segunda-feira, 4 de março de 2019

O TESTAMENTO DO SR. FERREIRA


Naquela manhã, de dia que o tempo já levou há uns bons anitos, com o Tó Zé entrei no Cartório da cidade e, sentado na frente da secretária da única funcionária em serviço, encontramo-lo bem vestido, bem penteado, bem apresentado, vendo nele o homem septuagenário, por ventura mesmo octogenário, típico sujeito de classe média e vida estável..

O Tó Zé, num aparte de boca pequena, dir-me-ia que era pessoa muito conhecida e considerada por via de durante anos ter gerido um agência bancária na cidade e, dirigindo-se-lhe, cumprimentou-o amigavelmente ao mesmo tempo que fazia a apresentação:

- Victor, o sr. Ferreira! Como está sr. Ferreira?

- Benzinho! E os srs., como estão? - retorquiu, amável.

Mais meia dúzia de palavras de cortesia e circunstância e a Notária, nossa velha conhecida e até, vamos lá, amiga de outras circunstâncias e locais, ouvindo e reconhecendo as nossas vozes saiu do gabinete e, afectuosamente, cumprimentou-nos, enquanto se regozijava com a nossa presença:

- Olá, como estão? Bem, certamente! Ainda bem que chegaram porque, se não se importarem, assinarão como testemunhas um testamento que o sr. Ferreira deseja fazer!

Porque na vida nunca tinha sido testemunha de tal situação – há sempre uma 1ª vez para tudo!… - achei interessante e curioso e logo assenti e o amigo Tó Zé secundou-me igualmente e, então, a senhora informou-nos do assunto versado no testamento:

- O sr. Ferreira, que está lúcido e em pleno uso das suas faculdades, como os srs. vêem, deseja que fique em testamento que, após a sua morte, quer ser sepultado na sua terra natal, Moimenta da Beira.

E o sr. Ferreira, virando-se para nós, acrescentou:

- Depois da minha mulher morrer casei com outra senhora e agora, embora ela diga que me levará para Moimenta da Beira, eu desconfio que ela para não gastar tanto dinheiro - e eu deixo cá esse e muito mais!… -, mas para não gastar tanto, acho que ela não vai levar-me para a minha terra e eu quero ser sepultado em Moimenta da Beira.

Ouvindo, confesso que me contive um bocadinho para não abrir a boca de espanto!… 

Na verdade, se testemunhar e assinar este tipo de vontade de um cidadão, achava a cena para mim além de inédita algo patusca, ainda mais a achei quando soube a razão do desejo do senhor…

Refeito do espanto fui e fomos para o gabinete e a Notária ali redigiu o testamento e, feito isso, assinamos todos: o sr. Ferreira, como testador, o Tó Zé e eu como testemunhas da sua vontade e, por fim, a Notária a oficializar o acto.

Levantamo-nos mas, eu como ainda não estava completamente convicto do acerto da situação, questionei o sr. Ferreira:

- Mas, sr. Ferreira, se o sr. agora vai entregar à senhora o testamento ela, na sua morte, pode decidir não o usar e resolver sepultá-lo no cemitério aqui da cidade?

Ao que o sr. me respondeu de imediato:

- Mas eu não vou dizer-lhe que o fiz nem entregar-lhe o testamento! Vai ficar na posse da minha irmã e já acertei isso com ela!

Boa! O sr. Ferreira pensou em tudo.

O sr. Ferreira pensou em tudo e eu penso que não mais vou esquecer-me dele e do seu testamento sempre que ouça falar em… Moimenta da Beira.

Moimenta da Beira onde, provavelmente, dado o tempo decorrido, nos dias de hoje já repousa o cadáver do sr. Ferreira por sua própria vontade e à qual, talvez, a minha assinatura tenha ajudado…

Ele há coisas!...

domingo, 3 de março de 2019

A MINHA PESQUINHA


Ontem na minha pesquinha e porque as águas ainda estão muito frias, os amigos achigãs continuam fundos e mais confortáveis e não os vi mas, há falta de melhor, fotografei a bonita paisagem e também captei o flagrante de uma das minhas concorrentes, a Garça Branca, na sua também pesquinha de margem.



Mas, se essa não incomoda muito o vício do pescador, porque só captura pequenos exemplares, já outro tanto não pode dizer-se dos danados dos Corvos Marinhos (imagem pequena no fundo à direita) porque esses ladrões mergulham aos bandos e pescam maiores exemplares. Dizimam tudo!


Uma praga que há anos nos chegou vinda de... Espanha.

E, daquelas bandas, como sabemos: "Nem bom vento..."

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

MANUEL ESPADINHA E OS SAUDOSOS "SANGUE DE BOI"


Hoje, pertinho da Lamarosa (Coruche) na sua residência e nos seus bonitos e bem cuidados e floridos pomares que rodeiam e envolvem a vivenda e que nesta prematura Primavera a enchem de um gostoso aroma bem sentido no doce ar que se respira por todo o canto da quinta, uma muito agradável visita e confraternização com o velho amigo e conterrâneo Manuel Espadinha na presença da sua esposa e do seu sogro António que, com os seus sabedores pareceres, resultantes dos seus lúcidos e ainda ágeis 89, tornam a convivência ainda mais gostosa e gratificante.

Tudo nasceu de uma despreocupada conversa tida meses atrás quando lhe manifestei o meu desalento por não encontrar em lado algum no mercado uns saudosos pêssegos conhecidos por “sangue de boi” e, em duas tentativas de julgar estar a comprar em árvore essa variedade… levar o “barrete enfiado”.

Vem a saudade e o desejo desde os tempos de criança em que meus avós maternos tinham um pessegueiro dessa variedade numa hortinha que cultivavam pertinho da sua modesta casinha, então no Anafe do Meio, no meu Chouto natal.

Pêssegos “sangue de boi” nunca mais os comi, numa mais os vi e, naturalmente, tão pouco os consegui produzir. Comprei por duas vezes pequenas árvores com essa garantia mas… fui enganado. "Enfiei o barrete", como já disse.

