quinta-feira, 28 de outubro de 2021

ANTIGO COMBATENTE - CHEGOU O CARTÃO!


Diz o nosso povo que “vale mais tarde que nunca” e nisso penso e concordo a propósito da emissão do “Cartão de Antigo Combatente” - “Titulo de Reconhecimento da Nação” (que recebi há 2 dias) e das (poucas) regalias que o mesmo proporciona aos que, como eu, combateram forçados nas danadas das guerras de África.

Depois de há meia dúzia de anos atrás os governantes atribuírem a cada antigo combatente um Subsídio Anual de 150€, agora, com o cartão, surgem mais uma pequenas benesses em que a mais significativa é sem dúvida a gratuitidade de alguns transportes públicos.

Sendo de juntar a isto o não pagamento de Taxas Moderadoras nos serviços de saúde e igual dispensa de pagamento nas visitas a museus, vê-se como envergonhadas são as pequeninas regalias mas que, mesmo assim, devo confessar, aprecio e agradeço.

Pena que só agora, meio século passado sobre tão horrível período da nossa história elas surjam porque, entretanto, muitos foram os ex-combatentes que partiram e delas não beneficiaram…

Mas, enfim, tarde mas é um pequenina recompensa para quem, forçadamente, perdeu os melhores anos da sua mocidade, para além e sobretudo de ter arriscado a própria existência.

No meu caso – e depois de ano e meio por cá como militar antes da mobilização – foram 26 meses de muito esforço e sacrifício para além do risco vivido dia a dia naquelas paragens.

Escolhi duas imagens para melhor descrever e ilustrar esse difícil tempo de fome, sede, frio e medo. Medo sim porque, em certas circunstâncias só não sentiria medo quem fosse inconsciente ou irresponsável... Na 1ª, à direita, temos a ementa da pobre Ração de Combate que, durante 14 meses em muitas ocasiões me matou a fome no inóspito e longínquo leste angolano. À excepção do Leite com Chocolate, nada daquilo era comestível, pelo menos para o meu paladar. Mas comi quase sempre porque a fome apertava e, em alternativa, fora do quartel, como andei vários meses, só o... capim…

A imagem, à esquerda, diz-nos como foi diferente a estadia de mais 12 meses finais a uma centena de kms a Norte de Luanda. Aí, para além permanecermos em guarda a instalações (culturas e fabricas transformadoras) de grandes fazendas (cana de açúcar, bananas e palma) continuámos a sair e a fazer escoltas e patrulhamentos mas, sobretudo no caso das primeiras, feitas de Unimog e sempre em estradas asfaltadas, afastando-nos assim muito do perigo das minas. Mas, tanto numa zona, como noutra, a inseparável e fiel G3, jamais era esquecida ou ficava distante… E, em ambas as áreas ela passava a noite à beirinha da cama… A zona era muito menos perigosa do que a do leste mas, mesmo assim, havia que não facilitar...

Enfim, passou-se e, se no meu caso, felizmente aqui estou para recordar e eventualmente beneficiar algo das pequenas benesses agora anunciadas, outros infelizmente essa sorte não tiveram…

E, desses, pouco ou nada reza a história...


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

"CARTAS DA GUERRA"

Quis o acaso que, hoje, já no começo do dia (pelas 2,30 h), quando se completam 54 anos sobre a minha partida para a guerra, terminasse a leitura do livro “Cartas da Guerra”, de António Lobo Antunes que li numa penada, tal o interesse que me despertou.

E li numa penada porque, ao contrário de outras escritas dele, que li e que não me entusiasmaram, esta, tratando-se da publicação em livro, feita pelas suas filhas satisfazendo uma vontade da sua falecida mãe para que isso assim acontecesse depois da sua morte, contendo as cartas (aerogramas) escritas pelo escritor à então sua recente esposa, grávida na Metrópole, onde Lobo Antunes, (embora reduzindo a menos de um décimo os dramas e dificuldades vividas na guerra, como aliás também eu o fazia na correspondência que redigia…) descreve com realismo e saber a guerra vivida no leste angolano.

Li com vivo interesse as suas narrações, não só pela qualidade da escrita – excelente! - como também porque menciona lugares, paisagens, situações, costumes dos nativos, povoações, viagens e picadas, num rol de referências que me são familiares porque, embora 3 anos antes, também estive naquele longínquo leste angolano tendo ali permanecido mais de um ano a escassos 300/400 kms (o que para Angola é já ali…) na zona do Cazombo/Lumbala (Lobo Antunes sofreu as “passas do Algarve” um pouco a sul na área de Gago Coutinho onde, já no meu tempo, sabíamos haver “porrada de criar bicho”... ).

Foram lidas num sopro as mais de 400 páginas da edição e no final fiquei com pena de chegar à última tão depressa...

Belíssimo testemunho de uma vivência pessoal e idêntica a de muitos outros milhares de jovens portugueses que, na flor da vida, sofreram e em muitos casos perderam o melhor de si mesmos – a vida – por uma inglória causa que desde a 1ª hora se sentia estar perdida para que outros – uma escassíssima minoria de grandes proprietários de gigantescas fazendas com milhões de rendimento – abocanhassem mais e mais fortuna…

domingo, 10 de outubro de 2021

GUERRA COLONIAL - EXCESSOS

Por incrível que pareça e não obstante terem já passado mais de 50 anos, continuo nos dias de hoje periodicamente sonhando com tão difíceis dias vividos na Guerra Colonial entre 1967 e 1969, para além das lembranças que continuamente me afloram o espírito e foi assim que recentemente dei comigo a recordar os excessos de violência – bastas vezes gratuita e desnecessária, diga-se… - em casos de que tive conhecimento na hora, como o de uma “matança” gratuita (tenho mesmo um magnífico texto cedido por um amigo e camarada que a acompanhou dando-me a oportunidade de o publicar, coisa a que me recuso por o achar demasiado violento e mesmo sangrento…) e, noutros – ou mais correctamente, noutro – em que participei obrigado pelo meu superior. Na verdade, também eu fiz parte do grupo dos que estupidamente exerceram violência excessiva e desnecessária, se bem que, neste meu caso, bem fizesse ver ao alferes comandante das nossas forças que estava a lavrar num tremendo e desnecessário erro…

Aconteceu no distante e inóspito leste angolano. Coisa aí por volta de Abril de 1968.

Com meu pelotão, num total de aproximado de vinte e poucos homens, estávamos adidos (“hospedados”) nas instalações de uma Companhia do nosso Batalhão que não a nossa (localizada a mais 100 kms da nossa zona de acção) comandada por um Capitão, velho e experimentado cabo de guerra a cumprir a sua 2ª Comissão e que, não obstante a maquinaria que protegíamos no arranjo da picada operasse perto das suas instalações, sabedor e astuto como era, tratou de junto do Comando do Batalhão preservar o seu pessoal e “empurrar” eu e outros infelizes que, comandados por um militarmente ignorante e inexperiente capitão miliciano, mobilizado e arrancado das suas aulas de professor de Matemática, era como que um “pau mandado”, se não mesmo capacho, dos astutos militarões que comandavam as restantes companhias. Qualquer trabalho mais esforçado e complicado, lá avançavam os pobres coitados da 3ª Companhia, para além de, claro, o haverem instalado e aos seus subordinados, na zona mais complicada da área coberta pelo Batalhão…

No leste angolano, junto à fronteira com o Congo dávamos protecção militar ao pessoal civil e a duas máquinas niveladores que, munidas de grandes pás, aplanavam uma picada das suas irregularidades provocadas pelo uso e pelas grandes chuvadas muito habituais na zona quando, num determinado dia o alferes que nos comandava resolve chamar-me:

- Azevedo, tenho estado a observar e lá ao fundo da reta por vezes vejo alguns vultos a atravessar a picada nos dois sentidos: Congo – Angola e Angola – Congo. O Capitão pediu-me que uma vez que andamos cá por fora e na sua zona de acção lhe arranje um gajo ou outro, vivo ou morto e lhe leve porque fará um relatório como tendo sido trabalho dos seus homens e, sem sair do arame farpado, saca mais uns cobres para a sua Companhia.

Eu, francamente, fiquei meio aparvalhado com aquela conversa e contrapus:

- Mas, meu alferes, penso que não são turras a atravessar a picada. Os turras não serão tão estúpidos que, ouvindo as máquinas e em pleno dia, à nossa vista, resolvam passar ali. Penso que será gente que com suas famílias moram nos dois lados (Angola e Congo) e para eles não haverá fronteira. É o seu território e, de um ou outro lado tanto se lhes faz. Para eles, dois países é coisa que desconhecem e aí vivem com seus familiares e, naturalmente visitam-se, fazem a vida dos dois lados.

- Pode ser, mas não sei... - contrapôs-me firme e acrescentou: - O Capitão é um gajo porreiro, a nós nada nos custa e levamos-lhe um ou dois gajos e ele fará um relatório à sua maneira. Vamos embora fazer uma emboscada a quem vier.

Fiquei admirado com a ligeireza da aventura perigosa e desnecessária mas não tinha alternativa… Havia que obedecer.

