quarta-feira, 8 de abril de 2020

COVID-19 - III GUERRA MUNDIAL... SEM BALAS


Inimaginável!… Absolutamente inimaginável por tudo e por todos a triste e preocupante situação que alastra por todo o globo terrestre com este perigoso e mortífero vírus com a denominação original de CORONAVÍRUS de que resulta a doença COVID-19 e que nos força a um total isolamento em casa para evitar eventuais contágios, tanto mais que o danado é de desconhecimento total das autoridades sanitárias de todo o Mundo.

Surgido na China em Dezembro, depressa galgou fronteiras e, escassos dias passados, já fazia vitimas pela Europa fora num ritmo e numa velocidade absolutamente alarmante.

E, eu, que era para estar por mais que preocupado com a situação do meu fígado, já que a Ressonância Magnética confirmou e até alargou a certeza de que novo e danado “apêndice” para aqui nasceu, vejo-me pensativo – muito pensativo! - sobre isso mas, por estranho que pareça e na impossibilidade material de na hora me socorrer pela imensa barafunda e aflição que vai por tudo quanto é hospital, não deixo em 1º plano de me sentir igualmente preocupadíssimo com esta terrível pandemia que alastra cada vez mais e cada vez mais mortes cria por todo o lado.

Uma verdadeira e autêntica Guerra Mundial, desta vez sem balas e que tantos e tantos milhares de indefesas vítimas provoca!...

Confinados entre as 4 paredes de nossas casas há já mais de 1 mês, só vimos a falamos com os nossos familiares e amigos através do telefone e das vídeo-chamadas e, se bem que os números de mortos e infectados no nosso país nos últimos dias pareçam começar a estar estabilizados, ainda é cedo, muito cedo, para aliviar as medidas de isolamento e confinamento impostas pelo nossos governantes que têm, segundo me parece, sido muito conscientes e ponderados nas decisões difíceis que neste complicado tempo vêm impondo.

A decisão de decretar o Estado de Emergência, com as obrigações e deveres que daí advêm para todos, foram importantes e muito acertadas e penso que esta actual estabilização dos números resultará dessas mesmas opções que, a pecarem em algo, só se forem por tardias em 2 ou 3 dias. Mas, convenhamos, é muito difícil, complicado e tremendamente responsável, ser Presidente da República e Governo numa altura destas… Não lhes invejo o lugar que ocupam… Muito difícil numa hora destas!

E, agora, resta-nos manter o isolamento, aguardar que tudo alivie e que, tão breve quanto possível, a ciência e os homens breve, breve descubram e criem a vacina que alivie e salve a humanidade. O que vai por aí, com elevadíssimo e triste destaque para a Itália e também para Espanha, aqui mesmo ao lado, é por demais alarmante e dramático!

Que a ciência, a inteligência e a sabedoria humana avancem, acudam e salvem tantos e tantos milhares de seres humanos nesta hora inevitavelmente “condenados”!

sábado, 14 de março de 2020

PARTIU ONTEM UM QUERIDO E DEDICADO AMIGO!


Para além de familiares directos, criados, crescidos e vividos diariamente no velho Chouto de outrora, éramos sobretudo, sobretudo grandes e dedicados amigos de todo o sempre.

O primo, o amigo, o rapaz e o homem educado, cortês, que em toda a sua vida de 85 anos sempre usou de uma palavra de delicadeza e imensa cortesia para todos, partiu...


Fica-me uma dor profunda, um imenso vazio...

Sinto já uma enorme saudade da sua figura única; da inesquecível convivência com um primo que nem irmão; deste enorme amigo que tanto estimava, numa estima que sempre senti ser recíproca, amiga e dedicada!

Jamais poderemos compartilhar estes inesquecíveis momentos registados em 1971 e 2012 e o nosso último e derradeiro encontro, de escassos dias atrás (11/1), instante que tanto gostei de o ver conversador, com boa recuperação e disposição.

Zeca, o meu primo Zeca, será sempre uma grande e profunda saudade!

(Um forte e amigo abraço de toda a solidariedade para a Marolina, para o Valdemar e para o Orlando, bem como suas esposas e filhos.)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O CARNAVAL, MESTRE ARLINDO E A "PEDRA DE AFIAR AS AGULHAS"...


No Carnaval inevitável se torna a este escriba lembrar-se do saudoso vizinho e amigo Mestre Arlindo Texugo, tempos recuados alfaiate de profissão no Chouto, sua aldeia natal, onde chegou, vindo da freguesia vizinha de Vale de Cavalos (Chamusca) por volta do ano de 1940 e já aqui lembrado em anterior crónica. 

Homem bom, sempre bem disposto, afável e amigo de tudo e de todos, não obstante a vida dolorosa de muitos achaques físicos e que, na verdade, foi bem difícil se não  mesmo madrasta, o sr. Arlindo, como era tratado na época, vivia em permanente bom humor e, chegado o Carnaval, era inevitável que teria de arranjar forma de, sozinho ou acompanhado, viver a quadra com alegria, proporcionando aos que o cercavam momentos hilariantes e saudáveis de humor e alegria.

Uma situação criada por Mestre Arlindo, aí por  volta dos anos 60 do século passado, teria então o nosso amigo os seus 50 anos e que ficou na memória do autor destas linhas, foi vivida pelo Arlindo e pelo igualmente seu colega de profissão e ex-aprendiz Acácio Varela e então já estabelecido, também ele pessoa bem humorada, extremamente educada e amiga do seu amigo e que fazia com Arlindo uma parceria belíssima em cenas de “partidinhas” de Carnaval e alegria.

E, naquele já distante ano da década de 60, de que brincadeira se haveria de lembrar a nossa parelha de bons malandros?