Então, perante esse meu lamento, o velho amigo Manuel logo me prometeu. “Eu arranjo-te! Tenho lá e vou-te oferecer! Na época indicada acertamos isso e levas os pessegueiros que desejares!”

E os pesseguerinhos, enxertados de borbulha, lá vieram hoje. Vão agora ser plantados e, no próximo ano, já poderei deliciar-me com os saudosos e desejados “sangue de boi”. Eu penso isso.

Bem, delicio-me se… cá estiver… Na minha situação e nos dias que vão correndo, nunca se sabe…

Depois do pedacinho – maligno! - retirado da peça das iscas, fiquei prevenido e… preparado…

O abanão foi grande e tenho consciência disso mesmo. 

Mas a esperança também aqui reina...

Por isso, vamos ver se me aguento pelo menos mais um aninho para... saborear os “sangue de boi”?!...

sábado, 23 de fevereiro de 2019

LEI SECA - DOIS ANOS SEM ÁLCOOL!



E já lá vão 2 (dois!) aninhos sem ingerir álcool, meus senhores!

Dois anos em que não agredi a figadeira e, embora sabendo que o mal criado e construído durante meio século já não tem remédio que faça recuperar esta velha pecinha das iscas, tento que o ofendido órgão se esqueça do mal que o dono lhe provocou durante esse longo tempo e procure desculpar-lhe, retire a ofensa e permita que o rapazinho por cá ande mais um tempinho. 

Há 2 anos que a abstinência tem decorrido quase, quase na plena totalidade, só tendo sido “esquecida” num ou outro dia festivo e, mesmo aí, nem com meio copo ingerido. 2,3 cms no fundo do copo, para provar a pomada e...mais nada. Nadinha!

Devo confessar, por ser absolutamente verdade, que não tem sido muito difícil. No dia a dia a coisa leva-se bem e só sinto falta e acho que a refeição poderia ser bem mais gostosa quando me delicio com uma boa Feijoada, uma gostosa Mão de Vaca com Grão, uma apetitosa Caldeirada ou um saboroso e único Cozido à Portuguesa. De resto, nas refeições normais e mais habituais, não sinto a falta do tintinho. Não sinto, não.

Ah, tem outra grande contrariedade esta forçada “lei seca” que já me passava esquecida: quando em convívio com amigos, em redor da mesa ou encostados ao balcão, custa-me um bom bocado não os poder acompanhar, como o fazia com tanta frequência e tanto gosto noutros tempos em que me deliciava com uns bons tintinhos e a frescas cervejas. As cervejas, agora bebo sem álcool que, embora não sejam iguais às “verdadeiras” acabam por remediar mas, vê-los deliciar-se com os tintinhos e eu não os acompanhar, não é coisa fácil, não. 

Enfim, coisas de quem possivelmente abusou – embora julgue que não o fiz… - mas agora não há remédio e disso estou ciente e conformado.

E a verdade, nua e crua, é que se não fosse a cirurgia feita há quase ano e meio e o corte no álcool, este gajo já não andava por cá... Ai não andava, não. 

Disso estou ciente e mais convencido ainda fiquei quando há 4 meses atrás coloquei essa minha opinião à médica que me acompanha e que fez parte da sabedora e eficiente equipa de cirurgiões que fez a intervenção aqui na pecinha e a senhora me respondeu de imediato:

- É provável.

E... ela é que sabe.

Por isso... AGUENTA-TE VICTOR!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

GUERRA COLONIAL - AS LAVADEIRAS


Nos muitos e diversificados textos que têm sido publicados sobre a Guerra Colonial e que tenho lido, noto que apenas em muito poucos deles é feita referência ao papel das chamadas “lavadeiras” no contexto da guerra e dos seus envolventes prestadores de serviços e, todavia, o desempenho destas personagens no teatro da guerra não foi assim tão irrelevante quanto se possa imaginar. Não foi, não.

Falando de “lavadeiras” devemos considerar as duas espécies que ali tinhamos em serviço: aquelas – como as que tive nos diversos locais por onde andei destacado da sede da Companhia no Leste e no Norte de Angola – que apenas nos cuidavam da roupa (lavar e passar) e… as “outras”… As “outras”, em boa verdade, são exactamente as que viram o seu nome oficializado como… “lavadeiras”. Estas então conhecidas “lavadeiras” não cuidavam apenas da roupa do militar mas também do… corpo… Prestavam-lhe, isso mesmo: favores sexuais. 

Eram então “lavadeiras para todo o serviço” e realmente muitos militares as contratavam com essa dupla missão e havia até uns quantos que tinham com as mesmas um relacionamento particular e por isso personalizado. O militar “sustentava” a senhora com uma acertada “avença”, ela cuidava-lhe da roupa e ele tinha a garantia – não tão certa quanto isso mas… já lá vamos mais à frente – que os seus favores sexuais eram exclusivos do “marido”. (“Marido” e “esposa” era como mutuamente se relacionavam com evidente ironia, eheh). 

Uns quantos soldados e cabos e, sobretudo, vários furrieis e escassos oficias, porque estavam quase sempre permanentes no quartel junto ao aldeamento, tinham estas “esposas” e optavam por isso para terem a sua actividade sexual com algumas garantias de não serem atingidos por uma eventual doença venérea já que mantinham as “companheiras” sempre devidamente limpas e cuidadas, coisa que as experiências fortuitas não garantiam. (Num aparte refiro que as “esposas” dos enfermeiros, por estarem sempre mais “cuidadas” eram as mais pretendidas às travessuras “extra-conjugais”… eheh)

Todavia, para quem andava destacado por aqui e por ali como eu e meu pessoal, esse relacionamento privado não era viável porque, com diz o ditado; quem não aparece...eheh E assim seria impossível controlar os “passos” da parceira...