Avançamos mesmo. Uma secção, comandada pelo outro furriel ficou de serviço à protecção das máquinas e do pessoal em trabalho e, com a minha e a dele, partimos para aquela coisa sem jeito e estúpida.

Emboscados dentro do capim bem alto no local, em linha com o trilho de passagem das pessoas, eu e o alferes ficamos nos extremos da formação, sendo que a dele ficou mais junto à picada, por onde alguém entraria vindo do Congo. Deu-me ordens para que o “premiado” com a vinda de um ou mais turras do seu lado desencadeasse o ataque, a que de imediato todos os restantes atacariam em força. Eu tive o cuidado de dar ordem aos meus soldados que só abririam fogo depois de eu o fazer e nunca antes e fiquei a rezar a todos os santinhos que o premiado com a chegada de vítimas fosse mesmo do lado do alferes…

Não esperamos mais de ¼ de hora e, por sinais, fico a saber que alguém se aproximava no outro lado. Levantei um pouco a cabeça e vi 3 pessoas (uma mulher na frente seguida de uma criança dos seus 9/10 anos e um homem com uma bicicleta pela mão) que, vindas do Congo e depois de atravessarem a picada, passiva e calmamente se aprestavam para entrar no trilho e… passados breves instantes a metralha forte, intensa e mortífera, fez-se ouvir: Tau! Tau! Tau!

Gritei para os meus rapazes que ninguém fazia fogo e eles obedeceram e, terminado o tiroteio, de imediato parti (partimos) para ver o “estrago”…

E que vi eu? Vi a mulher aos gritos a fugir em grande velocidade trilho fora no sentido que levava e, a meia dúzia de metros acocorada e chorando em gritos aflitivos de pânico, a pobre criança, implorava pela mãe. Aproximando-me peguei-a. Levantei-a, acariciei-lhe a cabeça e a face e pedi-lhe que não tivesse receio que não lhe faria mal. Dei mais 2 ou 3 passos e adiante encontrei a bicicleta caída, com uma cesta no suporte feita de cascas de árvores com duas galinhas a cacarejarem assustadas e, logo após, deitado por terra, gemendo muito, um homem de carapinha muito branca com a coxa da perna direita em mísero estado. Tão mísero e horrível estado que aqui me abstenho de o descrever... Assustador, dramático, muito grave, por demais horrível e dramático.

Quando cheguei perto já o alferes ali se encontrava de cara muito carrancuda. Olhou para mim, levou a mão ao quico que levantou coçando a cabeça, confessando-me:

- Azevedo, acho que já estou arrependido de me ter metido nisto…

O Azevedo não abriu a boca. O Azevedo não respondeu. Tem situações em que a boca fechada diz mais do que se se abrir…

A mulher que fugira regressou ainda muito assustada e receosa mas, não obstante, aproximou-se ficando horrorizada com o espectáculo. Virou de imediato o olhar e, pegando na criança, levou-a pela mão. E não mais as vi…

Então o alferes perguntou-me sobre o que achava de levarmos o homem ao destacamento militar mais próximo para ser tratado.

O aquartelamento ficava a cerca de 20 kms e as suas tropas não pertenciam ao nosso Batalhão e antes a um outro instalado numa vila perto (mais 20 ou 30 kms) na mesma picada.

Concordo, mas ponho em dúvida que o velho indígena, face ao muito sangue que perdia, não obstante o precário garrote que um soldado logo lhe fez com uma peça de roupa, se aguentasse vivo… O pobre tinha o destino traçado...

Meia hora depois, chegados ao destacamento, o alferes que o comandava aproximou-se de imediato e ouviu a explicação/justificação do meu alferes e acedeu a levar o pobre coitado à vila para tratamento, se bem que duvidasse que se aguentasse e rematou dirigindo ao meu alferes, comigo presente:

- Ó pá, mas gente desta, se eu quisesse enchia todos os dias várias camionetas. São pessoas que vivem e têm família dos dois lados e para eles não há fronteira…

O alferes olhou para mim. Eu olhei para ele e nada lhe disse.

E foi assim…

Gratuitamente! Estupidamente!...  

EM TEMPO – Na foto junta, tirada no local e no tempo, mais dia menos dia, onde ocorreu o episódio narrado na crónica, enquanto a água do cantil me mata a sede a indumentária dos soldados diz bem do calor que se fazia sentir. na época. Março, Abril e Maio são sufocantes, naquelas áridas paragens do leste angolano.

domingo, 3 de outubro de 2021

"SUA BENÇÃO, PAI!" - "SUA BENÇÃO, MÃE!"

Minha mãe, ao vislumbrar ainda que à distância a chegada de meu avô Gregório, largando um trabalho que estivesse a fazer ou suspendendo mesmo uma eventual conversa com outrem, sempre repetia, séria e, em boa verdade, solenemente, o mesmo interessante cerimonial:

Nesta foto, seguramente de 
antes de 1943, de que gosto
 muito, a minha ascendência  
 materna, com meus avós
 Maria do Rosário e Gregório
 Alves e as  4 filhas (Maria,
minha mãe, Beatriz, 
Domingas e Luísa)

Dava um, dois passos na direcção do progenitor, punha as mãos frente ao peito como que para iniciar uma reza, inclinava levemente o tronco para a frente em sinal de culto e cortesia e, respeitosamente, rogava-lhe:

- Dê-me a sua bênção, pai!

Obtendo de imediato a resposta:

- Deus te abençoe, Maria!

Vinda a minha avó Maria do Rosário (mãe e filha tinham nomes iguais) o cerimonial e as palavras de rogo eram idênticas mas, aí, nesse caso, na resposta tinha uma pequenina variante: Minha avó, por vezes, substituía-lhe o “Maria” por um familiar “rapariga”.

- Deus te abençoe, rapariga!

Vi estas situações milhares de vezes e sempre as mesmas me fascinaram pela religiosidade, pela solenidade e muito até pelo encanto que nelas sempre encontrava e tanto mais porque, ao contrário dos meus outros primos do lado materno, eu e minha irmã éramos os únicos netos que assim não tinham sido educados no cumprimento aos avós.

Manda a verdade que, se hoje me interrogo do porquê dessa diferença, não me recordo de alguma vez ter confrontado meus pais do porquê dessa desigualdade de educação mas, francamente, hoje, olhando para trás, creio ter encontrado a justificação

Sendo o pedido da bênção um cerimonial de raiz religiosa e conhecendo a vivência dos meus antepassados paternos e maternos, sobressaindo ainda a influência marital de meu pai sobre minha mãe em muitos aspectos e, neste caso vertente, na educação dos filhos, é bem provável que tenha prevalecido a vontade de meu pai.

Na ascendência dos lados de minha mãe (analfabetos e rurais, em que todo o tempo era pouco para cuidarem das terras e do seu cultivo) pouca prática religiosa tinham - até porque na aldeia muito pouco culto também havia para além da missa dominical a que uma vez ou outra assistiam mas, certamente, trariam doutras paragens de sua origem as suas raízes religiosas (da zona de Abrantes vieram para o meu Chouto natal para arrotearem terras) mas, já outro tanto não acontecia com o meu lado paterno…

Assim e embora reconheça que meu pai (vindo da vila, algo letrado para o comum dos cidadãos, comerciante) morreu católico praticante no melhor da palavra, isso só aconteceu a partir dos seus anos 50 de vida porque, até aí, se bem que sem qualquer hostilidade à causa religiosa e até com um excelente relacionamento com os párocos da terra, resultante do seu bom trato, da sua educação e cortesia, estava longe de ser um praticante convicto e essa situação só se alterou quando frequentou um Curso de Cristandade e, efectivamente, aderiu de alma e coração à causa religiosa e passou a ser um bom praticante mas, valha a verdade que se diga que a religião foi avessa à sua formação enquanto criança e jovem.

A mãe (minha avó Adelaide) não morria muito de amores pelos padres e o marido (meu avô José Azevedo) era por demais hostil à religião e se não veja-se o celebre caso do “desaparecimento” do S. Francisco, na Chamusca, história que já narrei aí no meu blogue anos atrás (http://victor-azevedo.blogspot.com/2011/04/avo-adelaide-e-o-s-francisco.html) quando, no distante tempo do governo de Afonso Costa, avesso à religião, com a ajuda de um amigo fez desaparecer do templo a imagem do santo, imagem que enterraram num quintal junto ao pé de uma oliveira e que só foi descoberta 50 anos volvidos, já com eles falecidos mas com minha avó viva. Avó Adelaide que de tudo sabia mas que nunca o desvendou, possivelmente por compromisso assumido perante o marido.

Portanto, tendo esta ascendência paterna é bem provável que ela tenha influenciado a educação do pequeno Victor e sua irmã Adília e daí nunca terem exercido essa forma bem interessante e mesmo solene do “Benção, pai! Benção, mãe!”

Mas devo confessar que tenho pena!…

Era bonito, era educado, era respeitoso e cimentava carinho e espírito de corpo entre pais e filhos e até entre avós e netos.

Mas, como tudo assim, acabou...

segunda-feira, 20 de setembro de 2021


Coimbra, 13 de Abril de 1943

 Posso então sair amanhã?

