terça-feira, 23 de março de 2021

GUERRA COLONIAL - A PAIXÃO DO MÁXIMO

 Não que ele fosse o vulgarmente chamado “bobo da corte”, porque o Máximo (nome fictício) até era bastante sóbrio no dia a dia nos contactos com todos mas a verdade é que, na camarata dos furriéis ele, que sempre adorava entrar nas partidinhas a outros, muito se irritava quando a brincadeira lhe batia à porta, reagindo muitas vezes bastante exaltado e ofendido e, isso, para além de ser motivo de risada geral, mais ou menos frontal, mais ou menos escondida por todos nós, mais  nos aumentava o desejo de o irmos picando.

Tinha um ego muito acentuado, o rapaz. “Eu é que sei comandar os homens!”; “Eu é que sei cumprir a minha missão!”; “Eu é que sei como é!”; Eu é que sei mais isto e mais aquilo... Mas, reconheça-se, não obstante este forte autoconvencimento, o furriel Máximo era um excelente rapaz, leal, sincero, bom companheiro.

A exemplo deste modesto escriba, o rapaz também tinha deixado na então chamada Metrópole a sua apaixonada namorada mas, enquanto o Azevedo, pouco mais de meio ano decorrido na guerra, depois de situações estranhas e desentendimentos com a namorada viu a sua relação terminar, o nosso Max e a sua menina viviam intensa paixão, reforçada pelo acordo mútuo de diariamente sempre se escreverem. Tinham prometido e isso cumpriam. Todos os dias o nosso amigo redigia um aerograma à sua amada e, sempre que o correio chegava ao distante e inóspito leste angolano - quase sempre com vários dias de demora… -, era ver o furriel Max de mãos cheias de cartas e aerogramas apressado a correr para a camarata onde cumpria sempre o mesmo ritual: sentava-se na cama e, uma a uma, lia, sorvia e saboreava embevecido as doces palavrinhas da distante amada.

O Azevedo, sem namorada, recebia menos correspondência... Família, amigos, um ou outro jornal ou revista e… pronto.

Recanto da camarata de furriéis no Leste

Era então momento do amigo Max voltar a picar, como o ia fazendo desde a primeira hora do desenlace do namoro: “Tu, nada! Deixaste a gaja pôr-te os cornos e agora chuchas no dedo… Anjinho de merda! Nem sabes escolher, nem sabes nada e agora sofres as consequências.”

E o furriel Azevedo, a exemplo da primeira vez, sempre o aconselhava da mesma forma:

- Max, não cuspas para o ar!… - Conselho que muito o irritava porque via nele uma suspeita sobre a lealdade, sobre a confiança e a paixão da sua amada.

- O quê, pá? - atalhava, indignado - Pensas que a minha é como a tua? Pensas que eu não sei quem escolhi? Pensas que eu não sei quem lá deixei?

Tinha conhecido a sua querida quando militar numa cidadezinha de Portugal, localidade que, por casualidade, era também terra de residência do cabo José (nome fictício) e mais 2 ou 3 soldados igualmente da nossa companhia, por sinal rapazes educados e simpáticos e que bastas vezes connosco furriéis se juntavam em conversas, jogatanas de bola e outros divertimentos, tendo-nos divulgado numa dessas conversas a casualidade de conhecerem a moça do Máximo. Como elemento adicional, por eles ficamos a saber que a pequena, se bem que em diminuta escala, tinha um leve defeito no andar e, claro, isso foi a cerejinha no topo do bolo para mais um nosso gozo com o amigo Max...

Quando, um dia, sentado na cama, lia a correspondência recebida, ouviu-se uma atrevida voz vinda do fundo da camarata:

- Então, a “coxinha do Tide” (numa alusão a uma famosa rádio-novela, apoiada pelo “Tide” detergente então muito conhecido, que tempos atrás com muito sucesso tinha passado na rádio portuguesa em que a miúda, sua principal figura, era... coxinha) – Então, a “coxinha do Tide” está melhor da perninha? - ouviu-se.                                                                            

Caramba! Que foste tu dizer?… Max, levanta-se que nem com uma mola e interroga gritando:

- Quem foi o cabrão? Quem foi o cabrão que disse isso, que eu mato-o? Quem foi que diga, cobardolas!

Mas não matava nada. Não matava uma mosca o nosso Max. Era só um desabafo vindo dos impulsivos nervos que sentia.

Mas, quando calhava, lá largava para o pobre Azevedo:

- Anjinho! Anjinho de merda! Não sabes nada, levaste com a parelha.

E o furriel Azevedo sempre o aconselhava de forma igual:

- Max, não cuspas para o ar!…

Mas o tempo foi passando e, chegada a data do mês de licença anual, como era inevitável o nosso amigo teve de viajar para o “puto” - como na enorme Angola tratávamos o pequenino Portugal europeu – não sem que antes, numa das vezes que escrevia à pequena, o aconselhássemos:

- Max, lembra-a: ela que não esqueça que não pode falhar um dia sem tomar o comprimidinho? Vê lá se vens deixando-lhe um Maximosinho na barriga...

Mais uma exaltação do rapaz; mais uns insultos do nosso Max… O costume. E as nossas costumadas risadas…

Partiu então de férias e, na sua ausência, alguém lembrou que teríamos de lhe preparar mais uma partidinha no regresso… Sugestão dum, ideia doutro e a decisão foi tomada: depois de chegar, mais semana, menos semana, forçosamente “alinharia” em qualquer saída de serviço de dias e, nesse intervalo, armaríamos a gracinha…

Na Tentativa, a cama desocupada do
Max onde foi colocado o "ornamento"

Terminado o mês de licença Max voltou. Voltou feliz da vida como é lógico e, logo, poucas semanas decorridas, teve de sair em escolta ao Cazombo. Sabíamos que a ausência seria de 2 ou 3 dias e, se nesse intervalo chegasse correio, a brincadeira avançaria. Pensamos nisso e assim aconteceu…

Pelos aerogramas chegados e a aguardar na secretaria o seu levantamento, o Joel Costa – foi o furriel Joel o autor material da “falsificação” -, estudou e ensaiou bem a caligrafia da pequena e vá de redigir um aerograma em nome da menina…

Por fora, no endereço e remetente, estava igualzinho aos por ela escritos, no texto também muito aproximado… Dobrado e fechado pedimos ao camarada da secretaria que o juntasse ao correio do Max que, como era hábito, logo que chegasse correria a levantar.

Terminada a escolta Max chegou e de imediato entrou na camarata. Rapidamente pousou a G3 e a cartucheira aos pés da cama e, apressado, correu para a secretaria. Foi num pé e veio no outro com as mãos cheias de correspondência. 

Na camarata dos furriéis, em cima das camas, Joel e Silva jogavam xadrez; Ferreirinha assistia ao jogo enquanto ia chupando o seu cigarrinho; Galinheiro, fingia que dormia; Azevedo, simulava que lia um livro; Madureira e Chantre conversavam mais ao fundo e, mais uns dois ou três  descansavam, parecendo desatentos… Parecendo mas... pelo canto do olho, de soslaio, a rapaziada esperava o ribombar dos “trovões” que se adivinhavam, chegada que fosse a vez do Max abrir e fazer a leitura do “simpático” aerogramazinho… 

E que “dizia” a amada do nosso amigo? Rezava assim:

"Ornamento" idêntico ao usado
“Amorzinho querido, tenho uma suspeita: Pelos sintomas e pelo tempo decorrido, penso que os comprimidos não fizeram efeito e acho que estou grávida! Vamos ter um bébé, meu amor! Mas, se esta é uma novidade alegre para te dar, tenho outra não tanto assim: Estou pior da perna e, dia a dia, estou mais coxa.”

Foi o bom e o bonito quando o camarada Max bateu na brincadeira! Deu um salto para o meio da camarata e...

