segunda-feira, 24 de maio de 2021

BOAS NOTÍCIAS - III "RECAUCHUTAGEM" FOI EFICAZ!


“As lesões surgidas foram eliminadas!”

Estas palavras bonitas e mais que agradáveis, ouvidas hoje da boca do doutor que há anos me acompanha nesta malfadada maleita na figadeira que me incomoda, soaram-me como que um hino aos ouvidos e aos sentidos.
 
Disse-o observando o resultado da TAC efectuada 4 semanas depois da quimioembolização de 19 de Abril e provocaram-me o alívio e o prazer que se adivinha.

A ansiedade e até preocupação em saber se a eficácia teria sido plena e se tenho futuro por mais um tempinho, parece-me lógica e natural e, ouvir de quem sabe, que a coisa funcionou e está debelada ainda que temporariamente, trás algum sossego por mais um período de tempo que irá até novo exame.

Mas ainda bem que assim foi porque este último tratamento foi por demais doloroso e difícil e assim esta boa notícia soa como que a uma recompensa pelo momento vivido.

Seguir-se-ão novas intervenções e, certamente, novas dificuldade mas, há que ter calma e paciência, coisa a que, feliz ou infelizmente, já me habituei.

E, depois, depois se verá... 
  

segunda-feira, 3 de maio de 2021

AS "HABILIDADES" DO GARCÊS

 A pobre Maria de Deus bem que se lhe lamentava todos os dias e a todas as horas:

- Manel, não tenho um pó de café, um grão de arroz, uma côdea para dar aos cachopos… Nem dinheiro, pouco que seja, para ir à loja do sr. António, dar algum para baixar no rol e trazer mais qualquer coisinha para calar o choro dos miúdos…

Manuel Garcês ouvia, bem sabia que assim era mas também conhecia a realidade: por toda a freguesia de grandes propriedades, os lavradores tinham já os seus trabalhadores contratados ano a ano e restava aos que dessa situação não viviam, estar pelas tabernas da Choça aos domingos de tarde na esperança que um patrão surgisse e acordasse com quem escolhesse pela sua vitalidade um diazinho ou dois de jorna. Todavia sobre ele corria já na Choça uma certa suspeita de que tinha como que um íman na ponta dos dedos das mãos e, por isso, a escolha pelos seus serviços nem sempre era a mais desejada... Havia quem tivesse receio. Valia-lhe então o fraco “gancho” da Junta com quem acordara o pequeno compromisso de todas as noites acender os pouco mais de meia dúzia de candeeiros a petróleo da via pública, coisa que lhe trazia pouco proveito ao fim do mês, a que juntava o escasso ganho de uma vez ou outra abrir no cemitério da terra a cova para sepultura de alguém que partira desta para melhor. Mas, mas era proveito de pouca monta. Um, dois mortos por mês se tanto e já era muito.

Assim, ao Manuel Garcês, homem para mais introvertido e de poucas falas, restava-lhe aceitar de vez em quando a realização de um ou outro biscate de meio-dia, um dia, numa horta vizinha a semear ou arrancar umas batatas, plantar umas couves, semear uns feijões e pouco mais.

Embuchara a companheira por 4 vezes e ao longo dos dias ouvia-lhe agora os lamentos, numa situação que ele também bem sentia, de não ter a massa, o arroz, o feijão com que desejava encher e aquecer os estômagos do pequeno rancho de filhos… Os vizinhos viam a situação e ajudavam um pouco era verdade mas, como eram igualmente pessoas de parcos recursos, a ajuda amenizava um pouquinho o problema mas não o resolvia.

Foi então que o Garcês começou a ponderar e a estudar a forma de arranjar algum proveito com pouco trabalho…

Precisava de azeite, feijão? Sabia onde os encontrar e não seria muito difícil, entendia. Verdade que havia dois cães que, à solta pelo Casal faziam a sua guarda mas os animais conheciam-no, ele sabia os seus nomes e, com a ajuda de uma pequena côdea que levasse no bolso, rapidamente dariam ao rabo e o percurso ficaria livre…

E se o pensou, rápido o executou.

Numa fria, chuvosa e negra madrugada de Inverno, na sua residência a meio do quarteirão da rua, José e Maria algo extenuados pelo tentar aliviar umas colicazinhas do seu pequeno rebento de berço, procuravam no leito pegar no sono quando Maria começou a ouvir, no silêncio da noite, os passos pesados e firmes na calçada de alguém que, rente à sua janela do quarto, iria a passar…

A mulher tocou levemente em José, que entretanto pegara no sono : “Zé, escuta!...”

O marido escutou, ouviu os pesados e encharcados passos que se afastavam em direcção ao cimo da rua e logo palpitou:

- Olha, não a vai fazer, já a fez!...

E logo pela manhã, na pacata aldeia da Choça, se ouviria a notícia: 

- Assaltaram o celeiro do Casal do Onofre de Baixo e roubaram 2 alqueires de feijão branco, 2 alqueires de feijão frade e 2 garrafões de azeite!

Maria de Deus não aprovava mas resolvera calar-se e nem ao marido contestar: sendo mau e feio, bem mais lhe custava ouvir os choros dos cachopos de barriga vazia. Era feio, estava mal, mas…

Nos dias seguintes falava-se, falava-se no assalto mas, pouco a pouco tudo a água do ribeiro levaria e seria passado.

Correram os dias e as semanas e o Garcês, atento ao “diz-se, diz-se” acha que deve parar, esperar que a água do ribeiro leve a “enxurrada” e, para além de uma covita ou outra em que os seus serviços eram requisitados no cemitério, ao cair dos dias prosseguia no seu ritual de, escada às costas, candeeiro ali, candeeiro acolá, petróleo no depósito e chama na torcida. Uma vez ou outra - vá lá saber-se porquê?… - um pouquinho menos de combustível no da esquina da loja do sr. António no largo principal da aldeia e nada mais digno de nota.

Nada mais, não é bem assim… Na realidade Ti Barnabé, quando pelas 5 da matina passava pelo largo a caminho de ordenhar as ovelhas já uma vez ou outra notara e diria ao sr. António:

- Quando ao romper do dia vou para o bardo ordenhar as ovelhas, já tenho reparado que o candeeiro ali da rua está aceso, o da padaria também e o da Rua da Nascente igual mas, por vezes, o da esquina da tua loja, já está apagado.

O sr. António ouvia o reparo uma, duas ou três vezes mas, como à meia-noite fechava, ia para casa e via o candeeiro de pavio aceso, pensava numa qualquer distracção no abastecimento dessa tarde e depressa esquecia. Coisa sem importância.

Tratava-se da única mercearia da aldeia. Sempre muito abastecida e bem recheada, fundada e gerida pelo sr. António e depois também pelo filho Zé, feita que foi a sua 4ª classe e que, embora ainda rapaz, já mostrava queda para o negócio, tinha considerável clientela, se não mesmo muita e com o pequeno café contíguo, ligados por passagem de serviço no seu interior, situada em destacado quarteirão no largo principal da terra, era o mais considerável comércio da pequena aldeia. 

E a vida da pacata Choça, numa terra onde nada acontecia, decorria sem novidades de maior, sossegada, calma. Homens e mulheres trabalhadores rurais labutavam todos os dias agarrados à enxada, à foice, à picareta e à pá e, chegados ao lar, quantas vezes noite fechada, era a ceia para tratar, os miúdos para cuidar e a cama para repousar o maçado corpo. E, no dia seguinte, idem-idem, aspas-aspas, num ritmo só  quebrado aos domingos, em que o merecido descanso lhes era permitido.

O sr. António, dia a dia ia flanqueando as portas da sua loja, fornecendo o arroz, o açúcar, a massa, o feijão e o café e, num hábito já tornado obrigatório, tudo ia para o rol. “Assente, sr. António! Assente!” Ele isso sabia e também sabia que, finda a semana, recebidos pelo trabalhador os magros escudos da semana devida, ele ali se dirigia, mandava apagar ou abater no rol e a cena seguiria para novos capítulos. Habitual, costumeira, tradicional, calma e séria.