- Pode. Um pequeno passeio a experimentar.

- Não. Se ponho os pés na rua, vou direita à Rainha Santa pagar a promessa que lhe fiz.

- Ah! Fez-lhe uma promessa?

- Então a quem é que me havia de apegar, na aflição em que me vi?

- Evidentemente…

E desci as escadas atordoado, já sem saber se fora eu que curara aquela criatura da sua labirintite, ou se teria sido, de facto, a mulher de D. Dinis.”


(Diário II

Miguel Torga, médico, poeta e escritor.)


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

MÁS NOTÍCIAS - AVANÇA A IV "RECAUCHUTAGEM"!

Vinda da parte do sr. dr. que sabe da matéria como poucos, acaba de chegar a notícia que, como é bom de imaginar, abanou um bocado com a minha “caixinha dos pirolitos”: há que fazer, breve, nova quimioembolização e eliminar mais um “brinco” criado na “pecinha das iscas”.

Novo internamento que, a exemplo dos anteriores, possivelmente será curto (2, 3 dias) e novas dores e preocupações para este sofrido rapaz…

Assim, de tratamento em tratamento, e enquanto a ciência e o saber dos homens o permitir, aqui vou adiando mal maior.

Felizmente no dia-a-dia sem dores (a “traição” destas doenças ditas silenciosas, não sendo desagradáveis porque não doridas, são por de mais graves e perigosas), com a organização e os prestimosos e graciosos serviços de SNS, cá vamos controlando esta encrenca que me atingiu e que há já 4 anos me mantém em contacto permanente, com médicos, hospitais, consultas, exames, medicamentos, etc.

Mas há que olhar em frente e seguir o parecer e saber da ciência e dos homens e mulheres que muito estudaram e muito sabem.

É o que faço no dia-a-dia.


domingo, 12 de setembro de 2021

...E O APRENDIZ VAI EVOLUINDO...

Com a permissão de pescar numa nova herdade onde me facultam a entrada e onde sabia de um bom local com achigãs, julguei ser o momento certo para fazer o meu Rafael iniciar-se na pesquinha de tão desportivo peixe, largando a cana, o asticô e as malucas perquinhas que, sendo fáceis de fisgar, entusiasmam, divertem mas não passa disso e não é pesca que se veja. Não resolvem.

Ora, a pesca ao achigã é coisa totalmente diferente e, por isso, o meu desejo de ensinar o netinho a iniciar-se nesse passatempo/desporto que, ao longo dos anos tanto prazer e bem-estar me tem proporcionado.

Não sendo aconselhável entretê-lo com isso no período das aulas, só nas férias o costumo levar e, este ano, com ele com outra idade e com o novo local de pesca (um pequeno açude em propriedade fechada e por isso bem “recheado” de verdinhos), entendi ser o tempo e o local ideal para o iniciar nesta belezura que me apaixona e dá saúde porque vivo em contacto com a natureza, respiro ar puro e, melhor ainda, em tempos conturbados, aliviou-me a cabeça e fez-me esquecer preocupações e dificuldades surgidas.

Ontem foi a 2ª lição e desde os primeiros instantes, observando-o, logo verifiquei como tinha evoluído no trato da cana, do carreto e da linha com a respectiva amostra artificial, manejando o conjunto com mais destreza e os resultados não se fizeram esperar: para além de vários peixinhos com 100/200 grs naturalmente em crescimento para um dia nos deliciarmos com umas boas ferragens, o meu aprendiz fisgou mesmo um grandolas que, pesado ali mesmo por curiosidade, mostrou-nos 0,750 kgs. na balancinha de bolso.

O Rafael ficou admirado e algo surpreendido, como é natural e, o avô confessa, francamente, que ficou ainda mais satisfeito por ver o neto sacar um bichinho daqueles das águas - muito mais satisfeito! - de que se tivesse sido ele próprio a ferrar aquele bonito achigã.

Proporcionou-lhe, estou certo, mais entusiasmo, maior prazer e, naturalmente, maior vontade de continuar na prática de tão salutar desporto em que agora se inicia.

Para a posteridade fica aí a imagem do Rafael com o bonito achigã junto à pequena represa e a convicção que, pouco a pouco, ainda mais familiarizado com os apetrechos da pesca e com outro à-vontade com as “chatas” situações que se vivem nestas jornadas no campo e no mato (segurar peixes vivos, mato, silvados e ramagens, calor e, sobretudo, as muitas e chatas mosquinhas de Verão que não largam lábios, olhos, orelhas de um indígena, sobretudo depois de manusear um peixinho...) ele continuará evoluindo e, a exemplo de ontem, bastas vezes o “aprendiz” fará ver ao “mestre” como se pescam achigãs...


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

MORREU UM SENHOR


Após internamento hospitalar de alguns dias, morreu hoje de manhã o Dr. Jorge Sampaio, antigo Presidente da República e com a sua partida deixa-nos um homem integro, simpático, educado, amante de causas e humanista convicto e actuante, de trato muito afável e por isso bem agradável no convívio com o seu semelhante!

Com um percurso de vida absolutamente notável e gratificante de cidadão, pai de família e político foi, desde estudante universitário nos regimes ditatoriais dos Drs. Oliveira Salazar e Marcelo Caetano, em que se fez notar como lutador primeiro e, depois, já como advogado, gracioso defensor jurídico dos então presos políticos a, já Presidente da República, por voz e actos corajosos e importantes, apaixonado defensor da causa do na época chamado Timor Leste que lutava por ver reconhecida a sua independência com separação da Indonésia invasora. Com muita coragem, nas instância superiores e na imprensa internacional Sampaio abraçou a causa de que felizmente sairia vencedor.

Humanista, era um homem de grande franqueza e coluna direita e ficou na memória de muitos a forma corajosa como, em plena campanha eleitoral para a presidência da República e perguntado, talvez com segundas intenções, se era religioso e praticante, respondeu de pronto que era ateu, indiferente às consequências que isso acarretasse na votação e perante o alarme dos seus membros de campanha que entendiam que, com essa confissão, as eleições estavam perdidas. Afinal viria a vencer, tendo como resultado uma maioria absoluta.

Com a morte de Jorge Sampaio Portugal fica mais pobre porque perde um grande homem, uma boa pessoa e um grande senhor na política e na vida.


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O "PRIVILÉGIO" DE UMA "CARÍCIA"...

Uma simpática destas "asiáticas" da imagem, ou qualquer uma outra  da sua desgraçada família, resolveu esta manhã, na hoje demasiada esquentada Beira Alta, fazer uma “carícia” a este pobre septagenário, exactamente no indicador da sua mãozinha direita.


A gaja, enorme, ainda levou um sopapo que, todavia, não a liquidou (rija, a bicha!) e voou de imediato para ir "acariciar" nova e descuidada vitima.

Uma dorzinha danada e um progressivo inchaço, para além de um ardor e comichão muito pouco recomendáveis e aqui está este pobre coitado de mão meio redonda que nem tripa de chouriço soprada até ficar meio esférica...


Palavra que, pela experiência sentida e, agora, no presente ainda bem vivida, é prova que não se recomenda minimamente. Assim como a picada de uma abelha comum mas, neste caso, feita com um fueiro de carro  de bois, dos usados antigamente na minha aldeia. 


E, pronto… Agora, se calhar incha, incha, desincha e passa.


Se é que não exigirá futura deslocação a tratamento extra especializado...

sexta-feira, 11 de junho de 2021

VELHOS NACOS DO MEU CHOUTO ANTIGO (5)


PRODUÇÕES AGRÍCOLAS E SUAS SEMENTES

No prosseguimento do hábito de periodicamente visitar as velhas cartas e aerogramas que recebi nos recuados anos de 1967 a 1969 em que na guerra de Angola me correspondi com um considerável número de familiares e amigos, fiz  nestes dias mais uma pequena incursão nesse arquivo e encontrei uma missiva cujo conteúdo, pelos termos usados, quiçá invulgares nos dias de hoje, entendo adequado incluir no que anos atrás designei de “nacos” que aqui venho redigindo e publicando e que se prendem com narrações mais ou menos curiosas relativas aquele período na minha aldeia, no interior da charneca ribatejana.

Ao contrário dos anteriores “nacos”, que foram retirados de correspondência de meu pai, este vem de uma carta escrita por um velho amigo, Estêvão Lopes de Matos de seu nome de baptismo mas em vida conhecido por Estêvão Maia, dono de uma propriedade agrícola na freguesia que administrava e da qual vivia economicamente com sua família. Homem educado e de bom trato, havia sofrido já em adulto uma pequena perturbação mental que o caracterizava e que o acompanhou até ao fim dos seus dias mas que, com mais um menos eficiência não impedia que administrasse a sua casa agrícola, tanto mais que os filhos, à medida que iam crescendo também colaboravam nessa administração, numa administração que, como comprovamos pelo “naco” desta carta, bem dá para ver que ele controlava.

