sábado, 26 de janeiro de 2019

A PAIXÃO DA MENINA MARIA


Vindas segundo se presume da região de Ourém/Tomar de onde uma era natural, Maria Angelina (professora primária) e Maria (criada, como então se denominavam as empregadas domésticas) chegaram ao Chouto por volta do ano de 1940 do século passado onde a então jovem  professora havia sido colocada e instalaram-se na parte de habitação contígua à sala de aulas no mesmo edifício da Escola Primária local destinada a residência dos mestres-escola.

Tanto quanto era dado observar, exercendo Maria Angelina a sua missão de ensinar e Maria o seu trabalho de “dona de casa”, com as inerentes limpezas da dita, confecção de refeições, tratamento de roupas, etc, viveram e conviveram ali em perfeita harmonia durante muitos anos sem que exteriormente se soubesse de discórdias ou desencontros de ideias dignos de registo e dir-se-ia até que mais pareciam irmãs, não só porque sendo ambas de estatura meã e corpo meio robusto caminhavam de forma muito idêntica, como porque quando Maria Angelina saía à rua nunca o fazia sozinha e sempre queria a companhia da sua amiga “Menina Maria”, como a professora queria que tratassem a sua funcionária.

Nunca na aldeia se lhes conheceu o mínimo interesse por homens e também, em boa verdade, jamais – aparte uma ou outra má intencionada língua… - se falou sobre o seu relacionamento numa maior intimidade para além da amizade e sã convivência, natural entre duas senhoras que se estimavam e viviam noite e dia debaixo do mesmo tecto. Em contrapartida é bom que se diga, Maria Angelina nunca abdicou da sua posição de patroa e Maria sempre reconheceu e cumpriu o seu subalterno lugar. As posições de uma e outra estavam perfeitamente definidas e eram ponto certo e mutuamente aceite.

Mas, nesta perfeita convivência e harmonia viviam assim a professora Angelina (“professora velha”, como a partir de determinada data passou a ser conhecida) e a criada Menina Maria quando, súbita e inesperadamente tudo se alterou… Tudo se alterou e durou mesmo largo tempo o período de convulsão entretanto desencadeado.

A necessitar de recuperação e melhoramentos, o velho edifício da Escola Primária teve de ir para obras e surgiu na aldeia, vindo da aldeia vizinha da Parreira, como responsável principal pelos trabalhos, António Henriques, um viúvo cinquentão, homem educado, atencioso e ainda jovial e, às tantas começa a correr baixinho de boca em boca dos locais que… o António Henriques andava a arrastar a asa à Menina Maria...

E, do “arrastar da asa” à aceitação por parte da pretendente, foi um sopro e…. foi uma bomba na aldeia! A “Menina Maria” com os seus 50 anos, pequenina e roliça, que ninguém imaginava interessada por homens, estava a namorar!… Surpresa das surpresas e motivo do cochichar a cada canto, a cada esquina. E, convenhamos, o motivo não era para menos.

E como reagiu a patroa Angelina a tão grande notícia que, a avançar o namoro e a concretizar-se a separação da sua criada, representaria para ela uma grande contrariedade, um enorme prejuízo, considerando talvez mesmo que seria uma afronta, se não uma ofensa?

É aqui que entra o patusco da situação porque Maria Angelina, como é natural, não aceitava de forma alguma tal namoro e, preocupada, quando não mesmo extremamente irada, passou a espiar pelas ruas e travessas, de esquina em esquina, as fortuitas e não autorizadas saídas da amiga e era vê-la por exemplo na esquina da escola que dá para a travessa de cabecinha de fora à espreita para seguir os passos da agora apaixonada criada, quando não a perguntar mesmo a um(a) ou outro(a) passante se tinha visto a Menina Maria...

Mas a Menina Maria estava visivelmente apaixonada pelo António Henriques e, com a ajuda da Ti Joaquina “Guarda-Rios”, mesmo depois das obras na escola terminarem, escondia-se com o namorado, em encontros marcados por recados de amigas e troca de bilhetinhos, como se jovens adolescentes fossem, no quintal da Ti Joaquina ao cima da rua. 

Os namorados a todos pareciam muito apaixonados, a professora andava “pior que estragada” e, sendo provável que a até então boa harmonia da casa da escola fosse quebrada por eventuais e fortes discussões e discórdias que todavia não se conheciam, o povo da aldeia comentava entre uma igual surpresa e a inerente jocosidade tamanha e jovial paixão quando, provavelmente por influência da patroa e a consequente reconsideração da empregada ou por também ser de considerar algum desinteresse do namorado, António Henriques passou a deslocar-se menos vezes da Parreira ao Chouto, os encontros começaram a ser mais espaçados e o rompimento aconteceu.

Nunca se soube como, quando e porquê aconteceu mas a verdade é que a antes grande paixoneta chegou ao fim, ficando todavia na memória de todos a intensidade, entusiasmo e até o surpreendente espírito adolescente com que foi intensamente vivida pelos dois simpáticos cinquentões.

(A professora Maria Angelina, de que se junta foto, infelizmente sem cabeça e única conhecida, facultada assim por um amigo deste escriba, viria a falecer a 27/4/1971 em Lisboa onde ficou sepultada e, do destino da Menina Maria o narrador desta historieta não mais teve notícia, presumindo-se, pelos anos decorridos, que também tenha falecido, desejando-se que as duas descansem em paz.)

domingo, 20 de janeiro de 2019

GUERRA COLONIAL - A FOME NO MUACO


Depois de em anteriores crónicas já ter recordado o medo e o frio sentidos na nossa estadia no Muaco, venho hoje falar da muita fome ali sofrida, onde avulta uma hilariante situação que então logo assim entendemos porque, sendo rapazes novos, levavamos tudo com algum humor até porque outra alternativa não tínhamos e foi dessa forma vivida e sentida que assim ficou para sempre nas memórias tanto minha quanto do meu camarada Joel Costa.

