mais mortes evitáveis. Não podemos continuar no atual rumo. A meu ver, temos de fazer 5 coisas de imediato:

1. Não esperar 15 dias. Decidir mudar de imediato as medidas governamentais e determinar um confinamento ‘absoluto’ durante 3 semanas para depois ser reavaliado. Isto tem de incluir as escolas, garantindo o apoio remuneratório a um dos pais, tal como aconteceu durante a primeira vaga. O problema não são as infeções nas escolas. É toda uma sociedade que não consegue parar com as escolas abertas. Mais, todas as demais atividades não essenciais, que não sejam possíveis por teletrabalho, devem cessar atividade de imediato pelo mesmo período de tempo. Tudo deve de parar de imediato. Reduzir as regras de circulação unicamente para as situações determinadas aquando do estado de emergência de março 2020. As forças de segurança devem ter instruções claras para atuar em conformidade perante a violação das regras definidas em todo o território nacional.

2. Mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas. Chamar todos os recursos humanos disponíveis para abrir o maior número possível de hospitais, clínicas e tendas de campanha com máxima urgência. 

3. Comunicar de forma clara, transparente e diária com o país sobre a gravidade da situação e sobre o que se espera de cada cidadão. Ponderar novamente os riscos inerentes ao ato eleitoral de dia 24 - sobretudo depois do que se viu com o voto antecipado. 

4. Preparar desde já o momento em que se levantarão as medidas restritivas de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos. Isto exige um aumento significativo do dispositivo de saúde pública e da capacidade de testagem. O país tem de testar no mínimo 5 vezes mais do que atualmente, com particular enfoque na testagem semanal dos profissionais das escolas, dos lares e de saúde. Temos de ser capazes de identificar todos os infetados e determinar as cadeias de infeção – sem saber onde as pessoas se infetam, não seremos capazes de atuar precocemente na contenção de surtos. Mais, devemos ser capazes de identificar todos os que tiveram contacto com pessoas infetadas e garantir o isolamento de todos – doentes e suspeitos. Garantir mesmo que fiquem isolados. Contratualizem-se os hotéis do país para o efeito dividindo-os em hotéis para infetados e outros para suspeitos. 

Testar, identificar e isolar. Não há outra forma.

5. Usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas COVID-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até Junho 2021. 

A frustração destas semanas tem de ser substituída por ação determinada para acabar com esta pandemia. Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano. Ainda vamos a tempo de salvar vidas. Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

IMPENSÁVEL!!!

Totalmente impensável assistirmos, como ontem assistimos, aos graves acontecimentos da invasão do Capitólio, em Washington, por uma multidão de arruaceiros apoiantes do presidente vencido Donald Trump!

Ver a casa da democracia, símbolo maior da ordem, da civilização e da liberdade, num país assumidamente defensor da ordem e da liberdade mundiais, dá para avaliarmos quão estranho e louco é o mundo dos nossos dias.

Ver o Capitólio assaltado e saqueado (a cena de um polícia assustado e solitário a fugir escada acima à frente de uns quantos assaltantes é por demais espantosa e dramática!…) e, sobretudo depois do triste 11 de Setembro, comprovar que um grupo de americanos, por mais ou menos numeroso que seja, consegue partir portas e janelas, escalar paredes e penetrar e devassar gabinetes de altos dirigentes da política dos Estados Unidos e do Mundo, é coisa demasiado grave e deixa tudo e todos incrédulos, se não mesmo assustados.

Um sujeito que ao longo do seu mandato fez política de confronto com tudo e com todos, inventa uma fraude eleitoral e, ainda que todos os tribunais a que recorre não lhe reconheçam razão num único caso para reclamar os resultados eleitorais, persiste na alusão a essa suposta fraude e vai agora ao extremo de incentivar aos seus apoiantes uma ida ao Capitólio, deixa-me abismado e indignado como tal coisa é possível hoje acontecer na transição do poder na nação mais democrática e poderosa do Mundo.

E que dizer das medidas tomadas pelas diversas Redes Sociais da net que hoje suspenderam e ameaçam banir as contas desse Trump, numa medida incrivelmente inédita e verdadeiramente espantosa?

O Capitólio invadido por uma multidão de arruaceiros!...

Impensável!

Impensável, inadmissível e… criminoso!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021 – SER MELHOR NÃO SERÁ DIFÍCIL

E aqui estamos rapidamente, muito rapidamente – esta trapalhada dos meses e dos anos agora passam tão depressa!… - no 1º dia do novo ano de 2021 por todos ansiado que seja melhor que este horrível e desgraçado 2020 que se foi. O que, convenhamos, não será muito difícil, tão maus foram estes 365 passados.


Com o início da aplicação das vacinas as prespectivas e sobretudo as esperanças são as maiores de que façam minimizar, se não mesmo extinguir este mortífero Coronavírus que, surgido há um ano na distante e recôndita China, depressa se propagou em larguíssima escala por todo o Globo e por toda a Humanidade, com horríveis e dramáticas consequências.

Um ano passado sabemos que totalizam já muitos milhões de homens e mulheres os contaminados e mortos e, mais preocupante ainda, temos todos a sensação que ainda agora a “procissão vai  no adro”, como diz o nosso povo. Na verdade, ainda que as vacinas constituam uma grande esperança, todos sentimos que o mundo desconhece quando e como todo este enorme pesadelo, único e inimaginável nas nossas vidas, terminará…

Obedecendo a um plano previamente estudado e divulgado, temos agora em Portugal os elementos dos serviços de saúde na prioridade da vacinação a que se seguirão utentes de lares e doentes com problemas crónicos de saúde e, em Março/Abril passar-se-á aos maiores de 65 e doentes e será então o grosso da população sendo que, no meu caso pessoal, deverei integrar essa numerosa coluna.

Estou ansioso por essa hora como é evidente e espero que no próximo Verão, tanto eu como a larga maioria dos portugueses, já estejamos mais protegidos e menos preocupados.

Até lá e se bem que após a vacinação os cuidados devam e tenham de continuar, há que manter o afastamento, o isolamento, a prevenção para que o COVID-19 não nos atinja, não nos “agarre” e não nos traga mais preocupações e mais aflições.

Que o 2021 seja melhor que este danado 2020 que se foi! O que, certamente, não será muito difícil...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

UMA MINISTRA EM LÁGRIMAS...