- Quem foi o cabrão? Quem foi? Eu mato-o! Eu mato esse filho de puta!

E pensou melhor…

- Ou não foi só um e foram todos? Foram? Todos uns filhos de putas! Mato-os!

Claro que não matou. Regressamos todos vivos... Eh! Eh!

E as “partidas” continuaram… E as brincadeiras prosseguiram e tiveram o seu grande epílogo no 2º ano de comissão, estávamos então instalados já perto de Luanda em protecção à Fazenda Tentativa, junto ao Caxito, a cerca de um centena de kms da capital.

O nosso Max nas férias desse 2º ano e porque já caminhávamos para o final da comissão, já não foi à Metrólope e optou por viver esse descanso em Luanda, tendo combinado ali conviver, porque também de férias, com os atrás falados cabo José e os soldados amigos da mesma cidade da sua amada.

Por lá passaram uns dias, por lá conviveram e, porque os soldados tinham menos tempo de férias regressaram à Tentativa uns dias mais cedo. E foi com a sua chegada que se soube da grande bronca que os nossos amigos logo se apressaram, correndo, a anunciar ao Furriel Azevedo que eles sabiam ser a permanente vítima das gracinhas do Max…

Chegaram e soltaram a bomba:

- Furriel, temos uma grande novidade para lhe dar: A namorada do furriel Max pôs-lhe o cornos! Deixou-o e sabemos que já anda com outro! O furriel já lhe escreveu várias vezes e nada de resposta. Ele anda desorientado, a bater com a cabeça pelas paredes e não quer falar com ninguém. Triste, amachucado, desanimado!...

- O quê? - de boca aberta, incrédulo, pergunta este escriba – Isso é mesmo verdade? Têm a certeza?

- Absoluta, furriel! Totalmente verdade!

Caramba! Foi a bomba das bombas!

Era a hora da grande vingança do gozado Azevedo…

Procurou de imediato um dos encarregados da enorme fazenda com quem tinha bom relacionamento e pediu-lhe que lhe arranjasse com urgência as ossadas da cabeça de uma vaca que tivesse uns cornos bem grandes e, no mesmo dia, recebeu a sua encomenda. 

E a bicha tinha uns cornos enormes!... Grandes e largos. A fazer lembrar a raça de vacas existentes no Minho português…

Azevedo pegou uma corda e atou o macabro conjunto às guardas de cabeceira da cama de ferro do corneado Max (cama vaga no foto anexa) e o conjunto ficou por demais patusco! Muito patusco, mesmo! (Pena, muita pena na hora não ter sido fotografada a “belezura”!...)

E esperou que o amigo Max chegasse… 

E chegou. E, dando de caras com a “ornamentada” cama, grita, grita indignado e apontando o vingado Azevedo, atira-lhe em altos berros:

- Foste tu! Foste tu, grande sacana! Foste tu que me rogaste uma praga! Foste tu que me fizeste um bruxedo!

E o Azevedo, admirado, pasmado com a incrível dedução de um tal bruxedo, rebolando-se de gozo:

- Bruxedo, pá? A gaja põe-te os palitos e tu achas que foi bruxedo? Eu não te dizia para não cuspires para o ar? Agora aguenta-te com o peso da “madeira”!...

O bom do Max, calou-se. Calou-se, respirou fundo e… acho que sorriu… Foi para dentro mas… sorriu. Sorriu e… engoliu em seco.

E ainda hoje somos amigos. 

sábado, 13 de março de 2021

ZECA - NA EFEMÉRIDE, A PATUSCA HISTÓRIA...

O calendário recorda-me que passa hoje o 1º aniversário da triste partida do meu primo e amigo de sempre, Zeca e, não posso deixar de aqui a referenciar tanto mais porque, para além de muito me entristecer a sua morte, também muito me penalizou o facto de no dia seguinte não o puder acompanhar à sua última morada por precaução relacionada com o danado do vírus que tinha acabado de chegar ao nosso país. Duplamente assim, muito tristes, foram aquelas horas vividas um ano atrás.

Tinha-o visitado dois meses antes na sua residência e com ele conversado durante mais de 
uma hora, (de que deixo aí foto do momento) numa conversa bem agradável, onde recordamos tempos passados das nossas vivências comuns e, hoje, talvez venha a propósito aqui repor duas dessas rememorações, sendo que, na primeira delas somente de um pequeno detalhe não me recordava e, na outra, que ele apreciava sobremaneira, de tal forma que ao longos dos anos várias vezes a trouxe aos nossos diálogos exibindo então sempre um sorrisinho maroto por, como confessava, ter bem coladas na mente as cenas que viveu na caricata situação. Todavia, naquela hora, foi uma lembrança que tive de suspender na sua abordagem porque a esposa, Marolina, vinda da cozinha, entrara na sala para se nos juntar e essa rememoração pareceu-me pouco aconselhável… Guardei-a para um próximo encontro que, infeliz e lamentavelmente, não mais poderá acontecer... 

Na primeira recordei os recuados tempos idos quando, de bicicleta, aos sábados de tarde, pedalávamos pelo Vale de S. Maria, subíamos à Cumeada e descíamos por estreitos e péssimos carreiros até à Ribeira de Ulme, chegando ao Casal de Paíres a buscar a irmã, professora, que dava aulas durante a semana na escola primária local. 

Pergunta-me, algo surpreso:

- Lembras-te disso, Victor?

Respondo-lhe de pronto:

- Muito bem, Zeca e também me recordo daquela cena bem hilariante quando o Daniel (nome fictício pelas razões óbvias que abaixo surgirão), vindo da capital, te comprou o papel higiénico para o amigo…

Zeca, abrindo a boca de espanto:

- Ainda te lembras, pá? – perguntou, sorrindo.

- Se lembro… Contaste-ma tantas vezes, sempre com um risinho maroto…

E o nosso Zeca, lembrando-se da situação, voltou a abrir a face com evidente gosto.

E ia de facto para a rememorarmos - para rirmos um pouco… - quando a prima Marolina entrou na sala com um prato de biscoitos e eu achei que, dado o conteúdo da historieta, era melhor calar-me…

Trago-a hoje aqui porque bem me recordo que o saudoso Zeca adorava reviver o episódio e, poderá ser que, lá onde estiver e enquanto aqui a deixo, ele de certo sorria de novo…

Naquela noite, a meio de uma semana de trabalho e a exemplo de muitas outras no tempo da minha mocidade, aí pelos anos 60 do século passado em que habitualmente depois do


jantar ia passar um bocadinho do serão ao café do meu Tio Antero – e também do Zeca – dos quais deixo aí uma foto mais ou menos da mesma data à porta do café e, naquela noite não fugi ao hábito. Estava escurinha a noite, de temperatura amena depois de um dia quente daquele Verão. Passei primeiro pelo café do Carraço onde dois ou três clientes jogavam as cartas e outros tantos acompanhavam qualquer programa na televisão alimentada pela corrente do gerador que, horas a fio a produzia no quintal da padaria. Dobrei a esquina, entrei no largo da igreja e, na escuridão da noite, a velhinha calçada recortada e iluminada, não obstante a fraca qualidade da luz nas entradas da taberna do Polidoro e do café do Tio Antero, diziam aos interessados que os estabelecimentos estavam abertos. Foi aí, no café do Tio Antero, que entrei. 