Tanto quanto me recordo, o Muaco não distava muito do Cazombo... Talvez cerca de 20 kms mas, como não podíamos ir abastecer-nos de produtos autonomamente dado que o teríamos de fazer em escolta militar e como não podíamos deixar o acampamento sem protecção e as forças eram escassas para as duas missões, resultava que tínhamos de aguardar que do Cazombo, sede do Batalhão, nos viessem abastecer. E como por ali os bens de consumo também não abundavam e como não era a nossa Companhia… Acho que por vezes ficávamos esquecidos…

Lembro-me de vivermos com muita escassez de víveres; um dia ou dois até sem sal e aconteceu mesmo que em determinada ocasião só nos restava arroz e chouriço para pôr no tacho e confeccionar e, como o cozinheiro Nunes era muito inexperiente – tínhamos poucos meses de comissão e a ele ainda lhe faltava o jeito… - saiu cozinhada (?) uma massa qualquer mais ou menos esquisita, espessa e intragável e recordo-me do Cunha, um sempre bem humorado cabo ter-me dito:

- Meu furriel, se mandassemos umas colheradas às tábuas, dava para rebocar as paredes da barraca!

Eh! Eh! Bom sentido de humor do Cunha!

Tanto eu quanto o Joel comíamos com os soldados mas, o astuto Soares, alferes comandante do Pelotão, um açoriano nem sempre bem disposto e sempre também algo complexado, depois das primeiras refeições e vendo como a comida era escassa e má, tratou de se “encostar” ao sr.Correia, o Encarregado Geral da JAEA (Junta Autónoma das Estradas de Angola), único branco da equipa de trabalhadores e responsável principal pelos trabalhos de aterros que ali se faziam.

O sr.Correia e alferes comiam nas instalações dos civis e nós nas da tropa. No final, sobretudo dos jantares, eu e o Joel íamos ter com eles para jogarmos às cartas, ao poker ou às damas e assim passarmos uma parte do serão.

Tudo decorria nesta normalidade, se é que se pode chamar de normalidade a fome porque íamos passando quando, numa boa noite ali chegamos e eles estavam a acabar o seu jantar, então, como sempre, mil vezes superior em qualidade e quantidade ao nosso porque o sr. Correia, beneficiando doutro abastecimento e doutro serviço, tinha a dispensa sempre bem recheada.

O prato era Costeletas de Porco fritas e ainda restavam 3 exemplares numa travessa de alumínio depositada na ponta da mesa e aí o sr. Correia tem a brilhante ideia de nos perguntar apontando para a bonita travessinha:

- Os srs. furrieis são servidos?

Se éramos servidos? Eh! Eh! Seria o mesmo que perguntar a um cego se queria vista…

Os dois, de olhos esbugalhados de espanto, respondemos em coro bem afinado:

- Sim, sr. Correia!!!

Ele ordenou ao criado para trazer dois pratos e talheres e nós sentamo-nos apressados, não fossem as lindas costeletas ganhar pernas e fugirem…

Tirámos da travessa cada um a sua costeleta, atacamos sofregamente cada qual a sua deliciosa fragmentação do bácoro e íamos os dois olhando pelo canto do olho para a restante maravilha que aguardava, solitária, a sua vez de ser deglutida…

Sendo nós dois esfomeados e só restando uma suculenta costeleta, como fazer?

É então que, ainda degustando avidamente os últimos pedacinhos da sua peça, o Joel me pergunta, num misto de interrogação e confirmação, exactamente por estas mesmíssimas palavras que jamais esqueci:

- Azevedo, tu comias aquela costeleta!?…

Perante tamanha e subtil delicadeza, não pude deixar de sorrir e retorqui:

- E tu também, né, pá?…

Aí, ele propôs-me:

- Dividimos ao meio e sorteamos para ver a quem calha a parte do osso, ok?

Ele propôs e eu acordei, se bem que já soubesse a quem ia calhar o osso… Azarento como sou a tudo quanto é sorteios…

Fizemos então o sorteio e o inevitável aconteceu: o Azevedo rapou o osso. Se bem que tivesse um pouquinho de carne agarrada… Eh! Eh!

Mas a insólita situação ficou-nos para sempre na memória e de tal forma ficou que bastas vezes falamos nela, tendo acontecido mesmo que, já depois de regressados ao “puto” e sendo eu já casado, morando num pequeno apartamento na Reboleira e ele em Lisboa, convidei o velho e bom amigo Joel – durante mais de dois anos de convívio diário e em situações particularmente difíceis sempre convivemos magnificamente e em continua sintonia! - para almoçarmos e fiz questão de recomendar à Tense que confeccionasse nem mais, nem menos, que… Costeletas de Porco…

Só que, nessa vez, não foram só três…

E nem estavamos famintos…

(Na falta de melhor e porque é a única que tenho com o Joel no Muaco, repito a foto já antes publicada mas que ilustra um pouquinho sobre o local onde vivemos estas faladas odisseias nos primeiros meses de 1968.)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

GUERRA COLONIAL - O FRIO DO MUACO


Há dias, quando escrevi sobre a estadia no Muaco durante a guerra, no local assinalado no mapa de Angola que junto, falei que estavamos ali para proteger os trabalhadores e a maquinaria da Junta Autonomia das Estradas de Angola (JAEA) que procedia à feitura dos aterros para o acesso à ponte, numa protecção tão difícil e perigosa quanto se pode imaginar numa guerra de guerrilha em que nunca se sabe quando o ataque inimigo ocorre e daí a atenção e prevenção sempre continua e atenta absolutamente necessárias.

Aconteceu então que uma máquina que procedia à escavação de terras para os aterros, ali a 6, 7 ou 8 kms da ponte e do nosso acampamento, avariou. E avariou de tal forma que estava impedida de deslocar-se, como o fazia a cada final do dia de trabalho, para a protecção noturna das nossas forças no acampamento e, por isso, forçosamente, teria de permanecer no local das escavações e, inevitável, num bom cumprir da nossa missão tínhamos de deslocar para ali tropa para a proteger dia e noite até que nova máquina, necessariamente mais potente, chegasse. 

Deslocar todo o pelotão era inviável e por isso optou-se por destacar para o local apenas uma secção de homens, coisa de 7 ou 8 militares que, no pequeno descampado e sem a mínima protecção em caso de ataque inimigo que não fosse a própria máquina e um pequeno declive, de pouco mais de um metro do leito de um pequeno riacho que passava no local. O leste de Angola, salvo poucas extensões é uma imensa planície de mata e clareiras de terrenos incultos cobertos por intenso capim e, ali,não era diferente… Uma pequena clareira no capim de solo vermelho, rijo como ferro, aberta já pela máquina enquanto funcionou e, logo a 100, 200 metros, a mata mais fechada ou mais aberta mas “reino” e paraíso das gentes guerrilheiras.. 