Avesso a interessar-me, falar e sobretudo escrever sobre política e os políticos que temos depois de me desiludir com os métodos e o nível da classe política que nos vinha – e vem - dirigindo e mais concretamente após os nossos eleitos representantes em tempos idos terem criado as então escandalosas, incríveis e mesmo ofensivas Pensões Vitalícias, numa decisão pessoal que tomei e que só foi alterada uma ou outra isolada vez em casos esporádicos e bem raros eu, que no pré e no pós 25 de Abril me interessei e vivi a política e durante muitos anos e tanto escrevi em milhares de linhas, muitas vezes de páginas inteiras em jornais e revistas publicadas no meu torrão natal, abro hoje um novo parêntesis nessa posição há muito assumida.

E faço-o sincera e convictamente depois de, fortemente impressionado, ter visto na televisão e já revisto aqui na net, a nossa actual Ministra da Saúde, Marta Temido de seu nome, numa emoção para mim jamais vista num governante, verter lágrimas enquanto discursava no Instituto Ricardo Jorge perante os seus trabalhadores.


Emocionou-se assim a senhora de voz embargada e com várias e emotivas lágrimas a rolarem-lhe pela face quando se dirigia aos trabalhadores do Instituto, que o seu ministério tutela, no seu agradecimento e muito apreço pela dedicação e esforço por eles despendido no combate à terrível pandemia que nos assola, que naturalmente a todos muito preocupa e, como agora se comprova, com a Ministra da Saúde a estar na 1ª linha desse combate e dessas preocupações.

Preocupações que, agora se constata com franca admiração, não são apenas oficiais mas, sobretudo, muito sobretudo, pessoais.

Em toda a minha existência não me recordo de ver em público num governante tamanha emoção, tamanho sentimento e tão grande sensibilidade pessoal no desempenho da sua importante missão e entendo que deve merecer todo o apreço e toda a estima.

Não sei se é boa ou má ministra; se é competente ou não; se desempenha o seu cargo com saber ou não; sei que é sensível, sei que sente a responsabilidade do seu cargo e isso diz-me muito.

Porque nunca me acanhei a criticar os frios, distantes, maus, se não mesmo mentirosos e falsos políticos, aqui estou hoje, francamente e também emocionado q.b., a manifestar toda a minha estima e muita admiração pela sensibilidade de Marta Temido, ministra de um governo de Portugal.

Bonito e sensibilizante!

Mulher de carne e osso – e lágrimas!… - como eu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

OS (DEFUNTOS) CARTÕES DE BOAS FESTAS

 
Vivíamos então as décadas de 50, 60, 70 e mesmo 80 do século passado... 

O digital ainda não tinha nascido; a internet igualmente ainda não havia surgido, não tinha sido inventada e, eventualmente, tão pouco seria sonhada pelas mentes mais imaginativas; os telemóveis idem-idem, aspas-aspas e, nos poucos aparelhos fixos, as ligações eram deficientes e… caras; as comunicações entre os humanos eram na época feitas quase exclusivamente pelo correio escrito em cartas, cartões, postais, telegramas, etc.

Era assim antigamente e foi neste quadro que surgiu o então designado “Cartão de Boas Festas” para ser enviado nesta quadra natalícia ao amigo, ao familiar, ao namorado e, depois, numa maior divulgação, a associações, instituições, quiçá empresas mais dedicadas e estimadas do remetente. 

Chegada este altura do ano todos corríamos às papelarias, tabacarias e até a cafés e mesmo mercearias em pequenas aldeias, na compra dos pequenos cartões e seus envelopes, que se vendiam em conjunto já com as dimensões adequadas às dos cartões.

Na Chamusca, sede do meu concelho natal, recordo-me que o estabelecimento grande fornecedor da população era sobretudo a “Papelaria do João Fonseca”, principal estabelecimento do género na vila mas, também no meu pequeno Chouto, na mercearia do meu tio Antero Barreto, que de tudo vendia, num ou noutro ano os houve, numa venda em que sobressaía a boa vontade e a simpatia do primo Zeca, sempre solícito em procurar destacar as belezas do produto e em agradar ao cliente.


Tanto quanto me lembro, os simpáticos cartões começaram nos recuados anos por serem fornecidos muito simples e de pequeno formato mas, depressa, de um simples cartão inicialmente com desenhos de paisagens sempre nevadas com casebres e árvores alvas de neve, depressa passaram a ter maior formato e a mostrar-nos imagens já mais coloridas de presépios com a Virgem Maria, S. José, o menino Jesus e os tradicionais burro e vaquinha com o seu bafo aquecendo a criança na manjedoura.

Mas não se quedariam por aí os simpáticos cartões e, logo, logo surgiu a grande novidade dos desdobráveis, de multi-faces, bem originais e bonitos para a época. Eram os mais procurados quando se pretendia presentear a namorada, o amigo especial, o familiar mais querido. Abria-se a face principal do cartão e no seu interior surgiam-nos imagens como que em movimento, dando uma dinâmica e vida ao cartão particularmente agradável à vista. Naturalmente, eram também os mais carotes mas, mesmo assim, como o desejo era agradar ao destinatário, isso pouco contava… Também com o surgimento das guerras de África começaram a circular uns cartões bem específicos, alusivos à presença dos nossos militares nos campos de batalha e que tinham a particularidade de apresentarem imagens de namoradas, de rostos e poses sempre mais ou menos apaixonadas mas obrigatoriamente discretas e castas, ou disso aproximadas, porque outra coisa a censura da época não deixaria passar…

Nas duas quadras natalícias que passei na guerra nos finais da década de 60, lá bem no distante e inóspito leste angolano, recebi naturalmente muitos e diversificados cartões de Boas Festas remetidos por familiares e amigos e, como seria inevitável – este rapaz guarda tudo!… -, ainda hoje os conservo como gratificante recordação. 

Para aqui documentar para a posteridade, escolhi desses cartões uns quantos variados que fotografei e aí deixo como ornamentação das minhas palavras. 