E havia que controlar porque os que as tinham reservadas não estavam tão certos disso não. Na verdade, não era tão invulgar quanto se possa imaginar, o “esposo” chegar à porta do “quimbo” (denominação de tabanca, no Leste de Angola) e encontrar a porta fechada porque a senhora estava cravando-lhe os… chifres… eheh. Em algumas ocasiões chegava mesmo a ouvir-se alguns… tirinhos… Atirados pelo "chifrado" para o ar, para assustar o intruso… eheh. (Mas que raio de coisa eu agora haveria de lembrar-me!…)

Mas, eu penso e não deverei estar muito errado, que as “lavadeiras”, ao mesmo tempo que prestaram um importante papel no teatro da guerra, foram também umas grandes vitimas desse mesmo conflito…. Porquê? 

Como bem sabemos as “lavadeiras”, sobretudo as que prestavam favores sexuais, ficavam muitas vezes grávidas dos militares e, com a partida destes para locais desconhecidos e sem a mais pequena referência aos pais das crianças elas - sabe-se lá de que maneira… -, tiveram de criar os filhos “café com leite” e, pior, muito pior, com o fim da guerra e a tomada do poder pelos homens da guerrilha, certamente foram referenciadas como tendo colaborado com os portugueses e foi-lhes apontado o dedo e… a mira e o gatilho da metralhadora.

É isso... Acho que não deverão ter vivido muito tempo após as independências...

Talvez tão certo como eu estar a carregar nestas teclas do computador...

(Foto anexa retirada da net)

sábado, 26 de janeiro de 2019

A PAIXÃO DA MENINA MARIA


Vindas segundo se presume da região de Ourém/Tomar de onde uma era natural, Maria Angelina (professora primária) e Maria (criada, como então se denominavam as empregadas domésticas) chegaram ao Chouto por volta do ano de 1940 do século passado onde a então jovem  professora havia sido colocada e instalaram-se na parte de habitação contígua à sala de aulas no mesmo edifício da Escola Primária local destinada a residência dos mestres-escola.

Tanto quanto era dado observar, exercendo Maria Angelina a sua missão de ensinar e Maria o seu trabalho de “dona de casa”, com as inerentes limpezas da dita, confecção de refeições, tratamento de roupas, etc, viveram e conviveram ali em perfeita harmonia durante muitos anos sem que exteriormente se soubesse de discórdias ou desencontros de ideias dignos de registo e dir-se-ia até que mais pareciam irmãs, não só porque sendo ambas de estatura meã e corpo meio robusto caminhavam de forma muito idêntica, como porque quando Maria Angelina saía à rua nunca o fazia sozinha e sempre queria a companhia da sua amiga “Menina Maria”, como a professora queria que tratassem a sua funcionária.

Nunca na aldeia se lhes conheceu o mínimo interesse por homens e também, em boa verdade, jamais – aparte uma ou outra má intencionada língua… - se falou sobre o seu relacionamento numa maior intimidade para além da amizade e sã convivência, natural entre duas senhoras que se estimavam e viviam noite e dia debaixo do mesmo tecto. Em contrapartida é bom que se diga, Maria Angelina nunca abdicou da sua posição de patroa e Maria sempre reconheceu e cumpriu o seu subalterno lugar. As posições de uma e outra estavam perfeitamente definidas e eram ponto certo e mutuamente aceite.

Mas, nesta perfeita convivência e harmonia viviam assim a professora Angelina (“professora velha”, como a partir de determinada data passou a ser conhecida) e a criada Menina Maria quando, súbita e inesperadamente tudo se alterou… Tudo se alterou e durou mesmo largo tempo o período de convulsão entretanto desencadeado.

A necessitar de recuperação e melhoramentos, o velho edifício da Escola Primária teve de ir para obras e surgiu na aldeia, vindo da aldeia vizinha da Parreira, como responsável principal pelos trabalhos, António Henriques, um viúvo cinquentão, homem educado, atencioso e ainda jovial e, às tantas começa a correr baixinho de boca em boca dos locais que… o António Henriques andava a arrastar a asa à Menina Maria...

E, do “arrastar da asa” à aceitação por parte da pretendente, foi um sopro e…. foi uma bomba na aldeia! A “Menina Maria” com os seus 50 anos, pequenina e roliça, que ninguém imaginava interessada por homens, estava a namorar!… Surpresa das surpresas e motivo do cochichar a cada canto, a cada esquina. E, convenhamos, o motivo não era para menos.

E como reagiu a patroa Angelina a tão grande notícia que, a avançar o namoro e a concretizar-se a separação da sua criada, representaria para ela uma grande contrariedade, um enorme prejuízo, considerando talvez mesmo que seria uma afronta, se não uma ofensa?

É aqui que entra o patusco da situação porque Maria Angelina, como é natural, não aceitava de forma alguma tal namoro e, preocupada, quando não mesmo extremamente irada, passou a espiar pelas ruas e travessas, de esquina em esquina, as fortuitas e não autorizadas saídas da amiga e era vê-la por exemplo na esquina da escola que dá para a travessa de cabecinha de fora à espreita para seguir os passos da agora apaixonada criada, quando não a perguntar mesmo a um(a) ou outro(a) passante se tinha visto a Menina Maria...

Mas a Menina Maria estava visivelmente apaixonada pelo António Henriques e, com a ajuda da Ti Joaquina “Guarda-Rios”, mesmo depois das obras na escola terminarem, escondia-se com o namorado, em encontros marcados por recados de amigas e troca de bilhetinhos, como se jovens adolescentes fossem, no quintal da Ti Joaquina ao cima da rua. 

Os namorados a todos pareciam muito apaixonados, a professora andava “pior que estragada” e, sendo provável que a até então boa harmonia da casa da escola fosse quebrada por eventuais e fortes discussões e discórdias que todavia não se conheciam, o povo da aldeia comentava entre uma igual surpresa e a inerente jocosidade tamanha e jovial paixão quando, provavelmente por influência da patroa e a consequente reconsideração da empregada ou por também ser de considerar algum desinteresse do namorado, António Henriques passou a deslocar-se menos vezes da Parreira ao Chouto, os encontros começaram a ser mais espaçados e o rompimento aconteceu.

Nunca se soube como, quando e porquê aconteceu mas a verdade é que a antes grande paixoneta chegou ao fim, ficando todavia na memória de todos a intensidade, entusiasmo e até o surpreendente espírito adolescente com que foi intensamente vivida pelos dois simpáticos cinquentões.