Tudo, assim, pacatamente decorria quando, subitamente e depois de sem surpresa abrir a porta do estabelecimento, para seu espanto encontrou a lata do café em pó destapada, de tampa ao lado, destapada e com algum café vertido sobre o balcão e, para sua nova surpresa, viu que havia também derramada do grande gavetão uma porção de açúcar, igual derrame no gavetão do arroz e até no do feijão encarnado... 

Chamou o filho:

- Zé, como raio verteste este café e deixaste ontem a lata por fechar? E como verteste para fora dos gavetões tudo isto que aqui vejo?

O Zé, estupefacto;

- Eu, pai? Eu não fui. Juro!

Calou-se, observou melhor à sua volta e depressa entendeu que havia recebido a visita de um “rato” noturno. Mas como, se a porta estava fechada à chave, língua corrida, sem nada que provasse o arrombamento? Intrigante. Intrigante, sem dúvida. Disse ao filho que se calasse, ficasse com se nada tivessem reparado e no futuro logo se veria… 

Mas o sr. António contou pelo menos à esposa e mais um familiar chegado, dando a mesma recomendação de sigilo. Desconfiava na verdade do Garcês mas… não tinha provas.

O nosso “rato” deixou passar a onda, esperou que tudo esquecesse e, passados um meses, sem que os lamentos da sofrida Maria de Deus abrandassem com a visão e o sentir dos filhotes implorando comida, o seu companheiro pensou para com os seus botões:

- Mas, para quê ir e vir tantos metros rua abaixo, rua acima se, aqui, ao virar da esquina, está o celeiro onde o merceeiro António guarda os stock mais vastos e pesados e que, pouco a pouco, na medida das necessidades, vai levando aos poucos para a loja? É só andar meia dúzia de passos, dobrar a esquina e fazer a “colheita”…

E, tendo esperado por noite escura, abriu com a habilidade que adquirira a fechadura da pesada porta de madeira, serviu-se de farinha e azeite, o que mais ali armazenado lhe convinha e, sorrateiramente, saco às costas e vasilha na mão, deu a volta à esquina e, segundos depois, estava em casa.

Tudo parecia ter corrido pela melhor forma mas, todavia, não reparara numa pequenina/grande falha cometida: ao mudar a farinha de um saco para outro derramara uma considerável porção e, para agravar a falha, igual derrame acontecera quando retirava o azeite da grande talha que, por mor das suas dimensões não poderia levar às costas e, por isso, retirara uns quantos litros para uma vasilha que por ali encontrara. Retirara mas, desastradamente, uma boa porção vertera para o chão cimentado.

A farinha com a mistura do azeite formara uma papa que o nosso homem inadvertidamente pisou várias vezes, tendo saído sem se aperceber do rasto deixado. E o rasto era um “carreirinho” direitinho, direitinho à porta da sua habitação…

No dia seguinte, pelas 9 horas, António a caminho da loja para a abrir ao público, porque forçosamente passava pela frente do celeiro, deu-lhe um baque no coração quando viu o surpreendente espectaculo das pegadas brancas de farinha e azeite na calçada, dobrarem a esquina e seguirem direitinha para a porta do vizinho Garcês…

Não! Assim, não! Era demasiado! Abusivo, descarado, ofensivo, muito ofensivo!

Mas o sr. António não foi pedir explicações, não. Pensou: Enervar-se-ia muito, seria ofendido, sairia a perder. Mas o assunto desta vez não poderia ficar assim, sem consequências.

Era um dia, de dois da semana em que a patrulha da GNR visitava a Choça e ali pernoitava. Esperou que chegassem e de imediato lhes apresentou a queixa. Os guardas logo decidiram que de imediato iriam ao local em busca dos géneros mas o sr. António pediu-lhes que não o fizessem. Horas antes tinha caído uma chuvada, o rasto já pouco se notava, aquilo era uma miséria pegada e de pouco adiantaria. Pretendia apenas que o chamassem, lhe dessem um valente “aperto” e podia ser que o homem parasse em definitivo com as suas visitas noturnas.

Foi o que fizeram. Chamaram  o Garcês ao posto que começou por negar tal façanha mas, posto ao corrente do que os guardas sabiam sobre o rasto deixado, testemunhas do mesmo e tanto mais que ele próprio já notara que tinha uns pequenos restos de massa branca em redor das solas das botas, calou-se de imediato. Confessou o roubo e ouviu das autoridades a natural sentença: que nunca mais lhes surgisse qualquer queixa dele mexer em coisa alheia. Se tal sucedesse teria a certeza que passaria umas noites atrás das grades.

O nosso Garcês ouviu, compreendeu a ameaça e decidiu que, das suas “habilidades”, não mais se ouviria falar. 

E assim aconteceu ao longo do tempo, não havendo dúvida que a lição lhe tinha serviço de emenda.

Mas, - nestas coisas há sempre um “mas”… -, uma bela manhã quando o sr. António e o filho Zé se apressavam para abrir a pesada e velha porta de madeira do estabelecimento, usando a comprida e volumosa chave de ferro castanho, barraram com a dificuldade de fazer recolher a língua da mesma. A chave entrava sem problema, dava ¼ de volta mas... parava ali e não recolhia a língua. Insistiram, insistiram, foram buscar uma chave de fendas que introduziram na ranhura da fechadura, pararam alguns vizinhos passantes e tentaram ajudar mas... nada. A danada da língua não recolhia e não flanqueava a porta.

Já desesperavam pai e filho quando, subitamente, António ordena aos presentes:

- Esperem. Não forcem mais. Vou ali e já resolvo o problema.

Dito isto, o sr. António vira costas e segue calçada fora até ao cimo da rua onde desaparece. Todos se olham curiosos na expectativa do que iria ele fazer para solucionar a questão?…

Eis quando, passados curtos minutos, o veem surgir acompanhado do Garcês que, de passada algo lenta por mor da “quebradura” que ultimamente lhe provocava forte inchaço no baixo-ventre e lhe dificultava os movimentos, vinha em auxílio do comerciante.

Garcês chegou, tirou do bolso um pequeno arame, pediu que lhe passassem a chave de fendas e que se afastassem um pouco; operou escassos instantes com a chave e o arame, introduziu a chave de ferro na fechadura e... fez correr a língua. Abriu a porta.

Todos se olharam pasmados da facilidade mas, Garcês nem os mirou. Virou costas e, passo lento retornava já em direcção à residência, quando o sr. António o chama:

- Manel? Espera aí homem. Quanto te devo?

- Não deve nada, sr. António.

- Não? Está bem. Mas, olha, só um pequeno acordo vamos fazer: de hoje em diante estás dispensado de acender aqui este candeeiro da esquina da minha loja. Eu mesmo trato dele e vou falar dessa nossa combinação ao presidente da Junta. De acordo?

- De acordo.


NOTA FINAL – Nesta crónica os factos narrados são fruto da criatividade do seu autor pelo que, qualquer semelhança com um eventual realidade, resultará de uma mera coincidência.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

"III RECAUCHUTAGEM" NÃO FOI "PERA DOCE"

Dolorosa e mais que desagradável esta 3ª intervenção na “pecinha das iscas”, ao contrário do que seria espectável tendo como lembrança ainda bem viva o idêntico tratamento (quimioembolização) realizado há um ano que, em comparação com este, foi uma então uma verdadeira brincadeira.

Efectuado como o anterior com anestesia local este, desta vez, foi bem mais doloroso, angustiante – dores, náuseas e mal estar danados… - e, por isso, super-chato. E se a tudo isto juntarmos o “rescaldo” que demorou e ainda decorre umas sofridas 48 horas passadas, dá para calcular quanto desagradável foi. E está a ser...