No grupo poderemos ver os mais simples e pequenos, com imagens de neve e árvores; um outro mais sóbrio e discreto de um amigo; e, encima, dois dos desdobráveis: um com o tradicional presépio e o outro, que aprecio bastante e que destaco em separado, que apresenta a saudosa jovem namoradinha no jardim da sua eventual casinha de aldeia empunhando um raminho de flores sendo  que, abrindo a janela, vê o seu amado que, de camuflado vestido, sinal que estava na guerra distante, surge-nos de perna trocada, muito prazenteiro numa paradisíaca praia de coqueiros e mar calmo já que, mostrá-lo sujo, cansado e a combater na mata, como infelizmente acontecia muitas vezes no seu dia a dia, seria absolutamente proibido pelos poderes de então. Lírico e romântico… Coisas da época…

Todos estes cartões e este hábito de comunicação entre nós entretanto se foram com a chegada dos mais modernos e rápidos meios de comunicação mas, convenhamos, o velhinho “Cartão de Boas Festas”, com o gosto que se escolhia de entre os muitos aos dispor na loja, com o carinho com que se redigia a sua dedicatória e até com a amizade com que se colocava no marco do correio, era bem mais amigo, fraterno e carinhoso que esta coisa das frias e quase impessoais mensagens escritas – e muitas vezes copiadas e partilhadas às dezenas e centenas… - recebidas nos telemóveis, nos computadores e na internet. 

Sinto-o eu...

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O DESMAIO DO LUCIANO


NOS 46 ANOS DA MORTE DE DR. ARMANDO CUMBRE, O RECORDAR DE UMA SUA SINGULAR CURA... 

Luciano, pedreiro de profissão em Casa Agrícola da sua amada Chamusca, viveu toda a sua existência para o bom desempenho do seu trabalho, que executava com evidente prazer e prontidão; para a sua Celestina, companheira fiel, amiga e terna com quem uniu o seu destino nos inícios dos anos 40 do século passado e para a bonita Isabel, de seu nome de baptismo, menina de voz doce e delicada que haveria de nascer, fruto dessa união.

Formavam na vida o tradicional e ideal lar, comum na época, em que o marido trabalhava e levava para casa o produto do seu labor; a esposa cuidava do ninho, das roupas e das refeições e, a filha, depois de terminada a escola primária, costurava, bordava e fazia croché, no intuito de ser menina prendada para um seu futuro pretendente.

Luciano levava vida regrada e sem extravagâncias – que na época também não seriam permitidas... – com a dedicação ao trabalho e o apego ao lar. Laborava as normais horas de serviço por conta do senhor seu patrão, ia almoçar a casa, já que os dois locais, dentro da vila, pouco  distavam e, findo o período diário, voltava a montar a velhinha bicicleta Rua Direita fora e terminava desviando para a outra via, que percorria já a pé, apoiado no velocípede, dado que a pequena inclinação da rua e os seixos redondos da velhinha calçada algo dificultavam o seu percurso a pedais.

Pelo caminho, porque Luciano era homem muito comunicativo e sociável, correcto e educado com todo o seu semelhante, quedava-se um pouco em conversinhas amenas com o sapateiro, com o merceeiro, com as senhoras da “palha ripada” e, finalmente, tendo a “Taberna do Zé” como testemunha do seu trajecto, aí entrava uma tarde ou outra; conversava com os seus frequentadores e velhos amigos e, pelo meio, lá ia molhando a palavra e satisfazendo o paladar e o estômago com os pequenos tintinhos que lhe adoçavam a boca e algo o aliviavam das chatas canseiras do dia de trabalho.

Uma vez ou outra bebia um copinho a mais - talvez um pouquinho a mais… - e, chegado ao lar, ou porque vendo-lhe os olhinhos mais pequeninos, ou porque o nosso amigo arredondava demais as conversas ou até mesmo, talvez, expelindo algum odor avinhado, logo a sua atenta e preocupada Celestina o interpelava: 

- Luciano, estiveste a beber! Estiveste na “Taberna do Zé”!…

A que o nosso Luciano contrapunha:

- Olha, tinha o “Manel da Emília” à porta, entrei e estivemos os dois um bocadinho a conversar sobre as nossas vidas. Foi só dois copinhos a cada um…

Luciano repetiria a dose e a situação uma ou outra vez ao longo dos seus dias e sempre a cena em casa se reviveria e sempre a afável companheira, amiga e preocupada, o admoestava com dedicação e... docemente, sempre muito docemente.

Até que um belo fim-de-tarde, ou porque entrou mais um amigo no convívio e, no “agora pago eu, depois pagas tu”, ou porque aconteceu um pouco mais de entusiasmo nas conversas na “Taberna do Zé”, o nosso Luciano enganou-se um pouquinho na contagem “deles” e, quando resolveu avançar para casa, de bicicleta pela mão, a “carga” de um copito mais, repetido uma ou mais vezes, já lhe “ofereciam” um leve ziguezaguear não muito recomendável…

Mas... chegou. Chegou, não "sãozinho" na verdade mas… ainda assim, sozinho e pelo seu pé.

Já era um nadinha tarde para o habitual e as pacientes e ansiosas Celestina e Isabel, sentadas, de mesa posta para a janta que esfriava, viram-no abordar a porta da cozinha e, de mão amparada à ombreira, tirar o boné que lhe protegia a alva carequinha e, a preocupada companheira, vendo-lhe os olhinhos pequeninos e redondinhos, logo exclama:


- Luciano, estiveste a beber! Estiveste na “Taberna do Zé”!… - A mesma exclamação de outras ocasiões mas, desta vez, bem mais enérgica… Docemente, mas um bocadinho mais enérgica...

O nosso amigo, sem dizer palavra dá um passo em frente, entra na cozinha e, quando se apresta para se sentar à mesa, tomba para a direita e… estende-se ao comprido no chão vermelho de tijoleira e logo a aflita Celestina se levanta e grita, assustada:

- Ai Jesus! Ai Jesus! Luciano? Ó Luciano?!

A filha Isabel chama-o, preocupada:

-Pai? Ó meu pai? Meu Deus!…

A mãe Celestina chorosa, ordena-lhe aos gritos:

- Isabel, corre ao telefone e liga ao Dr. Cumbre, que nos acuda! Que salve o pai!…

A rapariga em dois pulos chega à sala de jantar e disca no preto aparelho o número do médico.

Atende do outro lado a criada do clínico e Isabel roga-lhe:

- Chame-me, por favor, o sr. dr.!