(A professora Maria Angelina, de que se junta foto, infelizmente sem cabeça e única conhecida, facultada assim por um amigo deste escriba, viria a falecer a 27/4/1971 em Lisboa onde ficou sepultada e, do destino da Menina Maria o narrador desta historieta não mais teve notícia, presumindo-se, pelos anos decorridos, que também tenha falecido, desejando-se que as duas descansem em paz.)

domingo, 20 de janeiro de 2019

GUERRA COLONIAL - A FOME NO MUACO


Depois de em anteriores crónicas já ter recordado o medo e o frio sentidos na nossa estadia no Muaco, venho hoje falar da muita fome ali sofrida, onde avulta uma hilariante situação que então logo assim entendemos porque, sendo rapazes novos, levavamos tudo com algum humor até porque outra alternativa não tínhamos e foi dessa forma vivida e sentida que assim ficou para sempre nas memórias tanto minha quanto do meu camarada Joel Costa.

Tanto quanto me recordo, o Muaco não distava muito do Cazombo... Talvez cerca de 20 kms mas, como não podíamos ir abastecer-nos de produtos autonomamente dado que o teríamos de fazer em escolta militar e como não podíamos deixar o acampamento sem protecção e as forças eram escassas para as duas missões, resultava que tínhamos de aguardar que do Cazombo, sede do Batalhão, nos viessem abastecer. E como por ali os bens de consumo também não abundavam e como não era a nossa Companhia… Acho que por vezes ficávamos esquecidos…

Lembro-me de vivermos com muita escassez de víveres; um dia ou dois até sem sal e aconteceu mesmo que em determinada ocasião só nos restava arroz e chouriço para pôr no tacho e confeccionar e, como o cozinheiro Nunes era muito inexperiente – tínhamos poucos meses de comissão e a ele ainda lhe faltava o jeito… - saiu cozinhada (?) uma massa qualquer mais ou menos esquisita, espessa e intragável e recordo-me do Cunha, um sempre bem humorado cabo ter-me dito:

- Meu furriel, se mandassemos umas colheradas às tábuas, dava para rebocar as paredes da barraca!

Eh! Eh! Bom sentido de humor do Cunha!

Tanto eu quanto o Joel comíamos com os soldados mas, o astuto Soares, alferes comandante do Pelotão, um açoriano nem sempre bem disposto e sempre também algo complexado, depois das primeiras refeições e vendo como a comida era escassa e má, tratou de se “encostar” ao sr.Correia, o Encarregado Geral da JAEA (Junta Autónoma das Estradas de Angola), único branco da equipa de trabalhadores e responsável principal pelos trabalhos de aterros que ali se faziam.

O sr.Correia e alferes comiam nas instalações dos civis e nós nas da tropa. No final, sobretudo dos jantares, eu e o Joel íamos ter com eles para jogarmos às cartas, ao poker ou às damas e assim passarmos uma parte do serão.

Tudo decorria nesta normalidade, se é que se pode chamar de normalidade a fome porque íamos passando quando, numa boa noite ali chegamos e eles estavam a acabar o seu jantar, então, como sempre, mil vezes superior em qualidade e quantidade ao nosso porque o sr. Correia, beneficiando doutro abastecimento e doutro serviço, tinha a dispensa sempre bem recheada.

O prato era Costeletas de Porco fritas e ainda restavam 3 exemplares numa travessa de alumínio depositada na ponta da mesa e aí o sr. Correia tem a brilhante ideia de nos perguntar apontando para a bonita travessinha:

- Os srs. furrieis são servidos?

Se éramos servidos? Eh! Eh! Seria o mesmo que perguntar a um cego se queria vista…

Os dois, de olhos esbugalhados de espanto, respondemos em coro bem afinado:

- Sim, sr. Correia!!!

Ele ordenou ao criado para trazer dois pratos e talheres e nós sentamo-nos apressados, não fossem as lindas costeletas ganhar pernas e fugirem…

Tirámos da travessa cada um a sua costeleta, atacamos sofregamente cada qual a sua deliciosa fragmentação do bácoro e íamos os dois olhando pelo canto do olho para a restante maravilha que aguardava, solitária, a sua vez de ser deglutida…

Sendo nós dois esfomeados e só restando uma suculenta costeleta, como fazer?

É então que, ainda degustando avidamente os últimos pedacinhos da sua peça, o Joel me pergunta, num misto de interrogação e confirmação, exactamente por estas mesmíssimas palavras que jamais esqueci:

- Azevedo, tu comias aquela costeleta!?…

Perante tamanha e subtil delicadeza, não pude deixar de sorrir e retorqui:

- E tu também, né, pá?…

Aí, ele propôs-me:

- Dividimos ao meio e sorteamos para ver a quem calha a parte do osso, ok?

Ele propôs e eu acordei, se bem que já soubesse a quem ia calhar o osso… Azarento como sou a tudo quanto é sorteios…

Fizemos então o sorteio e o inevitável aconteceu: o Azevedo rapou o osso. Se bem que tivesse um pouquinho de carne agarrada… Eh! Eh!

Mas a insólita situação ficou-nos para sempre na memória e de tal forma ficou que bastas vezes falamos nela, tendo acontecido mesmo que, já depois de regressados ao “puto” e sendo eu já casado, morando num pequeno apartamento na Reboleira e ele em Lisboa, convidei o velho e bom amigo Joel – durante mais de dois anos de convívio diário e em situações particularmente difíceis sempre convivemos magnificamente e em continua sintonia! - para almoçarmos e fiz questão de recomendar à Tense que confeccionasse nem mais, nem menos, que… Costeletas de Porco…

Só que, nessa vez, não foram só três…

E nem estavamos famintos…

(Na falta de melhor e porque é a única que tenho com o Joel no Muaco, repito a foto já antes publicada mas que ilustra um pouquinho sobre o local onde vivemos estas faladas odisseias nos primeiros meses de 1968.)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

GUERRA COLONIAL - O FRIO DO MUACO


Há dias, quando escrevi sobre a estadia no Muaco durante a guerra, no local assinalado no mapa de Angola que junto, falei que estavamos ali para proteger os trabalhadores e a maquinaria da Junta Autonomia das Estradas de Angola (JAEA) que procedia à feitura dos aterros para o acesso à ponte, numa protecção tão difícil e perigosa quanto se pode imaginar numa guerra de guerrilha em que nunca se sabe quando o ataque inimigo ocorre e daí a atenção e prevenção sempre continua e atenta absolutamente necessárias.