Ora, então, tinha de avançar tropa para guardar a velha máquina – que tinha de ser preservada não obstante o risco de perdas de vidas humanas que poderiam ocorrer caso acontecesse um ataque guerrilheiro com tão fraca reacção defensiva mas, pelos vistos, isso pouco contaria… O que contava era a máquina e, como era inevitável, lá vai o Furriel Azevedo com a sua secção. 

Devo aqui confessar que já estava habituado a “alinhar” sempre em 1º lugar nas escalas por via da minha fraca nota final na especialidade, aquando da formação militar inicial…  Tive então negativa nas provas físicas (nunca fiz o “galho” nem “cambalhota) e chumbei no tiro… Como resultado, fiquei com negativa e fui para… “Atirador”. Com negativa e chumbo mas… “Atirador”!...Brilhante decisão! O pior realmente foi a negativa pois, por via disso, alinhava sempre em 1º nas escalas e isso acompanhou-me desde o 1º ao último dia de guerra porque, foi até mesmo após o desembarque em Lisboa… Saídos do Paquete Império, no Cais de Alcântara, todos foram para suas casas ao ansiado encontro dos seus e eu fiquei mais uns dias a despachar malas e bagagens de todo o pessoal do Batalhão. 

Bom, mas voltemos ao Muaco e à guarda da máquina avariada... 

Como já disse, as nossas forças eram de 7 ou 8 homens armados simplesmente de espingardas G3 e equipadas de duas pequenas tendas de lona para protecção do inevitável cacimbo nocturno e da eventual chuva e as indispensáveis “rações de combate” com bolachas e conservas para alimentação mínima. De prevenção levamos também um “foguete” (género “very ligth”) que devíamos lançar para alertar os nossos camaradas no acampamento, sinal que precisavamos de ajuda em caso de ataque guerrilheiro (“turra”, como então eram chamados os que lutavam pela independência).

Durante o dia a coisa decorreu sem dificuldades de maior... Jogamos às cartas, contamos anedotas, etc e assim o tempo foi passando… O pior foi à noite com o cacimbo que começou a cair e o danado do frio inerente que se iniciou e que nos gelava carne e ossos até ao tutano.  Com dois soldados por turno de sentinela, cada um no seu extremo da máquina, eu e os que não estavam de vigia dormíamos deitados, tapados com fracas mantas e muito encostadinhos uns aos outros para, com o calor dos corpos nos aquecermos mutuamente e para melhor suportarmos aquele frio imenso. Mas a barraquita era pequena e muito baixinha e a lona estava logo ali a escassa distância das nossas cabeças e nem podíamos esticarmo-nos muito para não ficarmos com os pés de fora, ainda que calçados, como forçosamente tínhamos de estar.

Mal e a tremer de frio íamos fazendo por dormir quando, subitamente, o Cabo Cunha salta da “cama” e chama-me, por estas palavras:

- Meu furriel, não aguento mais! Temos de acender uma fogueira para nos aquecermos!

E logo mais uns outros o secundaram:
- Isso mesmo! Temos de acender lume para nos aquecermos, se não morremos de frio!

Eu levantei-me de imediato e questionei-os:

- Vocês são doidos? São malucos? Então, até acender um cigarro neste escuro que nem breu é perigoso para a nossa segurança e vocês querem acender um fogueira para morremos todos ao lume, de uma simples rajada de um turra? Ganhem juízo! Doidos!

Mas o Cunha não se convenceu e retrocedeu:

- Meu furriel, não há turras aqui e a gente não aguenta tanto frio. Temos de nos aquecer!

- Nem pensar, Cunha! Nem pensar! Sejam conscientes, pensem um bocadinho, ponham a “caixinha dos pirolitos” a trabalhar e tenham calma. Encostamo-nos mais uns aos outros, vamos aguentando assim e às 6 logo chega o Sol e o dia começa a aquecer. Não autorizo que acendam lume! Está dito!

Os outros pensaram melhor, deixaram de o acompanhar na ideia louca e o amigo Cunha também reconsiderou e, pouco a pouco foi aligeirando a sua louca vontade e não teve alternativa se não cumprir a minha  decisão. Não se acendeu fogueira, rapamos um frio incrível – nunca na minha vida senti coisa igual!… - mas a situação passou, se bem que na 2ª noite o amigo Cunha ainda tivesse um novo arremedo mas mais suave e depressa os rapazes entenderam que estavam a ser irresponsáveis e seguiram as minhas ordens e na 3ª nem já falaram em tal disparate. 

Acho que só lá passamos 3 noites... E já não foi pouco....

Mas tenho dali mais duas recordações: uma de quando usavamos para lavar a cara de manhã a água que corria no pequeno riacho nosso vizinho. Como a temperatura ambiente era gelada às 5, 6 da manhã, a água que corria era morninha e mais parecia que tinha sido… aquecida. Muito agradável! Bem agradável!

A outra recordação era o leite com chocolate que vinha em pequenas latas na “ração de combate”. Como a tenda era pequena para nós, armas e mochilas, deixavamos estas fora e de manhã a lata de leite chocolatado mais parecia que tinha vindo do frigorífico e era muito agradável de beber. Nunca mais esqueci o sabor delicioso daquela coisa!… Com fome e sede, beber um leitinho com chocolate fresquíssimo ao pequeno almoço, foi coisa que me  ficou na memória.

E pronto, hoje fico-me por aqui nestas recordações do Muaco, do frio imenso que ali passamos e da maluquice dos soldados que queriam na noite escura acender fogueira numa guerra de guerrilha. Coisas….

Mas do Muaco tenho mais e, numa próxima crónica vou recordar um episódio ocorrido entre mim e o meu inseparável amigo Joel Costa que meteu…. costeletas de porco… 

Tão hilariante quanto triste mas que ficou para sempre gravado nas nossas memórias.

Na próxima, conto.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

JÁ "FUI" CHINCHILA


NA MORTE DE "CHICO RITA", MAIS UMA VELHARIA...