Mas passa-se – e, curioso, como o do ano passado, decorreu o internamento durante as iguais 45 horas – e, agora, haverá que olhar em frente, suportar o rescaldo de toda a sofrida odisseia – será odisseia ou “sentença”? - recuperar forças e ânimo e seguir em frente porque, como diz a nossa gente, “dos fracos não reza a história”.

Não que eu tenha a pretensão de ficar para a história – seria presunção ridícula, se não ultrajante... – mas tão só porque, já que cá ando e enquanto tiver “licença” para continuar a pisar a terra, o pretenda fazer com algum sentido e alguma validade. Pouca, muito pouca, mas será a que me for possível criar, manter e, se possível, preservar. Numa existência que nem a de um minúsculo grão de areia que junto com muitos outros ajudem a formar o areal, louro e alvo da praia. Da praia da vida.

Mas que isso aconteça com muitos poucos momentos como o do passado dia 19 que não foi “pera doce”, não.

Enfim…

É a vida...

sexta-feira, 2 de abril de 2021

CORONAVÍRUS - TOMADA 1ª DOSE DA VACINA PFIZER!

Ao contrário da opinião de bastantes pessoas com quem conversava há um ano, aquando do surgimento do chamado Coronavírus, que afirmavam que levaria anos a ser criada e testada uma vacina que prevenir-se e combatesse a terrível pandemia que se anunciava a nível global, sempre pensei de forma diferente e sempre afirmei que logo, logo, teríamos aí a desejada vacina.

Como é lógico não tinha qualquer conhecimento extra e falava pensando apenas nos enormes avanços da ciência médica e medicamentosa das últimas décadas – avanços e saber que, por triste casualidade, recentemente tenho vindo a comprovar no tratamento da minha figadeira… - e também porque, prevendo a enorme encrenca que se anunciava – não dava para não ficar alarmado quando víamos os preocupados – e assustados!… - chineses a construírem em dias enormes hospitais… - as autoridades sanitárias e a ciência mundiais teriam forçosamente que se unir e, trabalhando em conjunto, algo inventarem e criarem para travar e combater tão gigantesca tragédia mundial que se adivinhava.

E, para bem da humanidade, assim aconteceu de facto e, mercê da ciência e da vontade dos homens foi possível criar algo de certo eficaz e por isso mesmo muito esperançoso.

E foi assim que um ano e meia dúzia de dias passados sobre o surgimento do vírus e não obstante os milhões de contaminados e sobretudo mortos em todo o globo, é possível termos já hoje no mundo milhões de vacinados e, nesta sequência, este pobre mortal e também a sua cara metade, terem recebido aqui na pontinha da Europa a sua 1ª dose de vacina.

Um telefonema, a identificação, a confirmação pelos serviços sanitários que o Victor e a Hortense estavam enquadrados na sequência da vacinação em vigor e… ela, a tomada da bendita vacina (Ffizer) está concretizada. Seguir-se-á no final do mês a 2ª dose.

Surgirão de certo nos próximos dias as prováveis reacções mas, pessoalmente, a este triste mortal, isso minimamente o preocupa ou assusta.

Não vacinado e à mercê total do danado, seria bem pior. Se não fatal... 

COMADRES E COMPADRES NOS "MEIOS-DIAS SANTOS"


Na voragem dos dias e dos meses diz-nos o calendário que estamos a instantes de celebrar a Páscoa e, mais exatamente hoje, temos aqui a “Sexta-feira Santa” que, vá lá saber porquê, mas a que certamente não serão alheios os aninhos que já vão carregando esta velha carcaça, faz-me recuar aos tempos de juventude na minha pequena aldeia – o meu Chouto natal - quando, tradicionalmente, nestes então denominados “Meios-dias Santos” rapazes e raparigas, de puberdade a rebentar, tinham por hábito juntar-se e jogarem o apreciado e saboroso jogo das “Comadres e Compadres”.

Se a memória não me falha acontecia isso nas tardes de sexta-feira quando a malta nova – eles, de sangue na guelra e nascente desejo, que já olhavam com verde interesse e admiração para elas e, elas, que, jovenzinhas de sainha travada ou rodada (dando pelo joelho!…) de olhar baixinho, discreto e simples, como convinha e era de bom tom a moça prendada e ajuizada da época – reunia-se no largo onde hoje temos erguido o Salão de Convívio, então chamado de “Largo da Junta” (imagem junta do local, numa foto da época) em pares previamente ordenados. Instalavam-se os pares criados, separados 15 ou 20 metros entre si – não convinha ficarem muito perto uns dos outros para que nalguns casos as conversas fossem mais reservadas… - e estendiam-se em circulo desde os então existentes sobreiros junto à Estrada Nacional à entrada da aldeia até perto da sede da Junta de Freguesia.

Uma moça, munida de um cinto, facultado por um rapaz, fazia de “padre” e a sua missão era visitar os pares perguntando à menina se estava bem casada: “Maria, estás bem casada?”.

Se acontecia a companhia do cavalheiro agradar à dama, a menina respondia que sim, que estava bem casada e a “padre” passava ao par seguinte.

Muitas vezes a moça respondia que não, que não estava bem casada e era-lhe então perguntado com quem queria casar? A perguntada escolhia dos outros “noivos” presentes no jogo o que desejava para si e aí acontecia a troca. Ambos os rapazes cruzavam-se e fugiam da “padre” e das consequências de levarem de castigo com o cinto mas, muitas vezes, propositadamente, deixavam-se apanhar para terem o saboroso gosto de agarrar a moça, sentir a sua pele macia e aveludada, o seu cheiro e a sua respiração e essa era umas das duas únicas ocasiões em que naquela época um rapaz tinha e sentia fisicamente com prazer nos seus braços uma moça. (A outra situação acontecia nos bailes.)

Instruído desde terra idade que “numa menina não se toca nem com uma flor!”, ao pobre rapaz daquele tempo restava-lhe imaginar o cheiro do corpo, o aveludado da pele das mãos, dos braços ou da cara da menina que apreciava, de que gostava e de quem queria maior aproximação e, nas “comadres e compadres” e nos bailes eram as únicas, as únicas hipóteses que tinha de tocar e sentir a moça.

Noutros tempos, noutros velhos e saudosos tempos, pudicamente, inocentemente e, verdade se diga, tristemente castrados nos seus desejos, os jovens de então, eles e elas, os homens e mulheres de hoje com 60, 70 anos, divertiam-se com estes joguinhos marotos é verdade mas, inocentes q.b. quando comparados com o que nos tempos actuais encontramos por aí nas praias, nos jardins, nos campos…

É isso: Nascemos cedo de mais...

terça-feira, 23 de março de 2021

GUERRA COLONIAL - A PAIXÃO DO MÁXIMO

 Não que ele fosse o vulgarmente chamado “bobo da corte”, porque o Máximo (nome fictício) até era bastante sóbrio no dia a dia nos contactos com todos mas a verdade é que, na camarata dos furriéis ele, que sempre adorava entrar nas partidinhas a outros, muito se irritava quando a brincadeira lhe batia à porta, reagindo muitas vezes bastante exaltado e ofendido e, isso, para além de ser motivo de risada geral, mais ou menos frontal, mais ou menos escondida por todos nós, mais  nos aumentava o desejo de o irmos picando.

Tinha um ego muito acentuado, o rapaz. “Eu é que sei comandar os homens!”; “Eu é que sei cumprir a minha missão!”; “Eu é que sei como é!”; Eu é que sei mais isto e mais aquilo... Mas, reconheça-se, não obstante este forte autoconvencimento, o furriel Máximo era um excelente rapaz, leal, sincero, bom companheiro.