Aconteceu então que uma máquina que procedia à escavação de terras para os aterros, ali a 6, 7 ou 8 kms da ponte e do nosso acampamento, avariou. E avariou de tal forma que estava impedida de deslocar-se, como o fazia a cada final do dia de trabalho, para a protecção noturna das nossas forças no acampamento e, por isso, forçosamente, teria de permanecer no local das escavações e, inevitável, num bom cumprir da nossa missão tínhamos de deslocar para ali tropa para a proteger dia e noite até que nova máquina, necessariamente mais potente, chegasse. 

Deslocar todo o pelotão era inviável e por isso optou-se por destacar para o local apenas uma secção de homens, coisa de 7 ou 8 militares que, no pequeno descampado e sem a mínima protecção em caso de ataque inimigo que não fosse a própria máquina e um pequeno declive, de pouco mais de um metro do leito de um pequeno riacho que passava no local. O leste de Angola, salvo poucas extensões é uma imensa planície de mata e clareiras de terrenos incultos cobertos por intenso capim e, ali,não era diferente… Uma pequena clareira no capim de solo vermelho, rijo como ferro, aberta já pela máquina enquanto funcionou e, logo a 100, 200 metros, a mata mais fechada ou mais aberta mas “reino” e paraíso das gentes guerrilheiras.. 

Ora, então, tinha de avançar tropa para guardar a velha máquina – que tinha de ser preservada não obstante o risco de perdas de vidas humanas que poderiam ocorrer caso acontecesse um ataque guerrilheiro com tão fraca reacção defensiva mas, pelos vistos, isso pouco contaria… O que contava era a máquina e, como era inevitável, lá vai o Furriel Azevedo com a sua secção. 

Devo aqui confessar que já estava habituado a “alinhar” sempre em 1º lugar nas escalas por via da minha fraca nota final na especialidade, aquando da formação militar inicial…  Tive então negativa nas provas físicas (nunca fiz o “galho” nem “cambalhota) e chumbei no tiro… Como resultado, fiquei com negativa e fui para… “Atirador”. Com negativa e chumbo mas… “Atirador”!...Brilhante decisão! O pior realmente foi a negativa pois, por via disso, alinhava sempre em 1º nas escalas e isso acompanhou-me desde o 1º ao último dia de guerra porque, foi até mesmo após o desembarque em Lisboa… Saídos do Paquete Império, no Cais de Alcântara, todos foram para suas casas ao ansiado encontro dos seus e eu fiquei mais uns dias a despachar malas e bagagens de todo o pessoal do Batalhão. 

Bom, mas voltemos ao Muaco e à guarda da máquina avariada... 

Como já disse, as nossas forças eram de 7 ou 8 homens armados simplesmente de espingardas G3 e equipadas de duas pequenas tendas de lona para protecção do inevitável cacimbo nocturno e da eventual chuva e as indispensáveis “rações de combate” com bolachas e conservas para alimentação mínima. De prevenção levamos também um “foguete” (género “very ligth”) que devíamos lançar para alertar os nossos camaradas no acampamento, sinal que precisavamos de ajuda em caso de ataque guerrilheiro (“turra”, como então eram chamados os que lutavam pela independência).

Durante o dia a coisa decorreu sem dificuldades de maior... Jogamos às cartas, contamos anedotas, etc e assim o tempo foi passando… O pior foi à noite com o cacimbo que começou a cair e o danado do frio inerente que se iniciou e que nos gelava carne e ossos até ao tutano.  Com dois soldados por turno de sentinela, cada um no seu extremo da máquina, eu e os que não estavam de vigia dormíamos deitados, tapados com fracas mantas e muito encostadinhos uns aos outros para, com o calor dos corpos nos aquecermos mutuamente e para melhor suportarmos aquele frio imenso. Mas a barraquita era pequena e muito baixinha e a lona estava logo ali a escassa distância das nossas cabeças e nem podíamos esticarmo-nos muito para não ficarmos com os pés de fora, ainda que calçados, como forçosamente tínhamos de estar.

Mal e a tremer de frio íamos fazendo por dormir quando, subitamente, o Cabo Cunha salta da “cama” e chama-me, por estas palavras:

- Meu furriel, não aguento mais! Temos de acender uma fogueira para nos aquecermos!

E logo mais uns outros o secundaram:
- Isso mesmo! Temos de acender lume para nos aquecermos, se não morremos de frio!

Eu levantei-me de imediato e questionei-os:

- Vocês são doidos? São malucos? Então, até acender um cigarro neste escuro que nem breu é perigoso para a nossa segurança e vocês querem acender um fogueira para morremos todos ao lume, de uma simples rajada de um turra? Ganhem juízo! Doidos!

Mas o Cunha não se convenceu e retrocedeu:

- Meu furriel, não há turras aqui e a gente não aguenta tanto frio. Temos de nos aquecer!

- Nem pensar, Cunha! Nem pensar! Sejam conscientes, pensem um bocadinho, ponham a “caixinha dos pirolitos” a trabalhar e tenham calma. Encostamo-nos mais uns aos outros, vamos aguentando assim e às 6 logo chega o Sol e o dia começa a aquecer. Não autorizo que acendam lume! Está dito!

Os outros pensaram melhor, deixaram de o acompanhar na ideia louca e o amigo Cunha também reconsiderou e, pouco a pouco foi aligeirando a sua louca vontade e não teve alternativa se não cumprir a minha  decisão. Não se acendeu fogueira, rapamos um frio incrível – nunca na minha vida senti coisa igual!… - mas a situação passou, se bem que na 2ª noite o amigo Cunha ainda tivesse um novo arremedo mas mais suave e depressa os rapazes entenderam que estavam a ser irresponsáveis e seguiram as minhas ordens e na 3ª nem já falaram em tal disparate. 