Vivíamos os primeiros anos da década de sessenta do século passado e o meu pai, apaixonado criador de animais em cativeiro (criou, conviveu, deu e vendeu desde vacas a pequenos bicos de lacre, passando por coelhos, galinhas, pavões, faisões, periquitos e dezenas de muitas outras espécies e variedades) nunca tendo conhecido pessoa que mais gostasse de animais e que sentisse tão evidente pena quando tinha de, por venda, dádiva e sobretudo morte para nosso consumo, de alguns se desfazer. (Ainda guardo na memória as suas penalizadas expressões quando tinha de vender uma vaca leiteira ou matar um porco, um pato, uma galinha ou até uma cria de pombo para nosso consumo ou mesmo para venda ao público, dado que chegou a explorar um pequeno talho a que na data se chamava "salsicharia"…)

Foi então nesse início dos anos 60 que, através do “Diário de Notícias” que eu recebia diariamente por ser seu correspondente na aldeia e que meu pai lia de uma ponta à outra, que a sua curiosidade despertou para uns artigos e sobretudo uns anúncios de uma nova exploração que estava a iniciar-se em Portugal: a criação de chinchilas em cativeiro. E daí a pensar e decidir iniciar essa nova produção, foi um ápice…


Para além de ainda muito pouco se conhecer sobre as tecnicas de manutenção e reprodução, os bichos ainda eram carotes, havia que comprar as jaulas, rações, etc e por isso tinha que ter-se cuidado com o investimento e, pensando nisso José Azevedo tratou de entusiasmar dois amigos a entrar na aventura e foi nisso bem sucedido. 

Os eleitos e companheiros da sociedade, que eu titulei de "Pobrichila" , foram os seus muito amigos Acácio Varela, que tinha as instalações adequadas porque os animais requeriam sossego e tranquilidade e “Chico Rita”, Francisco Neves de seu nome de baptismo que sem função destinada para o efeito se limitou a entrar com a sua quota no capital investido. Meu pai era o encarregado da manutenção e conservação com os muitos cuidados que a reprodução exigia, cada um entrou com a sua parte no capital indispensável e a aventura avançou.

Durou alguns anos a “brincadeira” e aconteceram entretanto várias reproduções em ninhadas quase sempre de dois filhotes: A exploração funcionava numa dependência junto à alfaiataria de Mestre Acácio na vivenda que vemos na foto junta em 1º plano e, às tantas, a coisa começou mesmo a constituir atracção turística muito embora os animais não apreciassem muito esses “cumprimentos” porque de preferência queriam  solidão, pouca luz e mesmo a falta dela.

Existiu durante alguns anos o negócio, os sócios não tiveram prejuízo no seu investimento (o escoamento/venda das crias estava garantido por compra dos vendedores dos progenitores) mas teve uma existência não muito longa porque os animais eram muito atreitos a doenças e na época os conhecimentos da sua cultura eram escassos e por isso aconteciam algumas mortes que eram sinónimo de lamento e… prejuízo. Mas era gratificante ver nascer os bichinhos e depois vê-los crescer e evoluir e muito mais ainda tocar-lhes porque a sua pelagem era por demais aveludada e macia. Fofinhos, fofinhos!

Este escriba cumpria então o seu serviço militar obrigatório e, entusiasmado também com a novel  exploração dos simpáticos animais, ia falando disso aos colegas da tropa e, daí a ser alcunhado de “chinchila”, foi coisa de um dia para o outro. Em vez de Azevedo, passei a ser o… "chinchila". E, confesso, até achava graça à alcunha.

Lembrei de tudo isto quando neste Natal tive notícia do falecimento do velho amigo “Chico Rita”, um dos sócios da sociedade de amigos das chinchilas, um “Chico Rita” então rapaz dos seus 30 e poucos anos, muito educado, simples, bom e que só fazia amigos. Curiosamente veio agora a falecer no mesmo dia do seu sócio de chinchilas José Azevedo passados foram exactamente 40 anos e lembrei-me também que na ocasião do 1º aniversário da criação da exploração das chinchilas no Chouto dê conta disso no semanário “Correio do Ribatejo” para o qual escrevia na data e de que junto o seu recorte.

Velharias... Velharias, como eu lhes chamo quando estas coisas encontro e me recordo dos bons anos da minha juventude em que vivia com felicidade entre esta gente querida e amiga, infelizmente, infelizmente já desaparecida…

É a chamada “lei da vida” sabemos mas é sempre com dor e saudade que se lembra gente honesta e boa que nos fez crescer e viver.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NATAL - SEMPRE IGUAL E SEMPRE BOM!


Bem, em boa verdade, se é certo que todos os Natais são bons e bonitos, também não será errado considerar que nem todos são exactamente assim, pelo menos no tocante ao número de participantes no convívio e, naturalmente, ao ambiente daí resultante.

Já tive em redor da sempre bonita mesa da Consoada ou do almoço do Dia de Natal numero avultado de presenças e, como hoje aconteceu, número bem reduzido de convivas. Como hoje aconteceu…

Desde as cerca de duas dezenas, como o registado por exemplo em 2003 e 2004 quando, irmãos, cunhados e sobrinhos festejamos em Crescido o frio Natal local até hoje, em que terminamos no almoço de Consoada com 8 à mesa e agora ao almoço com apenas 6, assim o número de celebrantes tem vindo a reduzir... Desde os velhos tempos de muitos à mesa até hoje as famílias foram sofrendo evoluções com novos nascimentos, namoros e casamentos com a natural formação de novos lares e novos contactos com sogros, afilhados, companheiras e até alguns tristes falecimentos etc e assim chegamos à meia dúzia de hoje, afinal apenas os meus familiares mais chegados.

Convenhamos que tudo isto é natural mas, francamente, a mim não deixa de me provocar algumas recordações e até uma certa e sentida nostalgia. Coisa de velho, certamente…

Foi, pois, mais um Natal que se passou. Este, como os outros anteriores, sempre com a recordação da triste data vivida em 1978 quando perdi o meu saudoso pai. Faz hoje 40 anos que o sepultamos e, desde então, como é inevitável, nunca mais os Natais foram iguais…

E agora que o ano civil está a chegar ao seu término importa salientar que, no que à saúde diz respeito, este foi um ano sem preocupações de maior para a minha família e para mim próprio. Não foi mau de todo, não. Um ou outro achaque de fácil remédio e tudo foi passando… No meu caso a cirurgia resultou em pleno e neste ano vivido nada de anormal me surgiu. Felizmente!

Que no Natal de 2019 possa repetir igual afirmação e a coisa já não será má de todo…

Como registo final deixo uma imagem em que de forma humorada surjo com o compadre Lenine e outra da nossa mesa de ontem na Consoada deste Natal de 2018, com filhos, nora, neto e compadres.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

ALÍVIO!... A "RECAUCHUTAGEM" CONTINUA VÁLIDA!