Sem que se conheça a autoria do criativo brincalhão, foi construido em madeira um carrinho de bebé onde Arlindo, porque de físico mais reduzido que Acácio se meteu vestidinho  a rigor como se criancinha fosse, onde nem a toca, de muitos folhos faltava e que, de chucha na boca, “chorava” que nem bebé contrariado e travesso. Conduzia e empurrava o carrinho Acácio, “criada”, igualmente trajando a rigor, de saia, avental, salto alto e onde também não era esquecida a toca de ama de companhia.

A “criada” convidava as pessoas a abeirassem-se e conhecerem a pequena criancinha e sugeria mesmo ao curioso ou curiosa visitante que levantasse a roupinha que cobria o bebé para testemunhar, vendo a pilinha, como era menino…

Curioso, o  incauto levantava o cobertor e, aí, a chorosa criança tinha entre as pernas uma bisnaga de borracha com água que, apertada, esguichava e encharcava a cara do curioso intruso.

Era a inevitável risada!... A inevitável risada e o ficar na memória de divertimento são e cavalheiro dos nossos brincalhões Arlindo e Acácio.

Mas as “travessuras” carnavalescas de Mestre Arlindo não se ficavam por aqui não e, ficou para sempre na lembrança deste escriba, uma outra em que ele procurava usar a ingenuidade das incautas crianças que todos os dias brincavam em grande algazarra, alegres e felizes, no largo fronteiro à sua casa/alfaiataria para criar uma situação assaz hilariante e inofensiva…

Mestre Arlindo, debaixo dos ralhos e reprimendas da sua boa e saudosa Rosa, de voz doce e amiga, companheira de toda a vida, embrulhava cuidadosamente um pesado tijolo em rijo papel e, chegando à porta, olhava a criançada na rua e, de boa lembrança deste escriba, chamou numa das ocasiões o pequeno loirito e inocente filho da então Regente Escolar, recém chegada à aldeia:
- Franklin? Oh Franklin, fazes um favor ao sr. Arlindo?
- Sim! - respondia de imediato o incauto miúdo.
- Levas esta encomenda ao sr. “Joaquim Alfaiate”, que precisa dela? É a pedra de afiar as agulhas.

Inocente e bem mandada a criança içava o pesado embrulho até cima e, suportando nos frágeis ombritos a incomoda encomenda, aí seguia lesta e obediente até à alfaiataria de Joaquim, distante da de Arlindo aí coisa de 200 metros, noutra rua da aldeia.

É então que, chegado a “Joaquim Alfaiate”, certamente cansadito e farto de carregar o embrulho aos ombros, ouvia deste:
- Oh Franklin, leva por favor de novo ao sr. Arlindo a pedra de afiar as agulhas porque eu afinal já afiei as minhas.

E lá voltava a inocente criancinha até à alfaiataria do Sr. Arlindo devolvendo-lhe a “encomenda” perante o riso contido do malandreco Arlindo, debaixo da condenação da doce Rosa...

Coisas… Coisas inofensivas, de humor eventualmente fácil mas talvez inteligente e benéfico, que ajudou a criar e formar a juventude de outros tempos...

Sem maldades.

Sem astúcia e artimanhas.

O “mundo” que nos criou.

O Mundo de então…

NOTA – Acompanham estas linhas uma foto de Mestre Arlindo, talvez do ano de 1943 (a única que o autor possui em arquivo) e uma outra (de 1993) de Dª Rosa, a fiel e doce companheira de sempre do saudoso brincalhão, vizinho e amigo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

NOVA "RECAUCHUTAGEM"? PARECE...


De ânimo um pouco por baixo…

Ultimamente estava a fazer TACs à figadeira cada 6 meses e, sempre que as fazia e desde a 1ª, então feita 90 dias após a cirurgia, sempre aguardava o resultado com alguma ansiedade, sempre com receio que novo “apêndice” tivesse surgido na pecinha das iscas e, felizmente, ao longo de 2 anos, sempre as notícias foram boas mas, subitamente, hoje, tudo se alterou...

Os senhores doutores encontram ali algo que querem esclarecer melhor, que lhes parece novo “apêndice” mas que querem ver com mais detalhe e certeza…

Uma Ressonância Magnética irá ser realizada e depois algo me dirão de concreto.

Vou, pois, aguardar mais uns dias. Aguardar com a ansiedade que se imagina…

Talvez seja necessária nova “recauchutagem” a esta coisa...

Uma gaita!...

Chateia, né?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

VELHOS NACOS DO MEU CHOUTO ANTIGO (4)


 A PROCISSÃO DE 1969

Volto hoje ao que venho designando de “nacos”, relativos a pequenos trechos de velhas correspondências endereçadas pelo meu falecido pai quando cumpria a guerra de Angola, período em que me escrevia com muita frequência, dando-me conta das diversas ocorrências no meu Chouto natal, sendo que muitas vezes com todos os detalhes e pormenores de que então gostava e que agora acho verdadeiramente deliciosos.

Os nascimentos e as mortes, os casamentos, baptizados, os namoricos que iam surgindo e até os “saltos de cancela” de um ou outra e seus envolvimentos, as festas, os acidentes e também a sua labuta diária não só para dela retirar proveitos (criar bandos de frangos, porcos, vitelas e até chinchilas) como também ainda fazia questão de muito construir e embelezar para que, quando o filho chegasse, encontrasse tudo mais bonito e mais alegre. Dizia então, escrevendo por vezes mais de uma vez por semana, que queria estar sempre a trabalhar porque assim lhe parecia que o tempo da minha ausência de 2 anos na guerra lhe parecia correr mais depressa…


No “naco” que hoje aqui trago e que data de 19 de Maio de 1969, José Azevedo narra a realização de uma procissão na aldeia com um detalhe bem curioso onde conta como o cortejo atravessou uma ribeira sem ponte e onde também não falta a referência aos nomes dos crentes que transportaram o andor. Muito interessante, para o meu gosto, que adoro estas coisas!…

Pensando que pode haver alguma dificuldade na leitura da escrita deixo a sua “tradução”, com a promessa que logo que veja motivo voltarei aqui com mais patuscos “nacos”.