Cumbre, jantava… Levanta-se, vai ao telefone e ouve a aflita moça:

- Sr. Dr., sou a Isabel, a filha do Luciano. Sr. Dr. o meu pai está muito mal! Caiu desamparado, está de olhos cerrados e boca fechada e não responde aos nossos chamamentos. Não reage. Venha vê-lo, sr. dr.! Eu e minha mãe estamos aflitas. Por favor!

O médico deixa a refeição a meio, mete-se no automóvel e, em poucos minutos, chega à residência das preocupadas mulheres. 

Isabel, de porta aberta, já o aguardava ansiosa:

- Sr. dr., o meu pai não abre os olhos e não nos responde mas já abre e fecha a boca mas não diz nada, nada.

- Vamos já ver. - responde de pronto o médico, avançando casa adentro na direcção da cozinha.

E, Luciano ali continuava. Inerte, pálido e de olhos cerrados... 

Cumbre baixa-se e leva os joelhos à tijoleira do solo, dobra-se sobre o tórax de Luciano e escuta-lhe as batidas do coração; pega-lhe no pulso e conta as pulsações; queda-se pensativo breves segundos e, levanta-se de rápido indignado, no mesmo instante que vocifera e lamenta:

- Ai este cão que está com uma grande bebedeira e faz-me vir aqui!!!…

Rápido, pousa a maleta, estica os braços, abre bem as mãos e… zás-zás!; prega dois sonoros estalos nas inertes bochechas de Luciano que, de imediato, abre os olhos.

O médico pega na maleta, vira costas e deseja boa noite às mulheres, perante o espanto de Isabel que, seguindo-o na direcção da saída, ainda lhe pergunta:

- E o sr. dr. não receita nada ao meu pai?

- Receito: Amanhã diz-lhe que, já que não sabe beber vinho, que beba água!…

Saiu lesto, entrou no carro e foi concluir o seu jantar que esfriava...


(NOTA – Ainda que, por razões óbvias, os nomes dos intervenientes nesta cena com o Dr. Cumbre sejam fictícios, o episódio narrado é absolutamente verídico.)

domingo, 15 de novembro de 2020

3º ANIVERSÁRIO DOS FURINHOS

Foi no dia 15 de Novembro de 2017, completando-se portanto hoje 3 anos, que a velha carcaça deste escriba sofreu 3 furinhos no abdómen e, através deles, durante mais de 4 horas, os senhores doutores do Curry Cabral intervieram no fígado (lapararoscopia, de seu nome cirúrgico) e trataram da saúde, na verdadeira acepção da palavra, deste rapazinho.
 

Porque era a primeira vez que era submetido a uma cirurgia o doentinho ia ansioso, quiçá apreensivo mas, curiosamente, algo calmo e decidido, até porque não conhecia outra alternativa.

E, afinal e não obstante os 21 dias de internamento (exceptuando os 5 dias e meio de permanência nos Cuidados Intermédios logo após a cirurgia que foram bem chatos), passaram de maneira, sem que fosse agradável porque, cirurgia e internamento num hospital nunca poderá ser isso, mas de forma bem aceitável tendo contribuído para isso o trabalho e a competência dos vários profissionais intervenientes e, vamos lá… a vontade e boa adaptação do padecente rapaz. 

Através dos falados 3 furinhos os sabedores doutores retiraram do fígado o atrevido “brinco” (maligno) ali abusivamente nascido e já crescidinho e, praticamente sem qualquer dor, o ansioso doentinho, passou a ter esperança de dias melhores e bem menos preocupantes.

Não se registaram dores posteriores e nem mesmo antes elas foram sentidas, coisa associada às chamadas “doenças silenciosas”, muitas vezes as mais preocupantes porque de tardio tratamento.

E, a propósito e para terminar o registo desta efeméride, a referência à questão “sem dor” leva este jovem de ontem, que já se lembra de muitas situações de outros tempos, a recuar uns bons anos e recordar o episódio da à época humilde e idosa aldeã sua conterrânea, gente simples do nosso povo, quando descrevia a seu pai uma visita feita ao experiente e sempre extrovertido Dr. Cumbre, médico na sua concelhia Chamusca durante quase meio século, solicitando-lhe remédio que lhe eliminasse a súbita e sofrida dor sentida numa perna:

- Ò sr. Zé, eu disse ao sr. doutor que antes da dor nada me doía e estava tão bem e, sabe o que ele me respondeu?

- Ainda bem, rapariga, que estavas bem e que nada te doía antes! Olha lá: e… se estivesses mal e se te doesse antes, não era pior? Anda lá!… Vai à farmácia comprar essa injecção da receita e, lá no Chouto, o Zé Azevedo que te a dê.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

CHEGA NOVA "LICENÇA", PARTEM VELHAS CATARATAS...

Nas madeiras como nas pessoas temos uma realidade indiscutível e inevitável: o caruncho sempre chega, mais cedo ou mais tarde. É assim e não o conseguimos evitar em definitivo pelo que só nos resta recorrer a remédios e outros preceitos na tentativa de ir adiando para que a data final surja o mais tarde possível. Nas madeiras, como nas pessoas.

É assim, não tem como evitar e não há alternativa e por isso esta velha carcaça não foge à regra.

Tendo começado a frequentar os senhores doutores há 4 anos, desde então não tem parado mais, numa sequência de consultas médicas, receituários, tratamentos e cirurgias em catadupa que mais parece um verdadeiro curso intensivo. Intensivo e… prolongado. Prolongado q.b.

Foram vividos nestes últimos dias mais uns quantos episódios dessa “empreitada” com análises, TAC, cirurgias e preocupações quanto baste e que terminaram ontem – por agora… - com mais um resultado final. 

Assim, fiquei a saber que a “figadeira” não criou mais qualquer “brinquinho” (notícia excelente!), pelo que a renovação da “licença” voltará a fazer-se daqui a 3 meses e, finalmente, ontem “mandei” embora a catarata de olho (direito) - a que faltava -, passando a beneficiar de uma visão que, francamente, não me recordo se alguma vez assim tive.

Encantado com os resultados obtidos não deixo de me lamentar por andar tanto tempo a ver coisas e objectos pessimamente quando tinha à disposição meios tão rápidos e eficazes que me dotariam de uma muito melhor qualidade de vida. Como assim andei tantos anos, é interrogação que faço a mim próprio...