Uff! Hoje mais um dia de grande alívio para este rapazinho por via de ter ouvido da médica que há já mais de um ano o vem vigiando, a preciosa informação resultante da análise ao resultado da TAC feita oito dias atrás que, para meu grande alívio, assim se expressou:

- Muito bem! Esteja descansado! Está tudo bem!


Caramba, grande alívio! Grande carga que saiu de cima desta velha carcaça que, não obstante nada sentir que fizesse prever qualquer complicação, a apreensão sempre existe porque a figadeira não dói ainda que algum apêndice maligno nela nasça.

Agora, se tudo decorrer consoante o previsto, só voltarei de novo a ser examinado pela radiologia lá para Abril, o que o mesmo é dizer que tenho licença por mais 4 mesinhos.

E, assim, semana a semana, mês a mês, vão passando os dias…

Sempre debaixo de vigilância contínua e na esperança que não nasça nova merda maligna, cá me vou aguentando, comendo de tudo com alguma moderação, sendo que o maior óbice resulta principalmente em não poder ingerir álcool…

Custa sobretudo um bocadito quando me encontro em convívio com amigos e eles mamam uns copos e… eu olho…

É a vida!...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

HOJE, DE NOVO, UM BELÍSSIMO REENCONTRO!


Hoje, logo pela manhã, um muito agradável encontro com um velho amigo, meu conterrâneo, que já não via talvez desde há 60 anos!

Fruto do Grupo que criei e administro na net relativo à minha terra natal, denominado CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE, foi possível e a exemplo de muitas outras idênticas situações, saber do paradeiro do velho amigo Manuel Coelho, rapaz que não via desde os finais dos anos 50 do século passado quando ele estava empregado no então “Café do Caixa”, na Chamusca e, eu, hospedado em casa de tios, ia passeando os livros pela então Escola Industrial e Comercial de Torres Novas.

Guardo da época a imagem do Coelho no café, rapaz brincalhão, sempre bem disposto, contando anedotas mil e partidas imensas que fazia a este e àquele com quem convivia alegre e francamente, sempre mais ou menos às escondidas do patrão e encontrei hoje na sua gratificante visita, neste Coelho já com oito décadas de idade, o mesmo espírito vivo, franco e de continua boa disposição e alegria de viver!

Em duas horas que passaram demasiado rápidas, rememoramos velhos tempos, recordamos antigos e actuais amigos comuns e mil e uma ocorrências das nossas vidas para trás vividas.

Mas o Coelho, ainda que mais velho, continua o mesmo rapaz na verdade e, até, como então, mantém a sua gentileza e cortesia de sempre bem expressa na forma como me cumprimentou hoje, passadas todas estas décadas sem me ver: 

- Olha como aqui tenho, de novo, o Victor com a sua sempre carinha de menino?!… - Eh! Eh! Assim mesmo.

Simpático, o rapaz! Simpático e... mentiroso!...

Um abraço forte, Coelho!

Um abraço e também uma viva saudação à net que proporciona estes tão agradáveis reencontros!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

GUERRA COLONIAL - UMA CHATA CRÓNICA


Esta velha fotografia que aqui anexo, em que surjo acompanhado do meu velho companheiro Joel Costa, amigo praticamente sempre presente no meu dia a dia dos tempos difíceis da Guerra de Angola nos anos 67 a 69 do século passado, provoca-me diversas recordações que aqui gostaria de registar, fazendo desde já a primeira, sendo que outras se seguirão.


A foto foi tirada no Muaco, pequeno lugarejo situado perto do Cazombo, na picada que nos conduzia a Lumbala, lá bem no interior do Leste angolano, no quadrado à direita, assim como que um apêndice, que sai do mapa na fronteira leste.

O nosso pelotão, de cerca de 30 homens, dava protecção aos civis da então Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA) que procedia à construção dos necessários aterros para acessos à ponte sobre o Rio Muaco (cuja denominação certamente daria o nome ao local onde estavamos) aterros de que careciam a respectiva ponte já antes erguida pela engenharia militar, sendo portanto o nosso trabalho proteger os trabalhadores e a maquinaria de um eventual ataque inimigo.

Alojados - alojados, é favor mas… enfim… -  em toscas barracas de madeira, deixadas pelos militares da engenharia, lúgubre e estranhamente pintadas de preto, possivelmente em aproveitamento de um qualquer resto de tinha adquirida para outros fins, ali dormíamos – ou fazíamos por isso… - em cima de umas toscas armações de troncos de madeira erguidas a 40/50 cms. do solo para evitar a mordedura de alguma cobra, lacrau ou outro qualquer outro bicharoco por ali em visita nocturna. Como o "estrado" não era minimamente liso tratamos de lhe colocar como "estrado de colchão” (?) uma chapa de zinco. Isso mesmo: uma chapa de zinco das que tinham sobrado da cobertura das barracas. Mas, acontecia que, como sabemos, essas chapas são onduladas e então houve que usar a imaginação para encher as partes côncavas da ondulação… Como fazer? Terra, suja e húmida, não. Óbvio. Por isso fomos às folhas das árvores e arbustos que abundavam na mata para além da pequena clareira onde se erguia o acampamento. Lembro-me que eram pequenas e verdes folhas, assim como que de mióporos, que serviram de estrado liso e fresquinho. Por cima colocamos uma manta e assim estava o “colchão” perfeito… Pois é… Não me canso de dizer que, nos dias de hoje, nenhum – nenhum! - militar português, soldado ou graduado, estaria disponível para passar o que passamos na nossa geração por via da guerra forçada!

Mas, avanço nas recordações daqueles difíceis dias:

Para além das barracas para os civis, tínhamos as dos militares sendo que duas eram para soldados e cabos, outra para furrieis e ainda outra para o alferes. A cozinha era mais ou menos ao “ar livre”… Um pequeno telheiro e nada mais.