“Fez-se ontem às 10 da noite uma procissão com a imagem de Nossa Senhora. Deu-se a volta que sempre se deu noutros tempos: rua da escola até ao alcatrão, depois voltou-se para a nossa rua, à porta do Daniel meteu-se no alcatrão direito ao ribeiro, depois rua do chafariz até à igreja novamente. Correu bem, muita gente e tudo sossegado, o pior foi o vento que nunca deixou acender as velas. Tudo às escuras. Lá no ribeiro a ponte está toda partida mas o padre Zé foi lá um bocado antes, acarretou tijolo de obras que andam lá perto, pôs dentro do ribeiro uns em cima dos outros, como era tijolo furado a água passava pelos buracos e a procissão passou por cima, depois foi ainda com os rapazes tirar o tijolo e pôr onde o tinha ido buscar. Uma vergonha para a Junta de Freguesia. Depois fez pregação que gostei de ouvir. Transportou o andor: João da Cruz, Vasco, Nelson e Manuel João Sebastião.”

domingo, 19 de janeiro de 2020

UMA VELHA FOTO E UM DETALHE...


Chegou há dias ao meu Grupo da net CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE uma velha fotografia que aqui deixo e que nos mostra os rapazes da minha freguesia aquando da sua Inspecção Militar – as “sortes”, como então se dizia – em Julho de 1961.

Olho para ela, reconheço um ou outro velho amigo de juventude, sendo que uns quantos já não pertencem ao número dos vivos e reparo num detalhe, num pequeno detalhe que para muitos talvez passe despercebido mas que, todavia, a mim, parece-me curioso se não mesmo importante, dado que por ele poderemos entender melhor os tempos político/sociais que vivíamos naquela época.

Estávamos politicamente em pleno chamado Estado Novo sob o comando de Salazar que, governando o país com pulso de ferro, tudo controlava e dirigia, impondo nomeadamente uma apertada censura aos meios de comunicação social e, controlando ideologicamente tudo sob a batuta de António Ferro, seu homem de confiança, orientava a comunicação no sentido da ideologia salazarista.

Mas, subitamente - ou talvez não… -, em 1961 desencadeia-se a guerra em Angola, tudo começa a mudar e o chamado Império Português vê iniciar-se o seu desmoronamento.

Era a revolta, era a cobiça de outras nações mais poderosas, era a guerrilha e todos sabemos que não há na história dos povos uma guerrilha que tenha perdido uma guerra...

Salazar sabia isso. Salazar sentia isso mesmo e tentou mobilizar e doutrinar os portugueses para a situação na esperança de assim conseguir um apoio popular que lhe permitisse controlar e aguentar a guerra na retaguarda no maior espaço de tempo possível com as suas inevitáveis consequências sócio/económicas.

Como primeira medida decretou Luto Nacional durante vários dias e proibiu festas e bailes de Carnaval em Fevereiro de 62 e bem me recordo de na minha freguesia todos os bailes serem cancelados.

E, como o Luto era Nacional e o povo assim o entendia e cumpria a rigor, veja-se como nesta foto os mancebos, no dia da sua Inspecção Militar, vestidos a rigor, como era então usual, todos apresentavam, em sinal de respeito, “fumos” pretos nas bandas dos seus casacos em sinal de luto.

Era assim na época.

Foi assim durante décadas.

NOTA FINAL – A referência aos “fumos” e à sua razão de ser é feita por dedução pessoal, baseada no conhecimento da realidade então vivida e sentida e, por isso, susceptível de erro de interpretação..

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

NATAL DE RECORDAÇÕES E EMOÇÕES


Quase igual a tantos outros já vividos ultimamente o nosso Natal deste ano, com as tradicionais Rabanadas, Sonhos, Mousses e bolos e doces diversos e, naturalmente, com o tradicional Bacalhau com Couves, na Consoada e o sempre indispensável Cabrito Assado no almoço do dia, cabrito que, a exemplo dos outros anos, fui buscar propositadamente a Vouzela, na nossa Beira Alta e, no jantar de hoje a inevitável Açorda, com o pão, as couves e o bacalhau restantes de ontem. 

E digo quase igual porque, desta vez, exactamente na manhã de hoje, o meu compadre Lenine resolveu pregar-nos uma partida  - ou melhor, o seu coração é que pregou a partida... A "máquina" ficou acelerada durante a noite e patrão Lenine teve de recorrer ao hospital onde esteve toda a manhã em exames mas felizmente logo teve alta e connosco saboreou o cabrito e as outras iguarias do almoço de Natal. O problema talvez tenha sido esporádico mas o amigo Lenine vai ficar atento e não vai descurar a situação.

Sobre então a forma como decorreu o nosso Natal e excluindo este preocupante percalço da saúde de compadre Lenine, tudo o  resto desenvolveu-se conforme o habitual. Houve a usual troca de prendas como é tradição mas, desde há uns tempos a esta parte, bem mais reduzida por via da pequenada ser cada vez mais escassa nestas nossas festas. Agora, no meu agregado familiar resume-se ao Rafael, com os seus 13 anos que, desta vez, entre outras lembranças, foi premiado com um agora indispensável computador portátil, coisa que o encantou, como é bom de imaginar. Mas também os menos jovens foram premiados e os dois casais de compadres, pais e avós, viram ser-lhes oferecido bilhetes para o belíssimo Cirque du Soleil, oferta que muito apreciaram, como se adivinha.