A exemplo deste modesto escriba, o rapaz também tinha deixado na então chamada Metrópole a sua apaixonada namorada mas, enquanto o Azevedo, pouco mais de meio ano decorrido na guerra, depois de situações estranhas e desentendimentos com a namorada viu a sua relação terminar, o nosso Max e a sua menina viviam intensa paixão, reforçada pelo acordo mútuo de diariamente sempre se escreverem. Tinham prometido e isso cumpriam. Todos os dias o nosso amigo redigia um aerograma à sua amada e, sempre que o correio chegava ao distante e inóspito leste angolano - quase sempre com vários dias de demora… -, era ver o furriel Max de mãos cheias de cartas e aerogramas apressado a correr para a camarata onde cumpria sempre o mesmo ritual: sentava-se na cama e, uma a uma, lia, sorvia e saboreava embevecido as doces palavrinhas da distante amada.

O Azevedo, sem namorada, recebia menos correspondência... Família, amigos, um ou outro jornal ou revista e… pronto.

Recanto da camarata de furriéis no Leste

Era então momento do amigo Max voltar a picar, como o ia fazendo desde a primeira hora do desenlace do namoro: “Tu, nada! Deixaste a gaja pôr-te os cornos e agora chuchas no dedo… Anjinho de merda! Nem sabes escolher, nem sabes nada e agora sofres as consequências.”

E o furriel Azevedo, a exemplo da primeira vez, sempre o aconselhava da mesma forma:

- Max, não cuspas para o ar!… - Conselho que muito o irritava porque via nele uma suspeita sobre a lealdade, sobre a confiança e a paixão da sua amada.

- O quê, pá? - atalhava, indignado - Pensas que a minha é como a tua? Pensas que eu não sei quem escolhi? Pensas que eu não sei quem lá deixei?

Tinha conhecido a sua querida quando militar numa cidadezinha de Portugal, localidade que, por casualidade, era também terra de residência do cabo José (nome fictício) e mais 2 ou 3 soldados igualmente da nossa companhia, por sinal rapazes educados e simpáticos e que bastas vezes connosco furriéis se juntavam em conversas, jogatanas de bola e outros divertimentos, tendo-nos divulgado numa dessas conversas a casualidade de conhecerem a moça do Máximo. Como elemento adicional, por eles ficamos a saber que a pequena, se bem que em diminuta escala, tinha um leve defeito no andar e, claro, isso foi a cerejinha no topo do bolo para mais um nosso gozo com o amigo Max...

Quando, um dia, sentado na cama, lia a correspondência recebida, ouviu-se uma atrevida voz vinda do fundo da camarata:

- Então, a “coxinha do Tide” (numa alusão a uma famosa rádio-novela, apoiada pelo “Tide” detergente então muito conhecido, que tempos atrás com muito sucesso tinha passado na rádio portuguesa em que a miúda, sua principal figura, era... coxinha) – Então, a “coxinha do Tide” está melhor da perninha? - ouviu-se.                                                                            

Caramba! Que foste tu dizer?… Max, levanta-se que nem com uma mola e interroga gritando:

- Quem foi o cabrão? Quem foi o cabrão que disse isso, que eu mato-o? Quem foi que diga, cobardolas!

Mas não matava nada. Não matava uma mosca o nosso Max. Era só um desabafo vindo dos impulsivos nervos que sentia.

Mas, quando calhava, lá largava para o pobre Azevedo:

- Anjinho! Anjinho de merda! Não sabes nada, levaste com a parelha.

E o furriel Azevedo sempre o aconselhava de forma igual:

- Max, não cuspas para o ar!…

Mas o tempo foi passando e, chegada a data do mês de licença anual, como era inevitável o nosso amigo teve de viajar para o “puto” - como na enorme Angola tratávamos o pequenino Portugal europeu – não sem que antes, numa das vezes que escrevia à pequena, o aconselhássemos:

- Max, lembra-a: ela que não esqueça que não pode falhar um dia sem tomar o comprimidinho? Vê lá se vens deixando-lhe um Maximosinho na barriga...

Mais uma exaltação do rapaz; mais uns insultos do nosso Max… O costume. E as nossas costumadas risadas…

Partiu então de férias e, na sua ausência, alguém lembrou que teríamos de lhe preparar mais uma partidinha no regresso… Sugestão dum, ideia doutro e a decisão foi tomada: depois de chegar, mais semana, menos semana, forçosamente “alinharia” em qualquer saída de serviço de dias e, nesse intervalo, armaríamos a gracinha…

Na Tentativa, a cama desocupada do
Max onde foi colocado o "ornamento"

Terminado o mês de licença Max voltou. Voltou feliz da vida como é lógico e, logo, poucas semanas decorridas, teve de sair em escolta ao Cazombo. Sabíamos que a ausência seria de 2 ou 3 dias e, se nesse intervalo chegasse correio, a brincadeira avançaria. Pensamos nisso e assim aconteceu…

Pelos aerogramas chegados e a aguardar na secretaria o seu levantamento, o Joel Costa – foi o furriel Joel o autor material da “falsificação” -, estudou e ensaiou bem a caligrafia da pequena e vá de redigir um aerograma em nome da menina…

Por fora, no endereço e remetente, estava igualzinho aos por ela escritos, no texto também muito aproximado… Dobrado e fechado pedimos ao camarada da secretaria que o juntasse ao correio do Max que, como era hábito, logo que chegasse correria a levantar.

Terminada a escolta Max chegou e de imediato entrou na camarata. Rapidamente pousou a G3 e a cartucheira aos pés da cama e, apressado, correu para a secretaria. Foi num pé e veio no outro com as mãos cheias de correspondência. 

Na camarata dos furriéis, em cima das camas, Joel e Silva jogavam xadrez; Ferreirinha assistia ao jogo enquanto ia chupando o seu cigarrinho; Galinheiro, fingia que dormia; Azevedo, simulava que lia um livro; Madureira e Chantre conversavam mais ao fundo e, mais uns dois ou três  descansavam, parecendo desatentos… Parecendo mas... pelo canto do olho, de soslaio, a rapaziada esperava o ribombar dos “trovões” que se adivinhavam, chegada que fosse a vez do Max abrir e fazer a leitura do “simpático” aerogramazinho… 

E que “dizia” a amada do nosso amigo? Rezava assim:

"Ornamento" idêntico ao usado
“Amorzinho querido, tenho uma suspeita: Pelos sintomas e pelo tempo decorrido, penso que os comprimidos não fizeram efeito e acho que estou grávida! Vamos ter um bébé, meu amor! Mas, se esta é uma novidade alegre para te dar, tenho outra não tanto assim: Estou pior da perna e, dia a dia, estou mais coxa.”

Foi o bom e o bonito quando o camarada Max bateu na brincadeira! Deu um salto para o meio da camarata e...

- Quem foi o cabrão? Quem foi? Eu mato-o! Eu mato esse filho de puta!

E pensou melhor…

- Ou não foi só um e foram todos? Foram? Todos uns filhos de putas! Mato-os!

Claro que não matou. Regressamos todos vivos... Eh! Eh!

E as “partidas” continuaram… E as brincadeiras prosseguiram e tiveram o seu grande epílogo no 2º ano de comissão, estávamos então instalados já perto de Luanda em protecção à Fazenda Tentativa, junto ao Caxito, a cerca de um centena de kms da capital.

O nosso Max nas férias desse 2º ano e porque já caminhávamos para o final da comissão, já não foi à Metrólope e optou por viver esse descanso em Luanda, tendo combinado ali conviver, porque também de férias, com os atrás falados cabo José e os soldados amigos da mesma cidade da sua amada.