Eu, como furriel, dormia com mais dois companheiros com igual posto: o já falado Joel e um velho amigo que nunca mais vi e que era meio “cacimbado”, de nome Abreu. Bom rapaz mas um nadinha nada louco… E ele ria-se quando lhe chamávamos “Abreu - O louco”…

Dessa colectiva dormida recordo-me de duas situações algo complicadas na altura e que agora, vistas à distância, considero patuscas (pelo menos uma…) A primeira resultou da situação de stress, ou talvez melhor dizendo, medo, medo com que ali vivíamos naquele fim do mundo, com fraca preparação e ainda mais fraco armamento, acontecendo por mais de uma vez que, ao virarmo-nos durante a dormida, as chapas de zinco faziam um natural e característico barulho e era ver, pelo menos por duas vezes, o amigo Joel, imaginando rajadas de metralhadora, mandar um salto para o chão e abraçar a amiga G3 que, fielmente, dormia a seus e nossos pés encostada à parede da barraca. Quando se lembrava onde estava, esfregava a cara e pedia-nos desculpa pelo cagaço... 

A outra situação…Bem, a outra situação é hoje patusca mas foi na altura deveras confrangedora para este escriba, ingénua e virgem criatura a viver situação absolutamente inédita…

Surgiram-me, nos denominados “países baixos”, uns indesejáveis, comichosos e arreliadores bichos de muitas patinhas e. este pobre rapaz, na altura a dormir com os outros dois companheiros, sentiu-se deveres constrangido…

Faleis-lhe francamente:

- Ó pá, estou tramado!... (bem, não falei bem assim, porque usei o apropriado e obsceno vernáculo…)

- Então? - pergunta um.

- Estou com uma carrada de chatos, pá! - confessei-lhes de imediato e acrescentei:

- Não me sinto bem a dormir com vocês assim e vou ter que ir depressa ao Cazombo para matar esta merda! Vou catando os gajos mas não dou vazão e continuam sempre a nascer, cada vez mais.

Eles foram impecáveis, não esqueço: jamais me apresentaram qualquer obstáculo por com eles continuar a dormir enquanto não tivesse transporte para a sede do batalhão e, ainda assim passei mais umas noites. Duas? Três? Já não me recordo mas recordo-me bem que, nem única vez, tanto o Joel, quanto o Abreu, manifestaram o seu desagrado pela situação. Foram impecáveis! Foram amigos!

E fui ao Cazombo, logo que pude…. E, chegado ali, procurei de imediato o Rosa, furriel enfermeiro amigo que de pronto me pediu:

- Mostra lá essa merda!

Visto o porco panorama, abre a boca e, entre espanto e, em lamento, confessa:

-  Ó pá, como isso está!… E com lêndeas!… E eu sem remédio para atacar os gajos… Vamos aplicar o que tenho: o spray para matar os mosquitos e as lêndeas tens de as catar…

- O quê? Uma a uma, Rosa?- pergunto estupefacto.

- Que remédio, Azevedo… Não há alternativa. O spray não acaba com elas.

E assim foi!… Teve de ser! … Durante um ou dois dias, várias vezes ao dia, atacávamos os danados dos bicharocos com spray das melgas e que, assim, pouco a pouco, foram sendo dizimados e o mais chato foi mesmo os “ovos” dos gajos… Tive de os ir catando. Catei, catei e, regressado ao Muaco, o catar ainda continuou por largo tempo…

E pronto, já chega de porcaria!… 

Fico-me por aqui, tanto mais que acabei por redigir numa chata narração uma porca crónica.

E prometo não voltar ao tema...

EM TEMPO - Muito depois de redigir e publicar esta crónica encontrei no meu Baú de Velharias uma outra foto também tirada no Muaco, que agora incluo no texto e onde podemos ver algumas das barracas pretas do acampamento, sendo que a nossa, a dos furrieis, era a que está à direita.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

EIS A NET DE QUE GOSTO!...

Ontem, na página do Grupo CHOUTO - NOSSA TERRA, NOSSA GENTE, relativo à minha terra natal, que há mais de um ano criei e administro no Facebook, dia a dia com mais e boa frequência (somos já mais de meio milhar! ) e, porque passava o 44º aniversário da morte do dr. Armando Cumbre, ocorreu-me assinalar a facto e, com a foto do saudoso médico que aqui anexo, publiquei o seguinte texto alusivo:

EFEMÉRIDE:
HÁ 44 ANOS MORRIA O DR. ARMANDO CUMBRE!
Nesta sequência de tristes ocorrências que ultimamente vêm enlutando os choutenses e seus amigos e de que este nosso espaço tem feito notícia, permitam que vos recorde hoje a passagem do 44º aniversário da morte do saudoso médico Dr. Armando Henrique Cumbre, ocorrida exactamente no dia 27 de Novembro de 1974.
Embora tendo nascido em Santa Eulália (Elvas) veio para a Chamusca com 23 anos, pouco depois de se formar em Coimbra e fez da nossa terra a sua terra, tendo-se tornado, após 47 anos do exercício da medicina no nosso concelho, um grande chamusquense.
De muita competência e experiência e de uma enorme grandeza de alma, fez da sua profissão um verdadeiro sacerdócio, atendendo os seus doentes no seu consultório na Chamusca e muitas e bastas vezes por todo o concelho, sempre com a mesma disponibilidade e sabedoria, a mesma gentileza e, em quantas, quantas dessas ocasiões, a expensas do seu bolso quer na deslocação e consulta, quer até em medicamentos, numa época em que a grande maioria das pessoas passava pela vida muito pobre e até mesmo muito curta.
Lembro-me de o ver muitas vezes pelo Chouto em consultas, quando eventualmente não tínhamos médico ou até mesmo porque o doente preferia o Dr. Cumbre e em deslocações até bem mais distantes como ao Gorjão, por exemplo. Deslocações sempre feitas , a qualquer hora do dia, da noite ou até da madrugada, por péssimas estradas e muitas vezes com más condições climatéricas, no exercício do seu verdadeiro sacerdócio!
Que o Dr. Cumbre descanse para sempre em paz depois de passar pela terra como médico competente, homem bom e um verdadeiro apóstolo, numa vida dedicada ao serviço da população do nosso concelho!
(Tempo atrás e juntando as pessoas do médico e do farmacêutico, lembrei no meu blogue os muito saudosos Armando Cumbre e Joaquim Cabeça, dois autênticos "João Semana" do meu tempo. Se tiver curiosidade a pachorra leia aqui: http://victor-azevedo.blogspot.com/2018/01/fruto-do-meu-habito-de-tudo-preservar.html )