Mas, no tocante às sempre inevitáveis conversas nestas ocasiões, este ano houve a particularidade, aproveitada pelos avozinhos, para recordarem como em tempos  passados tinham presentes de Natal – ou não tinham… , como passavam os seus dias e a sua infância e juventude nas respectivas aldeias, com seus usos e costumes, que brinquedos usavam e como se divertiam ao longo dos dias. Bem interessantes diálogos foram travados porque, sendo os meus compadres naturais e tendo crescido na Beira Alta e eu no Ribatejo, já bem a Sul e quase Alentejo, tínhamos todavia vivências quase idênticas, embora aqui ou ali com alguns hábitos diferentes. 

Hoje e porque se completam 52 anos sobre o dia do meu “baptismo de fogo” na guerra de Angola, que me obrigaram a fazer, recordei os difíceis momentos passados e como deles tive o saber, mas sobretudo a sorte, de escapar com vida e hoje estar vivo para contar. 

Mas lembrei também o muito triste falecimento do meu saudoso pai, com a sua morte a 24, a noite de Natal a velar-lhe o corpo e a sepultura a 25, Dia de Natal de 1978. Coisa muito triste e ainda hoje difícil de lembrar. 

Resta referir que fica aí um registo fotográfico da nossa mesa na Consoada e... pronto, passou-se assim mais uma quadra natalícia, sendo que desejo e quero crer que outras se seguirão!

Se para isso ainda houver “licença”...

domingo, 15 de dezembro de 2019

A MINHA TERRA, SEMPRE A MINHA TERRA...


É isto: sou assim!… 

Sou assim mesmo, apaixonado pelo meu berço natal, acho que já faz parte do meu ADN e não há mais volta a dar.

Nasci assim ou, no mínimo, sou assim desde que atingi a idade da razão, aí pelos meus 14/15 anos e pelos vistos assim viverei até ao fim dos meus dias.

Comecei a fazer “garatujas” numas cartas que dirigia para a então “Vida Ribatejana”, jornal na época mais lido na região – o que aqueles homens me aturaram de palermices na altura, só mais tarde disso tive noção… - na sua redacção eles lá compunham os textos de melhor forma e mais tino e assim comecei a noticiar e a defender os interesses do meu Chouto natal.

Ninguém me encomendou o sermão e nem eu sei bem explicar de onde vem todo este amor e dedicação pela minha região e pela minha terra… É coisa de mim próprio. Do meu ser e não há que arranjar mais explicação ou dar qualquer volta. Não, não há.

Mas a verdade é que passaram mais de 6 décadas e aqui permaneço no meu posto, olhando a região e sobretudo a minha terra, interessando-me pelo seu progresso, combatendo o seu esquecimento e mesmo abandono pelas entidades oficiais, afinal como no antigamente.

Depois dos jornais, com milhares de horas consumidas ao longo dos tempos na elaboração de artigos, notícias e reportagens diversas – sempre grátis, sem auferir um cêntimo de proveito pessoal, sempre em apoio de causas sociais e sem alguma vez defender algo de meu interesse individual ou de meus familiares – eis-me agora de há uns anos a esta parte na net, este moderno e importante meio de comunicação em boa hora inventado. Se já pouco se leem jornais, outro tanto não acontece com a internet com a sua ampla implantação e generalização em todos os lares e mesmo no bolso de cada um. 

Para além de Blogue e Site pessoais onde publico as minhas ideias e as minhas notícias, criei um Grupo no Facebook para divulgação, defesa dos interesses da minha terra natal e convívio entre todos os seus naturais e amigos que a ele queiram aderir. Aconteceu já vai para 3 anos, dei-lhe o nome de CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE e escrevo estas linhas ainda sob a emoção dos acontecimentos ontem vividos na minha aldeia.

É que o nosso convívio e a nossa amizade não é apenas virtual e, de há uns tempos a esta parte, partirmos mesmo do dito e do escrito nas telas dos computadores para a vivência pessoal, experimentada e sentida ao vivo, em carne e osso, entre todos nós.

Tenho organizado encontros da rapaziada de minha idade para revivermos tempos passados nas ruas, largos, montes e vales da nossa aldeia, convívios que titulo de “ GRANDES ENCONTROS DE JOVENS DE ONTEM” e este ano parti para a realização de convívios de Natal, tendo ontem ocorrido o 1º com um bem agradável sucesso e cuja vivência e feliz experiência ainda sinto hoje, passadas 24 horas.

O objectivo é a convivência e felicitações na época festiva e, ao mesmo tempo, tal como nos encontros dos “Jovens de Ontem” contribuirmos com ofertas de géneros alimentícios para o modelar Centro de Acolhimento Social em boa hora criado na terra e que tão bem dirigido é.

Ontem tivemos então o 1º “CONVÍVIO DE NATAL 2019 C/ “BOAS FESTAS” AO C.A.S.C.”, como o titulei e foi um verdadeiro e bonito êxito!

Os 39 aderentes - e houve alguns amigos que, não podendo comparecer, fizeram questão de igualmente contribuir -, reunimo-nos no restaurante da aldeia onde degustamos um delicioso e farto "Cozido à Portuguesa”, divertimo-nos com canções várias interpretadas por alguns dos convivas – eu aí não pude dar uma ajudinha, pequena que fosse, por via de ter uns ouvidos que, para a música, são uns verdadeiros calhaus… - e, depois, partimos para o Centro Acolhimento carregando as prendinhas, onde nos aguardava o Presidente da sua Direcção e algumas das colaboradas da Instituição que tão bom serviço presta às gentes da minha terra.

Recepção sempre gentil e amiga, como é usual naquela casa, a que se seguiu a nossa visita e naturais votos de Boas Festas aos utentes do Centro que nos aguardavam.