Por lá passaram uns dias, por lá conviveram e, porque os soldados tinham menos tempo de férias regressaram à Tentativa uns dias mais cedo. E foi com a sua chegada que se soube da grande bronca que os nossos amigos logo se apressaram, correndo, a anunciar ao Furriel Azevedo que eles sabiam ser a permanente vítima das gracinhas do Max…

Chegaram e soltaram a bomba:

- Furriel, temos uma grande novidade para lhe dar: A namorada do furriel Max pôs-lhe o cornos! Deixou-o e sabemos que já anda com outro! O furriel já lhe escreveu várias vezes e nada de resposta. Ele anda desorientado, a bater com a cabeça pelas paredes e não quer falar com ninguém. Triste, amachucado, desanimado!...

- O quê? - de boca aberta, incrédulo, pergunta este escriba – Isso é mesmo verdade? Têm a certeza?

- Absoluta, furriel! Totalmente verdade!

Caramba! Foi a bomba das bombas!

Era a hora da grande vingança do gozado Azevedo…

Procurou de imediato um dos encarregados da enorme fazenda com quem tinha bom relacionamento e pediu-lhe que lhe arranjasse com urgência as ossadas da cabeça de uma vaca que tivesse uns cornos bem grandes e, no mesmo dia, recebeu a sua encomenda. 

E a bicha tinha uns cornos enormes!... Grandes e largos. A fazer lembrar a raça de vacas existentes no Minho português…

Azevedo pegou uma corda e atou o macabro conjunto às guardas de cabeceira da cama de ferro do corneado Max (cama vaga no foto anexa) e o conjunto ficou por demais patusco! Muito patusco, mesmo! (Pena, muita pena na hora não ter sido fotografada a “belezura”!...)

E esperou que o amigo Max chegasse… 

E chegou. E, dando de caras com a “ornamentada” cama, grita, grita indignado e apontando o vingado Azevedo, atira-lhe em altos berros:

- Foste tu! Foste tu, grande sacana! Foste tu que me rogaste uma praga! Foste tu que me fizeste um bruxedo!

E o Azevedo, admirado, pasmado com a incrível dedução de um tal bruxedo, rebolando-se de gozo:

- Bruxedo, pá? A gaja põe-te os palitos e tu achas que foi bruxedo? Eu não te dizia para não cuspires para o ar? Agora aguenta-te com o peso da “madeira”!...

O bom do Max, calou-se. Calou-se, respirou fundo e… acho que sorriu… Foi para dentro mas… sorriu. Sorriu e… engoliu em seco.

E ainda hoje somos amigos. 

sábado, 13 de março de 2021

ZECA - NA EFEMÉRIDE, A PATUSCA HISTÓRIA...

O calendário recorda-me que passa hoje o 1º aniversário da triste partida do meu primo e amigo de sempre, Zeca e, não posso deixar de aqui a referenciar tanto mais porque, para além de muito me entristecer a sua morte, também muito me penalizou o facto de no dia seguinte não o puder acompanhar à sua última morada por precaução relacionada com o danado do vírus que tinha acabado de chegar ao nosso país. Duplamente assim, muito tristes, foram aquelas horas vividas um ano atrás.

Tinha-o visitado dois meses antes na sua residência e com ele conversado durante mais de 
uma hora, (de que deixo aí foto do momento) numa conversa bem agradável, onde recordamos tempos passados das nossas vivências comuns e, hoje, talvez venha a propósito aqui repor duas dessas rememorações, sendo que, na primeira delas somente de um pequeno detalhe não me recordava e, na outra, que ele apreciava sobremaneira, de tal forma que ao longos dos anos várias vezes a trouxe aos nossos diálogos exibindo então sempre um sorrisinho maroto por, como confessava, ter bem coladas na mente as cenas que viveu na caricata situação. Todavia, naquela hora, foi uma lembrança que tive de suspender na sua abordagem porque a esposa, Marolina, vinda da cozinha, entrara na sala para se nos juntar e essa rememoração pareceu-me pouco aconselhável… Guardei-a para um próximo encontro que, infeliz e lamentavelmente, não mais poderá acontecer... 

Na primeira recordei os recuados tempos idos quando, de bicicleta, aos sábados de tarde, pedalávamos pelo Vale de S. Maria, subíamos à Cumeada e descíamos por estreitos e péssimos carreiros até à Ribeira de Ulme, chegando ao Casal de Paíres a buscar a irmã, professora, que dava aulas durante a semana na escola primária local. 

Pergunta-me, algo surpreso:

- Lembras-te disso, Victor?

Respondo-lhe de pronto:

- Muito bem, Zeca e também me recordo daquela cena bem hilariante quando o Daniel (nome fictício pelas razões óbvias que abaixo surgirão), vindo da capital, te comprou o papel higiénico para o amigo…

Zeca, abrindo a boca de espanto:

- Ainda te lembras, pá? – perguntou, sorrindo.

- Se lembro… Contaste-ma tantas vezes, sempre com um risinho maroto…

E o nosso Zeca, lembrando-se da situação, voltou a abrir a face com evidente gosto.

E ia de facto para a rememorarmos - para rirmos um pouco… - quando a prima Marolina entrou na sala com um prato de biscoitos e eu achei que, dado o conteúdo da historieta, era melhor calar-me…

Trago-a hoje aqui porque bem me recordo que o saudoso Zeca adorava reviver o episódio e, poderá ser que, lá onde estiver e enquanto aqui a deixo, ele de certo sorria de novo…

Naquela noite, a meio de uma semana de trabalho e a exemplo de muitas outras no tempo da minha mocidade, aí pelos anos 60 do século passado em que habitualmente depois do


jantar ia passar um bocadinho do serão ao café do meu Tio Antero – e também do Zeca – dos quais deixo aí uma foto mais ou menos da mesma data à porta do café e, naquela noite não fugi ao hábito. Estava escurinha a noite, de temperatura amena depois de um dia quente daquele Verão. Passei primeiro pelo café do Carraço onde dois ou três clientes jogavam as cartas e outros tantos acompanhavam qualquer programa na televisão alimentada pela corrente do gerador que, horas a fio a produzia no quintal da padaria. Dobrei a esquina, entrei no largo da igreja e, na escuridão da noite, a velhinha calçada recortada e iluminada, não obstante a fraca qualidade da luz nas entradas da taberna do Polidoro e do café do Tio Antero, diziam aos interessados que os estabelecimentos estavam abertos. Foi aí, no café do Tio Antero, que entrei. 

No canto do pequeno balcão de tampo de pedra mármore onde, no Inverno, sempre estava o velhinho fogareiro a petróleo de torcida circular, de chama mínima para manter quentinho o café na cafeteira de esmalte azul, estava agora um necessário candeeiro de pé alto (idêntico ao da imagem junta) que, em conjunto com um outro, sempre pousado em cima do velho e


pesado cofre no canto direito da sala, alumiavam a casa. Em redor de uma mesa de pinho que, com mais outras três compunham o conjunto de mobiliário para uso da clientela, mesas regularmente sempre bem esfregadas e limpas a que se juntavam uns quantos bancos, também de pinho, sempre limpíssimos e asseados, o tio conversava com dois clientes que bebericavam uns copinhos…

Dirigi-me ao grupo para cumprimentos. Beijei meu tio e, enquanto apertava as mãos dos dois amigos de ocasião, vejo o Zeca que, ouvindo a minha voz e vindo do interior da loja (mercearia) contígua, pega-me pelo braço puxando-me para o seu interior, pedindo a meia voz:

- Ó pá, anda cá que quero contar-te uma cena que hoje aqui vivi.

E, na meia penumbra de uma luz de um outro velhinho candeeiro a petróleo pousado junto à balança, enquanto eu me encostava ao balcão e ele aos grandes gavetões dos víveres que, com os armários na parte superior e de fora a fora da parede compunham toda a frente do interior do estabelecimento na área aquém balcão, o Zeca interroga-me de pronto:

- Já ouviste dizer alguma coisa sobre os gostos esquisitos do Daniel, desde que foi trabalhar para os lados da capital? 