Fazia favor de ser meu amigo e com ele sempre tive excelente trato, num hábito quase diário de muitos anos porque com muita assiduidade frequentava a casa de meus pais certamente por estima e dedicação e, daí, tê-lo incluído no vasto grupo de amigos com quem trocava correspondência no período de estadia em Angola. 

Ao longo dos 26 meses de guerra foram várias (talvez perto de uma dezena) as cartas trocadas com o sr. Estêvão Maia, que sempre me respondia com pormenorizada escrita e, se na maioria, como afinal se passava com os demais correspondentes, os assuntos abordados eram sobretudo de caracter pessoal, por vezes, num ou outro caso, como o  que hoje elejo, surgiam abordagens que iam além disso e, eventualmente, bem poderiam interessar a outras pessoas.

É o caso do “naco” que aqui deixo onde o amigo Estêvão Maia dá conta do rendimento das suas sementeiras, colhidas no Verão de 1969, usando termos que então se usavam mas que caíram totalmente em desuso, até porque, na freguesia, antes tão cultivada e produtiva, hoje não temos um cultivo e uma produção digna desse nome.

Embora reconhecendo não ser pessoa habilitada na matéria, julgo todavia não estar errado quando deduzo que, quando são referidas as “sementes” e o seu rendimento quererá dizer que, por cada kg de semente, resultaram x kgs de produção.

Para a eventualidade da caligrafia acarretar dificuldades de leitura, fica a sua “tradução” com naturais correcções gramaticais:

“Agora, cá pelos nossos Anafes (designação da localização da sua propriedade) já se vão fazendo as nossas colheitas de pão pragana, deu poucas sementes; trigo deu 5 sementes e meia; centeio, 3 sementes; aveia, 6 sementes; cevada, 2 sementes. Agora temos os nossos milhos na eira, que dão qualquer coisa mas também não dão tanto como os patrões precisam para recompensar as despesas que o patrão tem. Ainda se salvam melhor os seareiros porque têm menos despesas e quase todos fazem o trabalho pelas suas mãos e seus próprios braços; o nosso arroz, vamos ver como se porta o tempo, para que haja boa colheita e boa produção.”

E que o saudoso amigo Estêvão Maia descanse em paz!

segunda-feira, 24 de maio de 2021

BOAS NOTÍCIAS - III "RECAUCHUTAGEM" FOI EFICAZ!


“As lesões surgidas foram eliminadas!”

Estas palavras bonitas e mais que agradáveis, ouvidas hoje da boca do doutor que há anos me acompanha nesta malfadada maleita na figadeira que me incomoda, soaram-me como que um hino aos ouvidos e aos sentidos.
 
Disse-o observando o resultado da TAC efectuada 4 semanas depois da quimioembolização de 19 de Abril e provocaram-me o alívio e o prazer que se adivinha.

A ansiedade e até preocupação em saber se a eficácia teria sido plena e se tenho futuro por mais um tempinho, parece-me lógica e natural e, ouvir de quem sabe, que a coisa funcionou e está debelada ainda que temporariamente, trás algum sossego por mais um período de tempo que irá até novo exame.

Mas ainda bem que assim foi porque este último tratamento foi por demais doloroso e difícil e assim esta boa notícia soa como que a uma recompensa pelo momento vivido.

Seguir-se-ão novas intervenções e, certamente, novas dificuldade mas, há que ter calma e paciência, coisa a que, feliz ou infelizmente, já me habituei.

E, depois, depois se verá... 
  

segunda-feira, 3 de maio de 2021

AS "HABILIDADES" DO GARCÊS

 A pobre Maria de Deus bem que se lhe lamentava todos os dias e a todas as horas:

- Manel, não tenho um pó de café, um grão de arroz, uma côdea para dar aos cachopos… Nem dinheiro, pouco que seja, para ir à loja do sr. António, dar algum para baixar no rol e trazer mais qualquer coisinha para calar o choro dos miúdos…

Manuel Garcês ouvia, bem sabia que assim era mas também conhecia a realidade: por toda a freguesia de grandes propriedades, os lavradores tinham já os seus trabalhadores contratados ano a ano e restava aos que dessa situação não viviam, estar pelas tabernas da Choça aos domingos de tarde na esperança que um patrão surgisse e acordasse com quem escolhesse pela sua vitalidade um diazinho ou dois de jorna. Todavia sobre ele corria já na Choça uma certa suspeita de que tinha como que um íman na ponta dos dedos das mãos e, por isso, a escolha pelos seus serviços nem sempre era a mais desejada... Havia quem tivesse receio. Valia-lhe então o fraco “gancho” da Junta com quem acordara o pequeno compromisso de todas as noites acender os pouco mais de meia dúzia de candeeiros a petróleo da via pública, coisa que lhe trazia pouco proveito ao fim do mês, a que juntava o escasso ganho de uma vez ou outra abrir no cemitério da terra a cova para sepultura de alguém que partira desta para melhor. Mas, mas era proveito de pouca monta. Um, dois mortos por mês se tanto e já era muito.

Assim, ao Manuel Garcês, homem para mais introvertido e de poucas falas, restava-lhe aceitar de vez em quando a realização de um ou outro biscate de meio-dia, um dia, numa horta vizinha a semear ou arrancar umas batatas, plantar umas couves, semear uns feijões e pouco mais.

Embuchara a companheira por 4 vezes e ao longo dos dias ouvia-lhe agora os lamentos, numa situação que ele também bem sentia, de não ter a massa, o arroz, o feijão com que desejava encher e aquecer os estômagos do pequeno rancho de filhos… Os vizinhos viam a situação e ajudavam um pouco era verdade mas, como eram igualmente pessoas de parcos recursos, a ajuda amenizava um pouquinho o problema mas não o resolvia.

Foi então que o Garcês começou a ponderar e a estudar a forma de arranjar algum proveito com pouco trabalho…

Precisava de azeite, feijão? Sabia onde os encontrar e não seria muito difícil, entendia. Verdade que havia dois cães que, à solta pelo Casal faziam a sua guarda mas os animais conheciam-no, ele sabia os seus nomes e, com a ajuda de uma pequena côdea que levasse no bolso, rapidamente dariam ao rabo e o percurso ficaria livre…

E se o pensou, rápido o executou.

Numa fria, chuvosa e negra madrugada de Inverno, na sua residência a meio do quarteirão da rua, José e Maria algo extenuados pelo tentar aliviar umas colicazinhas do seu pequeno rebento de berço, procuravam no leito pegar no sono quando Maria começou a ouvir, no silêncio da noite, os passos pesados e firmes na calçada de alguém que, rente à sua janela do quarto, iria a passar…

A mulher tocou levemente em José, que entretanto pegara no sono : “Zé, escuta!...”

O marido escutou, ouviu os pesados e encharcados passos que se afastavam em direcção ao cimo da rua e logo palpitou:

- Olha, não a vai fazer, já a fez!...

E logo pela manhã, na pacata aldeia da Choça, se ouviria a notícia: 

- Assaltaram o celeiro do Casal do Onofre de Baixo e roubaram 2 alqueires de feijão branco, 2 alqueires de feijão frade e 2 garrafões de azeite!

Maria de Deus não aprovava mas resolvera calar-se e nem ao marido contestar: sendo mau e feio, bem mais lhe custava ouvir os choros dos cachopos de barriga vazia. Era feio, estava mal, mas…

Nos dias seguintes falava-se, falava-se no assalto mas, pouco a pouco tudo a água do ribeiro levaria e seria passado.

Correram os dias e as semanas e o Garcês, atento ao “diz-se, diz-se” acha que deve parar, esperar que a água do ribeiro leve a “enxurrada” e, para além de uma covita ou outra em que os seus serviços eram requisitados no cemitério, ao cair dos dias prosseguia no seu ritual de, escada às costas, candeeiro ali, candeeiro acolá, petróleo no depósito e chama na torcida. Uma vez ou outra - vá lá saber-se porquê?… - um pouquinho menos de combustível no da esquina da loja do sr. António no largo principal da aldeia e nada mais digno de nota.

Nada mais, não é bem assim… Na realidade Ti Barnabé, quando pelas 5 da matina passava pelo largo a caminho de ordenhar as ovelhas já uma vez ou outra notara e diria ao sr. António:

- Quando ao romper do dia vou para o bardo ordenhar as ovelhas, já tenho reparado que o candeeiro ali da rua está aceso, o da padaria também e o da Rua da Nascente igual mas, por vezes, o da esquina da tua loja, já está apagado.

O sr. António ouvia o reparo uma, duas ou três vezes mas, como à meia-noite fechava, ia para casa e via o candeeiro de pavio aceso, pensava numa qualquer distracção no abastecimento dessa tarde e depressa esquecia. Coisa sem importância.

Tratava-se da única mercearia da aldeia. Sempre muito abastecida e bem recheada, fundada e gerida pelo sr. António e depois também pelo filho Zé, feita que foi a sua 4ª classe e que, embora ainda rapaz, já mostrava queda para o negócio, tinha considerável clientela, se não mesmo muita e com o pequeno café contíguo, ligados por passagem de serviço no seu interior, situada em destacado quarteirão no largo principal da terra, era o mais considerável comércio da pequena aldeia. 