Considero um espanto, um enorme espanto, as melhoras registadas e, dando graças à ciência, mais uma vez saúdo os senhores doutores, os homens e as mulheres que estudam e aprendem a cuidar e a melhorar a saúde dos seus concidadãos, proporcionando-lhes – quantas vezes sem a devida recompensa!… - uma melhor saúde, um melhor bem-estar e, tantas e tantas vezes, salvando-lhes mesmo as suas ameaçadas vidas!

Para a ciência, o milagre em que acredito e para os homens e mulheres que a servem e fazem evoluir todo o meu aplauso, todo o meu imenso apreço!  

domingo, 8 de novembro de 2020

VITÓRIA DA AMÉRICA E DO MUNDO!

 Ainda que a viver dias de alguma ansiedade por via de aguardar amanhã o resultado de mais uma TAC feita à “pecinha das iscas” e, logo no dia seguinte (10), a cirurgia ás cataratas do olho esquerdo, não pude deixar de me manter a pé até às duas da manhã de hoje para poder acompanhar os discursos de vitória nas eleições dos EUA de Joe Biden e da sua vice- presidente Kamala Harris, sobre aquela coisa que dá pelo nome de Donald Trump que, incrivelmente foi eleito há 4 anos tendo-se mantido na Casa Branca nos últimos 4 anos.


Sem me considerar minimamente sabedor da matéria mas sendo um atento observador do que vejo, ouço e leio, tenho como sendo um grande alívio para o mundo a vitória de Biden e a consequente saída de cena daquele incrível Trump inculto, impreparado, racista, xenófobo, ignorante, inconsciente e, sobretudo, sobretudo profundamente mentiroso. Um sujeito, um dirigente da craveira de um presidente dos EUA que consegue dizer num mesmo discurso tudo e o seu contrário sem se rir, num descaramento inimaginável para quem quer que seja que tenha dois dedos de testa, é algo impensável mas perfeitamente normal naquele ser.

Pensar que alguém assim venceu umas eleições para presidente da dita nação mais poderosa do mundo e, durante 4 anos rasgou acordos internacionais de enorme interesse mundial, usou o lugar e o poder para decisões xenofobas, racistas, inimigas do ambiente e do planeta e, finalmente, nos últimos tempos, criminosamente negou a evidência e a ciência para um necessário e imprescindível combate à terrível pandemia que já matou centenas de milhares de seus concidadãos e milhões de seres humanos no planeta, é algo impensável no mundo moderno e civilizado que vivemos nos nossos dias.


Com o sabedor, calmo e ponderado Joe Biden – que teve comportamento exemplar de serenidade, paciência e educação com o seu adversário nesta agressiva peleja – quero acreditar que voltará à América a decência, o respeito pela ciência e pelo ambiente, o não ao racismo e à xenofobia, a verdade e o respeito pela governação da sua nação e a cordialidade e o respeito no relacionamento internacional.

Para sair em “beleza” de cena e de forma a condizer com o seu permanente comportamento do dia a dia enquanto permaneceu na Casa Branca, o sujeito que foi seu inquilino vai ao ponto de não reconhecer a derrota argumentando com falsidades e vigarices na votação, sem que apresente uma prova, um documento que seja e indo ao extremo de declarar-se vencedor das eleições. 

A cereja no topo do bolo de alguém que de democrata nada tem e que, ou me engano muito ou, logo que saia do poder, terá sérias complicações com a justiça americana e mundial.

Se a justiça do mundo não for cega...

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O 76º FOI DE... MÁSCARA...

Não bastavam as imensas convulsões que ao longo dos tempos e continuamente vínhamos tendo pelo mundo que, todavia e não obstante a sua gravidade, muito pouco ou nada incomodavam o comum cidadão da nossa terrinha, que tinha de chegar esta incrível e mortífera pandemia universal do Coronavírus que a todos atinge e a todos preocupa.

Desde Março último que todo o nosso viver se alterou radicalmente para muito pior e até mesmo dramático e, infelizmente, ninguém tem conhecimentos mínimos que sejam que nos possa garantir qual o futuro que vamos ter. E, e tudo parece indicar-nos que “a procissão ainda vai no adro”…

Todo o mundo receia contágios indesejáveis e todo o mundo anda de máscara colocada de Norte a Sul, de Este a Oeste e, por via disso, a comemoração do meu 76º aniversário de vida não poderia fugir à regra.

Se o ano passado foi uma bonita reunião de familiares e amigos num excelente restaurante lisboeta, este ano, forçosamente, foi num isolamento e numa restrição de movimentos importante e necessária.

Reunindo na garagem familiares mais
chegados
, usando todos máscara e com um bolo caseiro, por sinal excelente mas, onde,
por hábito e absoluta desatenção este aniversariante estupidamente soprou as velas (???) (chamado à atenção logo depois...já era tarde…) registamos em fotos para a posteridade - eu com o Rafael para manter a tradição e uma outra do pequeno grupo familiar - o insólito festejo e cada um regressou às suas residências, castrado de afectividade e calor humanos sempre usuais nos anteriores e já saudosos festejos de outros anos, mas resignados e até acalentados porque, apesar de cerceados nas celebrações e nos movimentos, vivemos ainda sem qualquer contágio e inevitável afectação na família.

Este ano, tristemente foi assim, para o ano logo veremos.

Bom, veremos isso se a minha “licença” se mantiver válida porque, se não…

Mas quero acreditar que a validade continuará e, regularmente, com a preciosa ajuda dos meus sabedores doutores, tudo continuarei a diligenciar para a manter. 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

GUERRA COLONIAL - O ISOLAMENTO

Na sequência das toscas crónicas que venho alinhavando neste blogue sobre as experiências e vivências observadas e sentidas na guerra colonial que vivi, resolvo abordar desta vez o tema do isolamento sofrido por muitos militares em tão distantes e inóspitas paragens e que, segundo me parece, tem sido algo secundarizado quando se fala nas consequências psicológicas resultantes da participação na guerra, nomeadamente no tão falado “stress pós-traumático” e, todavia, segundo o meu ponto de vista que é fruto da experiência vivida e sentida, o mesmo talvez seja necessário considerar em dose, se não muito elevada, pelo menos considerável.