Foi uma cerimónia muito bonita, muito reconfortante e até emocionante por ser a 1ª vez que aquilo fazíamos, por nos conhecermos mutuamente visitantes e visitados e por sentirmos e experimentarmos um delicioso calor humano que nos fez ali conviver e depois retornar aos nossos lares de corações cheios! Cheinhos!

Bonito! Útil! Emotivo e gratificante!

Acho que ficamos todos de parabéns e não duvido, pelas reacções registadas que, para o ano, voltaremos a realizar este convívio e esta visita e igual colaboração com o nosso Centro e certamente teremos ainda maior participação, a julgar pelas reacções que vão chegando.

E a minha paixão pela minha terra e suas gentes continuará sempre, sempre. 

Nem poderia ser de outra forma. 

Faz parte do meu ADN.

NOTA FINAL – Deixo imagens de parte das prendinhas oferecidas, do excelente Cozido servido e da amena cavaqueira vivida. Um vídeo da entrega das prendinhas pode ser visto aqui.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

JOSÉ AZEVEDO, O PASSARINHEIRO


Homem multifacetado na sua actividade laboral e comercial, José Azevedo criou e desenvolveu comércios vários e exerceu muitas e diversificadas profissões, desde vendedor de máquinas de costura, rádios transístores e electrodomésticos, matança e talho de carne de porco, receptador e negociante de cereais e até criador de largos bandos de frangos em aviário, galinhas poedeiras, coelhos, bovinos, cabras, borregos e até chinchilas, tudo Zé Azevedo exerceu com o propósito único e natural de melhor viver e criar mais bem estar para os seus. 

Homem de muito trabalho e bastante saber, por incrível que pareça ainda tinha tempo de recrear-se e divertir-se com o seu “hobby” preferido: os pássaros. Capturar ou comprar e fazer reproduzir em cativeiro as mais diversas espécies, mais ou menos autóctones, mais ou menos exóticas, era a sua grande distração, era o seu grande prazer. 

Com a evolução das mentalidades, com a edificação de uma nova cultura em que possuir aves e animais em cativeiro é condenável e mesmo proibido, viver hoje com esse gosto e prazer criaria a José Azevedo sérias contrariedades com as autoridades e até mesmo, naturalmente, com o seu semelhante.

Então, construiu mesmo no quintal da sua residência, primeiro em armação de madeira e rede fina e, em fase posterior, com sólida estrutura de ferro, amplas gaiolas de vários metros quadrados de área onde a passarada vivia e procriava, nalguns casos em bandos, como acontecia com os periquitos. 

Tinha as mais diversificadas variedades de pássaros que iam dos pequeninos bicos de lacre, até aos robustos faisões de várias raças, passando por pintassilgos, canários, periquitos, verdelhões, cardeais, melros, perdizes, patos, rolas, pombos diversos e até gralhas que, pacientemente ensinava a palrar e, muitas, muitas outras variedades de aves. Mais à frente no tempo e numa nova propriedade de terreno virgem que adquiriu noutro local da aldeia, nela voltou a construir casas, pavilhões e gaiolas com mais pássaros e, vedada que foi a propriedade, ali chegou a ter pavões, patos diversos e mesmo coelhos à solta que procriavam e viviam em buracos que escavavam no solo. Ficam aí algumas imagens desse diversificado conjunto de aves, junto das quais surge o então seu pequeno neto Nuno, igualmente grande apaixonado de aves e outros bichos.

Mas, a sua grande paixão era mesmo as aves e, para além das que adquiria com regularidade em casas especializadas e noutros criadores, ia mesmo à sua caça com armadilhas de rede que ele próprio criava. Nessas capturas, visco nunca usou, exactamente porque temia esquecer-se dos locais onde o aplicava e assim deixar alguma ave morrer de fome e sede e, quanto às armadilhas, usava-as em pequenas poças de água da chuva, nas estradas de terra junto à aldeia de sua residência. A “tampa” da estrutura da armadilha era elevada do solo no local da poça e suportada por um pequeno segmento de ripa de madeira, ligado por um cordel até ao seu esconderijo onde se mantinha atento ao movimento dos pássaros. Detectadas que fossem a aves a beber ou a banhar-se, José Azevedo puxava pelo cordel o braço/suporte que deixava cair a parte superior da armadilha, assim aprisionando as aves. Hoje, esta captura seria totalmente inviável mas, na altura, tudo e todos achavam bonito ter um passarinho na gaiola, fixada numa parede ou dependurada num qualquer suporte. E, quantos melros, retirados pequeninos dos ninhos, não criou José Azevedo alimentando-os à colherada pelo bico abaixo, com arroz, massa, batata, da sua comida caseira? Por incrível que pareça  muitos, imensos! E tudo na época legal, aceite, aprovado e bonito!… Na verdade, o que era aceite e compreendido ontem ao progenitor do autor destas linhas, hoje acarretar-lhe-ia grandes complicações e dissabores e seria mesmo impraticável, porque proibido.

Mas as aves eram tratadas com o maior carinho e desvelo e o nosso amigo tinha mesmo literatura que o ajudava a mantê-las e reproduzirem-se, literatura que veio mesmo até aos nossos dias e de entre a qual se destaca o “Manual Prático do Passarinheiro”, obra que lhe foi oferecida em 1956 pelo dr. Benjamim Amaral Neto, figura destacada na Chamusca de outrora, de cujo livro aí se deixam duas imagens. 

Para além disso José Azevedo trocava correspondência e conhecimentos com outros criadores de aves, de onde sobressaia por exemplo muitas trocas de ideias e animais com pelo menos dois criadores de faisões do nosso país. Neste caso dos faisões tinha mesmo, de propósito, reservadas para chocarem os ovos das fêmeas, pequenas garnisés, sendo que realmente muitos faisões fez nascer e criou e só uma espécie não conseguiu que procriasse: o prateado. Nunca José Azevedo conseguiu criar no aviário faisões prateados. Nem isso, nem canários, acontecendo que, neste caso dessas avesinhas amarelas, achava que a sua multiplicação era muito melindrosa.