- O quê? Que ele é maricas? - questionei, bruscamente, fugindo de utilizar o vernáculo bem português por calcular que o Zeca poderia não gostar de o ouvir. Na verdade, jamais escutei da sua boca um palavrão. Nunca os pronunciou e nem sei mesmo se os sabia?… Que sabia, certamente, mas nunca os pronunciava. Um senhor! Um diplomata no trato!

- Bem... Pois… - acrescentou desajeitadamente mastigando em seco ao ouvir o termo que usei.

Não o repetiu e, como que emendou:

- Pois… diz-se para aí que parece que tem uma certa atracção por homens…

- Já ouvi qualquer coisa, pá. Mas não sei se será verdade?…

E o Zeca atalhou de pronto:

- Ó pá, hoje passou-se aqui uma cena comigo que vou contar-te: Estava ali à porta do café e vi virar a esquina do celeiro, vindo na minha direcção o amigo Daniel que desde que está para os lados de Lisboa nunca mais vira. Vinha acompanhado de um outro rapaz. Dirigiu-se a mim, cumprimentou-me e apresentou-me o companheiro como um amigo da zona onde agora está, dizendo-me que lhe tinha vindo mostrar a sua aldeia.

- Observei-lhes: isto tem pouco para ver.

Ao que outro logo respondeu: 

- Bem, já vi aí algumas coisas interessantes.

- Ó Victor - observa-me o Zeca -, não sei o que é que ele viu interessante aqui mas… pronto.

É então que o Daniel informa:

- Agora vou mostrar-lhe o chafariz. - E parte rua abaixo…

Passados alguns minutos, que deram tempo para a ida e volta e, estando eu aqui no meu estabelecimento, vejo-os chegar à porta com o Daniel a entrar e a dizer ao outro que ficasse ali, na rua.

O nosso amigo Daniel diz-me então:

- Amigo Zeca, ele está com vontade de satisfazer uma necessidade mas estivemos a ver e, aquilo ali (referia-se ao nosso urinol público), é só urinol, não tem sanita…

- Pois não. - respondi-lhe. - É só para urinarmos.

- Ah e então como fazem se ali não têm sanita?

- Olha, Daniel – respondi: Vamos ao cabeço. E apontei-lhe ali o “cabeço da igreja”.

- Ali??? - perguntou-me, muito admirado.

- Bem, não ali mas lá mais à frente, onde começam os sobreiros e o mato. É lá que, atrás de um árvore ou de um tojeiro, arreamos a calça.

- Oh, não sei se ele se ajeita para isso?… Ele está habituado à sanita...

- E, amigo Zeca - voltou a perguntar-me: E para se limparem, como fazem?

- Olha, há quem use uma pedra das muitas que há por lá mas eu costumo levar um pedaço de folha de jornal.

- Jornal??? - pergunta-me o Daniel, muito espantado.

- Isso é muito áspero, Zeca. O amigo vende papel higiénico?

- Vendo.

- E vende-me um rolo, por favor?

E, acrescenta-me o Zeca na narração:

- Victor, fui ao maço, retirei um rolo e vendi-lhe, com um espanto que nem imaginas… E, que fez ele, enquanto eu fazia um esforço enorme para não me rir?… Pagou, agradeceu, virou costas, saiu, entregou o rolo ao amigo dizendo-lhe:

- Toma! Anda comigo. Vou indicar-te.

- E, meu caro primo, imagina a cena que eu vi e não me sai da memória: o amigo pôs o rolo debaixo do braço e lá vão eles, os dois lado a lado, passinhos curtos mas rápidos a caminho do cabeço e... não mais os vi. Não mais os vi, pá. Fiquei sem saber se o amigo conseguiu arrear a calça, ou não…

E o saudoso Zeca, ao longo dos tempos, recordar-me-ia esta hilariante história várias vezes… E sempre, sempre com um sorrisinho maroto… 

Sorrisinho maroto que, agora, lá onde estiver, ao ver novamente esta lembrança, que eu também não esqueci mais, acredito que seguramente renovará…


NOTA FINAL – Importa dizer que ao longo da sua vida o comportamento do aqui chamado de Daniel em nada confirmou as então faladas suspeitas de homossexualidade, donde se deduz que, ou tudo não passou de um pequeno desvio de adolescência ou, então, um “diz-se, diz-se” em que a voz do povo por vezes é fértil e, quantas vezes, injusta. Mas que os factos aqui relatados foram reais, lá isso foram...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A VELHINHA ESCOLA PRIMÁRIA


Recordação cada vez mais acentuada de dias e situações vividas aquando da infância e juventude, numa experiência e sensação quiçá bem gostosa e agradável quanto nostálgica e que, em boa verdade, também não surpreendente porque já prevista há muito por este pobre escriba que desde sempre gostou de ouvir dos mais velhos as suas experiências e vivências passadas, sabendo assim que isso aconteceria, é o que vou sentido há já uns anos a esta parte e de forma cada vez mais acentuada nos dias que correm.

Acontece então que, chegada a convencionada dita 3ª idade, a caixinha dos pirolitos do pobre cidadão como que vai resgatando do seu lastro, do seu fundo, as cenas, os episódios, os objectos e as coisas vividas em tempos bem recuados e, num misto de surpresa e prazer, passa largos períodos a recordar e reviver tempos idos, lá muito, muito distantes nos dias.

Um objecto, uma imagem, uma simples conversa, fazem-no recuar no tempo e, agora, com a moderna internet que repesca por todo o lado os elementos do passado, as cenas de outros tempos, muito mais isso se acentua e se sente.

Pensava exactamente nisto mesmo quando, num site de velharias “tropecei” na velha fotografia que aqui junto de uma sala de aula de pequenas crianças e que de imediato me transportou aos meus tempos de criança, aluno na então chamada Escola Primária do meu Chouto natal (aí também numa outra foto dos nossos dias já com o edifício devidamente recuperado e bonito) onde aprendi as primeiras letras e ali permaneci até perfazer a na época denominada 4ª classe.

Para meu especial prazer e dado que, ao que julgo, não existirão quaisquer fotos da minha sala de aulas desse tempo – as máquinas fotográficas eram escassas e só ao alcance de algumas poucas bolsas... - esta interessante foto e salvo algumas poucas diferenças, é uma cópia quase fiel da que tínhamos naquela altura nesse recanto onde a professora dava a aula. Vendo-a é possível imaginar e ver ali a mestra, os alunos (todos, como então, de bata branca), as carteiras (com os velhinhos tinteiros de loiça branca onde molhávamos o aparo da caneta) e a disposição dos diversos móveis, sendo por isso o que aí está uma cópia quase exacta da escola que frequentávamos nos idos tempos.

A professora (Maria Angelina) era um pouquinho mais cheiinha que a que aí vemos (um pouquinho, mas era mesmo mais para o “grosso”…); ao canto, junto à mestra, ”descansava” sempre, quando “descansava”, a grande e rija cana-da-Índia; em cima da secretária (de tampo talvez um nadinha maior…) sempre “repousava” a régua (palmatória), quando “repousava”, nos intervalos em que não era usada para sovar o alunos; o quadro era em ardósia preta e um pouco mais pequeno; os vasos e jarra de flores estão aí a mais (Maria Angelina era pouco de flores…); a janela à esquerda, de sistema guilhotina e embora alta como a da foto, era um pouco menos larga; não tinha calendário na parede e muito menos com imagem de santos ou santas (Maria Angelina não era muito dessas coisas…); por cima do quadro preto tinha um crucifixo em bronze ladeado por duas grandes fotos em molduras de madeira com os rostos do Marechal Carmona (Presidente da República) e do Dr. Salazar (Presidente do Concelho), conjunto obrigatório nas escolas da época e, por fim, nem o pequeno estrado, onde a professora se movimentava e de onde aplicava as reguadas aos alunos no plano inferior, aí falta.