Pessoalmente não senti, nem proximamente nem mesmo distante no tempo essas consequências que muitos dos meus antigos camaradas participantes na guerra experimentaram e mesmo hoje ainda sentem nalguns casos demasiado evidentes, mas sei de alguns que, não o sofrendo em dose elevada, mesmo assim todos os dias, ainda agora, passados tantos anos, têm de falar na guerra e nos diversos episódios vividos e sentidos. Inadvertidamente, as suas conversas sempre resvalam para uma ou outra situação vivida na sua comissão de serviço...

Não sofri, nem felizmente sofro dessas perturbações mas recordo-me de um susto que senti dias após o regresso à minha aldeia quando, sentado à lareira, que tinha em aquecimento uma panela de ferro com água, a minha mãe destapando-a e os pingos da tampa caindo nas cinzas do borralho provocando o inevitável som “puf!, puf!” eu, que estava meio absorvido em qualquer pensamento, escutando os ditos cujos como “tau!, tau!” e, “ouvindo” o som de uma arma automática a disparar, dei um salto no banco onde me sentava. À interrogação/surpresa de minha mãe: “O que foi?...”, respondi-lhe de imediato, desvalorizando: “Nada! Nada!”.

E, também bem me lembro quando, mesmo depois de regressar e durante muitos e muitos meses, todas as noites – todas a noites! - sonhava com a guerra… Anos, diariamente, a ter sonhos relacionados com aqueles maus dias vividos, até que, sem que me apercebesse, assim tivesse deixasse de sonhar. Um dia, um belo dia, lembrei-me que tinham terminado esses sonhos de guerra... Porquê, não sei mas... talvez porque, como diz o nosso povo: “o tempo tudo cura”…

Todavia, o nosso isolamento naquelas terras “no cú de Judas”, vizinhas das denominadas “Terras do Fim do Mundo”, junto à fronteira com a Zâmbia – na ida demoramos uma semana inteira a fazer a deslocação de Luanda até ao destino! -, foi mesmo mais sentido nesse primeiro ano que ali permanecemos do que no tempo restante, já que, na segunda metade da comissão, instalados a cerca de uma centena de kms da capital angolana, com estadia em várias fazendas (de cana de açúcar, de bananas, de palmares, etc) e viagens frequentes a Luanda, o isolamento foi muito menos experimentado.

Mas, no Leste, durante 14 meses, esse grande isolamento aconteceu mesmo e todos o tentamos evitar usando as mais diversas distracções como desporto, música, leituras, escrita, etc.. Nada dado a música, (de ouvido que nem calhau…) pratiquei algum desporto (futebol e voleibol) e, sobretudo, para além da leitura (familiares e amigos enviavam-me alguns jornais e revistas), a escrita para muitos saudosos correspondentes na então chamada Metrópole, ocupava-me bastante tempo. Eram tantos os correspondentes que criei uma lista (cuja imagem aí deixo, onde falta a referência ao meu pai por me escrever amiudadas vezes), prática, eficiente e fácil, com uns símbolos que colocava à frente do respectivo nome e, assim, numa rápida observação, via se lhe devia carta ou aerograma (fica também a imagem deste famoso meio de comunicação escrita) ou se aguardava resposta do respectivo amigo… (Na época tirei a foto que aí deixo com a chegada de uma pequena aeronave que regularmente nos levava os sacos do correio naquelas distantes paragens.)

Ah, ainda sobre a lista adoptada com o rol dos correspondentes, devo referir que para as namoradas – que também me ocuparam algum tempo (perdido – infelizmente!… -  nos primeiros meses mas… isso são contas de outro rosário...), como é óbvio essas anotações não eram necessárias…

Mas – há sempre um “mas”… -. se é verdade que o isolamento a que fui sujeito não me provocou perturbações de maior, outro tanto não posso dizer de uma outra faceta experimentada com esse afastamento da civilização… Refiro-me à saudade imensa que, ao longo dos meses fui sentindo, de ver, de ver uma mulher… branca... Aconteceu de facto e, sem que isso tenha minimamente que ver com qualquer espécie de racismo, xenofobia, ou algo semelhante, num sentimento que não experimento na minha maneira de encarar o mundo que me rodeia, francamente. Mas que também não sei bem explicar, também confesso. Mas, racismo, não! Francamente. 

A falta registada por estar durante tanto tempo sem olhar as feições, o físico, a beleza, o riso de uma mulher branca, mexeu com a minha “caixinha dos pirolitos”, de verdade.

Em Lumbala, só me recordo de, branca, ver uma ou duas vezes, porque poucas vezes saía de casa, a esposa, baixinha e magrinha, do Chefe de Posto local e, no Chilombo. de mulher branca, só tinha a companheira do pequeno comerciante local que, certamente existia, mas de quem nem já me recordo…

Rapaz novo, saudável, ágil, de sangue na guelra – tinha na época 23 anos! - “artista” que sempre apreciou sobremaneira o sexo oposto, admirou e alimentou o olhar e o espírito com a beleza ímpar e gostosa das beldades desse seu tempo, passar meses e meses sem ver uma “branca”, foi por demais complicado.

Tão complicado que, quando, 10 meses passados no mato, este rapaz vai de férias a Luanda e, na sua primeira paragem o voo do “Noratlas” aterra no Luso, a 1º cidade da rota e o nosso jovem percorre a pé uma das suas ruas, vislumbra pela sua ampla montra, dentro de uma livraria, uma jovem moça branca – branquinha! Linda!- que, nas suas estantes arrumava uns livros ou coisa no género, o sôfrego e “castrado” moço pousa os cotovelos no varão que no exterior protege o grande vidro da montra, fica especado de “lanternas” fixas nas curvas da jovem moça, na face bonita, nos  cuidados e bonitos cabelos loiros e, ficando assim abstrato de tudo, de tudo e de todos à sua volta, deliciando-se com a "paisagem", só alguns bons e largos momentos passados “acorda” dessa sua “hipnose”, interrogando-se meio “zonzo” do "totiço": “É pá! Que se passa contigo, Victor?”…

Eh..., aconteceu mesmo assim, numa estranha situação que ainda hoje, tantos anos passados, está bem viva na minha memória. 

Danada de guerra!... 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

VINTE ANOS PASSADOS, OUTRAS CATARATAS...