No canto do pequeno balcão de tampo de pedra mármore onde, no Inverno, sempre estava o velhinho fogareiro a petróleo de torcida circular, de chama mínima para manter quentinho o café na cafeteira de esmalte azul, estava agora um necessário candeeiro de pé alto (idêntico ao da imagem junta) que, em conjunto com um outro, sempre pousado em cima do velho e


pesado cofre no canto direito da sala, alumiavam a casa. Em redor de uma mesa de pinho que, com mais outras três compunham o conjunto de mobiliário para uso da clientela, mesas regularmente sempre bem esfregadas e limpas a que se juntavam uns quantos bancos, também de pinho, sempre limpíssimos e asseados, o tio conversava com dois clientes que bebericavam uns copinhos…

Dirigi-me ao grupo para cumprimentos. Beijei meu tio e, enquanto apertava as mãos dos dois amigos de ocasião, vejo o Zeca que, ouvindo a minha voz e vindo do interior da loja (mercearia) contígua, pega-me pelo braço puxando-me para o seu interior, pedindo a meia voz:

- Ó pá, anda cá que quero contar-te uma cena que hoje aqui vivi.

E, na meia penumbra de uma luz de um outro velhinho candeeiro a petróleo pousado junto à balança, enquanto eu me encostava ao balcão e ele aos grandes gavetões dos víveres que, com os armários na parte superior e de fora a fora da parede compunham toda a frente do interior do estabelecimento na área aquém balcão, o Zeca interroga-me de pronto:

- Já ouviste dizer alguma coisa sobre os gostos esquisitos do Daniel, desde que foi trabalhar para os lados da capital? 

- O quê? Que ele é maricas? - questionei, bruscamente, fugindo de utilizar o vernáculo bem português por calcular que o Zeca poderia não gostar de o ouvir. Na verdade, jamais escutei da sua boca um palavrão. Nunca os pronunciou e nem sei mesmo se os sabia?… Que sabia, certamente, mas nunca os pronunciava. Um senhor! Um diplomata no trato!

- Bem... Pois… - acrescentou desajeitadamente mastigando em seco ao ouvir o termo que usei.

Não o repetiu e, como que emendou:

- Pois… diz-se para aí que parece que tem uma certa atracção por homens…

- Já ouvi qualquer coisa, pá. Mas não sei se será verdade?…

E o Zeca atalhou de pronto:

- Ó pá, hoje passou-se aqui uma cena comigo que vou contar-te: Estava ali à porta do café e vi virar a esquina do celeiro, vindo na minha direcção o amigo Daniel que desde que está para os lados de Lisboa nunca mais vira. Vinha acompanhado de um outro rapaz. Dirigiu-se a mim, cumprimentou-me e apresentou-me o companheiro como um amigo da zona onde agora está, dizendo-me que lhe tinha vindo mostrar a sua aldeia.

- Observei-lhes: isto tem pouco para ver.

Ao que outro logo respondeu: 

- Bem, já vi aí algumas coisas interessantes.

- Ó Victor - observa-me o Zeca -, não sei o que é que ele viu interessante aqui mas… pronto.

É então que o Daniel informa:

- Agora vou mostrar-lhe o chafariz. - E parte rua abaixo…

Passados alguns minutos, que deram tempo para a ida e volta e, estando eu aqui no meu estabelecimento, vejo-os chegar à porta com o Daniel a entrar e a dizer ao outro que ficasse ali, na rua.

O nosso amigo Daniel diz-me então:

- Amigo Zeca, ele está com vontade de satisfazer uma necessidade mas estivemos a ver e, aquilo ali (referia-se ao nosso urinol público), é só urinol, não tem sanita…

- Pois não. - respondi-lhe. - É só para urinarmos.

- Ah e então como fazem se ali não têm sanita?

- Olha, Daniel – respondi: Vamos ao cabeço. E apontei-lhe ali o “cabeço da igreja”.

- Ali??? - perguntou-me, muito admirado.

- Bem, não ali mas lá mais à frente, onde começam os sobreiros e o mato. É lá que, atrás de um árvore ou de um tojeiro, arreamos a calça.

- Oh, não sei se ele se ajeita para isso?… Ele está habituado à sanita...

- E, amigo Zeca - voltou a perguntar-me: E para se limparem, como fazem?

- Olha, há quem use uma pedra das muitas que há por lá mas eu costumo levar um pedaço de folha de jornal.

- Jornal??? - pergunta-me o Daniel, muito espantado.

- Isso é muito áspero, Zeca. O amigo vende papel higiénico?

- Vendo.

- E vende-me um rolo, por favor?

E, acrescenta-me o Zeca na narração:

- Victor, fui ao maço, retirei um rolo e vendi-lhe, com um espanto que nem imaginas… E, que fez ele, enquanto eu fazia um esforço enorme para não me rir?… Pagou, agradeceu, virou costas, saiu, entregou o rolo ao amigo dizendo-lhe:

- Toma! Anda comigo. Vou indicar-te.

- E, meu caro primo, imagina a cena que eu vi e não me sai da memória: o amigo pôs o rolo debaixo do braço e lá vão eles, os dois lado a lado, passinhos curtos mas rápidos a caminho do cabeço e... não mais os vi. Não mais os vi, pá. Fiquei sem saber se o amigo conseguiu arrear a calça, ou não…

E o saudoso Zeca, ao longo dos tempos, recordar-me-ia esta hilariante história várias vezes… E sempre, sempre com um sorrisinho maroto… 

Sorrisinho maroto que, agora, lá onde estiver, ao ver novamente esta lembrança, que eu também não esqueci mais, acredito que seguramente renovará…


NOTA FINAL – Importa dizer que ao longo da sua vida o comportamento do aqui chamado de Daniel em nada confirmou as então faladas suspeitas de homossexualidade, donde se deduz que, ou tudo não passou de um pequeno desvio de adolescência ou, então, um “diz-se, diz-se” em que a voz do povo por vezes é fértil e, quantas vezes, injusta. Mas que os factos aqui relatados foram reais, lá isso foram...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A VELHINHA ESCOLA PRIMÁRIA


Recordação cada vez mais acentuada de dias e situações vividas aquando da infância e juventude, numa experiência e sensação quiçá bem gostosa e agradável quanto nostálgica e que, em boa verdade, também não surpreendente porque já prevista há muito por este pobre escriba que desde sempre gostou de ouvir dos mais velhos as suas experiências e vivências passadas, sabendo assim que isso aconteceria, é o que vou sentido há já uns anos a esta parte e de forma cada vez mais acentuada nos dias que correm.

Acontece então que, chegada a convencionada dita 3ª idade, a caixinha dos pirolitos do pobre cidadão como que vai resgatando do seu lastro, do seu fundo, as cenas, os episódios, os objectos e as coisas vividas em tempos bem recuados e, num misto de surpresa e prazer, passa largos períodos a recordar e reviver tempos idos, lá muito, muito distantes nos dias.

Um objecto, uma imagem, uma simples conversa, fazem-no recuar no tempo e, agora, com a moderna internet que repesca por todo o lado os elementos do passado, as cenas de outros tempos, muito mais isso se acentua e se sente.

Pensava exactamente nisto mesmo quando, num site de velharias “tropecei” na velha fotografia que aqui junto de uma sala de aula de pequenas crianças e que de imediato me transportou aos meus tempos de criança, aluno na então chamada Escola Primária do meu Chouto natal (aí também numa outra foto dos nossos dias já com o edifício devidamente recuperado e bonito) onde aprendi as primeiras letras e ali permaneci até perfazer a na época denominada 4ª classe.

Para meu especial prazer e dado que, ao que julgo, não existirão quaisquer fotos da minha sala de aulas desse tempo – as máquinas fotográficas eram escassas e só ao alcance de algumas poucas bolsas... - esta interessante foto e salvo algumas poucas diferenças, é uma cópia quase fiel da que tínhamos naquela altura nesse recanto onde a professora dava a aula. Vendo-a é possível imaginar e ver ali a mestra, os alunos (todos, como então, de bata branca), as carteiras (com os velhinhos tinteiros de loiça branca onde molhávamos o aparo da caneta) e a disposição dos diversos móveis, sendo por isso o que aí está uma cópia quase exacta da escola que frequentávamos nos idos tempos.