E a vida da pacata Choça, numa terra onde nada acontecia, decorria sem novidades de maior, sossegada, calma. Homens e mulheres trabalhadores rurais labutavam todos os dias agarrados à enxada, à foice, à picareta e à pá e, chegados ao lar, quantas vezes noite fechada, era a ceia para tratar, os miúdos para cuidar e a cama para repousar o maçado corpo. E, no dia seguinte, idem-idem, aspas-aspas, num ritmo só  quebrado aos domingos, em que o merecido descanso lhes era permitido.

O sr. António, dia a dia ia flanqueando as portas da sua loja, fornecendo o arroz, o açúcar, a massa, o feijão e o café e, num hábito já tornado obrigatório, tudo ia para o rol. “Assente, sr. António! Assente!” Ele isso sabia e também sabia que, finda a semana, recebidos pelo trabalhador os magros escudos da semana devida, ele ali se dirigia, mandava apagar ou abater no rol e a cena seguiria para novos capítulos. Habitual, costumeira, tradicional, calma e séria.

Tudo, assim, pacatamente decorria quando, subitamente e depois de sem surpresa abrir a porta do estabelecimento, para seu espanto encontrou a lata do café em pó destapada, de tampa ao lado, destapada e com algum café vertido sobre o balcão e, para sua nova surpresa, viu que havia também derramada do grande gavetão uma porção de açúcar, igual derrame no gavetão do arroz e até no do feijão encarnado... 

Chamou o filho:

- Zé, como raio verteste este café e deixaste ontem a lata por fechar? E como verteste para fora dos gavetões tudo isto que aqui vejo?

O Zé, estupefacto;

- Eu, pai? Eu não fui. Juro!

Calou-se, observou melhor à sua volta e depressa entendeu que havia recebido a visita de um “rato” noturno. Mas como, se a porta estava fechada à chave, língua corrida, sem nada que provasse o arrombamento? Intrigante. Intrigante, sem dúvida. Disse ao filho que se calasse, ficasse com se nada tivessem reparado e no futuro logo se veria… 

Mas o sr. António contou pelo menos à esposa e mais um familiar chegado, dando a mesma recomendação de sigilo. Desconfiava na verdade do Garcês mas… não tinha provas.

O nosso “rato” deixou passar a onda, esperou que tudo esquecesse e, passados um meses, sem que os lamentos da sofrida Maria de Deus abrandassem com a visão e o sentir dos filhotes implorando comida, o seu companheiro pensou para com os seus botões:

- Mas, para quê ir e vir tantos metros rua abaixo, rua acima se, aqui, ao virar da esquina, está o celeiro onde o merceeiro António guarda os stock mais vastos e pesados e que, pouco a pouco, na medida das necessidades, vai levando aos poucos para a loja? É só andar meia dúzia de passos, dobrar a esquina e fazer a “colheita”…

E, tendo esperado por noite escura, abriu com a habilidade que adquirira a fechadura da pesada porta de madeira, serviu-se de farinha e azeite, o que mais ali armazenado lhe convinha e, sorrateiramente, saco às costas e vasilha na mão, deu a volta à esquina e, segundos depois, estava em casa.

Tudo parecia ter corrido pela melhor forma mas, todavia, não reparara numa pequenina/grande falha cometida: ao mudar a farinha de um saco para outro derramara uma considerável porção e, para agravar a falha, igual derrame acontecera quando retirava o azeite da grande talha que, por mor das suas dimensões não poderia levar às costas e, por isso, retirara uns quantos litros para uma vasilha que por ali encontrara. Retirara mas, desastradamente, uma boa porção vertera para o chão cimentado.

A farinha com a mistura do azeite formara uma papa que o nosso homem inadvertidamente pisou várias vezes, tendo saído sem se aperceber do rasto deixado. E o rasto era um “carreirinho” direitinho, direitinho à porta da sua habitação…

No dia seguinte, pelas 9 horas, António a caminho da loja para a abrir ao público, porque forçosamente passava pela frente do celeiro, deu-lhe um baque no coração quando viu o surpreendente espectaculo das pegadas brancas de farinha e azeite na calçada, dobrarem a esquina e seguirem direitinha para a porta do vizinho Garcês…

Não! Assim, não! Era demasiado! Abusivo, descarado, ofensivo, muito ofensivo!

Mas o sr. António não foi pedir explicações, não. Pensou: Enervar-se-ia muito, seria ofendido, sairia a perder. Mas o assunto desta vez não poderia ficar assim, sem consequências.

Era um dia, de dois da semana em que a patrulha da GNR visitava a Choça e ali pernoitava. Esperou que chegassem e de imediato lhes apresentou a queixa. Os guardas logo decidiram que de imediato iriam ao local em busca dos géneros mas o sr. António pediu-lhes que não o fizessem. Horas antes tinha caído uma chuvada, o rasto já pouco se notava, aquilo era uma miséria pegada e de pouco adiantaria. Pretendia apenas que o chamassem, lhe dessem um valente “aperto” e podia ser que o homem parasse em definitivo com as suas visitas noturnas.

Foi o que fizeram. Chamaram  o Garcês ao posto que começou por negar tal façanha mas, posto ao corrente do que os guardas sabiam sobre o rasto deixado, testemunhas do mesmo e tanto mais que ele próprio já notara que tinha uns pequenos restos de massa branca em redor das solas das botas, calou-se de imediato. Confessou o roubo e ouviu das autoridades a natural sentença: que nunca mais lhes surgisse qualquer queixa dele mexer em coisa alheia. Se tal sucedesse teria a certeza que passaria umas noites atrás das grades.

O nosso Garcês ouviu, compreendeu a ameaça e decidiu que, das suas “habilidades”, não mais se ouviria falar. 

E assim aconteceu ao longo do tempo, não havendo dúvida que a lição lhe tinha serviço de emenda.

Mas, - nestas coisas há sempre um “mas”… -, uma bela manhã quando o sr. António e o filho Zé se apressavam para abrir a pesada e velha porta de madeira do estabelecimento, usando a comprida e volumosa chave de ferro castanho, barraram com a dificuldade de fazer recolher a língua da mesma. A chave entrava sem problema, dava ¼ de volta mas... parava ali e não recolhia a língua. Insistiram, insistiram, foram buscar uma chave de fendas que introduziram na ranhura da fechadura, pararam alguns vizinhos passantes e tentaram ajudar mas... nada. A danada da língua não recolhia e não flanqueava a porta.

Já desesperavam pai e filho quando, subitamente, António ordena aos presentes:

- Esperem. Não forcem mais. Vou ali e já resolvo o problema.

Dito isto, o sr. António vira costas e segue calçada fora até ao cimo da rua onde desaparece. Todos se olham curiosos na expectativa do que iria ele fazer para solucionar a questão?…

Eis quando, passados curtos minutos, o veem surgir acompanhado do Garcês que, de passada algo lenta por mor da “quebradura” que ultimamente lhe provocava forte inchaço no baixo-ventre e lhe dificultava os movimentos, vinha em auxílio do comerciante.

Garcês chegou, tirou do bolso um pequeno arame, pediu que lhe passassem a chave de fendas e que se afastassem um pouco; operou escassos instantes com a chave e o arame, introduziu a chave de ferro na fechadura e... fez correr a língua. Abriu a porta.

Todos se olharam pasmados da facilidade mas, Garcês nem os mirou. Virou costas e, passo lento retornava já em direcção à residência, quando o sr. António o chama:

- Manel? Espera aí homem. Quanto te devo?

- Não deve nada, sr. António.

- Não? Está bem. Mas, olha, só um pequeno acordo vamos fazer: de hoje em diante estás dispensado de acender aqui este candeeiro da esquina da minha loja. Eu mesmo trato dele e vou falar dessa nossa combinação ao presidente da Junta. De acordo?

- De acordo.


NOTA FINAL – Nesta crónica os factos narrados são fruto da criatividade do seu autor pelo que, qualquer semelhança com um eventual realidade, resultará de uma mera coincidência.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

"III RECAUCHUTAGEM" NÃO FOI "PERA DOCE"

Dolorosa e mais que desagradável esta 3ª intervenção na “pecinha das iscas”, ao contrário do que seria espectável tendo como lembrança ainda bem viva o idêntico tratamento (quimioembolização) realizado há um ano que, em comparação com este, foi uma então uma verdadeira brincadeira.

Efectuado como o anterior com anestesia local este, desta vez, foi bem mais doloroso, angustiante – dores, náuseas e mal estar danados… - e, por isso, super-chato. E se a tudo isto juntarmos o “rescaldo” que demorou e ainda decorre umas sofridas 48 horas passadas, dá para calcular quanto desagradável foi. E está a ser...

Mas passa-se – e, curioso, como o do ano passado, decorreu o internamento durante as iguais 45 horas – e, agora, haverá que olhar em frente, suportar o rescaldo de toda a sofrida odisseia – será odisseia ou “sentença”? - recuperar forças e ânimo e seguir em frente porque, como diz a nossa gente, “dos fracos não reza a história”.