Tanta bicharada, para além do muito e atento trabalho que exigia, obrigava igualmente ao dispêndio de consideráveis verbas mas, que recorde ao escriba destas linhas, jamais lhe foram ouvidos lamentos, queixumes ou a mais pequena vontade de desistência de tão bonito aviário. 

Um dos alimentos que “descobriu” para aliviar tamanha despesa com a alimentação das aves, sobretudo dos “bicos” mais miúdos, era a milhã, erva daninha que crescia espontânea em grande quantidade nos cômoros dos canteiros dos arrozais que na época abundavam na zona. As sementes da erva assemelhavam-se a alpista e as pequenas aves, com destaque para os periquitos, comiam-nas como tal.

Mas, na verdade, José Azevedo não se queixava da despesa que tinha com o aviário, talvez pelo muito prazer que lhe dava esse seu “hobby”, prazer que igualmente por vezes transformava em divertimento, como o daquela vez que se lembrou de pegar numa bisnaga de guache vermelho do estojo de desenho escolar deste escriba e, dissolvendo uma porção na água de um recipiente, resolveu banhar nela um periquito branco. A pobre avezinha ficou cor-de-rosa e, como resultado disso e porque espalhou-se a notícia de que “o Zé Azevedo tem um periquito cor-de-rosa”, foi divertido observar a curiosidade de muitos visitantes que queriam ver um periquito de cor… rosa. Mas o nosso passarinheiro não gostava de aldrabar as pessoas, não gostava não e, antes que se fossem, confessava a sua brincadeira ao visitante. E o periquito rosa, foi tomando banho dia-a-dia em água límpida e, pouco a pouco, foi ficando… branco, a verdadeira cor da sua plumagem.

Mas não ficaria por apenas essas cenas mais ou menos hilariantes com situações resultantes do “hobby” e aqui se recorda aquela em que o nosso passarinheiro viu surgir-lhe à porta dois militares da GNR que, depois de o saudarem interrogando:
- Como está sr. Azevedo? - lhe solicitam:
- Sabemos que tem um aviário com muitas aves, será que nos deixa visitá-lo?

O sr. Azevedo, que de ingénuo pouco tinha, achou logo que aquele pedido para apreciar o aviário trazia... “água no bico” e respondeu-lhes de pronto:
- Com certeza! É um prazer! Façam favor de entrar!…

Atravessaram a residência e chegaram ao quintal,.quedando-se então por alguns minutos vendo as aves e, findo uns instantes, observa-lhe o cabo da patrulha:
- Vejo que o sr. tem aqui perdizes...
A que Zé Azevedo de imediato respondeu:
- Pois tenho! Um casal e ando a ver se consigo que se reproduzam…
- Mas sabe que é proibido ter perdizes em cativeiro?
- Sei, sei! - admitiu de imediato o nosso passarinheiro..
- Pois, sendo assim, lamento mas terei de lhe levantar um Auto que lhe acarretará algumas consequências.

O atento Azevedo já esperava por aquela informação e respondeu-lhe de pronto:
- Se fosse a si não passava já o Auto porque, se esperar uns instantes, pode ser que eu lhe evite esse trabalho…
E, dito isto, entrou em casa, foi ao escritório e trouxe aos GNRs a Autorização, de 10/8/1955, da Comissão Venatória Regional do Sul, que aqui se junta.

Os homens viram a Autorização e pediram desculpa pela sua desconfiança, confessando:
- Sr. Azevedo, cumprimos ordens!
- Eu sei que cumprem ordens e fazem bem mas agora peço que digam ao vosso Comandante que mude de informador porque este é fraco.
- Na verdade, foi uma denúncia mas, como é que sabe isso?
José Azevedo não desarmou e...
- Sei que foi uma denúncia e acho que sei quem a fez mas… errou. Teve azar!

E, quando os GNRs viraram costas, diz a crónica, José Azevedo rebolou-se de gozo...

Na verdade José Azevedo era um homem profundamente legalista e, sabendo que tinha gente que dele pouco gostava, procurava nunca “pôr o pé em ramo verde”…

Mas a história das perdizes em cativeiro e da autorização para isso, ainda tem mais um curioso e interessante episódio...
A autorização restringia a apenas um casal de perdizes o seu cativeiro e o nosso passarinheiro pretendia que se reproduzissem, tendo desenvolvido para isso muito trabalho e dedicação durante alguns anos até que, finalmente, conseguiu os seus intentos e o casalinho teve uma “linda ninhada de perdigotos”, nas suas palavras, na carta que abaixo se refere. 

Como Zé Azevedo não tinha licença para os possuir, tratou de voltar a escrever à Comissão Venatória, por carta de 5/8/1963 bem redigida, argumentando que lhe haviam dado muita despesa, trabalho e dedicação, sendo alimentados “com farinha própria e ovos cosidos” pelo que gostaria de os guardar em seu poder e, porque “não os quero para eu comer” por “não sendo capaz de os matar” e ainda que, libertando as pequenas crias estas “não saberão procurar comida e em breve serão devoradas  pelos milhafres e outras aves de rapina que abundam nesta região”, o nosso amigo pedia autorização para os manter no aviário.

A Venatória, entendeu a situação, compreendeu a estima do passarinheiro pelas aves e prontamente lhe enviou nova Autorização, esta já especificando que era para “guarda de perdizes que se destinam a reprodução para repovoamento”.