A professora (Maria Angelina) era um pouquinho mais cheiinha que a que aí vemos (um pouquinho, mas era mesmo mais para o “grosso”…); ao canto, junto à mestra, ”descansava” sempre, quando “descansava”, a grande e rija cana-da-Índia; em cima da secretária (de tampo talvez um nadinha maior…) sempre “repousava” a régua (palmatória), quando “repousava”, nos intervalos em que não era usada para sovar o alunos; o quadro era em ardósia preta e um pouco mais pequeno; os vasos e jarra de flores estão aí a mais (Maria Angelina era pouco de flores…); a janela à esquerda, de sistema guilhotina e embora alta como a da foto, era um pouco menos larga; não tinha calendário na parede e muito menos com imagem de santos ou santas (Maria Angelina não era muito dessas coisas…); por cima do quadro preto tinha um crucifixo em bronze ladeado por duas grandes fotos em molduras de madeira com os rostos do Marechal Carmona (Presidente da República) e do Dr. Salazar (Presidente do Concelho), conjunto obrigatório nas escolas da época e, por fim, nem o pequeno estrado, onde a professora se movimentava e de onde aplicava as reguadas aos alunos no plano inferior, aí falta.

Pelo exposto e em imagem quase fiel, eis como ali vejo esse recanto da minha sala de aulas da já então velhinha Escola Primária na primeira metade dos anos 50 do século passado, época em que também fazia as cópias que aí deixo, cópias certamente redigidas em casa e que depois levava para escola como os hoje chamados TPC. 

Já na época realizávamos os chatos “trabalhos de casa”... Sempre contrariados; sempre com medo da professora; sempre forçados pelos pais; sempre aborrecidos quando não a choramingar porque nos aguardavam nas ruas e largos de terra batida da aldeia, o Rainha, o Carvalho, o Diamantino, o Rui, o “Ervilha”, o Zé da “Calistra”, o Manuel “Barracão”, os irmãos Tomé e Manuel João, o Manuel João Garcias, o João e o Manuel Espadinha, o Zé Augusto "Montefato", o..., o…, os muitos outros amigos e companheiros com quem jogávamos ao pião, à bugalha, à bola (com uma meia cheia de trapos a fazer de esférico) e com as oliveiras ou umas simples pedras a servirem de balizas; calçados uns mas, de pés descalços outros, já que as posses dos pobres pais não lhes chegavam a tais luxos de botas ou sapatos… Esfolados de joelhos e braços mas felizes.

Alegres e felizes sem o sabermos.

Danado de tempo que se foi.

... E que se foi tão rápido...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A III "RECAUCHUTAGEM" VAI ACONTECER


Chegada hoje por telefonema do competente cirurgião que desde a operação em 2017 me acompanha na evolução deste chato estado da minha figadeira e menos de um ano decorrido sobre o tratamento por quimioembolização sofrido, a notícia chegou: Novo internamento, novo exame, nova quimioembolização.

A III “recauchutagem” da minha “pecinha das iscas” vai assim realizar-se de novo e, ou muito me engano – e oxalá que sim! - mas, pelo historial, parece que estarei sentenciado a, ano a ano, ver nascer estes “brincos” danados que não incomodam com dor, é verdade – do mal o menos… - mas não deixam de muito preocupar.

Mas, ainda bem, como hoje me fez ver o amigo cirurgião, que felizmente há tratamento para o que vai surgindo porque, como disse, “se algo aparece, sendo que para isso não há remédio, é que é mais chato”, coisa que, convenhamos, é bem verdade.

Mas, uns com uns achaques, outros com outros, todos temos que nos conformar, ao mesmo tempo que, esperançados e animados em dias melhores, temos que ir tratando e combatendo as maleitas surgidas.

É o que tenho feito e que continuarei a fazer na convicção que, como o anterior exame tudo se passará sem esforço ou contrariedade de maior e, em poucas horas (em Maio passado foram exactamente 45 horas de internamento), pelo meu pé tornarei a casa mais aliviado, mais animado.

E, passados mais uns tempos, se estes “brincos” tiverem seguidores, cá estarei tentando rejeitá-los. 

Não há alternativa.

É a vida...

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

QUANTAS SAUDADES!...

Nas manhãs de dias frios, húmidos, tristonhos, lúgubres e anunciadores de chuva quanto este rapaz, sentado em pequeno banco de assento de palha, juntinho ao lume e às brasas de sobro no quentinho da lareira rasa que, em contraste com a baixa temperatura do exterior, ali mais tornava paraíso, debaixo dos enchidos, dependurados no fumeiro por cima de nossas cabeças, saídos da recente matança do bácoro, alimentado e criado a hortaliças da horta e milho da seara, quantas Morcelas de Assar, assadinhas no borralho da fogueira foram degustadas? Quantas?


Entaladas no bom e alvo naco de pão caseiro, que depressa ficava ensopado na quente gordura que do bom pedaço de morcela saía – quando não da totalidade da dita cuja… - quantas e quantas Morcelas de Assar este saudoso rapaz não degustou, acompanhadas do inesquecível café que, na cafeteira em permanência sempre esquentava juntinho ao borralho e que, vertido para a generosa chávena, sempre prontinha a receber e saciar o contínuo apetite da criança e do rapaz, tornavam o pequeno-almoço num delicioso manjar para sempre recordado? Quantas?

Saudosos tempos, saudosos tempos que se foram!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

COVID - 19 - DIAS DRAMÁTICOS!

Numa hora tão grave e dramática para Portugal, devastado pelo terrível e mortífero Covid -19 que mata e faz sofrer, melhor que as minhas fracas e pobres palavras de preocupação e mesmo medo, está o testemunho do médico Ricardo Baptista Leite publicado hoje em muitos meios de comunicação social e diversas redes sociais e de aqui me faço eco por entender que todos não somos de mais para consciencializar os distraídos e/ou inconscientes que teimam em não se resguardar e, irresponsavelmente, vivem assobiando para o lado, convencidos que o mal só acontece aos outros...



"Ontem ao sair do Hospital de Cascais sentia uma enorme frustração e angústia. Para garantir a racionalidade das minhas palavras, decidi esperar por hoje para fazer esta partilha. 

Estive este sábado mais uma vez como médico voluntário no serviço de urgência do hospital de cascais – mais especificamente no chamado ‘Covidário’ que dá resposta aos doentes e suspeitos COVID-19. Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indiscritíveis. A sensação de impotência por não podermos fazer mais. Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes. Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão. O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras. Tantos doentes a descompensar com quadros de insuficiência respiratória grave. Sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria, ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência. Alguns doentes com ventilações invasivas… Um cenário de guerra. Os doentes menos graves que aguardam pelo teste covid assistem em direto a muito disto… o espaço é demasiado pequeno para tantas dezenas de doentes. E a cada hora chegam mais doentes. É preciso estabelecer prioridades. O cenário é de catástrofe e exige comando e controlo. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades. Não se conseguem acompanhar todos os doentes a todo o tempo. Um doente de cada vez. Fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários. Estamos em pleno campo de batalha no qual as emoções têm de ficar de lado… mas na realidade ficam apenas recalcadas. Chora-se quando se chega finalmente ao carro no final do turno, ou a casa. Ali no covidário o foco é necessário e absoluto. Assisti a uma colega médica que esteve durante mais de uma hora a ligar para familiares de doentes que estavam sob a sua responsabilidade e que acabaram por falecer num espaço tão curto de tempo, apesar de todos os esforços. Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos. Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes. Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia. 

O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta.