Não que eu tenha a pretensão de ficar para a história – seria presunção ridícula, se não ultrajante... – mas tão só porque, já que cá ando e enquanto tiver “licença” para continuar a pisar a terra, o pretenda fazer com algum sentido e alguma validade. Pouca, muito pouca, mas será a que me for possível criar, manter e, se possível, preservar. Numa existência que nem a de um minúsculo grão de areia que junto com muitos outros ajudem a formar o areal, louro e alvo da praia. Da praia da vida.

Mas que isso aconteça com muitos poucos momentos como o do passado dia 19 que não foi “pera doce”, não.

Enfim…

É a vida...

sexta-feira, 2 de abril de 2021

CORONAVÍRUS - TOMADA 1ª DOSE DA VACINA PFIZER!

Ao contrário da opinião de bastantes pessoas com quem conversava há um ano, aquando do surgimento do chamado Coronavírus, que afirmavam que levaria anos a ser criada e testada uma vacina que prevenir-se e combatesse a terrível pandemia que se anunciava a nível global, sempre pensei de forma diferente e sempre afirmei que logo, logo, teríamos aí a desejada vacina.

Como é lógico não tinha qualquer conhecimento extra e falava pensando apenas nos enormes avanços da ciência médica e medicamentosa das últimas décadas – avanços e saber que, por triste casualidade, recentemente tenho vindo a comprovar no tratamento da minha figadeira… - e também porque, prevendo a enorme encrenca que se anunciava – não dava para não ficar alarmado quando víamos os preocupados – e assustados!… - chineses a construírem em dias enormes hospitais… - as autoridades sanitárias e a ciência mundiais teriam forçosamente que se unir e, trabalhando em conjunto, algo inventarem e criarem para travar e combater tão gigantesca tragédia mundial que se adivinhava.

E, para bem da humanidade, assim aconteceu de facto e, mercê da ciência e da vontade dos homens foi possível criar algo de certo eficaz e por isso mesmo muito esperançoso.

E foi assim que um ano e meia dúzia de dias passados sobre o surgimento do vírus e não obstante os milhões de contaminados e sobretudo mortos em todo o globo, é possível termos já hoje no mundo milhões de vacinados e, nesta sequência, este pobre mortal e também a sua cara metade, terem recebido aqui na pontinha da Europa a sua 1ª dose de vacina.

Um telefonema, a identificação, a confirmação pelos serviços sanitários que o Victor e a Hortense estavam enquadrados na sequência da vacinação em vigor e… ela, a tomada da bendita vacina (Ffizer) está concretizada. Seguir-se-á no final do mês a 2ª dose.

Surgirão de certo nos próximos dias as prováveis reacções mas, pessoalmente, a este triste mortal, isso minimamente o preocupa ou assusta.

Não vacinado e à mercê total do danado, seria bem pior. Se não fatal... 

COMADRES E COMPADRES NOS "MEIOS-DIAS SANTOS"


Na voragem dos dias e dos meses diz-nos o calendário que estamos a instantes de celebrar a Páscoa e, mais exatamente hoje, temos aqui a “Sexta-feira Santa” que, vá lá saber porquê, mas a que certamente não serão alheios os aninhos que já vão carregando esta velha carcaça, faz-me recuar aos tempos de juventude na minha pequena aldeia – o meu Chouto natal - quando, tradicionalmente, nestes então denominados “Meios-dias Santos” rapazes e raparigas, de puberdade a rebentar, tinham por hábito juntar-se e jogarem o apreciado e saboroso jogo das “Comadres e Compadres”.

Se a memória não me falha acontecia isso nas tardes de sexta-feira quando a malta nova – eles, de sangue na guelra e nascente desejo, que já olhavam com verde interesse e admiração para elas e, elas, que, jovenzinhas de sainha travada ou rodada (dando pelo joelho!…) de olhar baixinho, discreto e simples, como convinha e era de bom tom a moça prendada e ajuizada da época – reunia-se no largo onde hoje temos erguido o Salão de Convívio, então chamado de “Largo da Junta” (imagem junta do local, numa foto da época) em pares previamente ordenados. Instalavam-se os pares criados, separados 15 ou 20 metros entre si – não convinha ficarem muito perto uns dos outros para que nalguns casos as conversas fossem mais reservadas… - e estendiam-se em circulo desde os então existentes sobreiros junto à Estrada Nacional à entrada da aldeia até perto da sede da Junta de Freguesia.

Uma moça, munida de um cinto, facultado por um rapaz, fazia de “padre” e a sua missão era visitar os pares perguntando à menina se estava bem casada: “Maria, estás bem casada?”.

Se acontecia a companhia do cavalheiro agradar à dama, a menina respondia que sim, que estava bem casada e a “padre” passava ao par seguinte.

Muitas vezes a moça respondia que não, que não estava bem casada e era-lhe então perguntado com quem queria casar? A perguntada escolhia dos outros “noivos” presentes no jogo o que desejava para si e aí acontecia a troca. Ambos os rapazes cruzavam-se e fugiam da “padre” e das consequências de levarem de castigo com o cinto mas, muitas vezes, propositadamente, deixavam-se apanhar para terem o saboroso gosto de agarrar a moça, sentir a sua pele macia e aveludada, o seu cheiro e a sua respiração e essa era umas das duas únicas ocasiões em que naquela época um rapaz tinha e sentia fisicamente com prazer nos seus braços uma moça. (A outra situação acontecia nos bailes.)

Instruído desde terra idade que “numa menina não se toca nem com uma flor!”, ao pobre rapaz daquele tempo restava-lhe imaginar o cheiro do corpo, o aveludado da pele das mãos, dos braços ou da cara da menina que apreciava, de que gostava e de quem queria maior aproximação e, nas “comadres e compadres” e nos bailes eram as únicas, as únicas hipóteses que tinha de tocar e sentir a moça.

Noutros tempos, noutros velhos e saudosos tempos, pudicamente, inocentemente e, verdade se diga, tristemente castrados nos seus desejos, os jovens de então, eles e elas, os homens e mulheres de hoje com 60, 70 anos, divertiam-se com estes joguinhos marotos é verdade mas, inocentes q.b. quando comparados com o que nos tempos actuais encontramos por aí nas praias, nos jardins, nos campos…

É isso: Nascemos cedo de mais...

terça-feira, 23 de março de 2021

GUERRA COLONIAL - A PAIXÃO DO MÁXIMO

 Não que ele fosse o vulgarmente chamado “bobo da corte”, porque o Máximo (nome fictício) até era bastante sóbrio no dia a dia nos contactos com todos mas a verdade é que, na camarata dos furriéis ele, que sempre adorava entrar nas partidinhas a outros, muito se irritava quando a brincadeira lhe batia à porta, reagindo muitas vezes bastante exaltado e ofendido e, isso, para além de ser motivo de risada geral, mais ou menos frontal, mais ou menos escondida por todos nós, mais  nos aumentava o desejo de o irmos picando.

Tinha um ego muito acentuado, o rapaz. “Eu é que sei comandar os homens!”; “Eu é que sei cumprir a minha missão!”; “Eu é que sei como é!”; Eu é que sei mais isto e mais aquilo... Mas, reconheça-se, não obstante este forte autoconvencimento, o furriel Máximo era um excelente rapaz, leal, sincero, bom companheiro.

A exemplo deste modesto escriba, o rapaz também tinha deixado na então chamada Metrópole a sua apaixonada namorada mas, enquanto o Azevedo, pouco mais de meio ano decorrido na guerra, depois de situações estranhas e desentendimentos com a namorada viu a sua relação terminar, o nosso Max e a sua menina viviam intensa paixão, reforçada pelo acordo mútuo de diariamente sempre se escreverem. Tinham prometido e isso cumpriam. Todos os dias o nosso amigo redigia um aerograma à sua amada e, sempre que o correio chegava ao distante e inóspito leste angolano - quase sempre com vários dias de demora… -, era ver o furriel Max de mãos cheias de cartas e aerogramas apressado a correr para a camarata onde cumpria sempre o mesmo ritual: sentava-se na cama e, uma a uma, lia, sorvia e saboreava embevecido as doces palavrinhas da distante amada.

O Azevedo, sem namorada, recebia menos correspondência... Família, amigos, um ou outro jornal ou revista e… pronto.

Recanto da camarata de furriéis no Leste

Era então momento do amigo Max voltar a picar, como o ia fazendo desde a primeira hora do desenlace do namoro: “Tu, nada! Deixaste a gaja pôr-te os cornos e agora chuchas no dedo… Anjinho de merda! Nem sabes escolher, nem sabes nada e agora sofres as consequências.”

E o furriel Azevedo, a exemplo da primeira vez, sempre o aconselhava da mesma forma:

- Max, não cuspas para o ar!… - Conselho que muito o irritava porque via nele uma suspeita sobre a lealdade, sobre a confiança e a paixão da sua amada.

- O quê, pá? - atalhava, indignado - Pensas que a minha é como a tua? Pensas que eu não sei quem escolhi? Pensas que eu não sei quem lá deixei?