José Azevedo ficou satisfeitíssimo com a nova e alargada autorização e teve mesmo o cuidado de escrever nova carta à Comissão Venatória oferecendo-lhes – pasme-se!… - um casal de perdizes. Isso mesmo, por incrível que pareça: um casal de perdizes oferecidos à Venatória… Os homens ficaram encantados com a gentileza e, educadamente, responderam-lhe na volta do correio “cumpre-nos agradecer muito penhoradamente a oferta” mas, uma vez que “estão devidamente instaladas não é conveniente por motivos de ordem tecnica mudar-lhe agora as condições de “habitat”. 
Assim mesmo, gratos e talvez surpreendidos com a oferta do cavalheiro Azevedo. 

E, para encerrar esta já extensa crónica, resta acrescentar que o “hobby” preferido do nosso amigo, terminou de forma dramática…

Com 62 anos José Azevedo partiu desta vida, prematura, repentina e tristemente para todos os seus entes. A sua dilecta companheira de sempre, a doce e sofrida Maria do Rosário, fez questão de manter todas as aves do querido esposo e isso aconteceu durante muitos meses até que, bruscamente, numa escura e dramática noite, o irado cão do casal de vizinhos da casa contigua à sua e que, com Maria partilhavam as traseiras das residências na nova propriedade criada por José Azevedo, forçou e quebrou a corrente que o prendia, correndo rápido para as gaiolas que arrombou com grande violência, tendo liquidado e devorado tudo o que mexia. Tudo, tudo! Não ficou um bico vivo!

Maria do Rosário não se apercebeu de tamanho drama durante a noite e, de manhã, quando viu horrorizada o terrível espectáculo de faisões, pombos, galinhas, patos e demais aves, tudo dizimado, ficou em choque e o caso não era para menos. 

Num pequeno  e dramático instante findava assim todo o bonito “hobby” do seu  querido Zé e ela nem queria acreditar…

Chorou. Chorou muito a sofrida Maria, tendo de imediato recebido o carinho e o alento de família chegada e mesmo afastada e de muitos amigos solidários com a sua grande dor e, com o tempo, que tudo ameniza nos espíritos, foi-se conformando com a triste realidade.

Marcá-la-ia entretanto para todo o sempre, além do grande desgosto pelo ocorrido, a atitude dos vizinhos, donos do cão: deles, nem uma palavra de pedido de desculpa... 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

DOIS ANOS DE "RECAUCHUTAGEM"!


É verdade que tenho mais um ou outro queixume de, dor aqui, maleita acolá, por via dos dois anos já decorridos sobre o corte dado à figadeira mas, na realidade, pelo que dizem os regulares exames feitos e por nada sentir que me apoquente sobre o caso, não há a mínima dúvida que valeu a pena a melindrosa intervenção sofrida, exactamente faz hoje 2 anos. 

Alertava-me dias antes o sabido e experiente cirurgião que, com mestria e muito saber “trabalhou” o ofendido fígado, que a intervenção não seria “trigo limpo, Farinha Amparo”, na conhecida expressão de que o sucesso da operação não tinha plena garantia de sucesso mas, felizmente, o êxito foi mesmo total.

Quando, pelas 10,30 horas, naquela manhã de 15/11/2017 me levaram para a cirurgia, eu ia plenamente informado do grave mal de que padecia mas, também, porque sempre confiei e confio na ciência e no saber dos homens, ia calmo, bastante calmo, convicto que o bom sucesso aconteceria e ponderando que, se isso não acontecesse, talvez não acordasse mais.

Mas correu tudo bem e, mercê dos muitos conhecimentos da medicina actual e graças às imensas horas de estudos dos homens e mulheres ao longo dos tempos foi possível, apenas com 3 furinhos na minha barriguinha, cortar e retirar o danado do tumor maligno que ameaçava enviar-me mais cedo para o triste e lúgubre “jardim das tabuletas”.

Não foi dessa e um dia será mas, enquanto por cá andar e que seja como até aqui, a coisa valerá a pena e, desta forma, arranjaram-me motivo para, anualmente, em Novembro, festejar o nascimento e… a “recauchutagem”.

Para “ornamentar” esta crónica e ainda que ponha em dúvida o gosto da sua publicação, escolhi mesmo assim uma imagem da barriguinha (?) do rapaz com os 3 furinhos fechados pelos agrafos que os ajudaram a cicatrizar. E, francamente, pouco ou mesmo nada me doeu.

E, como foi possível, apenas com esses furinhos, ver e retirar com pleno sucesso um tumor de 4 cms que teimava crescer e acabar com o seu “hospedeiro”, é coisa que admiro, que me espanta, que agradeço e louvo o saber e o conhecimento de homens e mulheres que me merecem a maior admiração e o mais elevado respeito!

domingo, 3 de novembro de 2019

3/4 DE SÉCULO!


E aí estão os  ¾ de século em cima da carcaça do rapaz! E, para falar com franqueza, quando há cerca de 3 anos começaram a aparecer-me as maleitas e, sobretudo, quando soube do grave problema na peça das iscas, cheguei a temer não atingir esta “simpática” marca… Mas, felizmente, atingi.

Hoje e recordando os anos passados e os dias e meses que voaram, lembrando-me de factos, acontecimentos, alegrias e tristezas vividas, não quero dizer como é hábito que me parece que foi ontem mas, andarei talvez por muito perto se confessar que acho o tempo entretanto decorrido foi muito, muito curto. Muito curto!…

A infância e a juventude no meu Chouto natal, a vida militar com a guerra incluída, a vida profissional muito activa, a família com esposa, filhos e neto, não foi ontem não mas, mas passou muito depressa… 

Dir-me-ão que passaram 6, 7 décadas e que isso já é um tempo considerável mas eu entendo, eu sinto, que foi tudo, tudo muito curto. Caramba, terrivelmente curto!