Perante a gravidade da situação da covid-19 em Portugal, continuaremos nos próximos dias com uma tendência crescente do número de novas infeções diárias, de internamentos e de doentes em cuidados intensivos. E assim vai continuar até ao final do mês. Um em cada 5 testes realizados no nosso país é positivo. E a tentativa de manter as pessoas em casa para tentar diminuir a dimensão da epidemia simplesmente falhou.

O custo humano de falharmos como país é demasiadamente elevado. Será insuportável e ficará como uma cicatriz de vergonha para futuras gerações de portugueses. Estamos a viver um momento histórico e depende de nós definir como termina.

Por isso, não há tempo a perder. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para prevenir mais mortes evitáveis. Não podemos continuar no atual rumo. A meu ver, temos de fazer 5 coisas de imediato:

1. Não esperar 15 dias. Decidir mudar de imediato as medidas governamentais e determinar um confinamento ‘absoluto’ durante 3 semanas para depois ser reavaliado. Isto tem de incluir as escolas, garantindo o apoio remuneratório a um dos pais, tal como aconteceu durante a primeira vaga. O problema não são as infeções nas escolas. É toda uma sociedade que não consegue parar com as escolas abertas. Mais, todas as demais atividades não essenciais, que não sejam possíveis por teletrabalho, devem cessar atividade de imediato pelo mesmo período de tempo. Tudo deve de parar de imediato. Reduzir as regras de circulação unicamente para as situações determinadas aquando do estado de emergência de março 2020. As forças de segurança devem ter instruções claras para atuar em conformidade perante a violação das regras definidas em todo o território nacional.

2. Mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas. Chamar todos os recursos humanos disponíveis para abrir o maior número possível de hospitais, clínicas e tendas de campanha com máxima urgência. 

3. Comunicar de forma clara, transparente e diária com o país sobre a gravidade da situação e sobre o que se espera de cada cidadão. Ponderar novamente os riscos inerentes ao ato eleitoral de dia 24 - sobretudo depois do que se viu com o voto antecipado. 

4. Preparar desde já o momento em que se levantarão as medidas restritivas de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos. Isto exige um aumento significativo do dispositivo de saúde pública e da capacidade de testagem. O país tem de testar no mínimo 5 vezes mais do que atualmente, com particular enfoque na testagem semanal dos profissionais das escolas, dos lares e de saúde. Temos de ser capazes de identificar todos os infetados e determinar as cadeias de infeção – sem saber onde as pessoas se infetam, não seremos capazes de atuar precocemente na contenção de surtos. Mais, devemos ser capazes de identificar todos os que tiveram contacto com pessoas infetadas e garantir o isolamento de todos – doentes e suspeitos. Garantir mesmo que fiquem isolados. Contratualizem-se os hotéis do país para o efeito dividindo-os em hotéis para infetados e outros para suspeitos. 

Testar, identificar e isolar. Não há outra forma.

5. Usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas COVID-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até Junho 2021. 

A frustração destas semanas tem de ser substituída por ação determinada para acabar com esta pandemia. Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano. Ainda vamos a tempo de salvar vidas. Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

IMPENSÁVEL!!!

Totalmente impensável assistirmos, como ontem assistimos, aos graves acontecimentos da invasão do Capitólio, em Washington, por uma multidão de arruaceiros apoiantes do presidente vencido Donald Trump!

Ver a casa da democracia, símbolo maior da ordem, da civilização e da liberdade, num país assumidamente defensor da ordem e da liberdade mundiais, dá para avaliarmos quão estranho e louco é o mundo dos nossos dias.

Ver o Capitólio assaltado e saqueado (a cena de um polícia assustado e solitário a fugir escada acima à frente de uns quantos assaltantes é por demais espantosa e dramática!…) e, sobretudo depois do triste 11 de Setembro, comprovar que um grupo de americanos, por mais ou menos numeroso que seja, consegue partir portas e janelas, escalar paredes e penetrar e devassar gabinetes de altos dirigentes da política dos Estados Unidos e do Mundo, é coisa demasiado grave e deixa tudo e todos incrédulos, se não mesmo assustados.

Um sujeito que ao longo do seu mandato fez política de confronto com tudo e com todos, inventa uma fraude eleitoral e, ainda que todos os tribunais a que recorre não lhe reconheçam razão num único caso para reclamar os resultados eleitorais, persiste na alusão a essa suposta fraude e vai agora ao extremo de incentivar aos seus apoiantes uma ida ao Capitólio, deixa-me abismado e indignado como tal coisa é possível hoje acontecer na transição do poder na nação mais democrática e poderosa do Mundo.

E que dizer das medidas tomadas pelas diversas Redes Sociais da net que hoje suspenderam e ameaçam banir as contas desse Trump, numa medida incrivelmente inédita e verdadeiramente espantosa?

O Capitólio invadido por uma multidão de arruaceiros!...

Impensável!

Impensável, inadmissível e… criminoso!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021 – SER MELHOR NÃO SERÁ DIFÍCIL

E aqui estamos rapidamente, muito rapidamente – esta trapalhada dos meses e dos anos agora passam tão depressa!… - no 1º dia do novo ano de 2021 por todos ansiado que seja melhor que este horrível e desgraçado 2020 que se foi. O que, convenhamos, não será muito difícil, tão maus foram estes 365 passados.


Com o início da aplicação das vacinas as prespectivas e sobretudo as esperanças são as maiores de que façam minimizar, se não mesmo extinguir este mortífero Coronavírus que, surgido há um ano na distante e recôndita China, depressa se propagou em larguíssima escala por todo o Globo e por toda a Humanidade, com horríveis e dramáticas consequências.

Um ano passado sabemos que totalizam já muitos milhões de homens e mulheres os contaminados e mortos e, mais preocupante ainda, temos todos a sensação que ainda agora a “procissão vai  no adro”, como diz o nosso povo. Na verdade, ainda que as vacinas constituam uma grande esperança, todos sentimos que o mundo desconhece quando e como todo este enorme pesadelo, único e inimaginável nas nossas vidas, terminará…

Obedecendo a um plano previamente estudado e divulgado, temos agora em Portugal os elementos dos serviços de saúde na prioridade da vacinação a que se seguirão utentes de lares e doentes com problemas crónicos de saúde e, em Março/Abril passar-se-á aos maiores de 65 e doentes e será então o grosso da população sendo que, no meu caso pessoal, deverei integrar essa numerosa coluna.

Estou ansioso por essa hora como é evidente e espero que no próximo Verão, tanto eu como a larga maioria dos portugueses, já estejamos mais protegidos e menos preocupados.

Até lá e se bem que após a vacinação os cuidados devam e tenham de continuar, há que manter o afastamento, o isolamento, a prevenção para que o COVID-19 não nos atinja, não nos “agarre” e não nos traga mais preocupações e mais aflições.

Que o 2021 seja melhor que este danado 2020 que se foi! O que, certamente, não será muito difícil...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

UMA MINISTRA EM LÁGRIMAS...

Avesso a interessar-me, falar e sobretudo escrever sobre política e os políticos que temos depois de me desiludir com os métodos e o nível da classe política que nos vinha – e vem - dirigindo e mais concretamente após os nossos eleitos representantes em tempos idos terem criado as então escandalosas, incríveis e mesmo ofensivas Pensões Vitalícias, numa decisão pessoal que tomei e que só foi alterada uma ou outra isolada vez em casos esporádicos e bem raros eu, que no pré e no pós 25 de Abril me interessei e vivi a política e durante muitos anos e tanto escrevi em milhares de linhas, muitas vezes de páginas inteiras em jornais e revistas publicadas no meu torrão natal, abro hoje um novo parêntesis nessa posição há muito assumida.

E faço-o sincera e convictamente depois de, fortemente impressionado, ter visto na televisão e já revisto aqui na net, a nossa actual Ministra da Saúde, Marta Temido de seu nome, numa emoção para mim jamais vista num governante, verter lágrimas enquanto discursava no Instituto Ricardo Jorge perante os seus trabalhadores.