Feita a publicação de imediato começaram a entrar significativos e concordantes comentários não só sobre a justeza das minhas palavras, que isso era o que menos cuidava mas sobretudo com testemunhos autênticos do que efectivamente foi o dr. Cumbre em vida, nos seus 47 anos de médico no concelho da Chamusca e, quanto a mim, o mais significativo e espontâneo testemunho, sem menosprezo para os restantes, veio tão de pronto que me sensibilizou de uma senhora minha conterrânea que se expressou desta forma (sic):

Ercília Duarte Foi o médico que me ajudou a nascer teve no Gorjão Zinho deste as 6 da tarde até a meia noite foi quando eu nasci ele era muito amigo com o engenheiro Augusto que era lá o dono e eles e que o vieram voscar e depois de eu nasce durmio em casa do engenheiro só foi para a Chamusca de manhã era um grande médico

E eu, que no texto tinha feito alusão às longas distâncias percorridas por más estradas pelo médico para assistir aos seus doentes, tendo mesmo recordado que me lembrava de o ver ir ao Gorjão, que fica para lá da minha aldeia e já não muito distante de Ponte de Sôr, no Alentejo, não pude deixar de me surpreender por de imediato surgir ali uma pessoa a quem o dr. Cumbre ajudou a nascer para o mundo no distante Gorjão, antes povoado com  habitantes suficientes para a sua escola primária e hoje despovoado, segundo julgo saber.

Muito sensibilizante!

Sensibilizante e curioso. 

Curioso como a net, quando bem aproveitada, proporciona o convívio entre os cidadãos e aproxima saudavelmente gentes e culturas.

Pena que nem sempre – e demasiadas vezes… - assim seja!...

terça-feira, 20 de novembro de 2018

RECORDAÇÕES...


A imagem que agora retirei da net mostra-nos algo com o seu quê de patusco e, sendo perfeitamente inviável de observar nos dias de hoje no meu Chouto natal, não o é todavia em alguns locais do interior do nosso pais e não é estranha sobretudo para quem como eu ali nasceu, cresceu e viveu em tempos de outrora…

Na verdade, lembro-me de nos idos anos 50 e inícios dos de 60 do século passado os carros de bois – bem como os de mulas e machos, a par de algumas bicicletas… - serem o transporte mais usual nas deslocações e transportes de pessoas e coisas.

Recordo-me até que, neste caso concreto do carro de bois, ele era o meio de transporte preferido de João Maia, então lavrador abastado na freguesia, proprietário do Casal do Anafe do Meio – chamava-se mesmo nessa época “Anafe do João Maia” – nos terrenos que hoje são propriedade dos seus netos e meus amigos José João e António José Maia.

João Maia, que era bem corpulento e obeso, passava muito do seu tempo sentado no solo, ou em baixo assento, quase sempre de pernas cruzadas, à sombra de uma frondosa acácia que existia junto de sua residência à beira da estrada que servia os Anafes e frente aos aposentos do Casal onde residia, recordando-me bem que as pessoas passavam e saudavam-no respeitosamente: "Bom dia, patrão Maia!". 

Acontecia então que João Maia com alguma frequência deslocava-se ao Chouto para bebericar e petiscar com os amigos da aldeia, fazendo-o quase sempre de preferência, se a memória não me falha, na taberna de Manuel Polidoro, onde hoje temos o Café Costa.

Chamava o boieiro que conduzia a viatura a pé na frente da junta de bois até ao Chouto pela então pobre estrada de terra que alguns pequenos riachos atravessavam a céu aberto sendo que, no retorno, com a noite a cair e, eventualmente, já com um "grãozinho na asa", o transportava de volta a casa, no seu Anafe do Meio.

Cenas e imagens antigas do meu Chouto. Desse Chouto que me viu nascer, me criou e apaixonou e que, quando me chegam, como esta de agora, expressiva e patusca, mais me aviva a memória de saudosas vivências passadas e nunca esquecidas…

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

IA EMBORA?... "É PROVÁVEL...” - DISSE A DOUTORA.


ONDE SE RECORDA A “RECAUCHUTAGEM” FEITA HÁ UM ANO


E então, no dia em que se completa exactamente um ano sobre a data em que, com evidente êxito, fui operado à minha pecinha das iscas, naquilo a que na ocasião chamei de “recauchutagem do fígado” começo a minha crónica de recordação sobre esse complicado momento da minha vida pessoal, trazendo aqui um pequeno retalho da também pequena conversa que há três dias tive com a médica que, tendo feito parte da equipa de cirurgiões que procederam à melindrosa cirurgia, tem tido a gentileza e sabedoria de me vir acompanhando com toda a atenção durante esse tempo decorrido.

Na falta do exame (TAC) por ela requisitado há 3 meses e ainda não realizado pelos serviços radiológicos do hospital público que a senhora doutora prefere em detrimento dos privados, perguntou-me:

- Mas sente-se bem, não sente?

Ao que lhe respondi:

- Eu sinto, senhora drª, mas costumo dizer, quando isso me perguntam, que também há um ano me sentia bem e… fui operado… Mas, não obstante e permita que lhe acrescente que, passado este tempo decorrido penso que se não me tivessem feito a cirurgia, já cá não andava...

Ao que a doutora, bem sabedora da realidade, respondeu de pronto:

- É provável!…

“É provável”, opinou a senhora e, convenhamos, ela bem saberá – e bem melhor que eu!… - porque assim pensa…

E é com esta convicção que é quase certeza que parto para mais um ano de vida pós operatório... O passado, apesar de tudo não foi mau de todo. Não foi, não.

Mas não desejaria ver repetidos aqueles momentos pós operação em que o mais complicado foi o internamento nos Serviços Intermédios com uns danados 5 dias e meio que pareciam não ter fim. Depois, na enfermaria e não obstante os contratempos surgidos, já foram bem menos aborrecidos. Agora, nos Serviços Intermédios? Não desejo a ninguém de tão chatos e mais que aborrecidos.

E é mesmo desse tempo que ali passei que hoje aqui documento com duas fotos tiradas pelo Nuno, meu filho, no 5º dia pós cirurgia. A 1ª foi a permanente vista que tive deitado na cama durante esse período. Um aparelho aos pés da cama, que muitas vezes apitava chato para caramba, bem como muitos outros pela sala fora e que enchiam os ouvidos noite e dia de pi,pi, pi e também um danado de um relógio de parede, ao fundo, para cujos ponteiros olhei milhares de vezes e os desgraçados não se mexiam…


A outro foto, também do mesmo dia tirada sem que eu me apercebesse, já surge aí o rapazinho, algo recostado, ingerindo creio que uma maçã cozida e ainda meio ligado a máquinas. De aspecto muito pouco recomendável mas… vivinho

Enfim, dias difíceis, quando não mesmo complicados mas que, com a minha velha calma fui suportando sem esforço de maior mas que, todavia, como é lógico, não desejo ver repetidos.