Pelo exposto e em imagem quase fiel, eis como ali vejo esse recanto da minha sala de aulas da já então velhinha Escola Primária na primeira metade dos anos 50 do século passado, época em que também fazia as cópias que aí deixo, cópias certamente redigidas em casa e que depois levava para escola como os hoje chamados TPC. 

Já na época realizávamos os chatos “trabalhos de casa”... Sempre contrariados; sempre com medo da professora; sempre forçados pelos pais; sempre aborrecidos quando não a choramingar porque nos aguardavam nas ruas e largos de terra batida da aldeia, o Rainha, o Carvalho, o Diamantino, o Rui, o “Ervilha”, o Zé da “Calistra”, o Manuel “Barracão”, os irmãos Tomé e Manuel João, o Manuel João Garcias, o João e o Manuel Espadinha, o Zé Augusto "Montefato", o..., o…, os muitos outros amigos e companheiros com quem jogávamos ao pião, à bugalha, à bola (com uma meia cheia de trapos a fazer de esférico) e com as oliveiras ou umas simples pedras a servirem de balizas; calçados uns mas, de pés descalços outros, já que as posses dos pobres pais não lhes chegavam a tais luxos de botas ou sapatos… Esfolados de joelhos e braços mas felizes.

Alegres e felizes sem o sabermos.

Danado de tempo que se foi.

... E que se foi tão rápido...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A III "RECAUCHUTAGEM" VAI ACONTECER


Chegada hoje por telefonema do competente cirurgião que desde a operação em 2017 me acompanha na evolução deste chato estado da minha figadeira e menos de um ano decorrido sobre o tratamento por quimioembolização sofrido, a notícia chegou: Novo internamento, novo exame, nova quimioembolização.

A III “recauchutagem” da minha “pecinha das iscas” vai assim realizar-se de novo e, ou muito me engano – e oxalá que sim! - mas, pelo historial, parece que estarei sentenciado a, ano a ano, ver nascer estes “brincos” danados que não incomodam com dor, é verdade – do mal o menos… - mas não deixam de muito preocupar.

Mas, ainda bem, como hoje me fez ver o amigo cirurgião, que felizmente há tratamento para o que vai surgindo porque, como disse, “se algo aparece, sendo que para isso não há remédio, é que é mais chato”, coisa que, convenhamos, é bem verdade.

Mas, uns com uns achaques, outros com outros, todos temos que nos conformar, ao mesmo tempo que, esperançados e animados em dias melhores, temos que ir tratando e combatendo as maleitas surgidas.

É o que tenho feito e que continuarei a fazer na convicção que, como o anterior exame tudo se passará sem esforço ou contrariedade de maior e, em poucas horas (em Maio passado foram exactamente 45 horas de internamento), pelo meu pé tornarei a casa mais aliviado, mais animado.

E, passados mais uns tempos, se estes “brincos” tiverem seguidores, cá estarei tentando rejeitá-los. 

Não há alternativa.

É a vida...

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

QUANTAS SAUDADES!...

Nas manhãs de dias frios, húmidos, tristonhos, lúgubres e anunciadores de chuva quanto este rapaz, sentado em pequeno banco de assento de palha, juntinho ao lume e às brasas de sobro no quentinho da lareira rasa que, em contraste com a baixa temperatura do exterior, ali mais tornava paraíso, debaixo dos enchidos, dependurados no fumeiro por cima de nossas cabeças, saídos da recente matança do bácoro, alimentado e criado a hortaliças da horta e milho da seara, quantas Morcelas de Assar, assadinhas no borralho da fogueira foram degustadas? Quantas?


Entaladas no bom e alvo naco de pão caseiro, que depressa ficava ensopado na quente gordura que do bom pedaço de morcela saía – quando não da totalidade da dita cuja… - quantas e quantas Morcelas de Assar este saudoso rapaz não degustou, acompanhadas do inesquecível café que, na cafeteira em permanência sempre esquentava juntinho ao borralho e que, vertido para a generosa chávena, sempre prontinha a receber e saciar o contínuo apetite da criança e do rapaz, tornavam o pequeno-almoço num delicioso manjar para sempre recordado? Quantas?

Saudosos tempos, saudosos tempos que se foram!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

COVID - 19 - DIAS DRAMÁTICOS!

Numa hora tão grave e dramática para Portugal, devastado pelo terrível e mortífero Covid -19 que mata e faz sofrer, melhor que as minhas fracas e pobres palavras de preocupação e mesmo medo, está o testemunho do médico Ricardo Baptista Leite publicado hoje em muitos meios de comunicação social e diversas redes sociais e de aqui me faço eco por entender que todos não somos de mais para consciencializar os distraídos e/ou inconscientes que teimam em não se resguardar e, irresponsavelmente, vivem assobiando para o lado, convencidos que o mal só acontece aos outros...



"Ontem ao sair do Hospital de Cascais sentia uma enorme frustração e angústia. Para garantir a racionalidade das minhas palavras, decidi esperar por hoje para fazer esta partilha. 

Estive este sábado mais uma vez como médico voluntário no serviço de urgência do hospital de cascais – mais especificamente no chamado ‘Covidário’ que dá resposta aos doentes e suspeitos COVID-19. Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indiscritíveis. A sensação de impotência por não podermos fazer mais. Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes. Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão. O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras. Tantos doentes a descompensar com quadros de insuficiência respiratória grave. Sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria, ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência. Alguns doentes com ventilações invasivas… Um cenário de guerra. Os doentes menos graves que aguardam pelo teste covid assistem em direto a muito disto… o espaço é demasiado pequeno para tantas dezenas de doentes. E a cada hora chegam mais doentes. É preciso estabelecer prioridades. O cenário é de catástrofe e exige comando e controlo. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades. Não se conseguem acompanhar todos os doentes a todo o tempo. Um doente de cada vez. Fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários. Estamos em pleno campo de batalha no qual as emoções têm de ficar de lado… mas na realidade ficam apenas recalcadas. Chora-se quando se chega finalmente ao carro no final do turno, ou a casa. Ali no covidário o foco é necessário e absoluto. Assisti a uma colega médica que esteve durante mais de uma hora a ligar para familiares de doentes que estavam sob a sua responsabilidade e que acabaram por falecer num espaço tão curto de tempo, apesar de todos os esforços. Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos. Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes. Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia. 

O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta.

Perante a gravidade da situação da covid-19 em Portugal, continuaremos nos próximos dias com uma tendência crescente do número de novas infeções diárias, de internamentos e de doentes em cuidados intensivos. E assim vai continuar até ao final do mês. Um em cada 5 testes realizados no nosso país é positivo. E a tentativa de manter as pessoas em casa para tentar diminuir a dimensão da epidemia simplesmente falhou.

O custo humano de falharmos como país é demasiadamente elevado. Será insuportável e ficará como uma cicatriz de vergonha para futuras gerações de portugueses. Estamos a viver um momento histórico e depende de nós definir como termina.

Por isso, não há tempo a perder. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para prevenir mais mortes evitáveis. Não podemos continuar no atual rumo. A meu ver, temos de fazer 5 coisas de imediato:

1. Não esperar 15 dias. Decidir mudar de imediato as medidas governamentais e determinar um confinamento ‘absoluto’ durante 3 semanas para depois ser reavaliado. Isto tem de incluir as escolas, garantindo o apoio remuneratório a um dos pais, tal como aconteceu durante a primeira vaga. O problema não são as infeções nas escolas. É toda uma sociedade que não consegue parar com as escolas abertas. Mais, todas as demais atividades não essenciais, que não sejam possíveis por teletrabalho, devem cessar atividade de imediato pelo mesmo período de tempo. Tudo deve de parar de imediato. Reduzir as regras de circulação unicamente para as situações determinadas aquando do estado de emergência de março 2020. As forças de segurança devem ter instruções claras para atuar em conformidade perante a violação das regras definidas em todo o território nacional.

2. Mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas. Chamar todos os recursos humanos disponíveis para abrir o maior número possível de hospitais, clínicas e tendas de campanha com máxima urgência. 

3. Comunicar de forma clara, transparente e diária com o país sobre a gravidade da situação e sobre o que se espera de cada cidadão. Ponderar novamente os riscos inerentes ao ato eleitoral de dia 24 - sobretudo depois do que se viu com o voto antecipado. 

4. Preparar desde já o momento em que se levantarão as medidas restritivas de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos. Isto exige um aumento significativo do dispositivo de saúde pública e da capacidade de testagem. O país tem de testar no mínimo 5 vezes mais do que atualmente, com particular enfoque na testagem semanal dos profissionais das escolas, dos lares e de saúde. Temos de ser capazes de identificar todos os infetados e determinar as cadeias de infeção – sem saber onde as pessoas se infetam, não seremos capazes de atuar precocemente na contenção de surtos. Mais, devemos ser capazes de identificar todos os que tiveram contacto com pessoas infetadas e garantir o isolamento de todos – doentes e suspeitos. Garantir mesmo que fiquem isolados. Contratualizem-se os hotéis do país para o efeito dividindo-os em hotéis para infetados e outros para suspeitos. 

Testar, identificar e isolar. Não há outra forma.

5. Usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas COVID-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até Junho 2021. 

A frustração destas semanas tem de ser substituída por ação determinada para acabar com esta pandemia. Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano. Ainda vamos a tempo de salvar vidas. Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

IMPENSÁVEL!!!

Totalmente impensável assistirmos, como ontem assistimos, aos graves acontecimentos da invasão do Capitólio, em Washington, por uma multidão de arruaceiros apoiantes do presidente vencido Donald Trump!

Ver a casa da democracia, símbolo maior da ordem, da civilização e da liberdade, num país assumidamente defensor da ordem e da liberdade mundiais, dá para avaliarmos quão estranho e louco é o mundo dos nossos dias.

Ver o Capitólio assaltado e saqueado (a cena de um polícia assustado e solitário a fugir escada acima à frente de uns quantos assaltantes é por demais espantosa e dramática!…) e, sobretudo depois do triste 11 de Setembro, comprovar que um grupo de americanos, por mais ou menos numeroso que seja, consegue partir portas e janelas, escalar paredes e penetrar e devassar gabinetes de altos dirigentes da política dos Estados Unidos e do Mundo, é coisa demasiado grave e deixa tudo e todos incrédulos, se não mesmo assustados.

Um sujeito que ao longo do seu mandato fez política de confronto com tudo e com todos, inventa uma fraude eleitoral e, ainda que todos os tribunais a que recorre não lhe reconheçam razão num único caso para reclamar os resultados eleitorais, persiste na alusão a essa suposta fraude e vai agora ao extremo de incentivar aos seus apoiantes uma ida ao Capitólio, deixa-me abismado e indignado como tal coisa é possível hoje acontecer na transição do poder na nação mais democrática e poderosa do Mundo.

E que dizer das medidas tomadas pelas diversas Redes Sociais da net que hoje suspenderam e ameaçam banir as contas desse Trump, numa medida incrivelmente inédita e verdadeiramente espantosa?

O Capitólio invadido por uma multidão de arruaceiros!...

Impensável!

Impensável, inadmissível e… criminoso!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021 – SER MELHOR NÃO SERÁ DIFÍCIL

E aqui estamos rapidamente, muito rapidamente – esta trapalhada dos meses e dos anos agora passam tão depressa!… - no 1º dia do novo ano de 2021 por todos ansiado que seja melhor que este horrível e desgraçado 2020 que se foi. O que, convenhamos, não será muito difícil, tão maus foram estes 365 passados.


Com o início da aplicação das vacinas as prespectivas e sobretudo as esperanças são as maiores de que façam minimizar, se não mesmo extinguir este mortífero Coronavírus que, surgido há um ano na distante e recôndita China, depressa se propagou em larguíssima escala por todo o Globo e por toda a Humanidade, com horríveis e dramáticas consequências.

Um ano passado sabemos que totalizam já muitos milhões de homens e mulheres os contaminados e mortos e, mais preocupante ainda, temos todos a sensação que ainda agora a “procissão vai  no adro”, como diz o nosso povo. Na verdade, ainda que as vacinas constituam uma grande esperança, todos sentimos que o mundo desconhece quando e como todo este enorme pesadelo, único e inimaginável nas nossas vidas, terminará…

Obedecendo a um plano previamente estudado e divulgado, temos agora em Portugal os elementos dos serviços de saúde na prioridade da vacinação a que se seguirão utentes de lares e doentes com problemas crónicos de saúde e, em Março/Abril passar-se-á aos maiores de 65 e doentes e será então o grosso da população sendo que, no meu caso pessoal, deverei integrar essa numerosa coluna.

Estou ansioso por essa hora como é evidente e espero que no próximo Verão, tanto eu como a larga maioria dos portugueses, já estejamos mais protegidos e menos preocupados.

Até lá e se bem que após a vacinação os cuidados devam e tenham de continuar, há que manter o afastamento, o isolamento, a prevenção para que o COVID-19 não nos atinja, não nos “agarre” e não nos traga mais preocupações e mais aflições.

Que o 2021 seja melhor que este danado 2020 que se foi! O que, certamente, não será muito difícil...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

UMA MINISTRA EM LÁGRIMAS...

Avesso a interessar-me, falar e sobretudo escrever sobre política e os políticos que temos depois de me desiludir com os métodos e o nível da classe política que nos vinha – e vem - dirigindo e mais concretamente após os nossos eleitos representantes em tempos idos terem criado as então escandalosas, incríveis e mesmo ofensivas Pensões Vitalícias, numa decisão pessoal que tomei e que só foi alterada uma ou outra isolada vez em casos esporádicos e bem raros eu, que no pré e no pós 25 de Abril me interessei e vivi a política e durante muitos anos e tanto escrevi em milhares de linhas, muitas vezes de páginas inteiras em jornais e revistas publicadas no meu torrão natal, abro hoje um novo parêntesis nessa posição há muito assumida.

E faço-o sincera e convictamente depois de, fortemente impressionado, ter visto na televisão e já revisto aqui na net, a nossa actual Ministra da Saúde, Marta Temido de seu nome, numa emoção para mim jamais vista num governante, verter lágrimas enquanto discursava no Instituto Ricardo Jorge perante os seus trabalhadores.


Emocionou-se assim a senhora de voz embargada e com várias e emotivas lágrimas a rolarem-lhe pela face quando se dirigia aos trabalhadores do Instituto, que o seu ministério tutela, no seu agradecimento e muito apreço pela dedicação e esforço por eles despendido no combate à terrível pandemia que nos assola, que naturalmente a todos muito preocupa e, como agora se comprova, com a Ministra da Saúde a estar na 1ª linha desse combate e dessas preocupações.

Preocupações que, agora se constata com franca admiração, não são apenas oficiais mas, sobretudo, muito sobretudo, pessoais.

Em toda a minha existência não me recordo de ver em público num governante tamanha emoção, tamanho sentimento e tão grande sensibilidade pessoal no desempenho da sua importante missão e entendo que deve merecer todo o apreço e toda a estima.

Não sei se é boa ou má ministra; se é competente ou não; se desempenha o seu cargo com saber ou não; sei que é sensível, sei que sente a responsabilidade do seu cargo e isso diz-me muito.

Porque nunca me acanhei a criticar os frios, distantes, maus, se não mesmo mentirosos e falsos políticos, aqui estou hoje, francamente e também emocionado q.b., a manifestar toda a minha estima e muita admiração pela sensibilidade de Marta Temido, ministra de um governo de Portugal.

Bonito e sensibilizante!

Mulher de carne e osso – e lágrimas!… - como eu.