Emocionou-se assim a senhora de voz embargada e com várias e emotivas lágrimas a rolarem-lhe pela face quando se dirigia aos trabalhadores do Instituto, que o seu ministério tutela, no seu agradecimento e muito apreço pela dedicação e esforço por eles despendido no combate à terrível pandemia que nos assola, que naturalmente a todos muito preocupa e, como agora se comprova, com a Ministra da Saúde a estar na 1ª linha desse combate e dessas preocupações.

Preocupações que, agora se constata com franca admiração, não são apenas oficiais mas, sobretudo, muito sobretudo, pessoais.

Em toda a minha existência não me recordo de ver em público num governante tamanha emoção, tamanho sentimento e tão grande sensibilidade pessoal no desempenho da sua importante missão e entendo que deve merecer todo o apreço e toda a estima.

Não sei se é boa ou má ministra; se é competente ou não; se desempenha o seu cargo com saber ou não; sei que é sensível, sei que sente a responsabilidade do seu cargo e isso diz-me muito.

Porque nunca me acanhei a criticar os frios, distantes, maus, se não mesmo mentirosos e falsos políticos, aqui estou hoje, francamente e também emocionado q.b., a manifestar toda a minha estima e muita admiração pela sensibilidade de Marta Temido, ministra de um governo de Portugal.

Bonito e sensibilizante!

Mulher de carne e osso – e lágrimas!… - como eu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

OS (DEFUNTOS) CARTÕES DE BOAS FESTAS

 
Vivíamos então as décadas de 50, 60, 70 e mesmo 80 do século passado... 

O digital ainda não tinha nascido; a internet igualmente ainda não havia surgido, não tinha sido inventada e, eventualmente, tão pouco seria sonhada pelas mentes mais imaginativas; os telemóveis idem-idem, aspas-aspas e, nos poucos aparelhos fixos, as ligações eram deficientes e… caras; as comunicações entre os humanos eram na época feitas quase exclusivamente pelo correio escrito em cartas, cartões, postais, telegramas, etc.

Era assim antigamente e foi neste quadro que surgiu o então designado “Cartão de Boas Festas” para ser enviado nesta quadra natalícia ao amigo, ao familiar, ao namorado e, depois, numa maior divulgação, a associações, instituições, quiçá empresas mais dedicadas e estimadas do remetente. 

Chegada este altura do ano todos corríamos às papelarias, tabacarias e até a cafés e mesmo mercearias em pequenas aldeias, na compra dos pequenos cartões e seus envelopes, que se vendiam em conjunto já com as dimensões adequadas às dos cartões.

Na Chamusca, sede do meu concelho natal, recordo-me que o estabelecimento grande fornecedor da população era sobretudo a “Papelaria do João Fonseca”, principal estabelecimento do género na vila mas, também no meu pequeno Chouto, na mercearia do meu tio Antero Barreto, que de tudo vendia, num ou noutro ano os houve, numa venda em que sobressaía a boa vontade e a simpatia do primo Zeca, sempre solícito em procurar destacar as belezas do produto e em agradar ao cliente.


Tanto quanto me lembro, os simpáticos cartões começaram nos recuados anos por serem fornecidos muito simples e de pequeno formato mas, depressa, de um simples cartão inicialmente com desenhos de paisagens sempre nevadas com casebres e árvores alvas de neve, depressa passaram a ter maior formato e a mostrar-nos imagens já mais coloridas de presépios com a Virgem Maria, S. José, o menino Jesus e os tradicionais burro e vaquinha com o seu bafo aquecendo a criança na manjedoura.

Mas não se quedariam por aí os simpáticos cartões e, logo, logo surgiu a grande novidade dos desdobráveis, de multi-faces, bem originais e bonitos para a época. Eram os mais procurados quando se pretendia presentear a namorada, o amigo especial, o familiar mais querido. Abria-se a face principal do cartão e no seu interior surgiam-nos imagens como que em movimento, dando uma dinâmica e vida ao cartão particularmente agradável à vista. Naturalmente, eram também os mais carotes mas, mesmo assim, como o desejo era agradar ao destinatário, isso pouco contava… Também com o surgimento das guerras de África começaram a circular uns cartões bem específicos, alusivos à presença dos nossos militares nos campos de batalha e que tinham a particularidade de apresentarem imagens de namoradas, de rostos e poses sempre mais ou menos apaixonadas mas obrigatoriamente discretas e castas, ou disso aproximadas, porque outra coisa a censura da época não deixaria passar…

Nas duas quadras natalícias que passei na guerra nos finais da década de 60, lá bem no distante e inóspito leste angolano, recebi naturalmente muitos e diversificados cartões de Boas Festas remetidos por familiares e amigos e, como seria inevitável – este rapaz guarda tudo!… -, ainda hoje os conservo como gratificante recordação. 

Para aqui documentar para a posteridade, escolhi desses cartões uns quantos variados que fotografei e aí deixo como ornamentação das minhas palavras. 

No grupo poderemos ver os mais simples e pequenos, com imagens de neve e árvores; um outro mais sóbrio e discreto de um amigo; e, encima, dois dos desdobráveis: um com o tradicional presépio e o outro, que aprecio bastante e que destaco em separado, que apresenta a saudosa jovem namoradinha no jardim da sua eventual casinha de aldeia empunhando um raminho de flores sendo  que, abrindo a janela, vê o seu amado que, de camuflado vestido, sinal que estava na guerra distante, surge-nos de perna trocada, muito prazenteiro numa paradisíaca praia de coqueiros e mar calmo já que, mostrá-lo sujo, cansado e a combater na mata, como infelizmente acontecia muitas vezes no seu dia a dia, seria absolutamente proibido pelos poderes de então. Lírico e romântico… Coisas da época…

Todos estes cartões e este hábito de comunicação entre nós entretanto se foram com a chegada dos mais modernos e rápidos meios de comunicação mas, convenhamos, o velhinho “Cartão de Boas Festas”, com o gosto que se escolhia de entre os muitos aos dispor na loja, com o carinho com que se redigia a sua dedicatória e até com a amizade com que se colocava no marco do correio, era bem mais amigo, fraterno e carinhoso que esta coisa das frias e quase impessoais mensagens escritas – e muitas vezes copiadas e partilhadas às dezenas e centenas… - recebidas nos telemóveis, nos computadores e na internet. 

Sinto-o eu...

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O DESMAIO DO LUCIANO


NOS 46 ANOS DA MORTE DE DR. ARMANDO CUMBRE, O RECORDAR DE UMA SUA SINGULAR CURA... 

Luciano, pedreiro de profissão em Casa Agrícola da sua amada Chamusca, viveu toda a sua existência para o bom desempenho do seu trabalho, que executava com evidente prazer e prontidão; para a sua Celestina, companheira fiel, amiga e terna com quem uniu o seu destino nos inícios dos anos 40 do século passado e para a bonita Isabel, de seu nome de baptismo, menina de voz doce e delicada que haveria de nascer, fruto dessa união.

Formavam na vida o tradicional e ideal lar, comum na época, em que o marido trabalhava e levava para casa o produto do seu labor; a esposa cuidava do ninho, das roupas e das refeições e, a filha, depois de terminada a escola primária, costurava, bordava e fazia croché, no intuito de ser menina prendada para um seu futuro pretendente.

Luciano levava vida regrada e sem extravagâncias – que na época também não seriam permitidas... – com a dedicação ao trabalho e o apego ao lar. Laborava as normais horas de serviço por conta do senhor seu patrão, ia almoçar a casa, já que os dois locais, dentro da vila, pouco  distavam e, findo o período diário, voltava a montar a velhinha bicicleta Rua Direita fora e terminava desviando para a outra via, que percorria já a pé, apoiado no velocípede, dado que a pequena inclinação da rua e os seixos redondos da velhinha calçada algo dificultavam o seu percurso a pedais.