Veremos o que vai seguir-se e, continuando a contar os dias e os meses, espero por cá  permanecer mais um tempinho já que, por aqui é que se está bem.

E, se há outra vida melhor no além, como acreditam os crentes, eu não tenho essa convicção até porque, como sabemos, ainda nenhum dos que partiram retornou para contar como é a coisa por lá...

sábado, 10 de novembro de 2018

MINHA PESQUINHA DE TRALHA ARRUMADA


Depois de um ano de pesquinha totalmente atípico ou, até melhor dizendo, absolutamente inédito, em que não ferrei eficazmente um único “peixe de nome”, como diria o saudoso Carvalho, belo companheiro destas lides em tempos que lá vão e perante o mau tempo que desde há dias e que hoje principalmente se fez sentir, decidi arrumar a tralha por este ano. 

Por este ano acabou. A não ser que ainda surja atrasado o chamado “Verão de S. Martinho” e me desafie a dar mais um saltinho ao Alentejo para sustentar o vício…

Mas foi um ano desastroso na minha pesquinha e para isso muito contribuiu a grande seca de 2017 que fez com que muitas das pequenas represas e charcas secassem totalmente e, como já lá vai o tempo em que, sem as propriedades vedadas e fechadas, andavamos Alentejo fora de umas herdades para outras em busca das barragens que melhor dessem achigãs, o insucesso deste ano era inevitável.

Mas, em boa verdade, no meu caso pessoal, que tenho um dedicado amigo que me permite a pesca, facultando-me amavelmente a chave do cadeado da cerca na zona das duas represas, a circunstância de todas as propriedades agora estarem fechadas, esse problema poderia bem ser ultrapassado não fora ter ocorrido a secagem de uma das represas em 2017 e, a outra, em que esse inconveniente não aconteceu, julgo, penso que foi vitima da fome de Corvos Marinhos e Lontras que, devido à escassez de alimento noutros locais ali resolveram matar a dita, quase devorando todos os peixes que ali existiam em abundância. Anos atrás ferrei ali bons exemplares. Verdade, verdadinha.

Penso isso e, não fosse ter visto uma meia dúzia de achigãs de kg ou mesmo mais e ficaria convencido que aqueles “amigos” não tinham deixado um peixinho que fosse. Mas, não foi o caso e não tenho dúvidas que tem bons exemplares, embora poucos ou talvez mesmo muito poucos… No próximo ano se verá…

Só um! Só um bom achigã consegui ferrar numa manhã de Setembro de alguma neblina e de aragem fresca, estando o “menino” num pequeno recanto da barragem, com talvez meio metro de altura de água. Ferrei-o, corriquei e trouxe-o ainda a 3,4 metros de mim mas vinha mal ferrado e, com um salto fora de água, soltou-se para minha grande desolação. Foi bonito ver o bicho a saltar fora de água mas foi mais que mau o danado ter-me mandado ir dar uma volta… E, bem mandado, voltarei no próximo ano, com ele então mais grandão…


Pescador viciado é assim. Tem sempre paciência e esperança que... amanhã é que é… Eh! Eh!

Então, não ferrando peixes, num ou outro momento fui aproveitando para tirar fotos dos mais bonitos recantos da barragem e deixo aí uma delas onde surgem algumas das simpáticas vacas da manada de uma centena, minhas mansas companheiras de todos os dias e, também devo confessar, nunca me esqueci de dar um saltinho ao restaurante Paraíso da Mata, junto ao Lavre, onde o já velho amigo Fernando sempre me delicia com a sua boa comida de que destaco aqui, como exemplo, o super-gostoso Ensopado de Borrego, sempre espectacular de apresentação e sabor! Uma maravilha, mas também, com outros bons petiscos, responsáveis pelas ex-peles no rosto e não só, resultantes da cirurgia e da dieta, terem-se… eclipsado...  Eh! Eh!

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

CHEGARAM OS 74 E... UMA PRENDA BEM ORIGINAL!


E… é sempre a somar, chegando hoje aos 74!…

E dizia eu, quanto era criança e tinha 60 e poucos, que eles já pesavam… Tá bem, tá!… E agora?...

Bom, mas cá vou contando um a um , chegando à conclusão que a “recauchutagem” feita à figadeira há um ano atrás - fará dia 15 -, resultou em mais um aninho mais ou menos confortável. Não fora ela e talvez já cá não estivesse…

O dia foi o tradicional nesta data com a vinda desde a Beira Alta – agora danada de fria! - e depois o jantar com a família mais chegada na adoptiva Amadora. 

Mas, sem avançar mais quero desde já confessar quanto senti o frio nas terras beirãs. Depois da operação, por isso ou pela idade que avançou mais um anito, sinto muito mais frio do que sentia antes da cirurgia. E também no Verão não sofri tanto do calor como era habitual. Na próxima consulta com a doutora da equipa que me operou quero perguntar-lhe se esta sensação  tem razão de ser.

Mas voltando então à comemoração do aniversário ela serviu para alguns de nós nos deliciarmos com uma excelente e fresquíssima cabeça de garoupa cozida e, antes disso, tive uma prenda que apreciei muitíssimo pela originalidade e carinho com que foi idealizada e construída e de que aqui deixo uma imagem.

Ideia da minha nora, trabalho do meu filho e oferta do meu neto, encheu-me as medidas! Francamente!

Eu, tempos atrás, a pedido do Nuno, sem me dizer para quê, deixei-me fotografar com uma espécie de caixilho nas mãos e estava a léguas de imaginar tamanha criatividade! 

Gostei muito! Como julgo ser lógico.

Deixo aí a foto bem como uma já tradicional com o Rafael, que vai crescendo dia a dia e agora resta-me pedir e aguardar que venha mais um aninho se possível sem problemas de maior porque, convenhamos, já chega o que chega.

E assim, agora aguardando que de um  em um ano a licença se vá renovando para minha satisfação e certamente dos muitos familiares e amigos que me cercam e estimam, no que me dão muito prazer e gratidão!

E pedir o alongar da licença por mais um ano de cada vez não é pedir muito, né?