Naquela manhã, de dia que o tempo já levou há uns bons anitos, com o Tó Zé entrei no Cartório da cidade e, sentado na frente da secretária da única funcionária em serviço, encontramo-lo bem vestido, bem penteado, bem apresentado, vendo nele o homem septuagenário, por ventura mesmo octogenário, típico sujeito de classe média e vida estável..
O Tó Zé, num aparte de boca pequena, dir-me-ia que era pessoa muito conhecida e considerada por via de durante anos ter gerido um agência bancária na cidade e, dirigindo-se-lhe, cumprimentou-o amigavelmente ao mesmo tempo que fazia a apresentação:
- Victor, o sr. Ferreira! Como está sr. Ferreira?
- Benzinho! E os srs., como estão? - retorquiu, amável.
Mais meia dúzia de palavras de cortesia e circunstância e a Notária, nossa velha conhecida e até, vamos lá, amiga de outras circunstâncias e locais, ouvindo e reconhecendo as nossas vozes saiu do gabinete e, afectuosamente, cumprimentou-nos, enquanto se regozijava com a nossa presença:- Olá, como estão? Bem, certamente! Ainda bem que chegaram porque, se não se importarem, assinarão como testemunhas um testamento que o sr. Ferreira deseja fazer!
Porque na vida nunca tinha sido testemunha de tal situação – há sempre uma 1ª vez para tudo!… - achei interessante e curioso e logo assenti e o amigo Tó Zé secundou-me igualmente e, então, a senhora informou-nos do assunto versado no testamento:
- O sr. Ferreira, que está lúcido e em pleno uso das suas faculdades, como os srs. vêem, deseja que fique em testamento que, após a sua morte, quer ser sepultado na sua terra natal, Moimenta da Beira.
E o sr. Ferreira, virando-se para nós, acrescentou:
- Depois da minha mulher morrer casei com outra senhora e agora, embora ela diga que me levará para Moimenta da Beira, eu desconfio que ela para não gastar tanto dinheiro - e eu deixo cá esse e muito mais!… -, mas para não gastar tanto, acho que ela não vai levar-me para a minha terra e eu quero ser sepultado em Moimenta da Beira.
Ouvindo, confesso que me contive um bocadinho para não abrir a boca de espanto!…
Na verdade, se testemunhar e assinar este tipo de vontade de um cidadão, achava a cena para mim além de inédita algo patusca, ainda mais a achei quando soube a razão do desejo do senhor…
Refeito do espanto fui e fomos para o gabinete e a Notária ali redigiu o testamento e, feito isso, assinamos todos: o sr. Ferreira, como testador, o Tó Zé e eu como testemunhas da sua vontade e, por fim, a Notária a oficializar o acto.
Levantamo-nos mas, eu como ainda não estava completamente convicto do acerto da situação, questionei o sr. Ferreira:
- Mas, sr. Ferreira, se o sr. agora vai entregar à senhora o testamento ela, na sua morte, pode decidir não o usar e resolver sepultá-lo no cemitério aqui da cidade?
Ao que o sr. me respondeu de imediato:
- Mas eu não vou dizer-lhe que o fiz nem entregar-lhe o testamento! Vai ficar na posse da minha irmã e já acertei isso com ela!
Boa! O sr. Ferreira pensou em tudo.
O sr. Ferreira pensou em tudo e eu penso que não mais vou esquecer-me dele e do seu testamento sempre que ouça falar em… Moimenta da Beira.
Moimenta da Beira onde, provavelmente, dado o tempo decorrido, nos dias de hoje já repousa o cadáver do sr. Ferreira por sua própria vontade e à qual, talvez, a minha assinatura tenha ajudado…
Ele há coisas!...

