Tinha conhecido a sua querida quando militar numa cidadezinha de Portugal, localidade que, por casualidade, era também terra de residência do cabo José (nome fictício) e mais 2 ou 3 soldados igualmente da nossa companhia, por sinal rapazes educados e simpáticos e que bastas vezes connosco furriéis se juntavam em conversas, jogatanas de bola e outros divertimentos, tendo-nos divulgado numa dessas conversas a casualidade de conhecerem a moça do Máximo. Como elemento adicional, por eles ficamos a saber que a pequena, se bem que em diminuta escala, tinha um leve defeito no andar e, claro, isso foi a cerejinha no topo do bolo para mais um nosso gozo com o amigo Max...

Quando, um dia, sentado na cama, lia a correspondência recebida, ouviu-se uma atrevida voz vinda do fundo da camarata:

- Então, a “coxinha do Tide” (numa alusão a uma famosa rádio-novela, apoiada pelo “Tide” detergente então muito conhecido, que tempos atrás com muito sucesso tinha passado na rádio portuguesa em que a miúda, sua principal figura, era... coxinha) – Então, a “coxinha do Tide” está melhor da perninha? - ouviu-se.                                                                            

Caramba! Que foste tu dizer?… Max, levanta-se que nem com uma mola e interroga gritando:

- Quem foi o cabrão? Quem foi o cabrão que disse isso, que eu mato-o? Quem foi que diga, cobardolas!

Mas não matava nada. Não matava uma mosca o nosso Max. Era só um desabafo vindo dos impulsivos nervos que sentia.

Mas, quando calhava, lá largava para o pobre Azevedo:

- Anjinho! Anjinho de merda! Não sabes nada, levaste com a parelha.

E o furriel Azevedo sempre o aconselhava de forma igual:

- Max, não cuspas para o ar!…

Mas o tempo foi passando e, chegada a data do mês de licença anual, como era inevitável o nosso amigo teve de viajar para o “puto” - como na enorme Angola tratávamos o pequenino Portugal europeu – não sem que antes, numa das vezes que escrevia à pequena, o aconselhássemos:

- Max, lembra-a: ela que não esqueça que não pode falhar um dia sem tomar o comprimidinho? Vê lá se vens deixando-lhe um Maximosinho na barriga...

Mais uma exaltação do rapaz; mais uns insultos do nosso Max… O costume. E as nossas costumadas risadas…

Partiu então de férias e, na sua ausência, alguém lembrou que teríamos de lhe preparar mais uma partidinha no regresso… Sugestão dum, ideia doutro e a decisão foi tomada: depois de chegar, mais semana, menos semana, forçosamente “alinharia” em qualquer saída de serviço de dias e, nesse intervalo, armaríamos a gracinha…

Na Tentativa, a cama desocupada do
Max onde foi colocado o "ornamento"

Terminado o mês de licença Max voltou. Voltou feliz da vida como é lógico e, logo, poucas semanas decorridas, teve de sair em escolta ao Cazombo. Sabíamos que a ausência seria de 2 ou 3 dias e, se nesse intervalo chegasse correio, a brincadeira avançaria. Pensamos nisso e assim aconteceu…

Pelos aerogramas chegados e a aguardar na secretaria o seu levantamento, o Joel Costa – foi o furriel Joel o autor material da “falsificação” -, estudou e ensaiou bem a caligrafia da pequena e vá de redigir um aerograma em nome da menina…

Por fora, no endereço e remetente, estava igualzinho aos por ela escritos, no texto também muito aproximado… Dobrado e fechado pedimos ao camarada da secretaria que o juntasse ao correio do Max que, como era hábito, logo que chegasse correria a levantar.

Terminada a escolta Max chegou e de imediato entrou na camarata. Rapidamente pousou a G3 e a cartucheira aos pés da cama e, apressado, correu para a secretaria. Foi num pé e veio no outro com as mãos cheias de correspondência. 

Na camarata dos furriéis, em cima das camas, Joel e Silva jogavam xadrez; Ferreirinha assistia ao jogo enquanto ia chupando o seu cigarrinho; Galinheiro, fingia que dormia; Azevedo, simulava que lia um livro; Madureira e Chantre conversavam mais ao fundo e, mais uns dois ou três  descansavam, parecendo desatentos… Parecendo mas... pelo canto do olho, de soslaio, a rapaziada esperava o ribombar dos “trovões” que se adivinhavam, chegada que fosse a vez do Max abrir e fazer a leitura do “simpático” aerogramazinho… 

E que “dizia” a amada do nosso amigo? Rezava assim:

"Ornamento" idêntico ao usado
“Amorzinho querido, tenho uma suspeita: Pelos sintomas e pelo tempo decorrido, penso que os comprimidos não fizeram efeito e acho que estou grávida! Vamos ter um bébé, meu amor! Mas, se esta é uma novidade alegre para te dar, tenho outra não tanto assim: Estou pior da perna e, dia a dia, estou mais coxa.”

Foi o bom e o bonito quando o camarada Max bateu na brincadeira! Deu um salto para o meio da camarata e...

- Quem foi o cabrão? Quem foi? Eu mato-o! Eu mato esse filho de puta!

E pensou melhor…

- Ou não foi só um e foram todos? Foram? Todos uns filhos de putas! Mato-os!

Claro que não matou. Regressamos todos vivos... Eh! Eh!

E as “partidas” continuaram… E as brincadeiras prosseguiram e tiveram o seu grande epílogo no 2º ano de comissão, estávamos então instalados já perto de Luanda em protecção à Fazenda Tentativa, junto ao Caxito, a cerca de um centena de kms da capital.

O nosso Max nas férias desse 2º ano e porque já caminhávamos para o final da comissão, já não foi à Metrólope e optou por viver esse descanso em Luanda, tendo combinado ali conviver, porque também de férias, com os atrás falados cabo José e os soldados amigos da mesma cidade da sua amada.

Por lá passaram uns dias, por lá conviveram e, porque os soldados tinham menos tempo de férias regressaram à Tentativa uns dias mais cedo. E foi com a sua chegada que se soube da grande bronca que os nossos amigos logo se apressaram, correndo, a anunciar ao Furriel Azevedo que eles sabiam ser a permanente vítima das gracinhas do Max…

Chegaram e soltaram a bomba:

- Furriel, temos uma grande novidade para lhe dar: A namorada do furriel Max pôs-lhe o cornos! Deixou-o e sabemos que já anda com outro! O furriel já lhe escreveu várias vezes e nada de resposta. Ele anda desorientado, a bater com a cabeça pelas paredes e não quer falar com ninguém. Triste, amachucado, desanimado!...

- O quê? - de boca aberta, incrédulo, pergunta este escriba – Isso é mesmo verdade? Têm a certeza?

- Absoluta, furriel! Totalmente verdade!

Caramba! Foi a bomba das bombas!

Era a hora da grande vingança do gozado Azevedo…

Procurou de imediato um dos encarregados da enorme fazenda com quem tinha bom relacionamento e pediu-lhe que lhe arranjasse com urgência as ossadas da cabeça de uma vaca que tivesse uns cornos bem grandes e, no mesmo dia, recebeu a sua encomenda. 

E a bicha tinha uns cornos enormes!... Grandes e largos. A fazer lembrar a raça de vacas existentes no Minho português…

Azevedo pegou uma corda e atou o macabro conjunto às guardas de cabeceira da cama de ferro do corneado Max (cama vaga no foto anexa) e o conjunto ficou por demais patusco! Muito patusco, mesmo! (Pena, muita pena na hora não ter sido fotografada a “belezura”!...)

E esperou que o amigo Max chegasse… 

E chegou. E, dando de caras com a “ornamentada” cama, grita, grita indignado e apontando o vingado Azevedo, atira-lhe em altos berros:

- Foste tu! Foste tu, grande sacana! Foste tu que me rogaste uma praga! Foste tu que me fizeste um bruxedo!

E o Azevedo, admirado, pasmado com a incrível dedução de um tal bruxedo, rebolando-se de gozo:

- Bruxedo, pá? A gaja põe-te os palitos e tu achas que foi bruxedo? Eu não te dizia para não cuspires para o ar? Agora aguenta-te com o peso da “madeira”!...

O bom do Max, calou-se. Calou-se, respirou fundo e… acho que sorriu… Foi para dentro mas… sorriu. Sorriu e… engoliu em seco.

E ainda hoje somos amigos. 

sábado, 13 de março de 2021

ZECA - NA EFEMÉRIDE, A PATUSCA HISTÓRIA...

O calendário recorda-me que passa hoje o 1º aniversário da triste partida do meu primo e amigo de sempre, Zeca e, não posso deixar de aqui a referenciar tanto mais porque, para além de muito me entristecer a sua morte, também muito me penalizou o facto de no dia seguinte não o puder acompanhar à sua última morada por precaução relacionada com o danado do vírus que tinha acabado de chegar ao nosso país. Duplamente assim, muito tristes, foram aquelas horas vividas um ano atrás.