Acho que só lá passamos 3 noites... E já não foi pouco....

Mas tenho dali mais duas recordações: uma de quando usavamos para lavar a cara de manhã a água que corria no pequeno riacho nosso vizinho. Como a temperatura ambiente era gelada às 5, 6 da manhã, a água que corria era morninha e mais parecia que tinha sido… aquecida. Muito agradável! Bem agradável!

A outra recordação era o leite com chocolate que vinha em pequenas latas na “ração de combate”. Como a tenda era pequena para nós, armas e mochilas, deixavamos estas fora e de manhã a lata de leite chocolatado mais parecia que tinha vindo do frigorífico e era muito agradável de beber. Nunca mais esqueci o sabor delicioso daquela coisa!… Com fome e sede, beber um leitinho com chocolate fresquíssimo ao pequeno almoço, foi coisa que me  ficou na memória.

E pronto, hoje fico-me por aqui nestas recordações do Muaco, do frio imenso que ali passamos e da maluquice dos soldados que queriam na noite escura acender fogueira numa guerra de guerrilha. Coisas….

Mas do Muaco tenho mais e, numa próxima crónica vou recordar um episódio ocorrido entre mim e o meu inseparável amigo Joel Costa que meteu…. costeletas de porco… 

Tão hilariante quanto triste mas que ficou para sempre gravado nas nossas memórias.

Na próxima, conto.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

JÁ "FUI" CHINCHILA


NA MORTE DE "CHICO RITA", MAIS UMA VELHARIA...


Vivíamos os primeiros anos da década de sessenta do século passado e o meu pai, apaixonado criador de animais em cativeiro (criou, conviveu, deu e vendeu desde vacas a pequenos bicos de lacre, passando por coelhos, galinhas, pavões, faisões, periquitos e dezenas de muitas outras espécies e variedades) nunca tendo conhecido pessoa que mais gostasse de animais e que sentisse tão evidente pena quando tinha de, por venda, dádiva e sobretudo morte para nosso consumo, de alguns se desfazer. (Ainda guardo na memória as suas penalizadas expressões quando tinha de vender uma vaca leiteira ou matar um porco, um pato, uma galinha ou até uma cria de pombo para nosso consumo ou mesmo para venda ao público, dado que chegou a explorar um pequeno talho a que na data se chamava "salsicharia"…)

Foi então nesse início dos anos 60 que, através do “Diário de Notícias” que eu recebia diariamente por ser seu correspondente na aldeia e que meu pai lia de uma ponta à outra, que a sua curiosidade despertou para uns artigos e sobretudo uns anúncios de uma nova exploração que estava a iniciar-se em Portugal: a criação de chinchilas em cativeiro. E daí a pensar e decidir iniciar essa nova produção, foi um ápice…


Para além de ainda muito pouco se conhecer sobre as tecnicas de manutenção e reprodução, os bichos ainda eram carotes, havia que comprar as jaulas, rações, etc e por isso tinha que ter-se cuidado com o investimento e, pensando nisso José Azevedo tratou de entusiasmar dois amigos a entrar na aventura e foi nisso bem sucedido. 

Os eleitos e companheiros da sociedade, que eu titulei de "Pobrichila" , foram os seus muito amigos Acácio Varela, que tinha as instalações adequadas porque os animais requeriam sossego e tranquilidade e “Chico Rita”, Francisco Neves de seu nome de baptismo que sem função destinada para o efeito se limitou a entrar com a sua quota no capital investido. Meu pai era o encarregado da manutenção e conservação com os muitos cuidados que a reprodução exigia, cada um entrou com a sua parte no capital indispensável e a aventura avançou.

Durou alguns anos a “brincadeira” e aconteceram entretanto várias reproduções em ninhadas quase sempre de dois filhotes: A exploração funcionava numa dependência junto à alfaiataria de Mestre Acácio na vivenda que vemos na foto junta em 1º plano e, às tantas, a coisa começou mesmo a constituir atracção turística muito embora os animais não apreciassem muito esses “cumprimentos” porque de preferência queriam  solidão, pouca luz e mesmo a falta dela.

Existiu durante alguns anos o negócio, os sócios não tiveram prejuízo no seu investimento (o escoamento/venda das crias estava garantido por compra dos vendedores dos progenitores) mas teve uma existência não muito longa porque os animais eram muito atreitos a doenças e na época os conhecimentos da sua cultura eram escassos e por isso aconteciam algumas mortes que eram sinónimo de lamento e… prejuízo. Mas era gratificante ver nascer os bichinhos e depois vê-los crescer e evoluir e muito mais ainda tocar-lhes porque a sua pelagem era por demais aveludada e macia. Fofinhos, fofinhos!

Este escriba cumpria então o seu serviço militar obrigatório e, entusiasmado também com a novel  exploração dos simpáticos animais, ia falando disso aos colegas da tropa e, daí a ser alcunhado de “chinchila”, foi coisa de um dia para o outro. Em vez de Azevedo, passei a ser o… "chinchila". E, confesso, até achava graça à alcunha.

Lembrei de tudo isto quando neste Natal tive notícia do falecimento do velho amigo “Chico Rita”, um dos sócios da sociedade de amigos das chinchilas, um “Chico Rita” então rapaz dos seus 30 e poucos anos, muito educado, simples, bom e que só fazia amigos. Curiosamente veio agora a falecer no mesmo dia do seu sócio de chinchilas José Azevedo passados foram exactamente 40 anos e lembrei-me também que na ocasião do 1º aniversário da criação da exploração das chinchilas no Chouto dê conta disso no semanário “Correio do Ribatejo” para o qual escrevia na data e de que junto o seu recorte.

Velharias... Velharias, como eu lhes chamo quando estas coisas encontro e me recordo dos bons anos da minha juventude em que vivia com felicidade entre esta gente querida e amiga, infelizmente, infelizmente já desaparecida…

É a chamada “lei da vida” sabemos mas é sempre com dor e saudade que se lembra gente honesta e boa que nos fez crescer e viver.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NATAL - SEMPRE IGUAL E SEMPRE BOM!