Pelo caminho, porque Luciano era homem muito comunicativo e sociável, correcto e educado com todo o seu semelhante, quedava-se um pouco em conversinhas amenas com o sapateiro, com o merceeiro, com as senhoras da “palha ripada” e, finalmente, tendo a “Taberna do Zé” como testemunha do seu trajecto, aí entrava uma tarde ou outra; conversava com os seus frequentadores e velhos amigos e, pelo meio, lá ia molhando a palavra e satisfazendo o paladar e o estômago com os pequenos tintinhos que lhe adoçavam a boca e algo o aliviavam das chatas canseiras do dia de trabalho.

Uma vez ou outra bebia um copinho a mais - talvez um pouquinho a mais… - e, chegado ao lar, ou porque vendo-lhe os olhinhos mais pequeninos, ou porque o nosso amigo arredondava demais as conversas ou até mesmo, talvez, expelindo algum odor avinhado, logo a sua atenta e preocupada Celestina o interpelava: 

- Luciano, estiveste a beber! Estiveste na “Taberna do Zé”!…

A que o nosso Luciano contrapunha:

- Olha, tinha o “Manel da Emília” à porta, entrei e estivemos os dois um bocadinho a conversar sobre as nossas vidas. Foi só dois copinhos a cada um…

Luciano repetiria a dose e a situação uma ou outra vez ao longo dos seus dias e sempre a cena em casa se reviveria e sempre a afável companheira, amiga e preocupada, o admoestava com dedicação e... docemente, sempre muito docemente.

Até que um belo fim-de-tarde, ou porque entrou mais um amigo no convívio e, no “agora pago eu, depois pagas tu”, ou porque aconteceu um pouco mais de entusiasmo nas conversas na “Taberna do Zé”, o nosso Luciano enganou-se um pouquinho na contagem “deles” e, quando resolveu avançar para casa, de bicicleta pela mão, a “carga” de um copito mais, repetido uma ou mais vezes, já lhe “ofereciam” um leve ziguezaguear não muito recomendável…

Mas... chegou. Chegou, não "sãozinho" na verdade mas… ainda assim, sozinho e pelo seu pé.

Já era um nadinha tarde para o habitual e as pacientes e ansiosas Celestina e Isabel, sentadas, de mesa posta para a janta que esfriava, viram-no abordar a porta da cozinha e, de mão amparada à ombreira, tirar o boné que lhe protegia a alva carequinha e, a preocupada companheira, vendo-lhe os olhinhos pequeninos e redondinhos, logo exclama:


- Luciano, estiveste a beber! Estiveste na “Taberna do Zé”!… - A mesma exclamação de outras ocasiões mas, desta vez, bem mais enérgica… Docemente, mas um bocadinho mais enérgica...

O nosso amigo, sem dizer palavra dá um passo em frente, entra na cozinha e, quando se apresta para se sentar à mesa, tomba para a direita e… estende-se ao comprido no chão vermelho de tijoleira e logo a aflita Celestina se levanta e grita, assustada:

- Ai Jesus! Ai Jesus! Luciano? Ó Luciano?!

A filha Isabel chama-o, preocupada:

-Pai? Ó meu pai? Meu Deus!…

A mãe Celestina chorosa, ordena-lhe aos gritos:

- Isabel, corre ao telefone e liga ao Dr. Cumbre, que nos acuda! Que salve o pai!…

A rapariga em dois pulos chega à sala de jantar e disca no preto aparelho o número do médico.

Atende do outro lado a criada do clínico e Isabel roga-lhe:

- Chame-me, por favor, o sr. dr.!

Cumbre, jantava… Levanta-se, vai ao telefone e ouve a aflita moça:

- Sr. Dr., sou a Isabel, a filha do Luciano. Sr. Dr. o meu pai está muito mal! Caiu desamparado, está de olhos cerrados e boca fechada e não responde aos nossos chamamentos. Não reage. Venha vê-lo, sr. dr.! Eu e minha mãe estamos aflitas. Por favor!

O médico deixa a refeição a meio, mete-se no automóvel e, em poucos minutos, chega à residência das preocupadas mulheres. 

Isabel, de porta aberta, já o aguardava ansiosa:

- Sr. dr., o meu pai não abre os olhos e não nos responde mas já abre e fecha a boca mas não diz nada, nada.

- Vamos já ver. - responde de pronto o médico, avançando casa adentro na direcção da cozinha.

E, Luciano ali continuava. Inerte, pálido e de olhos cerrados... 

Cumbre baixa-se e leva os joelhos à tijoleira do solo, dobra-se sobre o tórax de Luciano e escuta-lhe as batidas do coração; pega-lhe no pulso e conta as pulsações; queda-se pensativo breves segundos e, levanta-se de rápido indignado, no mesmo instante que vocifera e lamenta:

- Ai este cão que está com uma grande bebedeira e faz-me vir aqui!!!…

Rápido, pousa a maleta, estica os braços, abre bem as mãos e… zás-zás!; prega dois sonoros estalos nas inertes bochechas de Luciano que, de imediato, abre os olhos.

O médico pega na maleta, vira costas e deseja boa noite às mulheres, perante o espanto de Isabel que, seguindo-o na direcção da saída, ainda lhe pergunta:

- E o sr. dr. não receita nada ao meu pai?

- Receito: Amanhã diz-lhe que, já que não sabe beber vinho, que beba água!…

Saiu lesto, entrou no carro e foi concluir o seu jantar que esfriava...


(NOTA – Ainda que, por razões óbvias, os nomes dos intervenientes nesta cena com o Dr. Cumbre sejam fictícios, o episódio narrado é absolutamente verídico.)

domingo, 15 de novembro de 2020

3º ANIVERSÁRIO DOS FURINHOS

Foi no dia 15 de Novembro de 2017, completando-se portanto hoje 3 anos, que a velha carcaça deste escriba sofreu 3 furinhos no abdómen e, através deles, durante mais de 4 horas, os senhores doutores do Curry Cabral intervieram no fígado (lapararoscopia, de seu nome cirúrgico) e trataram da saúde, na verdadeira acepção da palavra, deste rapazinho.
 

Porque era a primeira vez que era submetido a uma cirurgia o doentinho ia ansioso, quiçá apreensivo mas, curiosamente, algo calmo e decidido, até porque não conhecia outra alternativa.

E, afinal e não obstante os 21 dias de internamento (exceptuando os 5 dias e meio de permanência nos Cuidados Intermédios logo após a cirurgia que foram bem chatos), passaram de maneira, sem que fosse agradável porque, cirurgia e internamento num hospital nunca poderá ser isso, mas de forma bem aceitável tendo contribuído para isso o trabalho e a competência dos vários profissionais intervenientes e, vamos lá… a vontade e boa adaptação do padecente rapaz. 

Através dos falados 3 furinhos os sabedores doutores retiraram do fígado o atrevido “brinco” (maligno) ali abusivamente nascido e já crescidinho e, praticamente sem qualquer dor, o ansioso doentinho, passou a ter esperança de dias melhores e bem menos preocupantes.

Não se registaram dores posteriores e nem mesmo antes elas foram sentidas, coisa associada às chamadas “doenças silenciosas”, muitas vezes as mais preocupantes porque de tardio tratamento.

E, a propósito e para terminar o registo desta efeméride, a referência à questão “sem dor” leva este jovem de ontem, que já se lembra de muitas situações de outros tempos, a recuar uns bons anos e recordar o episódio da à época humilde e idosa aldeã sua conterrânea, gente simples do nosso povo, quando descrevia a seu pai uma visita feita ao experiente e sempre extrovertido Dr. Cumbre, médico na sua concelhia Chamusca durante quase meio século, solicitando-lhe remédio que lhe eliminasse a súbita e sofrida dor sentida numa perna:

- Ò sr. Zé, eu disse ao sr. doutor que antes da dor nada me doía e estava tão bem e, sabe o que ele me respondeu?