Pois é… depois de há 20 anos – completam-se mais exactamente no próximo domingo, 18 – ter visitado com prazer e algum espanto as Cataratas Submersas no Rio Nilo, de que deixo aí foto ao lado, eis que, ontem, sou confrontado com as consequências de umas outras, bem mais inconvenientes e chatas, porque nas minhas duas “lanternas” faciais…

Há já mais de um ano que os médicos haviam alertado para inevitabilidade da sua remoção mas, a velha “istória” do “deixa andar”, do “pode ser que não seja bem assim”, fez com que a intervenção se tornasse inevitável face à muita deterioração da visão e, ontem, a operação aconteceu mesmo no Hospital da Luz (Oeiras). 

Entre os preparativos e a cirurgia, que me parece já corriqueira e algo fácil para os especialistas – os que, como sempre digo, merecem na realidade ser considerados de “doutores”, porque nos cuidam e curam das maleitas e tantas vezes nos salvam as vidas! - e demorou coisa e uma horita.

Para além da remoção da catarata foi-me implantada um lente intraocular, idêntica à da imagem ao lado e as dores da cirurgia foram nulas, ou quase.

E a verdade é que, chegado a casa e retirado o penso que me tornava um sósia de Camões, fiquei verdadeiramente pasmado com o resultado obtido: via espantosamente bem do olho esquerdo operado! Tudo claríssimo, tudo incrivelmente branco e os objectos de formas definidas como, francamente, nunca me lembro de ter visto.

Fiquei parvo com os resultados obtidos e não imaginava que o mundo fosse assim, de formas tão definidas, coloridas e fantásticamente luminoso. Lindo! Lindo!

Mas há um senão… Um senão e nada pequeno: prevejo que vou ter séria confusão na minha “caixinha dos pirolitos” durante o período que mediará esta cirurgia e a próxima ao outro olho  daqui a um mês. Vou andar com a cabeça à roda. Vou, vou...

Verdade que a jovem médica (Mafalda Mota), por sinal bem simpática e comunicativa, já me tinha prevenido que isso aconteceria mas, uma coisa é sabermos e, outra, bem mais desagradável, é sentirmos.

Será um mês bem complicado para o meu “computador craniano”, tanto mais que a minha falta de visão já obrigava ao uso de lentes de graduação elevada e, assim, o problema certamente sentir-se-á em dose maior, mas terei de me adaptar e, tentando contornar a situação o melhor que possa, atingir a desejada data da nova operação – então ao olho direito – com os mínimos inconvenientes que me for possível.

Mas a coisa não vai ser muito fácil e agradável…

Não, não...

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

AGORA NO ALENTEJO, NOVO ENCONTRO DOS VELHOTES...


Na verdade, quando em 2013, no encontro com os velhos amigos de infância, Tó e Zé Manel, ouvi este último falar de um herdade da família no Alentejo eu logo “lancei a escada” para que ele me conseguisse uma pescaria aos achigãs nas represas que eventualmente a propriedade tivesse  e tinha natural esperança que tal fosse possível, ficando à espera que o velho amigo me abordasse para a sua concretização.

Os anos foram passando, ia-me lembrando da situação mas, por uma questão de educação, jamais questionaria o Zé Manel porque não queria que me considerasse atrevido, se não mesmo descarado. 

Não fui nem o sou de todo e, assim, foi com redobrado prazer que dias atrás recebi do meu amigo a abordagem e o contacto esperado para avançarmos para a falada pescaria a que acrescentava também o almoço nas instalações da propriedade. Esta última proposta é que me deixou algo “sem jeito” porque, quando pedi a realização da pescaria, jamais queria incomodar quem quer que fosse e muito menos com a oferta da refeição. Tentei demover o Zé dessa intenção mas não consegui, tanto mais porque já havia decidido isso com a esposa. Foi acertada a data e o nosso desejado encontro e pescaria aconteceu hoje na herdade situada ali juntinho a Vendas Novas.

Foi também, claro, o Tó, velho companheiro de aventuras infantis que se fez acompanhar da esposa Ercília e, assim, à mesa do almoço com a Drª Graça, esposa do Zé Manel, ficou o ambiente bem mais leve, agradável e, evidente, bem mais bonito.

Saí de casa pelas 6,30 horas, ainda o dia estava a nascer e, passando pelo Carregado para tomada do meu cunhado Gilberto, que fez-me companhia, avançamos estrada fora na direcção do Alentejo.

Lá chegados, junto ao portão da herdade aguardava-nos pelas 8 horas o diligente amigo Zé Manel e, feitos os naturais cumprimentos – agora ligeiros, por causa do “bicho”…  - iniciamos a pescaria em 2 das 3 represas e, aí, nos seus desejados e esperados bons resultados que ansiávamos, é que a coisa falhou… Os achigãs não marcaram presença, os danados...

A excepção deu-se comigo que consegui a ferragem de um pequeno rapazinho, coisita aí com menos de ¼ de kg mas que, confesso, me surpreendeu pelo aspecto branco/acinzentado que logo relacionei com o fundo arenoso da represa. Muito branquinho o amigo achigã. Uma represa bem bonita, ainda com bastante água, em vista parcial a imagem que aí deixo.
 
Os restantes companheiros pescadores, Gilberto e Tó – aprendizes os rapazes… ihih – carregaram a “grade” para casa. Mas um deles ainda fez questão de, atrevidamente se fazer fotografar com o troféu, coisa que o grande pescador, que nem eu, minimamente se importou... Como é bem evidente, têm de aprender muito com o craque… ihih

Seguiu-se o almocinho e o convívio, em que recordamos mais um pouco da nossa infância no Bairro do Restelo (onde não faltou a lembrança do triste episódio quando, crianças de 12/13 anos, de calções e meinhas brancas, eu e o Tó fomos detidos na esquadra de Pedrouços, tidos como malfeitores, ladrões de carros, situação que conto aí no blogue noutra crónica e, entre outras recordações, lembramos também a velha, pequena, corcunda e sempre muito irada avó deles dois, a sua incrível tosse e as guerras por demais assanhadas que mantinha a toda a hora com a filha Ricardina, minha madrinha).

O nosso anfitrião ainda teve a amabilidade de nos oferecer mais uma viagem pela herdade e ainda pescamos – ou fizemos por isso, porque nada “deu” de interesse piscatório… - numa 3ª grande e bonita represa e regressamos ao cair da tarde a nossas casas.