Bem, em boa verdade, se é certo que todos os Natais são bons e bonitos, também não será errado considerar que nem todos são exactamente assim, pelo menos no tocante ao número de participantes no convívio e, naturalmente, ao ambiente daí resultante.

Já tive em redor da sempre bonita mesa da Consoada ou do almoço do Dia de Natal numero avultado de presenças e, como hoje aconteceu, número bem reduzido de convivas. Como hoje aconteceu…

Desde as cerca de duas dezenas, como o registado por exemplo em 2003 e 2004 quando, irmãos, cunhados e sobrinhos festejamos em Crescido o frio Natal local até hoje, em que terminamos no almoço de Consoada com 8 à mesa e agora ao almoço com apenas 6, assim o número de celebrantes tem vindo a reduzir... Desde os velhos tempos de muitos à mesa até hoje as famílias foram sofrendo evoluções com novos nascimentos, namoros e casamentos com a natural formação de novos lares e novos contactos com sogros, afilhados, companheiras e até alguns tristes falecimentos etc e assim chegamos à meia dúzia de hoje, afinal apenas os meus familiares mais chegados.

Convenhamos que tudo isto é natural mas, francamente, a mim não deixa de me provocar algumas recordações e até uma certa e sentida nostalgia. Coisa de velho, certamente…

Foi, pois, mais um Natal que se passou. Este, como os outros anteriores, sempre com a recordação da triste data vivida em 1978 quando perdi o meu saudoso pai. Faz hoje 40 anos que o sepultamos e, desde então, como é inevitável, nunca mais os Natais foram iguais…

E agora que o ano civil está a chegar ao seu término importa salientar que, no que à saúde diz respeito, este foi um ano sem preocupações de maior para a minha família e para mim próprio. Não foi mau de todo, não. Um ou outro achaque de fácil remédio e tudo foi passando… No meu caso a cirurgia resultou em pleno e neste ano vivido nada de anormal me surgiu. Felizmente!

Que no Natal de 2019 possa repetir igual afirmação e a coisa já não será má de todo…

Como registo final deixo uma imagem em que de forma humorada surjo com o compadre Lenine e outra da nossa mesa de ontem na Consoada deste Natal de 2018, com filhos, nora, neto e compadres.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

ALÍVIO!... A "RECAUCHUTAGEM" CONTINUA VÁLIDA!


Uff! Hoje mais um dia de grande alívio para este rapazinho por via de ter ouvido da médica que há já mais de um ano o vem vigiando, a preciosa informação resultante da análise ao resultado da TAC feita oito dias atrás que, para meu grande alívio, assim se expressou:

- Muito bem! Esteja descansado! Está tudo bem!


Caramba, grande alívio! Grande carga que saiu de cima desta velha carcaça que, não obstante nada sentir que fizesse prever qualquer complicação, a apreensão sempre existe porque a figadeira não dói ainda que algum apêndice maligno nela nasça.

Agora, se tudo decorrer consoante o previsto, só voltarei de novo a ser examinado pela radiologia lá para Abril, o que o mesmo é dizer que tenho licença por mais 4 mesinhos.

E, assim, semana a semana, mês a mês, vão passando os dias…

Sempre debaixo de vigilância contínua e na esperança que não nasça nova merda maligna, cá me vou aguentando, comendo de tudo com alguma moderação, sendo que o maior óbice resulta principalmente em não poder ingerir álcool…

Custa sobretudo um bocadito quando me encontro em convívio com amigos e eles mamam uns copos e… eu olho…

É a vida!...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

HOJE, DE NOVO, UM BELÍSSIMO REENCONTRO!


Hoje, logo pela manhã, um muito agradável encontro com um velho amigo, meu conterrâneo, que já não via talvez desde há 60 anos!

Fruto do Grupo que criei e administro na net relativo à minha terra natal, denominado CHOUTO – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE, foi possível e a exemplo de muitas outras idênticas situações, saber do paradeiro do velho amigo Manuel Coelho, rapaz que não via desde os finais dos anos 50 do século passado quando ele estava empregado no então “Café do Caixa”, na Chamusca e, eu, hospedado em casa de tios, ia passeando os livros pela então Escola Industrial e Comercial de Torres Novas.

Guardo da época a imagem do Coelho no café, rapaz brincalhão, sempre bem disposto, contando anedotas mil e partidas imensas que fazia a este e àquele com quem convivia alegre e francamente, sempre mais ou menos às escondidas do patrão e encontrei hoje na sua gratificante visita, neste Coelho já com oito décadas de idade, o mesmo espírito vivo, franco e de continua boa disposição e alegria de viver!

Em duas horas que passaram demasiado rápidas, rememoramos velhos tempos, recordamos antigos e actuais amigos comuns e mil e uma ocorrências das nossas vidas para trás vividas.

Mas o Coelho, ainda que mais velho, continua o mesmo rapaz na verdade e, até, como então, mantém a sua gentileza e cortesia de sempre bem expressa na forma como me cumprimentou hoje, passadas todas estas décadas sem me ver: 

- Olha como aqui tenho, de novo, o Victor com a sua sempre carinha de menino?!… - Eh! Eh! Assim mesmo.

Simpático, o rapaz! Simpático e... mentiroso!...

Um abraço forte, Coelho!

Um abraço e também uma viva saudação à net que proporciona estes tão agradáveis reencontros!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

GUERRA COLONIAL - UMA CHATA CRÓNICA


Esta velha fotografia que aqui anexo, em que surjo acompanhado do meu velho companheiro Joel Costa, amigo praticamente sempre presente no meu dia a dia dos tempos difíceis da Guerra de Angola nos anos 67 a 69 do século passado, provoca-me diversas recordações que aqui gostaria de registar, fazendo desde já a primeira, sendo que outras se seguirão.


A foto foi tirada no Muaco, pequeno lugarejo situado perto do Cazombo, na picada que nos conduzia a Lumbala, lá bem no interior do Leste angolano, no quadrado à direita, assim como que um apêndice, que sai do mapa na fronteira leste.