- Ainda bem, rapariga, que estavas bem e que nada te doía antes! Olha lá: e… se estivesses mal e se te doesse antes, não era pior? Anda lá!… Vai à farmácia comprar essa injecção da receita e, lá no Chouto, o Zé Azevedo que te a dê.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

CHEGA NOVA "LICENÇA", PARTEM VELHAS CATARATAS...

Nas madeiras como nas pessoas temos uma realidade indiscutível e inevitável: o caruncho sempre chega, mais cedo ou mais tarde. É assim e não o conseguimos evitar em definitivo pelo que só nos resta recorrer a remédios e outros preceitos na tentativa de ir adiando para que a data final surja o mais tarde possível. Nas madeiras, como nas pessoas.

É assim, não tem como evitar e não há alternativa e por isso esta velha carcaça não foge à regra.

Tendo começado a frequentar os senhores doutores há 4 anos, desde então não tem parado mais, numa sequência de consultas médicas, receituários, tratamentos e cirurgias em catadupa que mais parece um verdadeiro curso intensivo. Intensivo e… prolongado. Prolongado q.b.

Foram vividos nestes últimos dias mais uns quantos episódios dessa “empreitada” com análises, TAC, cirurgias e preocupações quanto baste e que terminaram ontem – por agora… - com mais um resultado final. 

Assim, fiquei a saber que a “figadeira” não criou mais qualquer “brinquinho” (notícia excelente!), pelo que a renovação da “licença” voltará a fazer-se daqui a 3 meses e, finalmente, ontem “mandei” embora a catarata de olho (direito) - a que faltava -, passando a beneficiar de uma visão que, francamente, não me recordo se alguma vez assim tive.

Encantado com os resultados obtidos não deixo de me lamentar por andar tanto tempo a ver coisas e objectos pessimamente quando tinha à disposição meios tão rápidos e eficazes que me dotariam de uma muito melhor qualidade de vida. Como assim andei tantos anos, é interrogação que faço a mim próprio...

Considero um espanto, um enorme espanto, as melhoras registadas e, dando graças à ciência, mais uma vez saúdo os senhores doutores, os homens e as mulheres que estudam e aprendem a cuidar e a melhorar a saúde dos seus concidadãos, proporcionando-lhes – quantas vezes sem a devida recompensa!… - uma melhor saúde, um melhor bem-estar e, tantas e tantas vezes, salvando-lhes mesmo as suas ameaçadas vidas!

Para a ciência, o milagre em que acredito e para os homens e mulheres que a servem e fazem evoluir todo o meu aplauso, todo o meu imenso apreço!  

domingo, 8 de novembro de 2020

VITÓRIA DA AMÉRICA E DO MUNDO!

 Ainda que a viver dias de alguma ansiedade por via de aguardar amanhã o resultado de mais uma TAC feita à “pecinha das iscas” e, logo no dia seguinte (10), a cirurgia ás cataratas do olho esquerdo, não pude deixar de me manter a pé até às duas da manhã de hoje para poder acompanhar os discursos de vitória nas eleições dos EUA de Joe Biden e da sua vice- presidente Kamala Harris, sobre aquela coisa que dá pelo nome de Donald Trump que, incrivelmente foi eleito há 4 anos tendo-se mantido na Casa Branca nos últimos 4 anos.


Sem me considerar minimamente sabedor da matéria mas sendo um atento observador do que vejo, ouço e leio, tenho como sendo um grande alívio para o mundo a vitória de Biden e a consequente saída de cena daquele incrível Trump inculto, impreparado, racista, xenófobo, ignorante, inconsciente e, sobretudo, sobretudo profundamente mentiroso. Um sujeito, um dirigente da craveira de um presidente dos EUA que consegue dizer num mesmo discurso tudo e o seu contrário sem se rir, num descaramento inimaginável para quem quer que seja que tenha dois dedos de testa, é algo impensável mas perfeitamente normal naquele ser.

Pensar que alguém assim venceu umas eleições para presidente da dita nação mais poderosa do mundo e, durante 4 anos rasgou acordos internacionais de enorme interesse mundial, usou o lugar e o poder para decisões xenofobas, racistas, inimigas do ambiente e do planeta e, finalmente, nos últimos tempos, criminosamente negou a evidência e a ciência para um necessário e imprescindível combate à terrível pandemia que já matou centenas de milhares de seus concidadãos e milhões de seres humanos no planeta, é algo impensável no mundo moderno e civilizado que vivemos nos nossos dias.


Com o sabedor, calmo e ponderado Joe Biden – que teve comportamento exemplar de serenidade, paciência e educação com o seu adversário nesta agressiva peleja – quero acreditar que voltará à América a decência, o respeito pela ciência e pelo ambiente, o não ao racismo e à xenofobia, a verdade e o respeito pela governação da sua nação e a cordialidade e o respeito no relacionamento internacional.

Para sair em “beleza” de cena e de forma a condizer com o seu permanente comportamento do dia a dia enquanto permaneceu na Casa Branca, o sujeito que foi seu inquilino vai ao ponto de não reconhecer a derrota argumentando com falsidades e vigarices na votação, sem que apresente uma prova, um documento que seja e indo ao extremo de declarar-se vencedor das eleições. 

A cereja no topo do bolo de alguém que de democrata nada tem e que, ou me engano muito ou, logo que saia do poder, terá sérias complicações com a justiça americana e mundial.

Se a justiça do mundo não for cega...

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O 76º FOI DE... MÁSCARA...

Não bastavam as imensas convulsões que ao longo dos tempos e continuamente vínhamos tendo pelo mundo que, todavia e não obstante a sua gravidade, muito pouco ou nada incomodavam o comum cidadão da nossa terrinha, que tinha de chegar esta incrível e mortífera pandemia universal do Coronavírus que a todos atinge e a todos preocupa.

Desde Março último que todo o nosso viver se alterou radicalmente para muito pior e até mesmo dramático e, infelizmente, ninguém tem conhecimentos mínimos que sejam que nos possa garantir qual o futuro que vamos ter. E, e tudo parece indicar-nos que “a procissão ainda vai no adro”…

Todo o mundo receia contágios indesejáveis e todo o mundo anda de máscara colocada de Norte a Sul, de Este a Oeste e, por via disso, a comemoração do meu 76º aniversário de vida não poderia fugir à regra.

Se o ano passado foi uma bonita reunião de familiares e amigos num excelente restaurante lisboeta, este ano, forçosamente, foi num isolamento e numa restrição de movimentos importante e necessária.

Reunindo na garagem familiares mais
chegados
, usando todos máscara e com um bolo caseiro, por sinal excelente mas, onde,
por hábito e absoluta desatenção este aniversariante estupidamente soprou as velas (???) (chamado à atenção logo depois...já era tarde…) registamos em fotos para a posteridade - eu com o Rafael para manter a tradição e uma outra do pequeno grupo familiar - o insólito festejo e cada um regressou às suas residências, castrado de afectividade e calor humanos sempre usuais nos anteriores e já saudosos festejos de outros anos, mas resignados e até acalentados porque, apesar de cerceados nas celebrações e nos movimentos, vivemos ainda sem qualquer contágio e inevitável afectação na família.

Este ano, tristemente foi assim, para o ano logo veremos.

Bom, veremos isso se a minha “licença” se mantiver válida porque, se não…

Mas quero acreditar que a validade continuará e, regularmente, com a preciosa ajuda dos meus sabedores doutores, tudo continuarei a diligenciar para a manter.