No festejo deste ano, como o dia 2 correspondia a um sábado e desejando fazê-lo a um almoço e vindo nesse dia da Beira Alta era coisa que não dava muito jeito, optamos por um adiamento de 24 horas e hoje celebramos em família, com um excelente rodízio de carnes num bom restaurante (Chimarrão) do Parque da Nações, em Lisboa, os meus 75 aninhos.

 Foi muito bom, como seria de esperar e, eu, para melhor festejar – sem abusar minimamente!… - saboreei 2 ou 3 cms no fundo de uma taça de um saudoso Borba alentejano. E o tintinho estava divinal!... Todavia, infelizmente, só provei... 

Num gesto que muito me sensibilizou e já perto do final da refeição, juntou-se ao meu grupo para festejar com um cafezinho e um whisky, o meu velho amigo e conterrâneo Armando Jorge de quem já tenho falado aqui no meu blogue em anteriores crónicas, rapaz que animou a nossa reunião, num convívio muito gratificante!

Deixo aí, não só as habituais imagens destes tradicionais festejos com os confraternizantes à mesa e o “obrigatório” registo com o cada vez mais crescido neto Rafael como também uma outra da família no passeio pelo Parque das Nações.

E, pronto! Para o ano quero acreditar que haverá mais…

Só peço “um” de cada vez e, se for no mínimo com a abalada saúde estabilizada como até aqui, tanto melhor!...

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A VELHINHA APOSENTA-SE...


Pelas notícias recentes ficamos a saber que vai sair do uso do exército português a velhinha espingarda G3, fiel companheira de muitos milhares de jovens compatriotas que fizeram as guerras de África entre os anos 61 e 74 do século passado.

Naturalmente, também eu, tendo andado naqueles “trabalhos”, tive por obrigatória e gratificante companhia esta “menina”- a “canhota”, como então lhe chamávamos - e, como tal, não posso deixar de experimentar alguma nostalgia quando vejo que, alguns anos depois de mim, também a fiel G3 passa à reforma.

Os dias passados e o tempo decorrido, dão azo a estas sensações a que de há muito já me habituei… É a vida das pessoas e das coisas... Inexorável.

Mas, meditando nisso, também dei comigo a pensar que, decorridos todos estes muitos anos após ter deixado a “canhota” em Luanda, possivelmente para que logo depois um outro novo mobilizado dela tomasse posse, já nem me recordo bem – quero dizer, não me lembro totalmente… - das suas diversas peças e do seu funcionamento.

Eu, que tantas vezes a montei e desmontei e que, inclusive, dei ensinamentos e instruções da amiga G3 a muitos soldados, hoje já não me recordo em pleno de todos os seus componentes. Com uma revisãozinha ia lá mas, assim a uma 1ª ou 2ª tentativa, reconheço que não conseguiria. São muitos anos de “separação” da “menina”…

Mas era uma “menina” muito fiel e fazia-nos companhia para todo o lado desde que saíssemos do arame farpado - quero dizer, do aquartelamento - e, mesmo em diversas situações lembro-me bem de a ter como dedicada companheira enquanto dormia. No Muaco, por exemplo, ficava encostadinha às paredes de madeira da barraca do destacamento e, quando passei umas noites numa pequena tenda, dando protecção a uma velha máquina de movimentação de terras, a amiga G3 “dormia” ao lado de mim e dos soldados que me acompanhavam. Também na Fazenda Lifune, de noite, cujo quarto de dormir ficava um pouco afastado da camarata dos soldados, a amiga sempre estava encostada junto à mesinha de cabeceira.  Mas nunca me foi precisa, felizmente!


Mas tive uma situação em que nossa “canhota” foi simultâneamente útil e… perigosa. Aconteceu quando tive o meu chamado baptismo de fogo em 25 de Dezembro de 67, dentro do arame farpado em Chilombo, lá no “cú de Judas”, no leste angolano. Desarmado, porque estava no aquartelamento e “maçarico…, vinha de beber umas cervejas na “venda” de um branco que ali estava  estabelecido na companhia de um fuzileiro que, ele sim, levava G3 ao ombro. Na noite escura vínhamos conversando a caminho das nossas instalações quando “elas” começaram a cantar vindas da nossa esquerda, para lá da cerca de arame farpado que ficava 50 ou 60 metros.  Porque os sujeitinhos atacantes ouviam a nossa voz no silêncio da noite escura, os tiros vinham bem dirigidos a nós e, antes de os dois nos atirarmos para o chão, o fuzo ficou apenas como gargalo da garrafa de bagaço que trazia mas, como era bem experiente naquelas andanças, de imediato destravou a G3 e começou a responder ao tiroteio e, aí, o foguetório tornou-se ainda mais intenso sobre nós. Os gajos viam os fogachos da G3 do amigo fuzileiro e tomaram-nos como alvo e, aí, o furriel “maçarico” ficou bem mais preocupado e tratou de rastejar o mais depressa possível para fugir daquela encrenca. E, felizmente, nem eu nem o meu companheiro fomos molestados. E foi assim que amiga G3 foi em simultâneo útil – muito útil! - mas também perigosa.

E pronto. Agora vai para abate depois de ter cumprido brilhantemente a sua importante missão na guerra.

Outro tanto não pode dizer-se dos homens que a fizeram usar…

NOTA FINAL – Ficam duas imagens em que a minha fiel amiga me fez companhia. Uma, quando regressamos ao quartel no dia festivo de 11 de Outubro de 1968 em que passava um ano de comissão e sabíamos da saída daquele inferno para outra zona mais calma e menos perigosa e, uma outra quando, cansados e abatidos, chegamos à segurança do aquartelamento vindos de um patrulhamento nas matas de kms que perigosamente o circundavam.