Tinha-o visitado dois meses antes na sua residência e com ele conversado durante mais de 
uma hora, (de que deixo aí foto do momento) numa conversa bem agradável, onde recordamos tempos passados das nossas vivências comuns e, hoje, talvez venha a propósito aqui repor duas dessas rememorações, sendo que, na primeira delas somente de um pequeno detalhe não me recordava e, na outra, que ele apreciava sobremaneira, de tal forma que ao longos dos anos várias vezes a trouxe aos nossos diálogos exibindo então sempre um sorrisinho maroto por, como confessava, ter bem coladas na mente as cenas que viveu na caricata situação. Todavia, naquela hora, foi uma lembrança que tive de suspender na sua abordagem porque a esposa, Marolina, vinda da cozinha, entrara na sala para se nos juntar e essa rememoração pareceu-me pouco aconselhável… Guardei-a para um próximo encontro que, infeliz e lamentavelmente, não mais poderá acontecer... 

Na primeira recordei os recuados tempos idos quando, de bicicleta, aos sábados de tarde, pedalávamos pelo Vale de S. Maria, subíamos à Cumeada e descíamos por estreitos e péssimos carreiros até à Ribeira de Ulme, chegando ao Casal de Paíres a buscar a irmã, professora, que dava aulas durante a semana na escola primária local. 

Pergunta-me, algo surpreso:

- Lembras-te disso, Victor?

Respondo-lhe de pronto:

- Muito bem, Zeca e também me recordo daquela cena bem hilariante quando o Daniel (nome fictício pelas razões óbvias que abaixo surgirão), vindo da capital, te comprou o papel higiénico para o amigo…

Zeca, abrindo a boca de espanto:

- Ainda te lembras, pá? – perguntou, sorrindo.

- Se lembro… Contaste-ma tantas vezes, sempre com um risinho maroto…

E o nosso Zeca, lembrando-se da situação, voltou a abrir a face com evidente gosto.

E ia de facto para a rememorarmos - para rirmos um pouco… - quando a prima Marolina entrou na sala com um prato de biscoitos e eu achei que, dado o conteúdo da historieta, era melhor calar-me…

Trago-a hoje aqui porque bem me recordo que o saudoso Zeca adorava reviver o episódio e, poderá ser que, lá onde estiver e enquanto aqui a deixo, ele de certo sorria de novo…

Naquela noite, a meio de uma semana de trabalho e a exemplo de muitas outras no tempo da minha mocidade, aí pelos anos 60 do século passado em que habitualmente depois do


jantar ia passar um bocadinho do serão ao café do meu Tio Antero – e também do Zeca – dos quais deixo aí uma foto mais ou menos da mesma data à porta do café e, naquela noite não fugi ao hábito. Estava escurinha a noite, de temperatura amena depois de um dia quente daquele Verão. Passei primeiro pelo café do Carraço onde dois ou três clientes jogavam as cartas e outros tantos acompanhavam qualquer programa na televisão alimentada pela corrente do gerador que, horas a fio a produzia no quintal da padaria. Dobrei a esquina, entrei no largo da igreja e, na escuridão da noite, a velhinha calçada recortada e iluminada, não obstante a fraca qualidade da luz nas entradas da taberna do Polidoro e do café do Tio Antero, diziam aos interessados que os estabelecimentos estavam abertos. Foi aí, no café do Tio Antero, que entrei. 

No canto do pequeno balcão de tampo de pedra mármore onde, no Inverno, sempre estava o velhinho fogareiro a petróleo de torcida circular, de chama mínima para manter quentinho o café na cafeteira de esmalte azul, estava agora um necessário candeeiro de pé alto (idêntico ao da imagem junta) que, em conjunto com um outro, sempre pousado em cima do velho e


pesado cofre no canto direito da sala, alumiavam a casa. Em redor de uma mesa de pinho que, com mais outras três compunham o conjunto de mobiliário para uso da clientela, mesas regularmente sempre bem esfregadas e limpas a que se juntavam uns quantos bancos, também de pinho, sempre limpíssimos e asseados, o tio conversava com dois clientes que bebericavam uns copinhos…

Dirigi-me ao grupo para cumprimentos. Beijei meu tio e, enquanto apertava as mãos dos dois amigos de ocasião, vejo o Zeca que, ouvindo a minha voz e vindo do interior da loja (mercearia) contígua, pega-me pelo braço puxando-me para o seu interior, pedindo a meia voz:

- Ó pá, anda cá que quero contar-te uma cena que hoje aqui vivi.

E, na meia penumbra de uma luz de um outro velhinho candeeiro a petróleo pousado junto à balança, enquanto eu me encostava ao balcão e ele aos grandes gavetões dos víveres que, com os armários na parte superior e de fora a fora da parede compunham toda a frente do interior do estabelecimento na área aquém balcão, o Zeca interroga-me de pronto:

- Já ouviste dizer alguma coisa sobre os gostos esquisitos do Daniel, desde que foi trabalhar para os lados da capital? 

- O quê? Que ele é maricas? - questionei, bruscamente, fugindo de utilizar o vernáculo bem português por calcular que o Zeca poderia não gostar de o ouvir. Na verdade, jamais escutei da sua boca um palavrão. Nunca os pronunciou e nem sei mesmo se os sabia?… Que sabia, certamente, mas nunca os pronunciava. Um senhor! Um diplomata no trato!

- Bem... Pois… - acrescentou desajeitadamente mastigando em seco ao ouvir o termo que usei.

Não o repetiu e, como que emendou:

- Pois… diz-se para aí que parece que tem uma certa atracção por homens…

- Já ouvi qualquer coisa, pá. Mas não sei se será verdade?…

E o Zeca atalhou de pronto:

- Ó pá, hoje passou-se aqui uma cena comigo que vou contar-te: Estava ali à porta do café e vi virar a esquina do celeiro, vindo na minha direcção o amigo Daniel que desde que está para os lados de Lisboa nunca mais vira. Vinha acompanhado de um outro rapaz. Dirigiu-se a mim, cumprimentou-me e apresentou-me o companheiro como um amigo da zona onde agora está, dizendo-me que lhe tinha vindo mostrar a sua aldeia.

- Observei-lhes: isto tem pouco para ver.

Ao que outro logo respondeu: 

- Bem, já vi aí algumas coisas interessantes.

- Ó Victor - observa-me o Zeca -, não sei o que é que ele viu interessante aqui mas… pronto.

É então que o Daniel informa:

- Agora vou mostrar-lhe o chafariz. - E parte rua abaixo…

Passados alguns minutos, que deram tempo para a ida e volta e, estando eu aqui no meu estabelecimento, vejo-os chegar à porta com o Daniel a entrar e a dizer ao outro que ficasse ali, na rua.

O nosso amigo Daniel diz-me então:

- Amigo Zeca, ele está com vontade de satisfazer uma necessidade mas estivemos a ver e, aquilo ali (referia-se ao nosso urinol público), é só urinol, não tem sanita…

- Pois não. - respondi-lhe. - É só para urinarmos.

- Ah e então como fazem se ali não têm sanita?

- Olha, Daniel – respondi: Vamos ao cabeço. E apontei-lhe ali o “cabeço da igreja”.

- Ali??? - perguntou-me, muito admirado.

- Bem, não ali mas lá mais à frente, onde começam os sobreiros e o mato. É lá que, atrás de um árvore ou de um tojeiro, arreamos a calça.

- Oh, não sei se ele se ajeita para isso?… Ele está habituado à sanita...

- E, amigo Zeca - voltou a perguntar-me: E para se limparem, como fazem?

- Olha, há quem use uma pedra das muitas que há por lá mas eu costumo levar um pedaço de folha de jornal.

- Jornal??? - pergunta-me o Daniel, muito espantado.

- Isso é muito áspero, Zeca. O amigo vende papel higiénico?

- Vendo.

- E vende-me um rolo, por favor?

E, acrescenta-me o Zeca na narração:

- Victor, fui ao maço, retirei um rolo e vendi-lhe, com um espanto que nem imaginas… E, que fez ele, enquanto eu fazia um esforço enorme para não me rir?… Pagou, agradeceu, virou costas, saiu, entregou o rolo ao amigo dizendo-lhe:

- Toma! Anda comigo. Vou indicar-te.

- E, meu caro primo, imagina a cena que eu vi e não me sai da memória: o amigo pôs o rolo debaixo do braço e lá vão eles, os dois lado a lado, passinhos curtos mas rápidos a caminho do cabeço e... não mais os vi. Não mais os vi, pá. Fiquei sem saber se o amigo conseguiu arrear a calça, ou não…

E o saudoso Zeca, ao longo dos tempos, recordar-me-ia esta hilariante história várias vezes… E sempre, sempre com um sorrisinho maroto… 

Sorrisinho maroto que, agora, lá onde estiver, ao ver novamente esta lembrança, que eu também não esqueci mais, acredito que seguramente renovará…


NOTA FINAL – Importa dizer que ao longo da sua vida o comportamento do aqui chamado de Daniel em nada confirmou as então faladas suspeitas de homossexualidade, donde se deduz que, ou tudo não passou de um pequeno desvio de adolescência ou, então, um “diz-se, diz-se” em que a voz do povo por vezes é fértil e, quantas vezes, injusta. Mas que os factos aqui relatados foram reais, lá isso foram...