É verdade que a pescaria foi fraquíssima, se não mesmo quase nula, mas ficou a bonita e gostosa jornada de convívio e confraternização de amigos, velhos e sinceros, num ambiente saudável e gratificante.

E, sobre os achigãs, paciência… Ficarão a crescer para premiar quem os ferre numa próxima…

NOTA – Para memória futura ficam as imagens dos 3 velhotes; de uma das represas e ainda do craque mais velho, concentrado na sua pesquinha.

domingo, 20 de setembro de 2020

AINDA A CARRINHA DA GULBENKIAN

Nas minhas já habituais e regulares incursões nas velharias de outros tempos que ao longo da vida fui preservando e que, agora, vou revisitando e finalmente agrupando e arquivando convenientemente e com algum método, coisa que nos tempos passados não fiz, estando ainda uma boa parte “a monte” e guardada sem qualquer critério ou organização, a que as sucessivas mudanças de casa mais baralharam e prejudicaram, encontrei agora uma interessante carta, de 1965, que aqui incluo com  gosto num seu pequeno trecho e que, revendo-a, deveras mereceu o meu apreço por a ter guardado.


É redigida pelo velho e saudoso amigo Zé do Areal (Custódio Marques Montargil, de seu nome de baptismo) que adoptou esse pseudónimo nas muitas crónicas que ao longo dos anos escreveu sobre a sua Chamusca em particular e o Ribatejo em geral para diversos jornais e, sobretudo, para a então “Vida Ribatejana”, de Vila Franca de Xira, amigo com quem, para além de contactos pessoais em Lisboa onde residia, também troquei vária correspondência ao longo dos anos, sendo que nesta carta aborda aquele saudoso amigo o caso da Biblioteca Itinerante, da Fundação Calouste Gulbenkian, que noutros tempos consegui que servisse o meu Chouto natal. 

Titulada “A carrinha da Gulbenkian”, já aqui escrevi uma crónica sobre o assunto, tendo-lhe anexado apenas o recorte do jornal da época onde inicialmente sugeria a visita da Biblioteca Itinerante ao Chouto e também o meu cartão de leitor mas onde faltava algo escrito que testemunhasse a minha diligência na deslocação da carrinha há minha terra, documento ou documentos que, face à “barafunda” que ainda tenho nas minhas velharias não consegui encontrar na ocasião da redacção da crónica, o que me fez confusão porque, recordo-me, naquela recuada data troquei sobre o caso alguma correspondência com a Gulbenkian no intuito de reforçar directamente o meu pedido uma vez que, provavelmente, o jornal não teria chegado à Fundação…

Nesta correspondência de Zé do Areal agora encontrada ele felicita-me pelo êxito da minha iniciativa, acrescentando mais umas palavras sobre o interesse da leitura e da instrução nas pessoas e do proveito que daí poderia advir para o povo choutense.

Escreve então Zé do Areal: 

"Meu amigo. Recebi a sua carta que li com atenção. É evidente que, quanto à sua acção em prol da ida da B.I. (Biblioteca Itinerante) ao Chouto só me regozijo com o seu triunfo e faço sinceros votos para que os choutenses se apercebam que a maior fortuna que se pode possuir é a Instrução e através dela a educação. Isto sim valoriza e impõe o homem que se esforce e se disponha a ir tão longe quanto possível. Todo aquele que só disponha de fortuna monetária está sujeito, perdida ela, a sofrimentos insuportáveis. Portanto parabéns pelo êxito obtido."

Sábias palavras que agora releio com agrado e que aqui deixo como pequeno mas gratificante testemunho de uma face do laborioso trabalho que ao longo da vida venho executando sem o mínimo interesse material e com o único objectivo de ajudar o meu semelhante e assim também servir as gentes e a terra que me foi berço.

Um sermão que, conforme costumo dizer ninguém me encomendou mas que me dá satisfação e prazer e, porque nasci assim, assim continuo e… provavelmente assim desaparecerei.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

PROVEITO DE FÉRIAS

Inevitável e desde sempre, quando parto para férias faço-me acompanhar de alguns livros para leitura nos momentos de ócio e, assim, televisão e notícias de tragédias, escândalos e tricas políticas ficam para preocupação muito secundária e, antes, prefiro ocupar o tempo com a leitura de um artigo ou outro de jornal ou revista e, sobretudo, o embrenhar-me no conteúdo de um bom livro, seja de romance, história ou análises sociais do mundo que nos rodeia.

Foi o que também fiz este ano e li num total para aí umas 1700 páginas dos livros que


escolhi.

Assim, reli mais uma vez Miguel Torga que incluiu um volume com os seus 8 primeiros Diários e ainda os 13º e 14º e li também a obra “Cinco homens que abalaram a Europa” da autoria do politólogo Jaime Nogueira Pinto, livro que tinha adquirido meses atrás e aguardava ocasião calma e despreocupada para o ler.

De Torga já aqui tenho confessado a minha preferência se não paixão pela sua leitura porque, para além de a sentir autêntica e genuína e embora reconheça que é bastante lúgubre e algo tristonha, o nosso transmontano escreve muitíssimo bem e muito se ganha com a sua leitura. Eu sou inveterado apreciador e admirador de Miguel Torga e adoro lê-lo.

Quanto a Jaime Nogueira Pinto foi a 1ª vez que o li e gostei. Esta obra, que nos fala de Estaline, Mussoline, Hitler, Salazar e Franco desde os seus nascimentos até às suas mortes, dá-nos conta das suas origens e das suas sanguinárias, se não loucas, vidas políticas.

O autor é um assumido homem de direita (evita por exemplo chamar de fascista ao regime de Salazar) e, isso, para além de já o sabermos de seus habituais debates políticos e artigos em jornais e revistas, é evidente nesta obra mas é sem dúvida um homem de vastíssimos conhecimentos da história política nacional e mundial de que este livro é um excelente testemunho com detalhadas narrações de encontros, reuniões e decisões políticas dos actores políticos naqueles agitados anos da nossa Europa, onde o autor nos fornece muitos e impressionantes detalhes, sinónimo de que se serviu dos seus vastos conhecimentos e muita documentação consultada para assim se expressar.

Foi portanto este o meu proveito literário destas férias, que duraram dois meses e dou o tempo por bem empregue. 

Descansei a cabeça e distraí-me. Foi bom!