O nosso pelotão, de cerca de 30 homens, dava protecção aos civis da então Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA) que procedia à construção dos necessários aterros para acessos à ponte sobre o Rio Muaco (cuja denominação certamente daria o nome ao local onde estavamos) aterros de que careciam a respectiva ponte já antes erguida pela engenharia militar, sendo portanto o nosso trabalho proteger os trabalhadores e a maquinaria de um eventual ataque inimigo.

Alojados - alojados, é favor mas… enfim… -  em toscas barracas de madeira, deixadas pelos militares da engenharia, lúgubre e estranhamente pintadas de preto, possivelmente em aproveitamento de um qualquer resto de tinha adquirida para outros fins, ali dormíamos – ou fazíamos por isso… - em cima de umas toscas armações de troncos de madeira erguidas a 40/50 cms. do solo para evitar a mordedura de alguma cobra, lacrau ou outro qualquer outro bicharoco por ali em visita nocturna. Como o "estrado" não era minimamente liso tratamos de lhe colocar como "estrado de colchão” (?) uma chapa de zinco. Isso mesmo: uma chapa de zinco das que tinham sobrado da cobertura das barracas. Mas, acontecia que, como sabemos, essas chapas são onduladas e então houve que usar a imaginação para encher as partes côncavas da ondulação… Como fazer? Terra, suja e húmida, não. Óbvio. Por isso fomos às folhas das árvores e arbustos que abundavam na mata para além da pequena clareira onde se erguia o acampamento. Lembro-me que eram pequenas e verdes folhas, assim como que de mióporos, que serviram de estrado liso e fresquinho. Por cima colocamos uma manta e assim estava o “colchão” perfeito… Pois é… Não me canso de dizer que, nos dias de hoje, nenhum – nenhum! - militar português, soldado ou graduado, estaria disponível para passar o que passamos na nossa geração por via da guerra forçada!

Mas, avanço nas recordações daqueles difíceis dias:

Para além das barracas para os civis, tínhamos as dos militares sendo que duas eram para soldados e cabos, outra para furrieis e ainda outra para o alferes. A cozinha era mais ou menos ao “ar livre”… Um pequeno telheiro e nada mais.

Eu, como furriel, dormia com mais dois companheiros com igual posto: o já falado Joel e um velho amigo que nunca mais vi e que era meio “cacimbado”, de nome Abreu. Bom rapaz mas um nadinha nada louco… E ele ria-se quando lhe chamávamos “Abreu - O louco”…

Dessa colectiva dormida recordo-me de duas situações algo complicadas na altura e que agora, vistas à distância, considero patuscas (pelo menos uma…) A primeira resultou da situação de stress, ou talvez melhor dizendo, medo, medo com que ali vivíamos naquele fim do mundo, com fraca preparação e ainda mais fraco armamento, acontecendo por mais de uma vez que, ao virarmo-nos durante a dormida, as chapas de zinco faziam um natural e característico barulho e era ver, pelo menos por duas vezes, o amigo Joel, imaginando rajadas de metralhadora, mandar um salto para o chão e abraçar a amiga G3 que, fielmente, dormia a seus e nossos pés encostada à parede da barraca. Quando se lembrava onde estava, esfregava a cara e pedia-nos desculpa pelo cagaço... 

A outra situação…Bem, a outra situação é hoje patusca mas foi na altura deveras confrangedora para este escriba, ingénua e virgem criatura a viver situação absolutamente inédita…

Surgiram-me, nos denominados “países baixos”, uns indesejáveis, comichosos e arreliadores bichos de muitas patinhas e. este pobre rapaz, na altura a dormir com os outros dois companheiros, sentiu-se deveres constrangido…

Faleis-lhe francamente:

- Ó pá, estou tramado!... (bem, não falei bem assim, porque usei o apropriado e obsceno vernáculo…)

- Então? - pergunta um.

- Estou com uma carrada de chatos, pá! - confessei-lhes de imediato e acrescentei:

- Não me sinto bem a dormir com vocês assim e vou ter que ir depressa ao Cazombo para matar esta merda! Vou catando os gajos mas não dou vazão e continuam sempre a nascer, cada vez mais.

Eles foram impecáveis, não esqueço: jamais me apresentaram qualquer obstáculo por com eles continuar a dormir enquanto não tivesse transporte para a sede do batalhão e, ainda assim passei mais umas noites. Duas? Três? Já não me recordo mas recordo-me bem que, nem única vez, tanto o Joel, quanto o Abreu, manifestaram o seu desagrado pela situação. Foram impecáveis! Foram amigos!

E fui ao Cazombo, logo que pude…. E, chegado ali, procurei de imediato o Rosa, furriel enfermeiro amigo que de pronto me pediu:

- Mostra lá essa merda!

Visto o porco panorama, abre a boca e, entre espanto e, em lamento, confessa:

-  Ó pá, como isso está!… E com lêndeas!… E eu sem remédio para atacar os gajos… Vamos aplicar o que tenho: o spray para matar os mosquitos e as lêndeas tens de as catar…

- O quê? Uma a uma, Rosa?- pergunto estupefacto.

- Que remédio, Azevedo… Não há alternativa. O spray não acaba com elas.

E assim foi!… Teve de ser! … Durante um ou dois dias, várias vezes ao dia, atacávamos os danados dos bicharocos com spray das melgas e que, assim, pouco a pouco, foram sendo dizimados e o mais chato foi mesmo os “ovos” dos gajos… Tive de os ir catando. Catei, catei e, regressado ao Muaco, o catar ainda continuou por largo tempo…

E pronto, já chega de porcaria!… 

Fico-me por aqui, tanto mais que acabei por redigir numa chata narração uma porca crónica.

E prometo não voltar ao tema...

EM TEMPO - Muito depois de redigir e publicar esta crónica encontrei no meu Baú de Velharias uma outra foto também tirada no Muaco, que agora incluo no texto e onde podemos ver algumas das barracas pretas do acampamento, sendo que a nossa, a dos furrieis, era a que está à direita.